As Irmãs da Solicitude

Quando os Romanos conquistaram a Gália, os territórios estavam ocupados por diversos povos descendentes dos Celtas e quando os romanos trocaram César por Cristo, estes povos trataram de disfarçar suas crenças, práticas e Deuses debaixo da roupagem cristã. Assim, vivendo na clandestinidade, surgiram diversas ordens, irmandades, conventos e mosteiros que, a despeito da cruz postada em seus pórticos, ainda celebravam seus ritos antigos. Estas coisas aconteciam amiúde nos campos e regiões ignotas e foi ali, em algum lugar da fronteira entre Mântua, Campânia e Astrésia, que surgiram as Irmãs da Solicitude.

As Irmãs da Solicitude compunha-se de freiras lideradas pela Madre Superiora Iris. Pelas roupas, linguagem e aparência, pareciam ter vindo de algum lugar além de Constantinopla. Chegaram trazendo junto com elas uma imagem que parecia ser de Nossa Senhora, os padres e habitantes deram de ombros e julgaram ser cristão o suficiente. Havia tanta confusão, mesmo entre patriarcas e bispos da Igreja, o que era ou não cristão, existiam tantos conventos e mosteiros que professavam coisas que poderiam ser consideradas heresias que ninguém fez muita questão de se certificar o quanto as Irmãs da Solicitude comungavam ou não com os dogmas da Igreja.

O edil da cidade fez o que lhe cabia, cedeu terreno, material humano e físico para que a Madre Superiora pudesse erguer sua abadia. Com os braços de escravos, servos e voluntários, o prédio ficou rapidamente pronto e foi inaugurado com toda a pompa, com uma fila de mulheres querendo entrar a irmandade. Eu peço aos leitores de outras terras, épocas e costumes que não façam mal juízo destas mulheres. Nestes tempos obscuros, para as mulheres era uma questão de sobrevivência poder ingressar em alguma ordem religiosa. Antes ser “noiva de Cristo” que, pregado que estava, mal não lhes fazia, do que ser loteada ou vendida por suas famílias em troca de um bom dote.

Os habitantes locais acharam estranho quando a abadia colocou cadeiras, mesas, tonéis ao invés de ara, santuário e santos. Alguns ficaram constrangidos no início, ao verem que não havia missa ou oração, as pessoas podiam entrar e sair quando quisessem, podiam sentar e pedir comida e bebida. Mas não demorou muito para que os homens, principalmente, começassem a nutrir um interesse profano pela abadia e suas freiras. Ao invés de claustros, a abadia mantinha nichos ricamente decorados e estofados dentro de suas paredes, onde as irmãs atendiam, solicitamente, aos desejos das almas famintas.

A despeito desse serviço carnal, um escândalo para um bom cristão, não faltavam candidatas ao noviciado. Hildegarda apareceu na porta da abadia, sem mais nem menos, pois o serviço sagrado era melhor do que aceitar casar-se com um velho beberrão que ela sequer conhecia. Iris não a questionou nem a interpelou, pediu para que lhe colocassem o hábito de noviça e a colocou para os serviços mais simples. Varrer a abadia, limpar as mesas, regar o jardim, carregar mantimentos ou qualquer outro serviço que suas agora irmãs passassem para ela, o fazia. Somente depois é que Hildegarda pode aprender como atender os penitentes, como servir comida, como servir bebida. Apenas bem mais tarde é que Hildegarda pode entrar nas salas internas da abadia, conhecer os nichos e conhecer a quem realmente a abadia estava consagrada: Ishtar, conhecida por Vênus pelos Romanos e por Afrodite pelos Gregos. A abadia ensinava o caminho espiritual pela consumação carnal. Hildegarda deu de ombros, afinal, se aquela que é chamada de Mãe de Cristo deitou-se com Deus, não havia pecado algum em receber dinheiro por tais favores.

Foi comprando mantimentos para a abadia no mercado central da capital de Mântua que Hildegarda encontrou e conheceu Dolores. Ela era mais jovem alguns anos, ela estava visivelmente nervosa, ainda na expectativa de ser aceita na guilda das damas da corte e estava precisando de um apoio espiritual. Em poucos instantes, conversando, ambas começaram uma forte amizade e foi graças aos serviços de Hildegarda que Dolores não apenas foi aceita na guilda das damas da corte como foi admitida para ser aia da princesa Lucia de Gotardo.

Hildegarda visitou Dolores e seu local de ofício, gostou muito do que estava acontecendo em Gotardo e fascinou-se com a princesa Lucia. Então Hildegarda sabia perfeitamente que a confissão de Righel seria útil para suas amigas e assim ela fez. Diante do portão da guarda, Hildegarda se apresentou e solicitou audiência urgente com o rei ou com a princesa. Este humilde escriba estava passando casualmente quando notou o guarda do portão comunicando ao capitão da guarda sobre a solicitação. Sabedor que eu sou da burocracia e protocolo desnecessário que existem no funcionamento de um castelo, eu fui direto falar com Dolores.

– Dolores, eu tenho que conversar com sua senhora.

– O que aconteceu, escriba? Perdeu o pouco juízo que tinha? Eu não vou incomodar minha senhora para o senhor contar suas estorinhas. Eu sei bem aonde isso vai dar, eu caí em sua lábia porque era jovem, ingênua e inexperiente, mas eu não vou deixar o senhor sequer tocar um fio do cabelo de minha senhora.

– Meu ofício sem duvida contribuiu para eu ser tão perturbado, mas saiba que nenhuma pessoa tem poder de obrigar outro a fazer o que não quer e você bem que gostou do que fizemos. No entanto, eu sei meu lugar, eu não irei tocar em sua senhora, isso seria o mesmo que tocar a lua. Ouça-me, ao menos, pois eu vim do portão onde uma mulher, apresentando-se como abadessa Hildegarda, solicita falar com sua senhora.

– Hildegarda? Aqui? Diga-me sem demora o que ouviu!

– A abadessa sabe de coisas sobre Righel que nosso rei deve saber.

– Sobre Righel, hem? Bem que eu suspeitava que este não era um cavalheiro. Venha comigo! Vamos nós mesmos conduzir a abadessa até minha senhora! Se o que ela tiver for bom, eu posso reconsiderar em voltar a fazer nossos saraus.

Dolores estava cheia do espirito, ela tomou meu braço e eu fui arrastado atrás dela, de volta ao portão onde ela, usando o nome da princesa, fez entrar a abadessa.

– Hildegarda, que bom pode vê-la novamente!

– Dolores? Oh, Dolores, que saudades! Mas… quem é este?

– Ah, um João Ninguém, um mero escriba. Venha, eu vou te levar até a minha senhora.

Eu, pobre coitado, mercador de palavras, sou vetado em exercer minha profissão. Diante de beldades tão decididas, sigo eu, arrastado, através dos corredores e salões do castelo até chegarmos em um rico portal decorado onde, debaixo de tal ameias, tinha uma grande e pesada porta, onde, mediante toques ritmados, Dolores indica para alguém do lado de dentro nossa chegada.

– Lucia, sou eu, Dolores. Eu gostaria que a senhora conhecesse e conversasse com Hildegarda, uma velha amiga.

– Uma velha amiga? Entre, Dolores, que eu quero conhecê-la.

Em minha profissão eu vi diversos espetáculos de prestigitadores e ilusionistas, mas não me canso de ficar maravilhado como esta porta abre-se como mágica e desvenda um universo totalmente fora da minha realidade. Conhecedor dos textos e lendas antigas, o dormitório da princesa certamente faria ciúme em muitas Deusas. Ver a própria, em sua pose tão formal, apoiada no costado de uma poltrona ricamente decorada, em nada deveria em beleza, majestade e esplendor a tais Deusas. Eu escondo estas notas, pois ela lança aquele olhar que pode tanto matar um pardal quando gelar o coração de um homem.

– Eu te dou boas vindas, abadessa Hildegarda. Uma amiga de Dolores é minha amiga, então dispense o tratamento protocolar. E… isto… o que é isto, Dolores?

– Ignore-o Lucia. Isto não é sequer merecedor de ser esmagado debaixo de seus pés.

– Não sejam tão duras com o coitado. Que culpa tem por ser escriba?

– Eu vejo que a senhora é realmente uma boa alma. Só mesmo pessoas consagradas teriam compaixão e misericórdia com um escriba. Mas vamos esquecer essa criatura. Diga-me, Hildegarda, tudo o que você tem a dizer.

Oh, cruel sina que nós escribas carregamos. Desprezados e ignorados até por nossa própria família e parentes. O leitor é nosso único amigo, se bem que também nos apedrejaria, se nos vissem na rua. Ainda assim, poupá-los-ei de desnecessárias linhas e lhes direi que Hildegarda contou as confissões de alcova ditas por Righel. Oh, Fortuna, oh, Destino! Eu chego a sentir pena de Righel.

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