Barreiras fictícias da idade

A ideia de que cada idade envolve um conjunto específico de comportamentos/atividades nos é bombardeada de todos os lados, desde muito novas. É notícia velha que a mídia – filmes, séries, livros e propaganda – tem um poder enorme de estabelecer normas de acordo com o que ela exibe, tanto que é por isso que somos tão vocais a respeito de representatividade nesses meios. São eles mesmos, em conjunto com todas as pessoas que os fabricam e são expostas a eles (ou seja: todos), que ajudam a propagar essa noção de que ser adolescente é fazer festas até beber e ~experimentar sexualmente~; só crianças podem gostar de desenhos animados; e que idosos só servem para serem ou os velhinhos fofos e doces que fazem quitutes ou os conservadores mal humorados.

Evidentemente, essa ideia é propagada por quase todos aqueles que conhecemos. Entramos na vida adulta ouvindo que é hora de deixar pra trás prazeres considerados “infantis”, e as únicas opções de diversão apresentadas como “aceitáveis” são festas, barzinhos e shows, geralmente aqueles aos quais você legalmente não podia ir antes de ser um adulto. Em vez de só agregar esses tipos de evento à lista de coisas possíveis, as atividades anteriores são descartadas ou ao menos vistas como inferiores, como se houvesse uma suposta Massa Unificada de Adolescentes que acabou de virar uma outra Massa Unificada de Adultos.

Bárbara, 18 anos:

Passei minha adolescência inteira não me encaixando no Estereótipo Adolescente – aquele que tem todas as suas primeiras experiências, tá sempre em festas pegando alguém, etc – e me sentindo horrível por isso, já que, afinal, eu raramente me via representada como uma adolescente, mas já sabia que eu tecnicamente era uma. Foi como se eu existisse num limbo, e parte de mim achava que essa sensação mudaria com o tempo.

Mas aí eu percebi que o Estereótipo Jovem Adulto também existe, e também tem um que consegue ser pior ainda, o Estereótipo Adulto. Porque quando se é jovem adulto existe toda essa pressão para aderir a um certo tipo de prazer, na Vida Estereotípica Adulta não existe lugar para prazer NENHUM. Sua vida é seu emprego, seu emprego é sua vida, quer ele seja interessante ou não. Você não tem tempo e nem energia para fazer nada que você gosta, sua rotina é acordar, trabalhar, chegar em casa e fazer algo que não exija esforços e dormir. Qualquer outra coisa é considerada um luxo, exceto formar uma família – maratonear séries???? Participar de uma banda???? Ir a eventos culturais em geral????? Você é um Adulto, onde é que você encontra tempo pra isso? HORA DE AVENTURA???? Pelo amor, vai fazer algo útil. Esse tempo aí passou, credo. Tenho pessoas na minha vida que desafiam esse estereótipo e eu as tenho como exemplo, mas ainda sim, só o fato de elas serem uma minoria já me assusta.

Georgia, 25 anos:

Eu tenho um pouco de resistência até hoje com 25 anos a me enxergar como uma adulta. A minha própria colega de texto falou que era bom estarmos escrevendo juntas, pois eu já sou adulta. E isso me pegou desprevinida, porque custa lembrar que eu já sou adulta. Ainda mais que desde ano passado eu passei a morar sozinha com meu namorado, a pagar aluguel e outras contas. De fato, perante a lei, eu sou adulta. Afinal, eu sou maior de 21 anos. Só que eu sofro um pouco porque eu ainda gosto de coisas que eu gostava desde quando era criança / adolescente. E ainda há um outro agravante. O que muitos adultos consideram diversão não me apetece. Eu fico num limbo em que não posso conviver com adolescentes, nem gosto de algumas diversão de adultos. Quando eu vejo a supervalorização de consumir bebidas alcoólicas e ficar bêbado, beber até cair e achar que sair é ter que ir a bares não me apetece. Eu gosto de jogos (de cartas, de tabuleiros, de adivinhação). E é muito difícil achar adultos que brinquem. Eu gostaria que adultos brincassem mais. Eu gosto de ver TV, gosto tanto que trabalho com isso. Gosto de ver filmes, séries, reality shows, documentários, programas de culinária e competições. Gosto disso. Sinto falta de me reunir com amigos da minha idade que se reúnem pra ver programas que eu gosto. Tal como meu pai e os amigos acompanham o brasileirão.

É evidente que esse estereótipo de vida adulta existe por um motivo: muitas pessoas realmente não têm tempo e nem energia para se envolver com atividades que elas consideram prazerosas. O engano é apresentar isso como uma Regra de Como Viver Como Um Adulto Certo, quando essas circunstâncias são consequência da adesão a um estilo de vida/trabalho específico (apesar de muitos não terem opção) – nem todo mundo precisa/se encaixa num emprego das 9 às 18h, nem todo mundo quer filhos, nem todo mundo prefere a comodidade de ficar largado no sofá ao prazer de tocar bateria, por exemplo. Nenhum prazer – seja ele assistir a animes ou ir a peças – é incompatível com a vida adulta, e mais: ela não precisa ser uma fase em que você só faça coisas úteis, produtivas, que trazem dinheiro pro bolso.

Autoras: Bárbara Reis e Georgia Santana

Original: Capitolina

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