Tombando a obra

– Escriba? Ainda está vivo?

– Sim, princesa.

– Eu te peço que use sua arte para esconder o que você testemunhou.

– Pela primeira vez meu ofício é respeitado. Para que o que aconteceu não se perca, para as futuras gerações, permita-me, majestade, contar com sutileza de nossa aventura.

– Faça-o com cautela. Eu recuperei minha forma humana e carnal, então não convém que meus futuros súditos saibam sobre minha verdadeira natureza.

– Saberei usar das palavras adequadas, princesa.

– Quanto a você, barão, eu te peço que não tome esse evento recente em mérito para propor minha mão em casamento.

– Isto nunca passou por minha mente, princesa. No entanto eu te peço que me permita escolta-la em seu retorno ao teu palácio. Com alguma sorte, nós poderemos reencontrar com nossas amigas.

– Eu bem sei que quer ver novamente minha mãe, mas isto é com ela e meu senhor. Minha preocupação no momento é com meu senhor e minha Dolores.

– O dragão… sumiu. Quem seria ela?

– Eu tenho um palpite de que este dragão é o espírito da natureza que tutela todo o reino de Gotardo. Meu senhor contou-me de como seus avós descendem dos dragões, por isso que o estandarte de sua família e do reino tem um dragão.

– Ainda que eu tenha feito minha parte e ajudado nesta vitória, minha batalha está apenas começando. Eu ainda tenho que conquistar Dolores, se é que ela vai me dar alguma chance. Do contrário, com sua permissão, princesa, eu vou partir de Gotardo em busca do dragão.

– Escriba, como você me auxiliou e ainda tenho um resquício de minha verdadeira natureza, eu te digo que há de encontrar o dragão dentro da sua e da minha Dolores. Fique conosco e talvez eu te ajude a descobri o mistério.

– Ora, isso não é justo! O escriba está conhecendo mais mistérios, sendo novato no Caminho Antigo, do que eu mesmo pude desvendar em toda minha vida!

– Do que reclama, barão? Acaso saborear de minha carne não te foi suficiente? Você mergulhou no mais profundo mistério e ainda quer mais?

– Desculpe, princesa. Eu quis apenas provocar o escriba.

– E eu apenas quis te provocar. Vamos, meninos, pois temos muito ainda a fazer.

O que pode ser dito depois da manifestação divina é que Gotardo manteve-se livre e independente. Righel teve o fim que todo traidor merece. Savério providenciou para que a abadia de Hildegarda mudasse em definitivo para seu reino. Merovas visitou Lucia mais vezes. A Igreja continuou seu projeto de expansão e domínio total da Europa. Lucia deu ao escriba seu dia de triunfo e este passou o resto de seus dias enrolado com Dolores. O Senhor da Floresta continua escondido em seu santuário. O dragão misterioso está andando por aí.

Cenas de alegria incomensurável podem ser descritas, como se o escriba tivesse um final feliz com Dolores, mas não há um final feliz e sim um começo feliz. Eu poderia incluir algumas cenas eróticas entre o barão e a princesa, ou entre o rei e a abadessa. Muitos maiores e melhores que eu o fizeram com mais propriedade.

Ora, tudo que vive tem seu fim, isso inclui um texto. Eu contei, como se fosse um segredo, uma confissão. O leitor empresta, por conta e risco próprio, credibilidade a este escriba. Como disse o sábio, um bom escriba [ou
como dizem, escritor] é um bom mentiroso. Pacientemente expus minha arenga e o leitor é meu cúmplice. Mas verdade seja dita, eu invento, troco e inverto os personagens, os nomes e os lugares.

Não há desfecho no que não há fecho nem trava. Eu gostaria que minhas histórias fossem mais verídicas, mas muita coisa deve ser oculta. Não há graça nem maravilhamento algum em falar que Constantino e Teodósio impuseram Cristo a todo mundo ocidental. Nada podemos fazer senão lamentar que a Europa foi cristianizada pela força e pela espada. Nada podemos alegar senão chorar, pois o conhecimento das coisas passou severa restrição até a Renascença. Desde que César cedeu a Cristo, a Europa conheceu mais guerras, desavenças, pragas e miséria do que em todo seu passado pagão. Por ouro, título, nobreza, armas e exércitos, reis ajoelharam-se para a Igreja.

Felizmente não há mal que perdure e a Europa foi reconstruindo e recuperando suas raízes e origens. Aos poucos, por forças além da compreensão, a Igreja foi perdendo seu poder ditatorial e a humanidade pode procurar outros caminhos e redescobrir sua liberdade. Diante do futuro que se descortina, declamar qual foi o destino do escriba com Dolores torna-se irrelevante. Falar que Lucia nunca existiu sequer faz cócegas. Falar que Merovas é o mítico Meroveu, que deu origem a Carlos Magno e ao Império dos Francos fica sem sentido. Falar que a Deusa que reina na Europa disfarçou-se de Santa Maria é heresia desnecessária. Falar que o Senhor da Floresta foi difamado e distorcido para refletir as pavorosas imaginações dos cristãos sobre o Diabo é ridículo.

A Igreja somente tem poder porque ainda tem gente que assim deseja. Os governos de todos os países são o que são por reflexo de seus cidadãos. Crendo ou descrendo, somos pessoas, limitadas e falíveis. Então o escriba não insere seu desfecho, deixa seu caderno em branco, para que cada ser humano escreva como quer sua vida, de hoje em diante.

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