Entre barões e dragões – III

Houve quem disse que a pena é mais forte que a espada. Dependendo do momento, um ou outro escriba, um ou outro pensador, um ou outro sábio reclama a ele a autoria da frase, mas eu queria ver estes esgrimindo com suas penas diante da espada. Isto é a guerra, apenas quem passou pela experiência pode declarar sobre seus terrores e eis que eu vi como que o céu sentindo a sede de sangue no coração dos homens. Lanças erguiam-se contra as nuvens, como se fossem pinheiros, cada banda do vale carregado de soldados, cavaleiros e armas. Cada lado tinha seu estandarte, sua insígnia e cores. Tanto ali como cá, pessoas que antes eram vizinhos, amigos ou familiares, agora podem muito bem estar em lados opostos e não hesitarão em se matar.

– Ora, quem diria! Vendo-o assim, em gibão, cota de malha, cinturão, bainha e espada, eu não saberia que é um escriba. Veremos se é tão bom no manejo de uma espada como é bom no manejo da pena.

– Dolores, meu coração, eu fico muito feliz que tenha dito que eu sou bom na pena e te prometo que voltarei vitorioso da batalha. Eu peço apenas em troca que aceite de vez meu amor.

– Amor? Você acha mesmo que sabe algo sobre amor, por saber usar palavras bonitas? Você acha mesmo que há amor entre nós apenas por causa de minha fraqueza? Nem mesmo os Saxões que conquistaram a Bretanha conseguiriam conquistar o coração de Beaudicca.

– Bem que o rei ensinou-me essa verdade. Mais valoroso e honrado é o herói que conquista sua amada. Pois mate-me aqui mesmo em campo de batalha e ainda assim eu morrerei feliz.

– Que raro! O escriba mostrando que tem língua afiada! Muito bem, isto eu lhe concedo. Volte vitorioso e eu te darei a oportunidade de provar seu valor em uma batalha contra mim.

Dolores diz e promete isto, saindo em seguida como se tais palavras coisa alguma significassem. Ao meu lado, o barão Merovas balança a cabeça para os lados, com um olhar triste, como se fitasse um soldado que corre para sua morte. A cavalaria postou-se adiante, a infantaria atrás e pelas laterais. Nos cimos dos morros, as máquinas de guerra e os arqueiros. A estratégia consistia em avançar apenas um terço e depois os outros dois terços avançassem contra as tropas que avançassem do outro lado.

– Escriba, a hora está chegando. Tem certeza de que quer fazer isto?

– Sim, barão Merovas. Por um breve instante eu fui respeitado e tratado como um ser humano. Se a luta pode me conceder o louro da glória, se desembainhar uma espada tornar-me-á digno de poder andar pelas ruas em paz, eu vou sem temor.

– Escriba, não há honra e glória em morrer. Nenhum mérito, medalha ou louro vale o preço de uma lápide.

– Disto eu sei, o rei assim ensinou-me. Mas eu devo ir adiante, senão como eu poderei encarar Dolores?

– Então, meu caro, coloque a força de seu coração na espada. Se teu amor for tão forte assim, você tem chances de sobreviver.

Trombetas ressoam pelo vale. Eis a hora! O chão treme com a movimentação dos exércitos, projeteis zunem pelos ares, homens gritam por coragem e dor. A terra fica empapada de sangue, ossos e vísceras. No chão os corpos vão aumentando de numero e ali estão também crianças, jovens e mulheres, com e sem uniforme de batalha. O horror do campo de batalha é tanto que o sol não demora a se refugiar atrás do horizonte. Fome, sede, cansaço, ferimento, músculos doloridos. Conforme a lua passeia com sua lâmpada, os homens em batalha parecem indicar uma breve trégua. Eu quedei atrás do Muro de Adriano, recuperando o fôlego e observando se há algum ferimento letal em meu corpo. Mais dois somaram-se em meu refúgio e eu notei que era a princesa e o barão.

– Então, escriba, o que acha do ofício do soldado? Por acaso há tanta agrura em teu ofício?

– Meu senhor, eu te peço que poupe seu folego. O escriba provou que é digno da missão que lhe foi conferida e, se daqui voltarmos vivos, eu mesma tomarei as providências para que ele possa desfrutar de seu triunfo. No momento, nós temos que pensar no que podemos fazer. Não que estejamos perdendo, mas não estamos ganhando. Nós temos reforços? O adversário tem reforços? Até quando podemos aguentar? Até quando o adversário pode aguentar? O que mais podemos fazer? O que mais o adversário tem para oferecer?

– Minha princesa, quisera eu ter as respostas. Mas eu não estou em condições. Eu acabei de matar com minhas próprias mãos pessoas que eram meus parentes e familiares. Isto é o que tem acontecido na Europa, desde que os reinos aquiesceram e adotaram o Deus Estrangeiro imposto pelos Romanos. Os reis de antes poderiam ter lutado, resistido. Ficamos assim tão fortes e poderosos? Eu espero que sim, porque apenas com a força de um Deus nós poderemos vencer.

– Acredita mesmo que os Deuses estão nesta luta, barão? Acredita mesmo que um homem pode conter em seu corpo o poder de um Deus? Pergunte ao escriba a sensação de ver com os próprios olhos o Senhor. Eu poderia facilmente possuir seu corpo e usá-lo na batalha, mas você aguentaria? Você possui grande poder, mas mesmo todo seu poder é meramente físico. Não, teu corpo não me serviria, mas a princesa tem um poder que vai além do físico. Então eu ouso a te perguntar, Lucia, você quer ganhar essa guerra ou ainda está dispersa em teu orgulho e vaidade?

Nós três olhamos assustados e espantados para a parte de cima do Muro de Adriano onde um dragão devia estar nos observando e ouvindo há algum tempo. Em qualquer outro lugar e região este dragão seria perseguido, caçado e morto. Cavaleiros contam, orgulhosos, de como enfrentaram e venceram um dragão, descrevendo-o como uma fera irracional e de aspecto ameaçador. Mas este dragão que eu conheci era bastante simpático, tinha algo de feminino e vestia roupas humanas.

– Diga, grande espírito da natureza, conhece-me?

– Sim, Lucia, eu a conheço desde antes de assumir esta forma carnal.

– Como isso é possível? Eu existia antes de agora? Como eu não me lembro de coisa alguma?

– Não te recordas porque está presa neste vaso. O aparelho que dispõe é limitado e falível. Então teu espírito adormece para que tua alma possa preencher e usar este vaso. Mas se confiar em mim, eu posso te despertar. Eu só precisarei da chave certa e da fechadura adequada.

– Diga-me o que devo fazer, grande espírito da natureza!

– Pois bem, uma vez que está disposta e pronta a aceitar e confiar em mim, eu te digo. Aqui e agora, eu irei preparar o devido ritual, onde eu irei invocar o Senhor da Floresta. Este escriba vem a calhar para ativar em mim o necessário. A ti, princesa, caberá fazer o sacrifício. Você deverá deitar-se no altar e então deverá receber em teu ventre a essência do barão. Somente com a sua união carnal com ele é que eu poderei despertar seu verdadeiro espírito.

– Isto que me exige é demais! Eu ainda não conheci homem e ainda não estou inteiramente crescida! Além do que o barão é praticamente meu tio!

– Quantas bobagens te ensinaram! Qual a idade que você possui? Esta contada e definida pelos homens, ou a que efetivamente tens desde sua geração na formação do mundo? Com qual medida esquadrinha teu corpo, por aquela definida por homens, ou pela tua própria? E mesmo que nos atenhamos à tua forma carnal presente, de maneira alguma o toque intimo te é desconhecido. Pouco ou quase nada difere o que faz um homem com uma mulher do que uma mulher faz com uma mulher, pois tudo é o mesmo amor. Qual a sua linhagem? Esta, que pertence às estrelas, ou esta mortal que é intrincada? Ainda que este homem fosse teu parente por parte de sangue, nada os impede a tal ato e saiba que a família é melhor escola para tal jogo. Acalme seu coração, ele não tem parentesco sanguíneo e eu não estou te pedindo para que tenha filhos com ele. Depois de você despertar, achará engraçado toda essa conversa, irá lutar e vencerá. Após sua vitória, seu espírito se acalmará e isso será esquecido. Eles esquecerão.

Righel estava em sua tenda de batalha, a milhas de distância do campo de batalha e observava, com imenso prazer, os homens se matando para realizar os seus sonhos. Ele levantou uma taça de vinho para celebrar a estupidez humana, quando um enorme clarão seguido de um estrondo e calor, apareceu em algum ponto da carnificina. Righel custou a acreditar em seus olhos, mas de alguma forma, surgindo do meio da fumaça da batalha, eis que ele via a Estrela da Manhã pairando acima das árvores. As mãos, pés e o tronco de Righel tremeram de medo. Ele tentou achar algum padre para exorcizar tal aparição, mas estes tinham fugido, provavelmente correndo na mesma direção que o Deus Tirano corria. Righel quis rezar alguma coisa ensinada pela Igreja, mas esta certamente estava tremendo diante da aparição do que ela chama de Lúcifer, mas que foi chamada de Ishtar pelos Acadianos, de Vênus pelos Romanos e de Afrodite pelos Gregos.

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