Entre barões e dragões – I

Lucia ouviu tudo o que Hildegarda tinha para lhe contar e Dolores está de olho no que eu anoto então o leitor me desculpe se eu omitir tal diálogo. Eu me encontro emaranhado nisso até a medula, então mais uma vez lá vou eu, arrastado através do castelo, até a sala particular do rei Savério onde as três mulheres entram e me jogam ao chão, diante de um rei surpreso.

– Ora, ora, se não é minha bela Lucia e sua amiga! Entrem sejam bem vindas. Poderiam me apresentar para estes visitantes que vocês me trouxeram?

– Meu senhor, esta é Hildegarda, da abadia das Irmãs da Solicitude. Ela é amiga de Dolores e tem revelações que podem livrar Gotardo de um grande mal.

– Um grande mal? Não há grande mal, apenas homem pequeno. Mas falando em homens, que é este que tanto rabisca em um caderno?

– Ninguém, meu senhor, esta criatura sequer é merecedora de ser chamada de homem.

– Ah, Lucia, se você soubesse quantas vezes este homem velho foi olhado com desprezo por pessoas que acreditavam serem superiores, não diria isso. Adiante-se, homem, apresente-se.

– Meu Supremo Soberano, eu sou um pequeno, pobre e humilde escriba às vossas ordens.

– Ah, viram? Não foi assim tão ruim. Diga, homem, o que tens com estas beldades que o faça vir até aqui?

– Oh, Bom Senhor, esta é a minha sina. Eu sou carregado pelas palavras e pelos livros. Eu sou como que possuído por um espírito que me conduz a ler e escrever. Seja por Fortuna ou Destino, este pobre escriba teve a graça de conhecer Dolores e é por ela que me vejo conduzido à vossa presença.

– Oh, meu pobre home, eu sei pelo que passa. Quantas vezes eu, apesar de regente deste reino, não me vi sendo conduzido por amor por minha Fillardis? Se for deste mal que sofres, sofra-o com orgulho, pois é um sofrimento prazeroso. Venha um dia desses e me traga seus escritos que eu quero ler todos.

– Meu senhor! Não pensa em dar a tão baixa e vil criatura tal distinção?!

– Ora, um homem que conquista o coração de uma mulher merece o respeito de um rei que conquista um reino, pois vejam que é a mesma coisa! Se ele não fosse importante ou significante ao menos para uma de vocês, não o teriam trazido até aqui. Então vamos deixar de cerimonias, pois a acusação contra Righel é grave e nós devemos pensar bem em nossa estratégia.

Oh, Themis, oh, Musas, ouvistes minhas preces! O meu senhor e soberano não apenas me tem por conta de ser humano, como me considera digno de ser lido! Sim, eu vejo que a santa Hildegarda sorri, aquiescendo diante da sabedoria do rei, ainda que a contragosto de Lucia e desconfiança de Dolores. De uma, eu sei que tenho muitos pecados a me justificar, mas eu peço a vós, Deusas, pleiteiem por mim diante de minha senhora, a quem ofereço a mais profunda admiração e devoção!

– O que você tanto murmura escriba? Mais tarde dou-te conta!

– Oh, Dolores, porque faz tão mau juízo deste pobre homem que apenas deseja dar-te seu carinho, atenção e amor?

– Pelo que roubaste de mim! Bem sei o que fazes entre as árvores nas noites de lua cheia, então peça mercê a Diana, pois maculada que eu fiquei por ti, não poderei encontrar um bom partido e minha família certamente ficará desonrada se oferecer meu dote a um cavalheiro distinto!

– Oho! Uma pequena discussão entre dois enamorados. Creia-me, Dolores, não há diferença alguma entre este escriba e qualquer cavaleiro, mesmo o de nobre nascimento. Nós, homens, somos exatamente os mesmos, sem roupas e debaixo de lençóis.

O rei Savério diz isso bem ao lado de Dolores enquanto gentilmente rodeia seu tronco com seus braços e pousa uma de suas mãos no quadril dela. Eu estou salvo da fúria de Dolores, então eu engulo meu ciúme por ver os olhos dela brilharem e suas faces ruborizarem diante da proximidade e do abraço do rei. Lucia pigarreia, como que para retomar o foco para o que eles se propõem a discutir e o rei dá uma piscadela para mim antes de sentar-se ao lado de Hildegarda. O rei debaixo de sua coroa é um homem e é rápido e objetivo ao escolher seu alvo.

O rei deixa as mulheres falarem conforme desejam, apenas acena com a cabeça e mantém uma feição de seriedade. Lucia demonstra ter um tino praticamente genético em estruturar estratagemas, como se estivesse em um jogo de xadrez, antecipando e prevendo as ações de Righel. Dolores a animava, enérgica e encorajadora, reforçando como se fosse um eco algumas palavras que pareciam importantes. Hildegarda sorria e de vez em quando olhava, ora para o rei, ora para mim. Nenhum alquimista saberia o mistério que esta mente divina está urdindo. Ela não parecia nem um pouco incomodada ou ofendida com a evidente atração carnal que exercia no rei e este certamente deve estar imaginando mil estratagemas para levá-la para sua cama real. Eu acho que eu mesmo coraria, se ouvisse os pensamentos que o rei nutria por Hildegarda. Eu certamente iria para a forca se tentasse algo assim com a Dolores. Quando as mulheres despejaram seu rol de ideias, o rei, ao ver que quedavam pensativas e em silêncio, interrompeu a reunião, batendo com o punho fechado por sobre a mesa.

– Muito bem! Tudo que dizem é sensato e correto. Eu peço a tais beldades que confiem nesse homem velho para que cuide de tudo. Eu também devo pedir a vós que fiquem no antigo santuário que existe na Montanha de Falcis, onde um bom e velho amigo de confiança que eu chamarei lá estará para que as protejam.

– Meu senhor! Acredita mesmo que eu não seja capaz de vestir uma armadura, montar um cavalo de batalha, tomar lança e espada e estar na frente de batalha contra nossos inimigos?

– Oh, minha majestosa e luminosa princesa, eu jamais pensaria tal coisa! O que mais me acalenta diante da batalha é saber que mesmo os Deuses temem quando uma Deusa está vestida para a guerra. Mas minha vida é dispensável enquanto a tua é mais preciosa do que todas as terras de meu reino. Você, encarnação de Vênus, terá a incumbência de cuidar de minha esposa, Fillardis.

Lucia ficou embaraçada, mas aceitou o conselho de seu rei, levando consigo a rainha e sua Dolores. Com a desculpa de que diante de inimigos poderosos que teriam o Deus Usurpador ao lado deles, o rei solicitou para que a abadessa ficasse mais um pouco ali, pois com a ajuda dela poderiam conseguir o apoio do Deus Legitimo. Antes de eu ser arrastado novamente, eu pude ver Hildegarda com um sorriso estampado no rosto, satisfeita pela oportunidade de poder experimentar o poder do cetro do rei entre suas pernas.

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