Entre barões e dragões – II

Oh, Musas, porque pousaram em Brundísio, Florença, Stratford, mas não em Vila do Piratininga? Quisera eu ter uma língua boa, mas nasci com um trapo entre os dentes. Oh, Ceres e Demeter, porque fizeram dos filhos da loba uma civilização, mas da Terra de Vera Cruz fizeram uma piada para a humanidade? Cem macacos com pena, tinta e papel produziriam obras melhores que as minhas. Oh, meus mestres do oficio de escriba, que desgraça meu nome deve trazer a esta guilda. Eu os ouvia falando de como Ulisses logrou as sereias, por quem a lenda nos ensinou lição severa, pois eu ousei a ver pelos olhos de Homero e que mistério eu tenho que me calar, não pelas sereias serem tanto meio mulheres e meio aves e peixes, mas porque elas são filhas das Musas e netas de Mnemosine! Filha de Gaia, cujo ventre divino gerou a titanesa Metis, aquela que, engolida por Zeus, deu origem à Atena, a Deusa da Civilização e Górgona! A maldição do escriba é ousar saber e ter que calar, pois o poeta que come da fruta da Deusa conhece tudo, mas o preço é a morte.

O leitor pergunta o que eu tenho com Ulisses, pois eu explico. Assim como Ulisses aproximou-se da caverna sagrada guardada por sereias, eu me aproximei do santuário que existe dentro da Montanha de Falcis. Bem eu sei que alquimistas e doutores ensinados por padres ou outros acadêmicos desdenham da crença, mas é necessário buscar a Sabedoria como se caça um cervo na floresta, o Caminho do Bosque Sagrado está aberto a quem tiver coragem de enfrentar o labirinto que nos conduz à Verdade. Nessas poucas e breves mal traçadas linhas eu deixei uma pista do mistério que Ulisses desvendou ao ouvir as sereias.

– Ainda está perdendo seu tempo rabiscando este caderno?

– Oh, Dolores, por que tortura tanto meu pobre espírito? Esta é a minha sina e o leitor quer ler.

– Pois se tem que escrever, o faça sem rodeios! O leitor, se é que tem algum, não precisa de delírio ou fantasia, diga os fatos.

– Oh, meu coração, este é o trabalho do jornaleiro, não do escriba.

– Ah, bandido, quer novamente arrastar-me com suas palavras! Cale-se maldito e escreva. Dou-te conta depois.

Afastado de rotas e estradas, o santuário está na base da Montanha de Falcis, um local que ainda preserva a floresta e as ruínas de um tempo remoto. Mesmo um guia hesitaria em atravessar tal região e o povo contam várias lendas sobre a sorte de viajantes e aventureiros que por ali passaram. Por arte ou por natureza, a rainha nos conduz em segurança até a entrada de uma caverna, cuja entrada está ricamente decorada com relevos. Eu olhei para a penumbra e pude perceber pequenos focos de luz bailando pelo ar, mostrando que ali é um lugar sagrado, por onde as almas entram ou partem desse mundo. Eu recordo de ter ouvido os anciãos terem dito que a montanha é o corpo de uma antiga Deusa e em seu interior habita o Senhor da Floresta, de quem nossos patriarcas míticos são descendentes e herdeiros. Este é um aspecto de semelhança que existe nos mitos e lendas da fundação das cidades e civilizações, onde um semideus ou filho de um Deus faz o fundamento de uma cidade e ensina aos homens a sabedoria dos Deuses. Dolores segura apreensivamente meu braço, mas não é para censurar, mas sim para alertar que algo ou alguém estava se aproximando.

– Evoé, a quem está dentro do santuário. Nada temam, pois eu vim em nome do rei Savério para lhes garantir a segurança. Este que vos anuncia a chegada pronuncia seu nome para que o reconheçam como servo do Senhor. Eu sou o barão Merovas, senhor do feudo dos Francos.

– Ieauo, a quem está fora do santuário. Aproxime-se que nós o estávamos esperando. Esta que te reconhece pronuncia seu nome, pois também é serva do Senhor. Eu sou a duquesa Fillardis, senhora do feudo de Mântua, rainha de Gotardo.

– Fillis? A minha Fillis? Ora, em nome de Morgana, é a minha pequena Fillis! Venha cá, minha preciosa! Faz um bom tempo que não a vejo.

O cavaleiro desce de seu cavalo de guerra, tira o elmo e revela uma face cansada e acostumada com batalhas. Seu estandarte porta um singelo dragão negro em um fundo vermelho, sua armadura é composta de um metal que eu desconheço e está decorada com veludo púrpura, indicando sua nobre linhagem. A rainha caminha apressadamente e abraça ternamente o cavaleiro para depois proceder com as apresentações.

– Meus queridos súditos e amigos, este é barão Merovas. Mas eu diria que ele é o rei dos Francos. Por intrincadas relações familiares ele é meu primo, o que faria dele seu tio, Lucia.

Lucia perscruta o cavaleiro de alto a baixo, com um olhar intrigado, com uma expressão de incredulidade e como se tentasse reconhecer sua face de suas memórias.

– Diz o sábio que não existem coincidências. Quis a Fortuna e o Destino que nos encontrássemos, então faremos algo disso. No momento, meu senhor, a presença da abadessa Hildegarda nos é necessária para invocar a presença do Senhor da Floresta e, através dos ritos apropriados, solicitar ao Senhor uma aliança para que tenhamos alguma chance de vitória contra nossos inimigos.

– Aqui estou, princesa.

O rosto de Hildegarda estava fulgurante, seus olhos brilhavam como as estrelas e seu sorriso parecia uma lua crescente. Eu não entrarei em detalhes do motivo por tal transfiguração na abadessa, mas creio eu que isso é devido ao tempo gasto em companhia do rei. Eu bem sei que os pobres cristãos veriam nisso escândalo, mas estamos em um tempo e uma região onde a Igreja não manda. A humanidade sempre teve regras e modos próprios para o amor e relacionamentos e o costume é de que um coração não é como uma fazenda, onde o meeiro ou ocupante é dono, o coração obedece a Eros e Afrodite e estes não definem classe, gênero, guilda, ocupação, numero ou idade, o que há são pessoas amando pessoas. Assim, ao contrário do costumeiro dos hábitos da nobreza, a rainha não fez caso nem ciúme, felicitou-se por que seu amado foi capaz de satisfazer a abadessa e contentou-se pela abadessa ter tido o prazer de experimentar o gosto da geleia real.

– Excelente, abadessa. Por favor, inicie os preparativos para o ritual onde invocaremos o Senhor da Floresta.

– Imediatamente, vossa majestade. Mas e quanto a… isto?

Os olhos se voltam para a mesma direção em que o indicador de Hildegarda aponta e eis que apenas agora minha presença é notada pelo barão. Certamente a rainha, a princesa e a abadessa sabem bem desses ofícios clandestinos executados em ruínas, igrejas abandonadas e entre círculos de pedra na floresta, mas o que eu posso dizer de mim? Eu mal sou considerado gente, eu sou um escriba.

– O escriba não estaria conosco se não fosse necessário, além do que devemos considerar que Dolores também é profana, o que é igualmente propício para os antigos rituais. O Senhor da Floresta mostrar-se-á mais favorável à nossa petição se um homem e uma mulher forem apresentados e iniciados nos Mistérios Antigos.

– Ora, que interessante. Nós estamos considerando não apenas conceder ao escriba sua condição como homem como também faremos dele um iniciado! No entanto isso depende de Dolores. O que me diz, cara amiga, aceita fazer este sacrifício?

– Minha rainha, eu sou uma mera serva a serviço de sua filha. Se este é o preço que me cabe, apenas vos peço que ordene e diga-me o que fazer.

– Isto será bastante simples, não há muito segredo, achegue-se aqui comigo e Lucia, pois ela precisa também saber e preparar-se para quando o momento dela chegar. Enquanto isto, escriba, o barão há de te ensinar o que fazer e dizer.

Ah, o que eu ouvi e soube! Ah, o preço do conhecimento! Nenhum livro pode conter tais práticas e palavras, pois são chaves que abrem a realidade divina. Eu a tudo ouvia e acenava consciente e concordando, ao mesmo tempo em que observava Dolores ao longe, evidentemente nervosa e contrariada com a parte que lhe caberia. Evidente que eu estava contente e alegre, nunca em toda minha vida eu poderia sonhar com tal mercê. Como eu, mero escriba, poderia ser necessário, como eu poderia servir, como eu poderia almejar a consideração que cabe a um ser humano, nem mesmo meus maiores delírios chegariam a tanto.

– Muito bem, os preparativos estão concluídos. Apresentem-se o homem e a mulher que, segundo o desejo e vontade de seus corações, estão dispostos a oferecer o devido sacrifício ao Senhor da Floresta.

Seguindo a fórmula que lhe foi passada, Dolores entoa seu nome, não o nome que é dado no batismo, mas o nome que é o de sua alma. Eu, vendado, amordaçado, com mãos e pés atados, senti quando me aproximei da borda do círculo sagrado, proferi as palavras e os códigos para então ser admitido diante do altar central. Eu senti o frio da lâmina de uma espada tocar o alto de minha cabeça, o centro do meu tórax e minhas partes baixas. Eu tive minha testa, rim esquerdo, ombro direito, ombro esquerdo, rim direito e novamente a testa ungidos com óleo aromático. Quando eu tive minha venda removida, eu pude ver todo o interior da caverna tão iluminada quanto uma catedral. Então eu vi que o altar estava forrado como se fosse uma cama e Dolores estava por cima completamente nua. Eu devo consumar com ela o Hiero Gamos e, com isso, o Senhor da Floresta há de vir e ouvir nossa petição. Dolores me fitava com olhos raivosos, mas essa era a nossa oferenda, sacrifício que assim que teve inicio, Dolores passou a gemer e me fitar com olhos amorosos. Quando meus sentidos foram envoltos pelo arrebatamento do prazer e minha essência preencheu o ventre de Dolores, antes de desfalecer eu vi a face do Senhor.

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