Minha vida é um anime – I

Foi simples assim, um dia eu estava em minha casa e fui dormir. Quando o despertador tocou, eu estava em um quarto completamente diferente do meu. Minha mente tenta raciocinar. Onde eu estou? Eu fui raptado? Por quem? O que querem? As perguntas pipocavam por minha cabeça enquanto eu explorava o lugar de meu cativeiro, que era estranhamente confortável para um sequestro.

O quarto tinha uma decoração muito semelhante com a que eu vejo em seriados de animação japoneses. Minha cama é o chão, feito de tatame e meus lençóis são futons. Eu sinto a brisa passando pela janela, a claridade do sol atravessa uma persiana feita de finos bambus. Eu olho pela janela e não reconheço a vizinhança, mas percebo que eu estou no segundo andar, então desisto de pular. Ouço passos aproximando-se da porta, que mais parece uma divisória decorada com um fino papel. Meu coração palpita, achando que finalmente verei meu carcereiro.

– Shishi- kun, já acordou? Vamos, querido, arrume-se e desça logo que o lanche está pronto.

– Quem… quem é você? Onde eu estou? O que você quer comigo? Por que você me raptou?

– Shishi-kun! Você ficou de novo até mais tarde jogando videogame? Eu vou ter que falar com seu pai, de novo. Olha, sua irmã Tomi não gosta de esperar. Obedeça sua mãe, lave esse rosto, vista-se e desça.

Meu cérebro entra em erupção enquanto eu junto as peças. A voz da pessoa tinha um tom feminino e maduro, eu então pressuponho que eu terei que chama-la de mãe. Eu não fui sequestrado, essa é a minha casa e eu tenho uma irmã. Eu deslizo a divisória com facilidade e vejo um banheiro no final do corredor. Entro, vou até a pia e dou uma boa olhada no espelho depois de jogar água em meu rosto. Minha aparência tem quarenta anos a menos. Volto para o quarto, olho o armário e vejo vários conjuntos de roupas idênticas, que eu pressuponho que seja meu uniforme escolar. Visto o primeiro da fila, penteio meus fartos cabelos castanhos escuros e desço até o que parece ser a cozinha.

– Ah, você apareceu, Shishi-kun. Bom dia, querido, dormiu bem?

Uma mulher que mal chegou aos seus trinta anos me olha com ternura e carinho, deslumbrante mesmo vestindo um avental. Esta deve ser minha mãe. Mas seu nome não aparece na memória deste corpo, então eu vou ter que descobrir.

– Atrasado, de novo! Sério, mãe, eu ainda não entendo por que eu tenho um irmão assim.

Uma garota que aparenta ter dezessete anos olha para mim como se quisesse me perfurar, vestida com um hábito que faz lembrar o de um sacerdote. Esta deve ser a minha irmã, contra quem eu deverei tentar sobreviver.

– Tomi, não seja tão dura com seu irmãozinho! Ele deve estar passando por um período de mudanças, nós devemos apoiá-lo e ajudá-lo. Além do que é trabalho de Sasaki-sama corrigi-lo, não é, papai?

Um jornal farfalha enquanto um homem por volta dos trinta e cinco vira uma folha e murmura alguma coisa incompreensível. Suas mãos são grandes e fortes, como se tivessem passado por um extenso treinamento marcial. A mulher parece olhar com certa dureza na direção dele, esperando que ele diga algo para mim. O homem suspira, dobra o jornal e então eu vejo o rosto daquele que eu pressuponho ser meu pai.

– Shishi-kun, você ouviu sua mãe e sua irmã. Você é meu herdeiro e descendente da orgulhosa família Sasaki. Está na hora de você ter mais consciência de seus deveres e responsabilidades. Você não quer que sua mãe e irmã sejam alvo da fofoca alheia, quer? Você tem que prezar pela honra delas e do nome de sua família.

Ele parecia estar visivelmente contrariado não pelo meu atraso, mas por ser pressionado por sua esposa. Os traços dele são firmes e duros, mesmo debaixo de uma roupa de escritório ele visivelmente tem um corpo que transborda um extensivo treinamento em artes marciais. Infelizmente eu não consegui descobrir os nomes de meu pai e mãe, mas sinto que devo falar alguma coisa.

– Minhas sinceras desculpas, meu senhor, meu pai. Eu não tenho como explicar ou justificar meu atraso. Meus sinceros agradecimentos, minha senhora, minha mãe, por ter ido ao meu quarto me chamar para o lanche. Minha irmã, por favor, me perdoe por ter feito você esperar por mim. Eu prometo a todos que eu cumprirei com meus deveres e responsabilidades.

Eu faço a reverência que eu acredito ser adequada para esse mundo, como se fosse uma genuflexão branda, com um aceno da cabeça em direção da mesa. Quando eu retorno à posição anterior, eu me deparo com três expressões de espanto.

– Hei, imprestável, acha mesmo que vai convencer alguém com essa educação e gentileza toda? Não pense que eu vou pegar leve com você no dojô.

– Ora, ora, Tomi, ele parece estar sendo bastante sincero no que diz. Dê a ele uma chance, como uma boa irmã mais velha.

– Hã? Sério, mãe? Quantas chances mais vamos dar a este imprestável? Eu tenho vergonha de ter um irmão como ele.

– Hum… vamos fazer as contas… papai, quantas chances nós demos para Tomi antes dela tomar jeito na vida?

Sasaki-sama pigarreia, desconversa dizendo que está atrasado para o trabalho e sai, a despeito dos protestos da senhora, enquanto minha irmã fica vermelha como tomate.

– Não tem jeito. Eu perdi de novo. Eu sei que você vai decepcioná-los de novo, Shishi-kun, como sempre. Eu sei que você não liga para isso, eu sei que o nosso nome não significa coisa alguma para você e que eu sou praticamente uma estranha para você. Mas isso é importante para eles e eles são tudo para mim. Se eles… se você os magoar novamente… Shishi-kun… eu prometo que vou te odiar!

Meu coração dói enquanto eu observo Tomi toda encolhida na cadeira, retorcendo as mãos em cima da mesa, contraídas como se estivessem orando, enquanto seus olhos se enchem de lágrimas. Este corpo que eu agora habito não deve ter uma boa reputação, mas apesar disso esta garota ama seu irmãozinho.

– Por favor, irmã, me ajude. Eu não fui eu mesmo até esta manhã. Por favor, me perdoe por todo sofrimento que eu causei a nossos pais e a você. Eu era criança e imaturo. Esse Shishi-kun não existe mais. Por isso me ajude e me lembre do nome de nosso pai, de nossa mãe, para que eu me lembre sempre do que é importante.

Sasaki Tomi levanta a cabeça, espalhando algumas lágrimas no ar. Ela não me olha mais com raiva, mas com esperança. Ela abre um sorriso e seus braços, sai de seu lugar, chega bem perto de mim, inclina-se e então me dá um abraço caloroso. Eu me sinto um pouco constrangido, o toque da sua pele morena perfumada e de seus seios pressionando meu corpo me propiciam a impressão de que eu fui parar no Paraíso.

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