Criaturas que rastejam

Dizem que debaixo de toda pedra existe ao menos uma criatura rastejante. Imaginem quantas criaturas devem rastejar debaixo de um castelo que é feito com diversas pedras. Nós sentimos nojo por que estes seres vivos não tem boa aparência, não são fofinhos e vivem na sujeira. Quanto a isso, nós não podemos fazer qualquer juízo de valor dessas criaturas, afinal elas são parte necessária da natureza. Mas existem criaturas rastejantes que perambulam pelo castelo, passeiam tranquilamente por seus corredores, salões e jardins. Destes nós podemos fazer muitos juízos. Debaixo de seus cargos, títulos, nomes, diplomas, vestes e pompa, eles escondem sua verdadeira natureza. Covardes, pusilânimes, traiçoeiros, falsos e fingidos. Não nos enganemos com sua aparência humana ou por sua oratória, são criaturas venenosas e pegajosas. No reino de Gotardo essa criatura era conhecida como Righel, um arconte que cresceu e apareceu dentro da Igreja pelo uso de suas habilidades nada abonáveis. Se castelos é morada de criaturas rastejantes, o Vaticano é o berço.

Righel te uma carreira quase tão interessante quanto sua biografia. Seus pais foram servos de uma família romana que depois os adotou, o que o impediria de pleitear por uma cadeira em um seminário, de forma que ele nega suas raízes e carrega consigo um calhamaço de registros, contendo sua linhagem apontando para uma nobre família romana, mas nada que um falsário de primeira como ele não conseguiria forjar. Em tempos tão difíceis e complexos, a Abadia de Winter o aceitou sem muitas perguntas como monge, um sacerdote não ordenado. Depois de cumprir com seu tempo de estudo, Righel foi para o Seminário de Núrsia para iniciar sua vida sacerdotal, deixando a Abadia de Winter para colher os frutos de sua péssima influência. Depois de dois anos apenas, Righel tinha seu nome indicado para ser pároco de uma pequena vila, como auxiliar do padre, embora o Seminário de Núrsia tenha fechado depois de ter acontecido diversos fatos sem explicação. Evidente, o pobre padre não teve muita chance e o bispo de Voyeur pouco se interessava quem era aquele que apresentava uma carta de recomendação escrita pelo próprio finado o indicando como seu sucessor, qualquer um servia, desde que abastecesse a bolsa do bispo. Quando começou a histeria por causa das heresias, Righel viu ali a oportunidade perfeita para alcançar postos mais altos e foi pelos patrimônios e vidas tomadas que ele chegou a arconte.

O Vaticano não estava exatamente feliz por ter perdido reino de Gotardo. Não estava exatamente indiferente com o edito do rei ordenando a restauração das crenças e religião local. Nem estava esfuziante quando o rei casou-se mais uma vez, com uma nobre de uma região que ainda estava além da força e influência da Igreja. O Vaticano “convidou” Righel como seu “representante” para o casamento do rei Savério com a rainha Fillardis, algo que ele prontamente atendeu, fingindo dedicação e obediência. Sua missão era, obviamente, servir de espião e de policia secreta. O Vaticano deve ter balançado quando Righel enviou seu relatório sobre a estranha proximidade entre a princesa de Gotardo e condessa de Mântua, Lucia, com sua aia. Por outros de seus espiões e emissários, a Igreja secretamente distribuiu uma carta de convocação a todos os reinos para combater essa ofensa a Deus.

Righel, discretamente, sugeriu pelos mesmos canais que deixassem que ele fosse tratar com os reinos de Campânia e Astrésia, reinos que não apenas demonstraram completa fidelidade à Igreja, mas que também tinham assuntos pendentes com Savério, especialmente sobre os direitos e territórios que ele tomou na guerra contra Romualvo, seu sogro.

Uma boa conspiração, vingança e guerra entre parentes e familiares. Disto o Vaticano gosta, especialmente se vier com a conquista de mais almas e mais bolsas. O Vaticano deu a Righel o queijo e a faca, ainda que poucos sábios fossem contra. Righel aceitou de bom grado esse fardo. Rato que é, pegou o queijo todo para si. Covarde que é, pegou a faca para cravar nas costas de algum bispo ou cardeal, se assim a circunstância, a oportunidade e a chance lhe forem mais favoráveis para subir mais alto. Tendo traçado seu plano e operação, Righel apresentou-se diante de Paninfluo, o rei de Campânia e irmão de Romualvo.

– Saudações, Vossa Majestade. Esse humilde servo de Deus se apresenta diante de vosso poder para vos trazer um pedido da Igreja.

– Saudações, arconte Righel. Nós recebemos tua documentação e sabemos de antemão sobre o pedido da Igreja. Evidentemente que nós aceitamos tua causa, que é a causa da Igreja, a causa de Deus. O que nós queremos, em troca, é que, depois de acabarmos com os infiéis, o senhor venha fazer seu santo ofício em nosso reino. Nós sabemos que hereges se escondem em algum lugar desse nosso reino e nós cremos que apenas o senhor tem a capacidade para expurgar essa ignomínia.

– Vossa Majestade honra-me com tal pedido. Se assim for o desejo da Santa Igreja e de Deus, eu aceito este encargo.

Depois de trocadas gentilezas e presentes, Righel partiu contente e feliz para Astrésia, onde ele encontraria o rei Durval que, pelas intrincadas e complexas ligações de parentesco entre nobres, seria tio de Fillardis, o que não impediu a Igreja em indica-lo para contrair matrimônio com a duquesa, um casamento arranjado por vantagens politicas, para a Igreja poder tomar para si o reino de Mântua sem esforço algum. Pouco importa os meios de Righel, desde que o Vaticano consiga dar uma lição ao rei de Gotardo e ainda ganhe Mântua como bônus.

– Saudações, Vossa Majestade. Esse humilde servo de Deus se apresenta diante de vosso poder para vos trazer um pedido da Igreja.

– Saudações, arconte Righel. Deus o abençoe. Nós confiamos em teu ofício para nos dar a oportunidade de reaver o que é nosso. De nossa parte, iremos solicitar ao papa para que o nomeie como bispo de todo nosso reino, assim que nos entregar a mão de nossa amada.

– Vossa Majestade honra-me com tal pedido. Se assim for o desejo da Santa Igreja e de Deus, eu aceito este encargo.

Nenhum biólogo acreditaria nisso. Uma criatura rastejante sorrindo. Righel sorria como um bebê sendo amamentado. Evidente que esse era o primeiro passo, mas depois ele pensaria em como tiraria vantagem dessa circunstância. Sonhando antecipadamente em ser rei de dois reinos, ter duas rainhas e seu próprio harém, Righel foi comemorar na primeira taverna que encontrou no caminho.

– Boa tarde, viajante! Seja bem vindo à Taverna da Macieira.

– Ora, agradeço, garçonete, a tarde é sempre boa, quando eu sou tão bem recebido por uma jovem com tantos atributos. Normalmente eu não sou recebido de forma educada.

– Todos são bem vindos, não importa quem seja, não importa de onde venha. Esta é a regra de toda taverna. Sente-se, por favor e faça seu pedido. Eis nossa carta de serviços.

– Hum, eu vejo que vocês têm boas bebidas. Traga-me então o melhor prato da casa e a melhor bebida da casa. Mas, diga-me, senhorita e quanto ao preço de outro serviço que não está nesta carta? O que acha de ganhar vinte dobrões de ouro por um serviço fácil?

– Vejo que o distinto cavalheiro é um senhor de posses e de bom gosto. Se tão distinto cavalheiro não considerar ser um demérito deitar-se com uma garçonete de taverna, onde tantos viajantes passam por suas portas, por trinta dobrões de ouro eu te indico o caminho do paraíso.

Righel fartou-se como pode. Saiu trôpego pela estrada, de volta a Gotardo, com a máscara de inocência estampada no rosto. Bendita seja a taverna, bendita seja toda a mulher da solicitude. Uma nos alimenta com comida e bebida, a outra sacia outras necessidades carnais. Não há templo maior e melhor do que este.

E que mistério a Fortuna e o destino preparam! Os clientes da taverna somente a conhecem como garçonete, poucos a chamam pelo nome, mas apenas afortunados a conhecem. Hildegarda ocupa seu posto na taverna até o fim da tarde, de noite ela atende como abadessa em Nortfolk. A Igreja sequer desconfia da existência da abadia e das Irmãs da Solicitude que servem pelas estradas às necessidades dos homens, tal como conservavam suas crenças e práticas desde sua terra natal. Não era uma abadia cristã, se os leitores se escandalizam com isso. Muito devem as Irmãs da Solicitude ao rei Savério, então Hildegarda sofreu calada, em nome de seu ofício, debaixo de Righel. O homem tem muitas fraquezas e estas são rapidamente reveladas debaixo de lençóis, o ouro de Righel não era tão interessante quanto o que este confessara no ouvido da abadessa, entre gemidos de prazer.

Hildegarda sabia bem o que fazer, assim que se livrou do fardo. Primeiro, limpou-se com o leite curtido com ervas, uma receita antiga que seria esconjurada como bruxaria que a deixaria tão pura e virginal quanto uma debutante. Depois, livrou-se do avental e das roupas da taverna, vestiu seu sóbrio hábito, furtou o cavalo de algum bêbado, montou e pegou o atalho que a levaria até Gotardo onde sua irmãzinha Dolores certamente teria bom uso para a informação que ela carregava.

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