Minha vida é um anime – II

Antes de sair de casa, despeço-me mais uma vez de minha mãe e irmã, caminho até a rua e espero. Ao longe, um ponto amarelo aproxima-se, provavelmente o ônibus escolar que passa pontualmente às oito da manhã. Quando a porta do ônibus se abre, eu vejo um olhar de incredulidade do motorista, um jovem que parece se esforçar em aparentar ser um delinquente juvenil reformado.

– Sasaki-san, eu custo acreditar que está no ponto no horário certo, mas entre.

Eu subo pelos degraus e aos poucos vou notando os ocupantes do ônibus, garotos e garotas, de todos os tipos, tamanhos e cores, o que eu presumo que sejam meus colegas de escola. Muita bagunça, muita conversa, minha chegada quase não é notada até que uma delicada e harmônica voz feminina me chama.

– Shishi-kun! Aqui! Sente-se aqui!

A cena congela, bolinhas de papel flutuam no ar, a conversa aquieta e todos olham para mim, com sangue nos olhos. Eu sigo pelo corredor do ônibus até onde está a dona da voz que me chamou. Uma garota de cabelos cor de rosa, puxados e amarrados na parte de cima, deixando cachos caindo ao lado da cabeça. A forma íntima como ela me chamou, com seus grandes olhos verdes como esmeraldas, decorados com um sorriso simpático e bochechas levemente rosada, faz com que eu pense que ela deve ser minha amiga de infância. Ela tira sua mochila do banco ao seu lado e eu posso ver um nome na etiqueta: Madoka.

– Bom dia, Madoka-chan.

– Shishi-kun, você está doente? Bem que Tomi me avisou que você está esquisito. Andou jogando videogame até tarde da noite? Por que essa formalidade toda de repente? Esqueceu que eu sou Kaname, sua amiga de infância? Esqueceu que já tomamos banho juntos?

– Eh… me perdoe, Kaname. Eu devo ter batido a cabeça e estou com amnésia.

– Pelo que eu percebo, você perdeu mais do que a memória. Você nunca foi tão gentil e educado assim. O que você está aprontando? Bom, seja o que for, eu gostei. Quem sabe agora nós podemos conversar a sério sobre nós dois.

Madoka Kaname move para bem perto de mim, deixando seus lábios com um sorriso enigmático a poucos centímetros de minha boca. Minha pulsação acelera exponencialmente com o toque macio de seu corpo e seios. Eu tento me manter imóvel e prendo a respiração, pois se em me mexer um milímetro que seja, vou ser linchado por meus colegas. Uma freada brusca salva meu couro e o motorista anuncia nossa chegada.

A escola é um típico cenário de muitos animes e este é um bom estereótipo. Os corredores, impecavelmente limpos e cada classe organizada por graduação, facilmente identificada pelas placas numeradas. Eu vou atrás de Kaname para ver qual é a minha sala, torcendo para que estejamos na mesma turma.

– Pronto, Shishi-kun, aqui nos separamos. Tomi me pediu para te ajudar, então tente memorizar. Você está na turma 2-3. Eu estou na turma 2-2. Boa sorte, nos vemos novamente no intervalo.

Kaname sai saltitando e eu tive a nítida impressão de que asas de borboletas saíam de suas costas e rosas saltavam de seus sapatos. Eu entrei na minha turma e as escrivaninhas estavam perfiladas, em perfeita linha reta, em perfeitas colunas. Alguns alunos revisavam a matéria, outros escreviam algo, aqui e acolá tinha panelinhas, paqueras e alguns olhavam pela janela, enquanto a aula não começava. Um sino agradável ressoa pelos corredores, indicando que a aula vai começar em breve. Todos param o que estão fazendo e se sentam em suas respectivas escrivaninhas. A porta da sala de aula desliza e entra uma mulher espetacular, de curtos cabelos azuis e olhos vermelhos. Ela é incrivelmente igual a uma personagem que eu conheço de um anime. Eu suponho que esta é a minha professora. Uma garota sentada nas primeiras escrivaninhas se levanta, ela tem cabelos cinzas e olhos vermelhos, muito parecida com outra personagem de anime. Eu suponho que ela seja a representante de classe.

– Atenção! Em pé! Saudação! Reverência! Bom dia, Ayanami sensei!

– Bom dia, Hoshimiya-chan. Bom dia pessoal.

Todos se levantam, fazem uma saudação, fazem uma reverência e dão bom dia. Eu estou esfuziante enquanto tento confirmar se o primeiro nome da professora é Rei. Do meu lado direito tem um garoto, do meu lado esquerdo tem uma garota e na minha frente tem uma alienígena. Mas eu não sei o nome de nenhum, o que me deixa sem opções para perguntar sobre a professora. A garota está concentrada na aula e o garoto está concentrado nos seios da professora. Esse parece ser o padrão na classe toda.

– Hei! Psiu! Sasaki-san! A Kaname e a Tomi já falaram comigo. Eu, Nagisa Aizawa, vou cuidar de você aqui na escola.

– Ah, muito obrigado, Nagisa-chan. Por favor, você pode me dizer se esta garota que levantou primeiro é nossa representante de classe e o nome dela? Você poderia me dizer o nome de nossa professora?

– Nossa, você está mesmo ruim da cabeça. Talvez eu tenha que usar meu aparelho de terapia cerebral em você. Muito bem, evite a qualquer custo ficar no caminho da representante de classe, Hoshimiya Kate, ela dá medo. Se você realmente não é mais o mesmo, então não seja igual aos outros garotos nojentos e não fique babando pelos seios de nossa professora, Ayanami Rei. Mais alguma pergunta?

– Apenas mais uma, Nagisa-chan. Por que você, uma alienígena, está me ajudando? Qual é sua ligação com Kaname e Tomi?

– Isso… isso é informação classificada! Não tem qualquer coisa com o fato de eu ser apaixonada… hã… esquece.

Aizawa vira-se abruptamente para frente, com o rosto todo vermelho. Quando eu estava no mundo humano, eu tinha inveja desse relacionamento complicado, mas inocente e puro dos personagens de anime. Minha situação nesse mundo ainda não está bem estabelecida ou esclarecida, mas eu quero tentar ver até que ponto esses universos são iguais, eu não vou desperdiçar a oportunidade de conhecer pessoalmente minhas duas paixões.

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