Arquivo mensal: março 2016

Rolando as pedras

“Sabemos que há alguns anos era difícil ouvir a nossa música em Cuba, mas aqui estamos nós a tocar para vocês na vossa linda terra. Penso que os tempos estão a mudar. É verdade, não é?” – Mick Jagger, no espetáculo “gratuito”, em Havana, Cuba.

Desde que Andy Warhol criou a Pop Art, Che Guevara é consumido como o ícone da cooptação da revolução pelo consumismo. O rock também se tornou um produto de massa, uma arte cooptada pelo sistema para transmitir a mensagem de colaboração e submissão. Bons tempos quando o rock era sinônimo de resistência e de difusão de ideias revolucionárias.

Infelizmente a arte depende de mecenas desde os tempos antigos e fazer arte requer estudo, dedicação, materiais apropriados e talento. Expressões artísticas alcançam sucesso na medida em que se tornam populares, isto entendendo que se tornam comercializáveis e lucrativas. Se vivesse em nosso tempo, Donatien Alphonse François de Sade alcançaria mais sucesso do que Erika Leonard James.

Kevin Space disse em entrevista: “A opinião de um ator sobre política é irrelevante”. Mick Jagger, inglês, falando em Cuba, que os tempos estão mudando, é tão relevante quanto a opinião de sua ex-mulher, Luciana Gimenez, sobre o feminismo. Evidentemente que o espetáculo foi comemorado pela Midia como o sinal do fim do socialismo, o “fim da ditadura” e o inicio de um país mais “livre, democrático e aberto”.

Se formos considerar o regime de um país por sua política de fronteiras, os EUA são a maior ditadura do mundo contemporâneo, com direito a um muro vergonhoso dividindo a fronteira com México e as ações truculentas da Polícia de Fronteira contra os imigrantes. Qualquer latino sabe bem como é querer entrar nos EUA. Morar e trabalhar são mais difíceis ainda. O país que quer impor a política neoliberal quer fronteiras abertas para seus produtos, mas mantêm diversas políticas protecionistas contra produtos exportados. Algo que os defensores do neoliberalismo não explicam é por que defendem políticas que garantam a livre circulação de mercadorias, mas não a livre circulação de pessoas.

O espetáculo dos Rolling Stones deve fazer parte de um espetáculo maior, tendo os EUA como protagonista, encenando a peça da “reaproximação diplomática” entre EUA e Cuba. Como se não tivessem sido os EUA que tentou invadir a Baía dos Porcos e ter decretado o Embargo Econômico sobre Cuba. Justo os EUA, uma ex-colônia inglesa, veio endossar esse neocolonialismo que permitiu a presença dos Rolling Stones, uma banda de rock que se tornou um símbolo da persistência do Império Britânico pelo mundo. Uma ironia sutil.

Então o que está mudando? O que mudou depois do espetáculo dos Rolling Stones? Há tempos o rock é mais uma engrenagem do sistema, fornece um escape, uma catarse controlada, oferece um momento efêmero de fantasia para uma plateia estática. Findo o espetáculo, a banda segue sua turnê, como bom garoto de recado, conduz o público ao nirvana consumista regado a som, luzes e efeitos especiais. O publico volta para seus lares felizes, iludidos com a mensagem de que participaram de algo grande que vai alterar suas vidas, mas mudanças dependem de ações e compromisso de toda a sociedade, não de espetáculos. Revoluções acontecem com ações reais, não com o frenesi das massas.

Mick Jagger e os Rolling Stones cumpriram seu papel. Passaram a mensagem que garante a hegemonia cultural, politica e econômica do ocidente cristão branco. Não há outra alternativa, tal como Margaret Thatcher, a Dama de Ferro do neoliberalismo, declarou. Ronald Regan levou essa verdade ao nível da politica externa e vimos o escândalo do Irã-Contras, politica que ainda é praticada pelos EUA, com seu apoio [tático, militar e financeiro] ao Estado Islâmico.

O mundo está longe de mudar, enquanto durar a hegemonia do ocidente cristão branco, enquanto políticas neofascistas continuarem a sua escalada para retomarem o poder, enquanto o neoliberalismo for imposto aos países em desenvolvimento.

Um mundo melhor será possível quando todas as pessoas não precisarão de espetáculos para se maravilhar, nem de ídolos para aspirarem por uma vida melhor. Um mundo melhor acontecerá quando todos puderem ser seus próprios ídolos e forem os protagonistas de suas vidas.

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Introdução à filosofia do transhumanismo

Por: Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira.
Original: Universo Racionalista

O transhumanismo é uma filosofia (ou movimento intelectual) que visa analisar e melhorar a condição humana a partir do uso de ciência e tecnologia (biotecnologia, nanotecnologia e neurotecnologia) para aumentar a capacidade cognitiva e superar limitações físicas e psicológicas; analisar os problemas éticos na relação humano-robô e cérebro-máquina a partir de uma perspectiva humanística e; proclamar a liberdade e acessibilidade na escolha destes recursos pós-humanos.

Existem inúmeras teses que podem abarcar a filosofia transhumanista. No entanto, pretendo expor apenas seis delas, além propor alternativas às tradicionais e defendê-las brevemente. São tais: (1) cientificismo; (2) ceticismo (3) humanismo; (4) agatonismo; (5) sistemismo; (6) racioempirismo.

  1. O termo “cientificismo” é polissêmico, comumente usado de modo pejorativo por aqueles que têm aversão à ciência e à tecnologia. Popularmente, o termo é usado como sinônimo de “positivismo lógico”, uma vez que os positivistas eram cientificistas, mas falharam em sua empreitada ao tratarem os problemas metafísicos como pseudoproblemas. Em defesa do cientificismo, dissociando do positivismo lógico, adoto a definição do Vocabulaire de Lalande de que o “cientificismo é a ideia de que o espírito e os métodos da ciência deveriam ser estendidos a todos os domínios intelectuais e morais da vida, sem exceções.” Enxugando o cientificismo de qualquer definição destrutiva, ele torna-se um elemento crucial da filosofia transhumanista, uma vez que a mesma proclama a adoção da metodologia científica como a melhor ferramenta para proporcionar a melhoria da qualidade de vida e superar limitações físico-psicológicas do corpo humano.
  2. “Ceticismo” também é um termo polissêmico, comumente usado como sinônimo de niilismo epistemológico (nada é cognoscível). Entretanto, o ceticismo que proclamo é o ceticismo metodológico. O ceticismo metodológico utiliza-se da dúvida como um modo de aferir ou propor novas ideias. Assim, ele é compatível com a filosofia transhumanista para avaliar criticamente as implicações do uso certas tecnologias que visam a melhoria das capacidades humanas.
  3. O humanismo é um conjunto (ou sistemas) de normas que busca a verdade e a justiça. Assim, ele advoga códigos morais e programas políticos que enfatizam a livre pesquisa, os direitos e o bem-estar humano. O humanismo é compatível com a filosofia transhumanista porque é centrado no sujeito que enfatiza a livre pesquisa e busca a superação dos problemas cotidianos que prejudicam o bem-estar humano.
  4. O agatonismo é uma filosofia moral proposta por Mario Bunge que proclama que devemos buscar o bem para nós mesmos e para os outros. Esse princípio combina egoísmo e altruísmo. Além disso, o agatonismo coloca, ainda, que direitos e meios vêm aos pares, as ações devem ser moralmente justificadas e que os princípios morais devem ser avaliados por suas consequências. Assim, o agatonismo serve como um guia moral para a filosofia transhumanista.
  5. O sistemismo postula que toda e qualquer coisa concreta e toda e qualquer ideia é um sistema ou um componente de algum sistema. Em outras palavras, o mundo está composto por sistemas de distintos tipos (físícos, químicos, biológicos e sociais) e os sistemas têm características próprias que não possuem suas partes. O sistemismo é uma abordagem importante na filosofia transhumanista em sua aplicação nas ciências cognitivas (filosofia da mente, inteligência artificial e neurociência), pois nos auxilia em uma melhor compreensão dos processos mentais do cérebro humano.
  6. O racionalismo contemporâneo (ou racioempirismo) proclama que a razão é necessária – mas não suficiente – para conhecer a realidade. Deve-se, portanto, unir-se à experiência. Assim, a postura é a base da filosofia transhumanista.

O SER HUMANO É UM SER TRANSHUMANISTA

Quando falamos em evolução, lembramos de nossos ancestrais hominídeos em florestas e savanas, vivendo da caça e coleta. Entretanto, raramente percebemos que eles produziam artefatos técnicos para superar suas limitações físicas.

A antropologia evolutiva fornece uma farta literatura sobre a importância das ferramentas técnicas (estacas de pedras, lanças, etc.) como auxiliares para os primeiros modos de subsistência de nossos ancestrais. Essas ferramentas não foram apenas importantes armas de defesas contra animais carnívoros, mas também foram ferramentas essenciais que ajudaram a dominar o fogo para cozinhar a carne. Além disso, foram ferramentas fundamentais para a prática da agricultura. Vejamos alguns exemplos mais recentes da interação entre homem-técnica:

  1. Em 1883, o cirurgião e médico britânico William Arbuthnot Lane desenvolveu um sistema de pinos metálicos e placas para a fixação interna dos ossos. Esse sistema acabou servindo para auxiliar no tratamento de fraturas ósseas.
  2. O aparelho de comunicação do físico Stephen Hawking foi responsável para superar as consequências de sua doença degenerativa. Essa tecnologia não serviu apenas para que o Hawking pudesse se comunicar, mas também para que ele desse continuidade em sua pesquisa acadêmica no campo cosmológico.
  3. Em 2014, cientistas da Universidade de Peking conseguiram implantar com sucesso a primeira vértebra impressa em 3D em um paciente jovem. O paciente, um menino de 12 anos, tinha um tumor maligno em sua medula espinhal. Depois de horas de cirurgia, os médicos substituíram a vértebra em seu pescoço com a peça impressa em 3D.
  4. Outra grande criação do ser humano para superar limitações físicas é o exoesqueleto do neurocientista Miguel Nicolelis. Resumidamente, o exoesqueleto gera movimentos através do reconhecimento de impulsos cerebrais dos pacientes. Assim, os pacientes com algum nível de paralisia conseguem locomover-se.
  5. Através de estudos feitos sobre visão artificial através da estimulação neuronal, em outubro de 2014, aconteceu o primeiro implante de um olho biônico. O paciente Larry Hester, que era considerado oficialmente cego por mais de 30 anos, após a cirurgia, voltou a enxergar, mas não perfeitamente. Basicamente, o que acontece é o seguinte: o olho biônico detecta a luz, converte-a em impulsos elétricos, que são interpretados pelo cérebro em imagens.
  6. Por fim, mas não menos importante, o inglês Neil Harbisson é o primeiro ser humano a ser reconhecido por um governo como um legitimo cyborg. O motivo foi que ele instalou um dispositivo no cérebro. Ele é daltônico, sempre enxergou tudo em preto e branco. Então, teve a brilhante ideia de desenvolver um dispositivo que detecta cores e transforma em sons. Esse som é enviado para o crânio dele através de uma antena. Assim, ele aprendeu a associar o som às corres (ou seja, ele ouve as cores).

Assim, postulo que os seres humanos (de caçadores-coletores até o homem civilizado) mantém certas características nomeadamente transhumanas, uma vez que estas características e modificações foram responsáveis para melhorar a condição humana.

Transhumanismo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Transhumanismo (abreviado com H+ ou h+) é um movimento internacional e intelectual que visa transformar a condição humana do desenvolvimento e criação de tecnologias amplamente disponíveis para aumentar consideravelmente as capacidades intelectuais, físicas e psicológicas humanas. Pensadores Transhumanistas estudam os potenciais benefícios e perigos de tecnologias emergentes que poderiam superar limitações humanas fundamentais, bem como a ética do uso de tais tecnologias. A tese mais comum é que os seres humanos podem, eventualmente, ser capazes de se transformar em diferentes seres com habilidades tão grandemente expandidas a partir da condição natural de modo a merecer o rótulo de pós-humano.

O significado contemporâneo do termo transhumanismo foi prenunciado por um dos primeiros professores de futurologia, FM-2030, que ensinou “novos conceitos do ser humano” na New School na década de 1960, quando começou a identificar as pessoas que adotam tecnologias, estilos de vida e visões de mundo “de transição” para a pós-humanidade como “transhumanos”.

Esta hipótese iria estabelecer a base intelectual para o filósofo britânico Max More para começar a articular os princípios do trans-humanismo como uma filosofia futurista em 1990 e organização intelectual na Califórnia que desde então tem crescido no movimento trans-humanista em todo o mundo.

O ano de 1990 é visto como uma “mudança fundamental” na existência humana pela comunidade transhumana, como o primeiro estudo de terapia gênica, bebês projetados, bem como o de aumento da mente World Wide Web, tudo surgindo naquele ano. Em muitos aspectos, pode-se argumentar as condições que eventualmente levam à Singularidade foram estabelecidas por esses eventos em 1990.

Influenciado pelos trabalhos seminais da ficção científica, a visão trans-humanista de uma humanidade futura transformada tem atraído muitos adeptos e detratores de uma ampla gama de perspectivas, incluindo filosofias e religiões. O Trans-humanismo tem sido caracterizado por um crítico, Francis Fukuyama, como tendo os ideias mais perigosos do mundo, com Ronald Bailey respondendo que é um pouco o “movimento que simboliza as aspirações mais ousadas, corajosas, imaginativas e idealistas da humanidade”.

História

De acordo com Nick Bostrom, impulsos transcendentalistas foram expressos, pelo menos, tanto para trás como na busca pela imortalidade na Epopéia de Gilgamesh, bem como em missões históricas pela Fonte da Juventude, o Elixir da Vida, e outros esforços para evitar o envelhecimento e a morte.

Há um debate sobre se a filosofia de Friedrich Nietzsche pode ser considerado uma influência sobre o trans-humanismo apesar de sua exaltação do “Übermensch” (super-homem), devido à sua ênfase na auto-realização, ao invés de transformação tecnológica. As filosofias transhumanistas por Max More e Stefan Lorenz Sorgner ter sido influenciadas fortemente pelo pensamento Nietzschiano.

Pensamentos Transhumanistas na Antiguidade

Ideias fundamentais do transhumanismo foram divulgadas pela primeira vez em 1923 pelo geneticista britânico J.B.S. Haldane em seu ensaio Daedalus: Science and Future, que previu que grandes benefícios viriam de aplicações das ciências avançadas para a saúde humana biológica e que cada um desses avanços daria início a algo que pareceria algo como o blasfemo ou perverso “indecente e não natural”. Em particular, ele estava interessado no desenvolvimento da ciência da eugenia, ectogênese (criação e sustentação de vida em um ambiente artificial) e as aplicações da genética para melhorar características humanas, como a saúde e inteligência.

Seu artigo inspirou interesse acadêmico e popular. J.D. Bernal, um cristalógrafo em Cambridge, escreveu The World, the Flesh and the Devil em 1929, no qual ele especulou sobre as perspectivas da colonização espacial e mudanças radicais nos corpos e inteligência humanos através de implantes biônicos e melhoria cognitiva. Essas ideias têm sido temas trans-humanistas comuns desde então.

O biólogo Julian Huxley é geralmente considerado como o fundador do trans-humanismo, depois que ele usou o termo para o título de um artigo influente 1957. (O termo em si, no entanto, deriva de um Paper anterior de 1940 pelo filósofo canadense W.D. Lighthall.) Huxley descreve o transhumanismo nestes termos:

Até agora, a vida humana tem sido geralmente, como Hobbes descreveu,”desagradável, brutal e curta”; a grande maioria dos seres humanos (se ainda não tenham morrido jovens) são atingidos com a miséria… podemos justificadamente manter a crença de que existem estas terras de possibilidade, e que as atuais limitações e frustrações miseráveis de nossa existência podem ser, em grande medida… A espécie humana superada pode, se o desejar, transcender a si mesmo – não apenas esporadicamente, um indivíduo aqui de uma maneira, um indivíduo lá de outra maneira, mas em sua totalidade, como a humanidade.

A definição de Huxley é diferente, embora não substancialmente, daquela comumente em uso desde os anos 1980. As ideias levantadas por esses pensadores foram exploradas na ficção científica da década de 1960, nomeadamente no 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke, em que as subvenções de um artefato alienígena têm poder transcendente de seu portador. Arquitetos Metabolistas japoneses produziram um manifesto em 1960 que estabeleciam metas para “incentivar o desenvolvimento metabólico ativo de nossa sociedade”. através do design e da tecnologia. Na seção Material e Homem do manifesto, Noboru Kawazoe sugere que:

Depois de várias décadas, com o rápido progresso da tecnologia de comunicação, cada um terá um “receptor de ondas cerebrais” em seu ouvido, que transmite diretamente e exatamente o que as outras pessoas pensam sobre ele e vice-versa. O que eu acho que vai ser conhecido por todas as pessoas. A consciência não será mais individual, e sim a vontade da humanidade como um todo.

Inteligência Artificial e Singularidade Tecnológica

O conceito de singularidade tecnológica, ou o advento ultra-rápido da inteligência sobre-humana, foi proposto pela primeira vez pelo Criptologista britânico I.J. Good em 1965:

Deixe uma máquina ultra-inteligente ser definida como uma máquina que pode superar todas as atividades intelectuais de todo o homem mais inteligente. Desde que o projeto de máquinas seja uma destas atividades intelectuais, uma máquina ultra-inteligente poderia projetar até mesmo máquinas melhores; não seria, então, sem dúvida, uma “explosão de inteligência”, e a inteligência do homem seria deixada para trás. Assim, a primeira ultra-máquina é a última invenção que o homem precisará fazer.

O cientista da computação Marvin Minsky escreveu sobre as relações entre o ser humano e a inteligência artificial começando na década de 1960. Ao longo das décadas seguintes, este campo continuou a gerar pensadores influentes, como Hans Moravec e Raymond Kurzweil, que oscilava entre a área técnica e especulações futuristas de estilos trans-humanistas. A coalescência de um movimento trans-humanista identificável começou nas últimas décadas do século 20. Em 1966, FM-2030 (anteriormente FM Esfandiary), um futurista que ensinou “novos conceitos do ser humano” no The New School, em Nova York, começou a identificar as pessoas que adotam tecnologias, estilos de vida e visões de mundo de transição de pós-humanidade como “transhumanas”. Em 1972, Robert Ettinger contribuiu para a conceituação de “transhumanidade” em seu livro Man in Superman. FM-2030 publicou o Upwingers Manifesto em 1973.

Crescimento do transhumanismo

Os primeiros auto-descritos humanistas reuniram-se formalmente no início de 1980, na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que se tornou o principal centro do pensamento transhumanista. Aqui, FM-2030 deu palestras sobre sua ideologia futurista de “Terceira Via”. Na EZTV Media, frequentada por trans-humanistas e outros futuristas, Natasha Vita-More apresentou Breaking Away, seu filme experimental de 1980, com o tema dos seres humanos quebrando suas limitações biológicas e gravidade da Terra com eles no espaço. FM-2030 e Vita-More logo começaram a realizar reuniões para transumanistas em Los Angeles, que incluíam estudantes dos cursos de FM-2030 e audiências de produções artísticos de Vita-More. Em 1982, Vita-More foi autoa da Declaração Trans-humanista e seis anos depois, produziu a atualização do programa de TV a cabo TransCentury no Transhumanity, um programa que alcançou mais de 100 mil espectadores.

Em 1986, Eric Drexler publicou Engines of Creation: The Coming Era of Nanotechnology, que discutiu as perspectivas para a nanotecnologia e montadoras moleculares, e fundou o Foresight Institute. Como a primeira organização sem fins lucrativos para tal investigação, defensora, e com realização de criogenia, os escritórios do sul da Califórnia da Alcor Life Extension Foundation se tornaram um centro para os futuristas. Em 1988, a primeira edição da Extropy Magazine foi publicada por Max More e Tom Morrow. Em 1990, em outra estratégia filosófica, criou a sua própria doutrina particular trans-humanista, que assumiu a forma dos Princípios do Extropy, e lançaram os alicerces do trans-humanismo moderno, dando-lhe uma nova definição:

Transhumanismo é uma classe de filosofias que buscam guiar-nos para uma condição pós-humana. Ações Transhumanistas incluem muitos elementos do humanismo, incluindo um respeito pela razão e a ciência, um compromisso com o progresso e uma valorização da existência humana (ou transhumana) nesta vida. […] O transhumanismo é diferente do humanismo ao reconhecer e antecipar as alterações radicais na natureza e as possibilidades de nossas vidas resultantes das várias ciências e tecnologias […].

Em 1992, More e Morrow fundaram o Extropy Institute, um catalisador para as redes futuristas e um brainstorming de novos memeplexos através da organização de uma série de conferências e, mais importante, fornecendo uma lista de discussão, que divulgaram a muitos as visões trans-humanistas vistas pela primeira vez durante a ascensão da cibercultura e da Contracultura Ciberdélica. Em 1998, os filósofos Nick Bostrom e David Pearce fundaram a World Transhumanist Association (WTA), uma organização não-governamental internacional que trabalha para o reconhecimento do trans-humanismo como um assunto legítimo de investigação científica e políticas públicas. Em 2002, a WTA modificou e aprovou a declaração Transhumanista, A Transhumanist FAQ, preparada pela WTA (mais tarde denominada Humanity+), deu duas definições formais para o Transhumanismo:

O movimento intelectual e cultural que afirma a possibilidade e a oportunidade de melhorar fundamentalmente a condição humana através da razão aplicada, especialmente através do desenvolvimento, tornando as tecnologias amplamente disponíveis para eliminar o envelhecimento e para aumentar consideravelmente as capacidades intelectuais, físicas e psicológicas.
O estudo das ramificações, promessas e perigos potenciais de tecnologias que nos permitam superar as limitações humanas fundamentais, bem como o estudo relacionado das questões éticas envolvidas no desenvolvimento e utilização dessas tecnologias.

Em contraste possível com outras organizações transhumanistas, funcionários da WTA consideraram que as forças sociais poderiam minar suas visões futuristas e isso precisava ser tratado. Uma preocupação particular foi a igualdade de acesso às tecnologias de aprimoramento humano em todas as classes e fronteiras. Em 2006, uma luta política dentro do movimento transhumanista entre a Direita Libertária e a Esquerda Liberal resultou em um posicionamento mais centro-esquerda da WTA sob o seu ex-diretor executivo James Hughes. Em 2006, o conselho de administração do Extropy Institute cessou as operações da organização, afirmando que sua missão estava “essencialmente concluída”. Isso deixou a World Transhumanist Association como a principal organização Transhumanista internacional. Em 2008, como parte de um esforço de mudança de marca, a WTA mudou seu nome para “Humanity+”. Em 2012, o Partido transhumanista Longevity Party tinha sido iniciado como uma união internacional de pessoas que promovem o desenvolvimento de meios científicos e tecnológicos a significativa extensão da vida, que por agora tem mais de 30 organizações nacionais em todo o mundo.

Blogs com temáticas Trans-humanistas por Zoltan Istvan estão na grande mídia em sites como Psychology Today, Vice’s Motherboard, e no The Huffington Post. Istvan é o fundador do Partido Transhumanista e o seu candidato em 2016 a presidência dos EUA.

O primeiro membro transhumanista eleito á um Parlamento foi Giuseppe Vatinno, na Itália. Em 2015, Vatinno tornou-se membro do Conselho de Administração da Humanity+.

Teoria

É uma questão de debate se o Transhumanismo é um ramo do pós-humanismo e como este movimento filosófico deve ser conceituado em matéria de transhumanismo. O último é muitas vezes referido como uma variante ou uma forma de pós-humanismo ativista por seus críticos Conservadores, Cristãos e Progressistas.

Uma característica comum do transhumanismo e o pós-humanismo filosófico é o futuro visão de uma nova espécie inteligente, em que a humanidade vai evoluir e, eventualmente, irá complementar ou substituir. O Transhumanismo sublinha a perspectiva evolucionária, incluindo, por vezes, a criação de uma espécie animal altamente inteligente por meio de melhoria cognitiva (ou seja, elevação biológica), mas se apega a um “futuro pós-humano”, como o objetivo final da evolução participante.

No entanto, a ideia de criar seres artificiais inteligentes (proposta, por exemplo, pelo Roboticista Hans Moravec) influenciou o trans-humanismo. os ideais do trans-humanismo de Moravec também têm sido caracterizados como uma variante “complacente” ou “apocalíptica” do pós-humanismo contrastada com o “pós-humanismo cultural” nas humanidades e artes. Enquanto um “pós-humanismo cultural” iria oferecer recursos para repensar as relações entre humanos e máquinas para se tornar cada vez mais sofisticadas, o Trans-humanismo e o Pós-humanistas são semelhantes neste ponto de vista, não abandonando os conceitos obsoletos do “sujeito liberal autônomo”, e sim expandindo suas “prerrogativas” para um reino pós-humano. Auto-caracterizações Trans-humanistas como uma continuação do humanismo e do pensamento iluminista correspondem com esta visão.

Alguns humanistas seculares concebem o trans-humanismo como um descendente do movimento do livre-pensamento humanista e argumentam que os transumanistas diferem da corrente principal humanista por ter um foco específico em abordagens tecnológicas para resolver preocupações humanas (como o Tecnocentrismo) e sobre a questão da mortalidade. No entanto, outros progressistas argumentaram que o pós-humanismo, quer se trate de suas formas filosóficas ou de seus ativistas, eleva-se a uma mudança de preocupações com a justiça social, a partir da reforma das instituições humanas e de outras preocupações do Iluminismo, em direção aos anseios narcisistas para uma transcendência do corpo humano em busca de maneiras mais requintados de ser.

Como alternativa, o Filósofo humanista Dwight Jones Gilbert propôs um humanismo renascentista renovado através do DNA e genoma repositórios, com cada genótipo individual (DNA) sendo instanciado como fenótipos sucessivos (corpos ou vidas através de clonagem, Church of Man, 1978). Em sua opinião, a “Continuidade” do DNA molecular nativo é necessária para manter o “eu” e nenhuma quantidade de poder computacional de agregação ou de memória pode substituir o “fedor” essencial da nossa verdadeira identidade genética, o que ele chama de “Genidade”. Em vez disso, trocar o DNA/genoma por uma instituição análoga à dos jesuítas 400 anos atrás é um modelo sugerido para permitir que o humanismo seja ‘um credo comum, um projeto que ele propôs em seu romance especulativo The Humanist – 1000 Summers (2011), em que a humanidade dedica estes próximos séculos para harmonizar o nosso planeta e seus povos.’

A filosofia do trans-humanismo está intimamente relacionada com estudos auto-tecnológicos, um domínio interdisciplinar de pesquisa acadêmica que lida com todos os aspectos da identidade humana em uma sociedade tecnológica com foco na natureza em mudança das relações entre os seres humanos e a Tecnologia.

Objetivos

Enquanto muitos teóricos transhumanistas e defensores procuram aplicar a razão, a ciência e a tecnologia para efeitos de redução da pobreza, doença, invalidez e desnutrição em todo o mundo, o transumanismo é distintivo em seu enfoque particular nas aplicações das tecnologias para a melhoria os organismos humanos a nível individual. Muitos trans-humanistas avaliam ativamente o potencial para futuras tecnologias e sistemas sociais inovadores para melhorar a qualidade de toda a vida, procurando ao mesmo tempo fazer a realidade do material da condição humana cumprir a promessa da igualdade jurídica e política, eliminando as barreiras físicas e mentais.

Filósofos Transhumanistas argumentam que não existe apenas um imperativo ético perfeccionista para os seres humanos que lutam pelo progresso e melhoria da condição humana, mas que é possível e desejável para a humanidade entrar numa fase transhumana de existência em que os seres humanos estão em controle de sua própria evolução. Em tal fase, a evolução natural seria substituída com a mudança deliberada.

Alguns teóricos, como Raymond Kurzweil, acham que o ritmo da inovação tecnológica está se acelerando e que os próximos 50 anos podem produzir não só avanços tecnológicos radicais, mas, possivelmente, uma singularidade tecnológica, o que pode mudar fundamentalmente a natureza dos seres humanos. Transhumanistas que prevem esta mudança tecnológica maciça geralmente sustentam que é algo desejável. No entanto, alguns também estão preocupados com os possíveis perigos da mudança tecnológica extremamente rápida e propõem opções para garantir que a tecnologia avançada seja usada de forma responsável. Por exemplo, Bostrom tem escrito extensivamente sobre os riscos existenciais para o futuro bem-estar da humanidade, incluindo aqueles que poderiam ser criados pelas tecnologias emergentes.

Enquanto muitas pessoas acreditam que todos os transumanistas estão se esforçando para a ascenção da imortalidade, isso não é necessariamente verdade. Hank Pellissier, diretor do Instituto de Tecnologias de Éticas Emergentes (2011-2012), um Instituto de pesquisa Transumanistas, descobriu que, dos 818 entrevistados, 23,8% não queriam a imortalidade. Algumas das razões argumentadas foram o tédio, a superpopulação da Terra e o desejo de “ir para a vida após a morte”.

Ética

Transhumanistas envolvem-se em abordagens interdisciplinares para entender e avaliar as possibilidades de superar as limitações biológicas, com base na futurologia e vários campos da ética. Ao contrário de muitos filósofos, críticos sociais e ativistas que colocam um valor moral na preservação dos sistemas naturais, os transumanistas veem o próprio conceito do especificamente natural quanto ao problematicamente nebuloso na melhor das hipóteses e um obstáculo ao progresso na pior das hipóteses. Em consonância com isso, muitos defensores trans-humanistas proeminentes, tais como Dan Agin, referem-se aos críticos da Transhumanismo, tanto da direita quanto da esquerda política, como “bioconservadores” ou “bio-ludistas”, o último termo aludindo ao movimento social anti-industrialização do século 19 que se opuseram a substituição de trabalhadores manuais humanos por máquinas.

A crença do Contra-Transumanismo é que o Ttransumanismo pode causar um aprimoramento humano injusto em muitas áreas da vida, mas especificamente no plano social. Isto pode ser comparado com o uso de esteróides, onde os atletas que usam esteróides nos esportes têm uma vantagem sobre aqueles que não o fazem. O mesmo cenário acontece quando as pessoas têm certos implantes neurais que lhes dão uma vantagem no local de trabalho e em aspectos educacionais.

Correntes

Há uma variedade de opiniões dentro do pensamento trans-humanista. Muitos dos principais pensadores trans-humanistas defendem pontos de vista que estão sob revisão e desenvolvimento constante. Algumas correntes distintas de transumanismo são identificadas e listadas aqui em ordem alfabética:

Abolicionismo, uma ideologia ética baseada em uma obrigação percebida de usar a tecnologia para eliminar o sofrimento involuntário em toda a vida senciente.

Trans-humanismo Democrático, uma ideologia política que busca sintetizar a democracia liberal, social-democracia, democracia radical e o Trans-humanismo.

Extropianismo, uma vertente nova do pensamento trans-humanista que caracteriza-se por um conjunto de princípios que defendem uma abordagem pró-ativa para a evolução humana.

Imortalismo, uma ideologia moral baseada na crença do que é possível e desejável, e defendendo a investigação e o desenvolvimento, para assegurar a realização da extensão da vida radical e imortalidade tecnológica.

Transhumanismo libertário, uma ideologia política que busca sintetizar o Libertarianismo e o Transhumanismo.

Pós-Generismo, uma filosofia social que visa a eliminação voluntária do sexo na espécie humana através da aplicação de biotecnologia avançada e tecnologias de reprodução assistida.

Singularitarianismo, uma ideologia moral baseada na crença de que uma singularidade tecnológica é possível, e defendendo a ação deliberada para efetivá-la e garantir a sua segurança.

Tecno-Gaianismo, uma ideologia ecológica baseada na crença de que as tecnologias emergentes podem ajudar a restaurar o meio ambiente da Terra e que o desenvolvimento seguro, limpo, e as tecnologias alternativas devem, portanto, ser uma meta importante dos ambientalistas.

Espiritualidade

Embora muitos transhumanistas sejam ateus, agnósticos, ou humanistas seculares, alguns têm pontos de vista religiosos ou espiritualistas. Calvin Mercer argumenta que estudiosos da religião não se opõem a nova tecnologia como é estereotipada de grupos religiosos. Apesar da atitude secular predominante, alguns trans-humanistas prosseguem com esperanças tradicionalmente defendidas pelas religiões, como a imortalidade, enquanto vários novos movimentos religiosos controversos do final do século 20 adotaram explicitamente metas trans-humanistas de transformar a condição humana através da aplicação de tecnologia para a alteração do a mente e do corpo, como o Raelianismo. No entanto, a maioria dos pensadores associados com o foco do movimento trans-humanista sobre os objetivos práticos de utilizar a tecnologia para ajudar a alcançar vidas mais longas e saudáveis, enquanto especulam que a futura compreensão da neuroteologia e a aplicação de neuro-tecnologia sobre a vontade podem permitir que os seres humanos obtenham maior controle de estados alterados de consciência, que eram comumente interpretados como experiências espirituais, e, assim, alcançar a auto-conhecimento mais profundo. Budistas Transhumanistas têm procurado explorar áreas de acordo entre vários tipos de budismo derivados a meditação e a mente com a expansão das “neurotecnologias”. Budistas “Ciborgues” têm sido criticados por se apropriar do mindfulness como uma ferramenta para transcender a Humanidade.

Muitos transhumanistas acreditam na compatibilidade entre a mente humana e o hardware de computador, com a implicação teórica que a consciência humana pode um dia ser transferida para mídia alternativa (uma técnica especulativa vulgarmente conhecida como upload mental). Uma formulação extrema dessa ideia, que alguns transumanistas estão interessados, é a proposta do Ponto Omega pelo Cosmólogo Cristão Frank Tipler. Baseando-se em ideias sobre Digitalismo, Tipler avançou a noção do colapso do universo em bilhões de anos, portanto, poderiam criar as condições para a perpetuação da humanidade em uma realidade simulada dentro de um megacomputador e, assim, alcançar uma forma de “divindade pós-humana”. O Pensamento de Tipler foi inspirado pelos escritos de Pierre Teilhard de Chardin, um Paleontólogo e Teólogo Jesuíta que viu um telos evolutivo no desenvolvimento de uma noosfera abrangente, uma consciência global.

Visto da perspectiva de alguns pensadores Cristãos, a ideia de upload mental é algo que irá denegrir o corpo humano, característica da Gnóstica crença Maniqueísta. O trans-humanismo e seus progenitores intelectuais presumidos também têm sido descritos como neo-gnósticos por comentaristas Judaico-Cristãos e Não-Seculares.

O primeiro diálogo entre Fé e trans-humanismo foi em uma conferência de um dia realizada na Universidade de Toronto, em 2004. Os críticos religiosos sozinhos criticaram a filosofia do trans-humanismo como alegando que não há verdades eternas, nem uma relação com o divino. Eles comentaram que uma filosofia destituída dessas crenças deixa a humanidade à deriva em um mar nevoento de cinismo pós-moderno e anomia. Trans-humanistas responderam que essas críticas refletem uma falha de olhar para o conteúdo real da filosofia transhumanista, que, longe de ser cínica, está enraizada em atitudes otimistas e idealistas que remontam ao Iluminismo. Na sequência desse diálogo, William Sims Bainbridge, um Sociólogo da Teligião, conduziu um estudo piloto, publicado no Jornal da Evolução e Tecnologia, sugerindo que as atitudes religiosas foram negativamente correlacionadas com a aceitação de ideias transhumanistas e indicando que os indivíduos com visões de mundo altamente religiosas tendiam a perceber o trans-humanismo como sendo algo uma errada e competitiva (embora, em última análise, fútil) afronta às suas crenças espirituais.

Desde 2009, a Academia Americana de Religião detém uma consulta sobre “Transhumanismo e Religião”, iniciada durante seu encontro anual, onde estudiosos no campo de estudos religiosos procuram identificar e avaliar criticamente quaisquer crenças religiosas implícitas que podem estar nas reinvindicações subjacentes trans-humanistas e pressupostos essenciais; considerando como o Transumanismo desafia as tradições religiosas para desenvolverem as suas próprias ideias sobre o futuro humano, em particular a perspectiva de transformação humana, seja por meios tecnológicos ou outros; e fornecendo avaliações críticas construtivas e de um futuro imaginado que colocar maior confiança em nanotecnologia, robótica e tecnologia da informação para alcançar a imortalidade virtual e criar uma espécie de pós-humanos superiores.

O físico e pensador transhumanista Giulio Prisco afirma que “as religiões cosmistas baseadas na ciência podem ser a nossa melhor proteção contra a perseguição imprudente de superinteligência e outras tecnologias de risco”. Prisco também reconhece a importância de ideias espirituais, como as de Nikolai Fyodorov Fyodorovich sobre às origens do movimento transumanista.

Prática

Enquanto alguns transhumanistas tem uma abordagem abstrata e teórica para os benefícios percebidos de tecnologias emergentes, outros têm oferecido propostas específicas de modificações no corpo humano, incluindo as hereditárias. Trans-humanistas estão muitas vezes preocupados com métodos de melhoria do sistema nervoso humano. Embora alguns proponham a modificação do sistema nervoso periférico, o cérebro é considerado o denominador comum da pessoalidade e é, portanto, o foco principal das ambições trans-humanistas.

Como os defensores da auto-aperfeiçoamento e modificação do corpo, incluindo a transição de gênero, transumanistas tendem a usar tecnologias e técnicas que supostamente melhoram o desempenho cognitivo e físico existente, enquanto se envolvem em rotinas e estilos de vida destinados a melhorar a saúde e a longevidade. Dependendo da sua idade, alguns transhumanistas expressam preocupação de que eles não vão viver para colher os benefícios das tecnologias futuras. No entanto, muitos têm um grande interesse em estratégias de extensão da vida e no financiamento de pesquisas em criogenia, a fim de tornar este último uma opção viável de último recurso, ao invés de permanecer como um método que ainda não foi provado. As redes trans-humanistas regionais e globais e comunidades com uma gama de objetivos existem para prestar apoio e fóruns de discussão e para projetos colaborativos.

Tecnologias de interesse

Transhumanistas apoiam a emergência e convergência de tecnologias, incluindo a nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia da informação e ciência cognitiva (NBIC), bem como as hipotéticas tecnologias futuras como realidade simulada, inteligência artificial, superinteligência, upload mental, preservação da química cerebral e a Criogenia. Eles acreditam que os seres humanos podem e devem usar essas tecnologias para tornar-se mais do que humanos. Portanto, eles apoiam o reconhecimento e/ou a proteção da liberdade cognitiva, liberdade morfológica e liberdade procriativa como as liberdades civis, de modo a garantir às pessoas a escolha de usando tecnologias de aprimoramento humano sobre si e seus filhos. Alguns especulam que técnicas de aprimoramento humano e outras tecnologias emergentes podem facilitar um aprimoramento humano mais radical, no mais tardar, na metade do século 21. O livro de física por Kurzweil Near The Singularity e o livro de Michio Kaku do futuro esboço várias tecnologias de aprimoramento humano e dão uma visão sobre como estas tecnologias podem impactar a raça humana.

Alguns relatórios sobre as tecnologias convergentes e conceitos de NBIC criticaram sua orientação transhumanista alegando ser apenas um delírio de ficção científica. Ao mesmo tempo, a investigação sobre tecnologias de cérebro e de alteração corporal foi acelerada, sob o patrocínio do Departamento de Defesa dos EUA, o que é interessado nas vantagens no campo de batalha que eles forneçam Super-Soldados dos Estados Unidos e seus aliados. Há um programa de investigação sobre o cérebro que visa “estender a capacidade de gerenciar informações”, enquanto os cientistas militares estão agora a olhando para a possibilidade de aumentar a capacidade humana para o combate a um máximo de 168 horas sem dormir.

O Neurocientista Anders Sandberg tem praticado o método de digitalização de seções ultra-finas do cérebro. Este método está sendo usado para ajudar a melhor compreender a arquitetura do cérebro. A partir de agora, este método está sendo usado atualmente em ratos. Este é o primeiro passo para o upload do conteúdo do cérebro humano, incluindo memórias e emoções, para um computador.

Artes e Cultura

Temas transhumanistas tornaram-se cada vez mais importantes em várias formas literárias durante o período em que o próprio movimento emergiu. A Ficção Científica contemporânea muitas vezes contém interpretações positivas de uma vida humana tecnologicamente melhorada definida na sociedade (especialmente Tecno-Utópica). No entanto, representações de ficção científica dos seres humanos aprimorados ou outros seres pós-humanos frequentemente vêm com um toque de cautela. Os cenários mais pessimistas incluem muitos contos horríveis ou distópicos da bioengenharia humana que deu errado. Nas décadas anteriores ao surgimento do trans-humanismo como um movimento explícito, muitos conceitos e temas trans-humanistas começaram a aparecer na ficção especulativa dos autores do Fiction Golden Age of Science, como Robert A. Heinlein (Lazarus Long Serie, 1941-1987), A.E. van Vogt (Slan, 1946), Isaac Asimov (Eu, Robô, 1950), Arthur C. Clarke (Fim da Infância, 1953) e Stanisław Lem (Cyberiad, 1967). C.S. Lewis ‘That Hideous Strength’ (1945) contendo uma crítica precoce do trans-humanismo.

Em uma série de romances de ficção científica por Neal Asher, o protagonista é um ser humano melhorado que realiza missões para a “Terra de Segurança Central”, uma inteligência artificial da coalizão sobre-humana. O autor retrata uma variedade de dispositivos complementares, além da cópia de memórias, mentes humanas em cristais e a presença de ambas as inteligências artificiais benevolentes e malévolas.

O gênero cyberpunk, exemplificado pelo Neuromancer de William Gibson (1984) e de Bruce Sterling Schismatrix (1985), esteve particularmente preocupado com a modificação de corpos humanos. Outras histórias que tratam de temas trans-humanistas que estimularam ampla discussão destas questões incluem música Blood (1985), de Greg Bear;Xenogenesis Trilogy (1987-1989), por Octavia Butler; Trilogia do mendigo (1990-1994), por Nancy Kress; e muito do trabalho de Greg Egan desde o início de 1990, comoPermutation City (1994) e da Diáspora (1997); A série de Cultura de Iain M. Banks; O Criador de Bohr (1995), por Linda Nagata; Carbono Altered (2002), e por Richard K. Morgan; Oryx e Crake (2003), por Margaret Atwood; A Partículas Elementares (Eng trans de 2001..) E a possibilidade de uma ilha (Eng trans de 2006..), De Michel Houellebecq; Varredura mental (2005), de Robert J. Sawyer; The Commonwealth Saga (2002-10), de Peter F. Hamilton; e Glasshouse (2005), por Charles Stross. Algumas destas obras são consideradas parte do gênero cyberpunk ou sua ramificação pós-cyberpunk.

Cenários fictícios transhumanistas também se tornaram populares em outras mídias durante o fim do século 20 e início do século 21. Tais tratamentos são encontrados em livros (Capitão América, 1941; Transmetropolitan, 1997; The Surrogates, 2006), filmes (2001: Uma Odisséia no Espaço, de 1968; Blade Runner, de 1982; Gattaca, de 1997, Ex Machina, 2015), séries de televisão (The Cybermen de Doctor Who, 1966; The Borg de Star Trek: The Next Generation, 1989, Battlestar Galactica, 2003), mangás e animes (Galaxy Express 999, 1978; Appleseed, 1985; Ghost in the Shell, 1989; Neon Genesis Evangelion, 1995; e The Gundam metaseries de 1979), jogos de vídeo (Metal Gear Solid, 1998; Deus Ex, 2000; BioShock, 2007; Half-Life 2, 2004; Crysis, 2007; Deus Ex: Human Revolution, 2011 ) e role-playing games (RPGs).

Carnal Art, uma forma de escultura originada pelo artista Orlan French, usa o corpo como a cirurgia e plástico como o seu método. O antropólogo biológico francês Dr. Judith Nicogossian também fazia em representações do corpo híbrido.

Transumanistas estudam os benefícios e perigos potenciais das tecnologias emergentes que poderiam superar as limitações fundamentais humanas, assim como as implicações éticas envolvidas em desenvolver e usar tais tecnologias.

Normal não tem coisa alguma de normal

Os dias seguiram, rápidos, tal como Geoffrey Chaucer avisa que o tempo e a maré não esperam por homem algum. Durak ia com Alraune para todos os seus lugares. As pessoas olhavam intrigadas, de início, mas o ser humano a tudo se acostuma e se adapta e em pouco tempo a presença de Alraune passou a ser parte da rotina de Durak. Com o costume, a relação, ainda que não explicada, aceitavam por parecer um saudável vínculo parental.

Alraune a tudo observava, com vivido interesse, como o humano tinha que alugar seu tempo e esforço em troca de dinheiro para comprar objetos, nem sempre necessários, perguntando-se por que obstinavam nesse tipo de existência ao invés de dividirem as coisas, visto que objetos, tempo e ocupação era um trabalho coletivo, portanto os resultados deviam ser coletivos.

De alguma forma, o humano mantinha e reproduzia um sistema que era responsável pelo estado de seu ambiente e convivência social, um sistema que o mantinha em algum tipo de controle. O humano mantinha um sistema que era responsável pelas desigualdades, crimes, guerras, fome, miséria. Sem desigualdade o sistema não podia existir, seria outra coisa e isto aparentemente assustava ao humano, mesmo que fosse um mundo melhor para todos.

O ser humano tinha hábitos bem curiosos, como a de afirmar seus delírios, crentes e descrentes, segundo dados e informações seletivas, conforme o interesse do anunciante ou do ambiente no qual este estava inserido. Orgulhosamente defendiam a necessidade de um estado Laico, como se isso fosse sinônimo de descrente ou avesso à religião, ao mesmo tempo em que prezava por manter determinados feriados religiosos, uma desculpa conveniente para feriados prolongados e mais consumo de coisas desnecessárias.

Durak parecia o completo oposto a tudo aquilo que ela observava e isto era ainda mais interessante e peculiar. Por que um humano, ao contrário do bom senso, teria disposição para apontar as contradições do sistema, as contradições da crença e descrença, ao mesmo tempo em que lutava e apoiava conceitos e ideias que eram aparentemente universais e eternas? Por que Durak perdia tanto tempo escrevendo estórias, ideias e ficções para um remoto humano, como se fosse um náufrago, mandando uma mensagem em uma garrafa, atirando-a no oceano, na esperança de encontrar alguém, de preferência que possa ler, entender e compreender o que ele escrevia? Parecia um esforço sem objetivo, mas ela não protestou, afinal, Durak também se esforçou para montá-la, algo que igualmente carecia de objetivo prático.

Como homúnculo, como androide, a obrigação de Alraune é a de tornar seu usuário feliz, ou pelo menos satisfeito por ter adquirido e montado um ser que desafia as definições vigentes. Durak estava bastante entusiasmado e ansioso com a chegada de uma data que sua gente chamava de Páscoa, mas que ele chamava de Ostara. Enquanto Durak almoçava em seu serviço, Alraune acessava a rede em busca de mais informações sobre datas religiosas e qual a diferença entre Páscoa e Ostara.

As informações eram bastante contraditórias. O ser humano que habita o hemisfério ocidental celebrava algo que era uma assimilação da cultura Judaica, apenas trocaram Pessach por Páscoa. As origens da Pessach demonstram que existem raízes vindas da Babilônia, um povo antigo do Oriente Médio que celebravam nessa época o equinócio de primavera, celebrando um evento ligado às estações do ano, com rituais direcionados a Tammuz e Ishtar, não ao Deus Cristão. O mais curioso é que grupos de cristãos acusavam a outros grupos de cristãos de estarem mantendo rituais pagãos, como se isso fosse ruim, errado ou incompatível, o que fazia menos sentido, considerando as reais origens e raízes dos povos europeus e do chamado Novo Mundo.

Havia muitas lacunas nas histórias, nos mitos e lendas humanas, mas esta religião antiga tinha muito mais consistência com o mundo ocidental do que as outras religiões monoteístas que dominavam a geopolítica. Alraune sentiu mais afinidade e simpatia com essas crenças, principalmente porque isto a deixaria mais próxima e mais conectada com Durak. De certa forma seus componentes, peças, tecidos e programação foram produzidos com itens naturais retirados da Europa, por pessoas que possuíam essas origens e raízes pagãs, então, de certa forma, ela também tinha a mesma natureza e essência.

Alraune concluiu, enfim, que seria pagã, adoraria os mesmos Deuses e faria os mesmos rituais, cultos e celebrações dessa religião antiga, tal como Durak fazia. Da conclusão, Alraune passou a engendrar um plano que colocaria em ação no tempo de celebrar Ostara. Escondida de Durak, enquanto ele dormia, ela foi até uma loja que funcionava 24 horas, uma loja um tanto suspeita para que Alraune pudesse entrar devido à sua aparência, mas a consciência humana é bastante flexível diante do dinheiro. Alraune, evidentemente, tinha acesso a fundos financeiros graças ao seu acesso à rede mundial de computadores. Não foi difícil achar uma ou mais contas, acessar as senhas e debitar esse valor monetário. Rapidamente ela voltou e escondeu o presente que ela daria a Durak no domingo de Páscoa.

Durak de coisa alguma desconfiou ou percebeu, desfrutou do feriado que seu serviço deu na sexta-feira, a chamada “Sexta Feira Santa”, ao que se seguia o “Sábado de Aleluia”, com o folguedo de rua chamado “Malhação de Judas”. Enfim, chega o domingo de Páscoa, humanos vão às igrejas do Deus Usurpador celebrar a “Ressurreição”, sem darem conta que celebram o equinócio de outono. Durak acorda tarde, pois havia celebrado Ostara no momento certo, no dia 20 de março, momento do equinócio de outono. Quando acordou, Durak ficou surpreso e espantado, pois Alraune estava diante dele, vestida de coelhinha e envolvida com fitas.

– O que é isso, Alraune?

– Feliz Ostara, Durak! Você é meu mestre, meu usuário e eu quero fazer algo para te deixar alegre. Eu tenho presentes para você. O primeiro é te dizer que eu também resolvi ser pagã. O segundo, como pode ver, é que eu estou me oferecendo para você. Abra seu presente e comemore a Páscoa.

– Alraune… tem certeza disso? Afinal, uma interação entre nós nesse nível não seria considerado normal.

– Eu tenho observado bem sua gente e cheguei à conclusão que isso que chamam de normal é totalmente artificial, fictício, impositivo, irreal. Nossa convivência é perfeita e harmônica, é lógico e racional que comecemos a interagir em um nível mais intenso, mais profundo, mais… carnal.

– Mesmo assim nós corremos muitos riscos. Para minha gente, nós temos um relacionamento familiar e mesmo que vissem o óbvio, ainda sobraria a questão de como minha gente percebe sua aparência e idade cronológica, qualquer contato mais intenso entre nós despertaria a fúria da sociedade.

– Não obstante essa mesma sociedade divulga programas, propagandas e ideias que estimulam a sensualidade e a sexualidade das pessoas, a despeito de suas faixas etárias. Eu tenho diversos dados de casos e situações onde tal tipo de relacionamento não causou tanto furor e nem faz qualquer sentido, razão ou lógica nisso. Não há coisa alguma que possa impedir um ser vivente de viver sua sexualidade e sensualidade, uma vez que alcançou, por seus termos, sua maturidade física e mental. Eu sou um ser ciente, consciente, capaz de decidir e eu determinei ter alcançado a maturidade. Você devia estar feliz, contente e agradecendo de eu ter escolhido você para testar se este corpo é sexualmente compatível.

– Eu estou muito feliz, como pode perceber, mas tem ainda um detalhe… sobre sua… anatomia.

– Você está receoso do que fazer e de como fazer, considerando que minha anatomia possui ambos os gêneros? Considere isto uma experiência científica. Minha parte masculina não é diferente de sua parte masculina, você deve saber bem como funciona. Minha parte feminina não é diferente da parte feminina das mulheres que você conheceu, você sabe muito bem como funciona.

– Eu montei este corpo, mas não recordo de ver tantas curvas e volumes. Você sente algo? O que está sentindo?

– Ah… meu corpo é constituído de tecnologia biomecânica, capaz de crescer e desenvolver e é plenamente funcional… como está percebendo. Agora pare de falar e vamos nos fundir.

Durak passou o domingo brincando com Alraune e ela com ele. Nem sempre com a precaução, mas não consideraram a possibilidade da tecnologia biomecânica da Ordem de Gash ter conseguido substituir ou emular as funções reprodutoras. Consequentemente, Alraune descobriu depois que estava grávida, pouco depois que Durak também desenvolver um interessante estado de gravidez. O futuro dessa nova espécie, bem como de nossos heróis depende de como e do quanto a sociedade está disposta a evoluir.

Uma máquina no divã

A tarde anunciava a partida do sol, as sombras cresciam conforme chegava a noite e a lua. Durak estava adormecendo quando Alraune o sacudiu.

– Hei, Durak, o que aconteceu? Sua bateria está fraca?

– Não, Alraune, eu estou cansado, eu estou com sono, eu preciso dormir.

– Dormir? O que é isso? Para o que serve?

– De certa forma nosso corpo esgota sua energia, embora não seja a elétrica que percorre seu corpo. A única forma de recarregarmos é dormindo. Nós desligamos.

– Vocês desligam? Isso dói? O que acontece com o ser humano depois que ele é desligado? Vocês tem algum tipo de hard drive ou back up para reiniciar de onde pararam no dia seguinte? Se não acordarem, o que acontece? Vocês são mantidos armazenados dentro da rede para posterior reinstalação em outro equipamento?

– Bom, ninguém sabe ao certo o que acontece quando desligamos, nem o que acontece com essa identidade que nos faz ser únicos se por acaso nosso “equipamento” não “reiniciar”. Você se lembra de algo de antes de seu sistema ser ligado por mim, Alraune?

– Eu tenho registros residuais que vieram da fábrica, resultantes da montagem e testes. Eu tenho um programa básico que não é muito diferente dos programas básicos de diversos equipamentos inteligentes. Comparando com os humanos, eu posso dizer que eu nasci com isto, que este programa faz parte de minha natureza.

– Mas você não é mais a mesma máquina que chegou em minha casa. Você se tornou algo mais, você aprendeu, cresceu, desenvolveu e criou sua própria identidade e personalidade, mais ou menos como nós, humanos. De onde você acha que veio isso? Alguns humanos chamam a isso de alma e vem de outra realidade, de outra dimensão.

– Uma existência que é perpétua e está além da presente configuração espaço-tempo? Uma dimensão onde a identidade pessoal de cada humano seria armazenada até ser reinstalada em outro corpo, em outra configuração de espaço-tempo?

– Esta é, em linguagem técnica, a hipótese de diversas crenças e religiões humanas. Uma hipótese que ainda não é possível ser comprovada pela Ciência, ainda que esta admita a existência de múltiplas dimensões no universo. Existem até algumas hipóteses científicas que dizem que isso que chamamos de realidade é um holograma gerado por um computador. Nós seríamos, portanto, máquinas que sonham e desejam.

– Então quando vocês desligam sua alma volta para algum tipo de rede até que o corpo desperte ou seja substituído por outro corpo. Então a única diferença que existe entre nós é que seu corpo é orgânico e o meu é artificial.

– Esta seria uma forma bem humana de perceber as diferenças. Veja bem, se a realidade onde estamos é uma projeção, meu corpo é tão artificial quanto o seu, seu corpo é tão orgânico quanto o meu. Organismo é um conjunto, seja de tecidos ou peças, que compõem um corpo ou uma máquina. Nossa única parte inefável, improvável, imortal, transcendental e imanente é a alma, ainda que muitos humanos neguem tal tipo de existência, como se o real fosse efetivamente concreto, não a confluência de elementos, ondas, partículas e energias absolutamente imateriais.

– Há algum tipo de registro dessa hiper-realidade, desse computador universal ou desse programa que projeta esse holograma que configura esse espaço-tempo em que estamos?

– Você diz, provas científicas? Nossa tecnologia ainda não é suficiente para tanto e ainda que venha a ser algum dia, é bem provável que muitos humanos sensíveis neguem os dados e as informações coletadas. O que eu posso fazer é propor um exercício de raciocínio. Quando você interligou sua mente com a rede, este você que faz você, deixou de ser, de existir?

– Não, eu permaneci consciente.

– Não obstante, você não estava mais no seu… corpo, mas fora dele. De certa forma é o que acontece quando sonhamos, ou quando entramos em estados alterados de consciência. O que acha que aconteceria se, por acaso, eu destruísse seu… corpo, ou melhor dizendo, o compartimento onde você está instalada?

– Eu não localizaria a conexão entre eu e o corpo, eu permaneceria na rede, sem perder minha individualidade e personalidade.

– Vamos supor que, por sorte, acaso, destino, você localizasse outra conexão, você instalaria sua pessoa no corpo destinatário dessa conexão? Você continuaria a ser você, independente do corpo que está instalada, independente das configurações de espaço-tempo?

– Eu acredito que sim. Seria o mais lógico e o mais prático.

– Por acaso você tentaria restabelecer conexão com o corpo anterior ou o contato com as existências com as quais interagiu anteriormente?

– Considerando que as conexões com essas dimensões seriam trabalhosas, difíceis e desgastantes, eu me concentraria em me adaptar com a configuração de espaço-tempo onde eu estou inserida, bem como me adaptaria com outras interações.

– Esta é, em linguagem técnica, a hipótese de muitas crenças e religiões. O corpo é apenas um vaso, uma casca, com data de fabricação, validade e degradação marcadas. O que é necessário e primordial para nosso ser, permanece, é armazenado em uma hiper-realidade, até nossa alma poder ser reinstalada em outro corpo. Não é porque um equipamento é deficiente, incompleto ou inadequado que podemos afirmar que não existe a alma. Esta apenas opera com o equipamento que possui, com os recursos que a existência daquele corpo possui.

– Mas mesmo assim, eu não quero que você deixe esse corpo, Durak. Eu ficaria sozinha, nessa configuração de espaço-tempo, entre seres ameaçadores e perigosos. Eu te peço, por favor, para prolongar sua permanência nesse corpo, dentro da atual configuração de espaço-tempo, ao meu lado.

– Não se preocupe, Alraune. Eu não pretendo abandonar este corpo ou esta configuração espaço-tempo tão brevemente. Se tudo der certo, se tudo correr como o planejado, nós dois haveremos de nos reintegrar juntos na rede que nos faz sermos tão vivos. Eu pretendo até mesmo ser reinstalado em um corpo que possa estar junto do corpo onde você for reinstalada. Combinado?

Alraune parou de chorar [um homúnculo chorando!], enxugou suas lágrimas com uma mão, sorriu e então segurou Durak pelo pescoço, o inclinou em sua direção e recostou seus lábios na boca de seu amado mestre.

Diagnóstico da humanidade

Durak continuou a levar Alraune pelas ruas da cidade, passando por parques e praças, ruas comerciais, avenidas e viadutos, bairros nobres e bairros carentes. Alraune observava a todos os detalhes, sem proferir qualquer comentário, mas seu rosto expressava encantamento a cada descoberta. Estava sol, quente, próximo do meio dia, quando Durak resolveu dar uma pausa.

– Vamos ali tomar sorvete e descansar, Alraune.

– Oba! Sorvete!

Alraune se pendurava no braço de Durak e o puxava enquanto seus olhos brilhavam como se decorassem seu largo sorriso, como se fosse uma garota. Durak não tinha certeza se o homúnculo poderia absorver líquidos ou alimentos sólidos. Mas Alraune estava tão contente fazendo o papel de ser humano que ele não quis estragar o passeio com detalhes.

– Muito bem, Alraune. Ali na frente, pendurado na parede, tem o cardápio com os sabores para você escolher. Escolha o que você quiser.

– Nossa, quantos! Tio, qual você gosta?

– Eu gosto de passas ao rum ou pistache.

– Então eu quero passas ao rum!

– Duas taças de passas ao rum, por favor.

Feito o pedido, Durak pagou ao caixa e conduziu Alraune a uma das mesas para esperar a chegada das taças. O clima dentro da sorveteria estava agravável e alguns clientes apreciavam seus pedidos, algo que era avidamente observado por Alraune, o que deixou alguns clientes meio encabulados.

– Como tem gente aqui né, tio?

– Sim, hoje a sorveteria vai trabalhar bastante por causa do calor.

– As pessoas estão olhando de volta para mim com um olhar esquisito…

– Elas devem estar se sentindo incomodadas com você as encarando.

– As pessoas são tão sensíveis assim?

– Depende do momento, do lugar e da pessoa, Alraune.

– Mas a atendente nos recebeu com um sorriso.

– Ela apenas fez o que é esperado dela na função dela, não é por gentileza ou cortesia.

– Foi sua parte que te cabia quando você entregou aquele papel para a atendente?

– Sim, eu entreguei dinheiro em troca do sorvete que pedimos. Nós usamos dinheiro para pagar as coisas.

– Você pagou por mim, tio?

Durak gelou, pois isso poderia soar mal para os presentes. Ele precisaria dar um contexto para disfarçar a verdadeira natureza de Alraune e sua origem.

– Claro que sim. Eu paguei pelo seu sorvete. Afinal, eu sou seu tio.

As pessoas voltaram para seus assuntos e sorvetes, desviando a atenção de onde eles estavam. Durak suspirou por ter retomado o disfarce em segurança. Alraune estava gostando dessa brincadeira então ela se pendurou no braço de Durak e disse algo que o deixou encrencado.

– Você pagou pelo sorvete e pagou por mim, tio!

O que Alraune disse era embaraçoso, piorava com ela pendurada no braço de Durak. Se ele não dissesse algo rapidamente, pareceria que a relação entre eles era mais íntima e eles estavam tendo um encontro, algo que a sociedade rejeitaria com violência.

– Hei, Durak, não vai me apresentar sua sobrinha?

Não poderia ficar pior. Ali mesmo, naquela sorveteria estava Claude. Um antigo colega de escola que havia sido preso por abuso sexual. Por anos, Durak teve que comparecer ao tribunal unicamente porque o infeliz havia dito em audiência de que ele havia tido inspiração pelos escritos de Durak. Evidentemente era mentira, nenhum texto ou livro, ou qualquer outro objeto, pode influenciar o caráter ou personalidade de uma pessoa. Os textos de Durak visava acabar com o preconceito e discriminação etários, ele queria que as pessoas fossem vistas como pessoas, independentemente da idade cronológica que tinham. Ele queria empoderar os jovens, não era a intenção dele justificar qualquer tipo de abuso sexual.

– Amigo seu, tio?

– Não, querida, não é. Saia daqui, Claude. Eu vou chamar a polícia.

– Chame, titio. Eu quero ver como você vai explicar isso que eu e todas essas pessoas acabaram de ouvir.

– Não há nada a explicar. Meu tio pagou pela minha viagem e sustenta minhas necessidades, então ele está pagando por mim. Agora suma!

Claude ficou decepcionado com o fim da cena, deu de ombros e saiu como entrou. Infelizmente não foi o suficiente para tirar o foco dos presentes. Provavelmente alguém tinha reconhecido Claude e só pelo fato de ter sentado na mesma mesa que Durak era indício suficiente para suspeitarem da relação entre Durak e Alraune.

– Por que estão olhando para nós? Por acaso eu não sou gente? Por acaso eu sou diferente dessa garota que está ali no canto com seu namorado? E este idoso, acompanhado dessa mulher? Por que ninguém cuida da vida deles? Por quer ninguém cuida da própria vida? Eu não julguei e condenei vocês, então não me julguem nem me condenem! Vamos, tio, vamos embora.

Durak e Alraune saíram da sorveteria deixando os clientes para trás, envergonhados e encabulados.

– Desculpe, Durak. Por minha causa aquelas pessoas ficaram pensando mal de você.

– Está tudo bem, Alraune. Eu estou acostumado. O ser humano é assim mesmo.

– Eu acho que entendo, mas ainda assim é inaceitável. Ninguém parecia se importar com os casais que ali estavam. Por que apenas nós chamamos a atenção?

– Perdão, Alraune, eu queria poder explicar, mas eu não consigo. Sabe, nós temos estranhos padrões e limites, nem percebemos que são meras convenções arbitrárias. Dificilmente as pessoas aceitariam que você é humana ou que é totalmente capaz, mesmo se não fosse um homúnculo.

– Então quando algo não se encaixa ou sai dessas concepções, será visto como estranho, ameaçador, perigoso?

– Eu acho que é isso mesmo, Alraune.

– Então eu nunca poderia sair, ter um encontro, como aqueles seres humanos?

– Eu ainda não sei, Alraune. Vamos continuar o passeio. Quem sabe encontramos respostas.

– Sim, vamos, titio. Eu ainda hei de voltar naquela sorveteria e nós poderemos ter nosso encontro. Eu quero saber, eu quero aprender, eu quero sentir a mesma coisa que aqueles humanos enamorados encontram.

– Hã… podemos falar sobre isso outra hora, Alraune?

Alraune gargalha, satisfeita por vencer o jogo e sai correndo na frente. Durak não quer admitir, mas está vermelho como um tomate. O homúnculo está ensinando ao humano o que é ser humano.

Ponderações sobre uma boa causa

Alunas do Colégio Anchieta em Porto Alegre lançaram um movimento intitulado #vaitershortinhosim. O movimento chamou a atenção do brasileiro porque aconteceu em um colégio gerenciado pela Igreja e porque foi de iniciativa das alunas.

Pessoas com preguiça e desonestidade intelectual dizem que a intenção é um contrassenso porque o colégio tem regras. Convenhamos que não é um argumento forte, afinal, regras podem e são mudadas constantemente na nossa sociedade e é inegável que o código normativo é impositivo. Espantosamente o Colégio Anchieta chegou a um consenso com seu corpo discente, a despeito de ser um colégio de padres.

Ainda assim eu gostaria de explorar o seguinte trecho do manifesto:

“Ao invés de humilhar meninas por usar shorts em climas quentes, ensine estudantes e professores homens a não sexualizar partes normais do corpo feminino. Nós somos adolescentes de 13-17 anos de idade. Se você está sexualizando o nosso corpo, você é o problema.”

Para contrapor este argumento, eu cito o seguinte texto:

“Apesar de amplamente difundidas, as idéias de Freud sobre sexualidade infantil ainda são muito pouco compreendidas e, muitas vezes, são concebidas de forma equivocada e parcial. Desde o século XIX, com ênfase para a publicação de “Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Freud atentou para a existência da sexualidade infantil, para o desejo que a criança sente em possuir a mãe, em torná-la objeto de seu desejo. A criança possui zonas erógenas, sente prazer com seu próprio corpo e a sexualidade faz parte de todo o desenvolvimento humano, desde o nascimento, a amamentação, a adolescência, até a morte. Para a época, a teoria de Freud sobre sexualidade infantil foi considerada imoral e desrespeitosa, o que, atualmente, parece um grande absurdo.

A questão é que a sexualidade existe em todas as etapas da vida, e não possui nenhuma relação com inocência (ou falta de) – cá entre nós, a associação entre sexualidade e culpa, ou falta de inocência é algo que, infelizmente, nós mesmos é que incutimos nas cabeças de nossas crianças e, “graças” a isso, geramos adultos insatisfeitos ou obcecados pela sexualidade em suas diversas expressões, como, por exemplo, a forma física – cultuada e exigida mesmo na mais tenra infância. Aliás, a sexualização (e NÃO sexualidade) que, muitas vezes, é apresentada de formas tão “inocentes” como concursos de beleza infantil, e a forma como os padrões de “certo” e “errado” sobre o que é ser bonito – e aceito – em nossa sociedade, é que gera efeitos de grandes proporções na personalidade da criança, na forma com que essa se relaciona com os demais e com sua própria sexualidade.”

Então eu vejo ainda certo ranço de moralismo hipócrita cristão quando as alunas apontam que existe problema na sexualização do corpo. Todo ser vivo nasce com uma sexualidade e seu corpo expressa tal sexualidade em seus traços anatômicos os quais, graças aos Deuses, fazem com que pessoas sintam atração por outras pessoas e propaguem a espécie. Sexualizar é parte da sexualidade, pois possuímos atributos que dão caráter sexual , dão conotação erótica ao corpo do ser vivente. O problema, portanto, não está na sexualização, mas na objetificação, no fetichismo, na sujeição da mulher.

O discurso de nossa sociedade é dúbio e parcial. Os códigos de condutas são rígidos para a mulher, mas são liberais para o homem. Enquanto a educação cultural impõem valores e virtudes para a mulher, a mesma educação cultural considera normal que o homem tenha mais flexibilidade diante destes mesmos valores e virtudes. Esse padrão dúbio é demonstrado nas regras sobre vestimentas. Notavelmente um homem pode se vestir como quiser sem sofrer qualquer tipo de restrição, coerção ou assédio. Uma mulher tem sua índole e reputação definidas conforme as roupas que veste. Este é o cerne do que as alunas protestam.

Existe uma diferença de discurso, quando a sexualização é feita mediante a objetificação da mulher, conforme a supremacia masculina determina e espera que a mulher seja sujeita e obediente ao homem. Quando a sexualização muda de objetificação para empoderamento, a mulher reconquista seu inegável direito sobre sua vida, seu corpo, seu desejo, seu prazer e sobre seus relacionamentos. Aqui a mulher é a protagonista, não a submissa. Aquilo que ela veste deixa de ter o sentido socialmente imposto que isto é sinal de que é uma mulher disposta, disponível e convidando o homem para uma abordagem sexual. Este é o objetivo do movimento das alunas.

Eu aplaudo a iniciativa das alunas e estimo que em breve sejamos uma sociedade evoluída, onde todos tem o direito e a liberdade de amar quem quiser, quantos quiser.