O rei, o real e a realidade.

Sentado confortavelmente em sua poltrona, Savério tem diante de si uma pilha de pergaminhos esperando por sua assinatura e diante de sua mesa tem uma fila de nobres esperando ter audiência. De tempos em tempos, ele parava, refolheava os pergaminhos que acabara de assinar ou pedia ao arquivista para ver se não tinha algum édito anterior sobre o mesmo assunto. Era este o seu opróbrio, diariamente seus emissários ou emissários de outros reinos traziam suas petições, por carta ou oralmente. Savério tinha que ter certeza de que seus éditos não acabassem se anulando ou provocando desavenças desnecessárias. Era bastante frequente existir pedidos iguais, conflitantes ou contraditórios e isto mostra bem a natureza humana.

Quando podia, ele dava um intervalo para descansar, mastigava e bebia algo, levantava para esticar as pernas e os braços, respirava bem fundo e suspirava diante da janela decorada com cristais coloridos. O arquivista estava demorando, então ele aproveitou para sorver seu vinho e pensar em como se meteu nessa enrascada. Ele lembra o grego que foi contratado pelo seu pai para lhe ensinar nada mais do que uma vida cercada de obrigações, regras, protocolos e deveres. O grego era velho e devia ser um resquício do mundo antigo, pois constantemente ele se referia ao povo local como sendo bárbaro. Deve ser algum tipo de mágoa ou remorso que ele carregava de seus antigos senhores pelo crime de não serem romanos. Savério recorda quando seu pai interrompeu suas aulas e disse, um tanto eufórico e um tanto melancólico: “Roma caiu!”. Do dia para a noite, seu pai, que outrora era mais um senhor bárbaro que ganhou seu feudo pelos serviços que tinha prestado à Roma, tornara-se um barão, um nobre e teria que garantir seu feudo diante da incerteza que se abateu por toda a Europa.

Do dia para a noite, cada feudo teria que criar um governo próprio, visto que não tinha mais pretor ou César a dar ordens. As noticias chegavam aos borbotões, falando de senhores guerreando com senhores, de invasões de outros exércitos e da interferência da Igreja entre os reinos que começavam a surgir. Não era incomum essa mesma Igreja reconhecer e abençoar aos nobres com títulos, coroas e reinos. Não era incomum o novo conde, marquês, duque ou rei recompensar generosamente a Igreja com a riqueza que seu pobre povo produzia. Não era incomum a Igreja patrocinar e auxiliar, com ouro, armas e mercenários, as guerras.

Seu bom e velho pai, Teoderico, teve que voltar a colocar sua cota de malha, sua armadura, montar em seu cavalo e desembainhar sua espada que ele acreditava ter aposentado. Havia uma linha muito tênue a seguir, era tudo muito confuso e famílias inteiras entravam em batalhas sangrentas contra seus próprios parentes. Era triste e terrível ver como seu pai voltava das batalhas, contando quantos perdeu, chorando tanto pelos que lutavam ao seu lado quanto pelos que lutavam do outro lado, pois eram todos conhecidos, mas agora estavam mortos.

Quando as armas não faziam efeito, os reinos usavam a diplomacia que muitas vezes se resumia em unir no matrimônio um senhor com alguma mulher da corte, geralmente aparentada do outro senhor. Foi assim que Savério tornou-se duque de Gotardo, quando seu pai o casou com sua primeira esposa, quando ele ainda era jovem demais para ter forças para erguer uma espada longa. A noite de núpcias foi também a noite de réquiem, Savério teve que enterrar seu pai sem qualquer titulo de nobreza em sua lápide. Savério não teve tempo para o luto, o homem que era seu sogro havia declarado guerra alegando que seu casamento tinha sido forjado e era ilegítimo, no que a Igreja o apoiou e até publicou a anulação do casamento, dando ao Romualvo o direito de reaver e resgatar sua filha, que então estava sendo considerada prisioneira de um sequestro.

Savério teve que crescer e amadurecer em batalha e foi com seu povo que ele aprendeu a ser um bom senhor. Ele provou a soberania e supremacia de Gotardo, conquistando no processo as regiões de Lauseane, Metiene e Ravena, que foram anexadas ao seu feudo. Vitórias que foram exageradas e cantadas pelos bardos, mas Savério sabe que não há honra e cavalheirismo algum em matar e morrer, ele chorou a morte de seu sogro e de sua esposa. A Igreja mandou seus emissários no dia seguinte, para exigir que reconhecesse o poder da Igreja em troca do seu reconhecimento e coroação como rei de Gotardo. Assim que funciona a Igreja, vence ou vence. Foi estabelecido um tratado que foi ratificado pelos outros reinos vizinhos e assim Gotardo manteve-se um pouco independente do Vaticano.

A Igreja teve o que quis, mas também teve que ceder às exigências do tratado. Por ela ter dado apoio à anulação de casamento e por ter reconhecido o direito de Romualvo, Savério conquistou para si o direito de casar novamente e o de soberania como legitimo rei de Gotardo. A Igreja nada pode fazer ou falar quando Savério anunciou seu casamento com Fillardis, a duquesa de Mântua, conforme a religião e costumes de seu povo. Foi assim que ele foi parar nessa prisão, o preço de sua vitória.

Suas memórias voltaram ao passado quando o arquivista voltou e ele teve que continuar a carregar seu fardo. Não faltavam muitos pergaminhos e a fila tinha diminuído, quando risos alegres de duas jovens irromperam a sisuda reunião. Savério olha na direção das intrusas e reconhece com facilidade os longos cabelos dourados de Lucia. Ah, sim, um bônus que faz valer a pena cada gota de seu suor. Ele conheceu Lucia quando casou-se com Fillardis, sua esposa e agora rainha havia trazido de Mântua sua irmã menor. Savério largou todos os pergaminhos, deixou os emissários de lado e foi caminhando na direção de Lucia e de outra jovem que a acompanhava.

– Ah, Vossa Magnifica Luminescência! A quem nós devemos a honra de receber a encarnação de Vênus?

– Boa Tarde, Supremo Soberano. Nós esperamos não vos ter interrompido.

– De jeito algum. Somos nós que nos sentimos culpados por vos ter feito descer do Olimpo. Mas diga-nos, quem é esta ninfa que vos acompanha?

– Esta reles plebeia não é merecedora que a noteis, meu Soberano. Esta é uma mera auxiliadora aos nossos cuidados.

– Ora, ora, sublime encarnação de Vênus, sejais condescendente com esse homem velho. Eu ando pela mesma terra que esta plebeia anda, bem debaixo de vossa divindade e mesmo assim sou digno de ser notado por vós. Para estar em tão divina companhia, esta plebeia certamente tem parte com os anjos. Como é teu nome, senhora?

– O… o… oh, Supremo Soberano, eu… eu não sou nada, não sou ninguém. Eu… eu… eu sou a aia Dolores, meu Supremo Soberano.

– Viu só? Não foi muito difícil. Venham, por favor, sentem-se comigo. Eu quero desfrutar de tão bela companhia para aliviar um pouco meu sofrimento.

– Nós não desejamos atrapalhar o vosso ofício, nobre soberano.

– Bobagem, bobagem. Estes palermas ali parados em pé atrapalham muito mais. Vamos, sentem-se. Sirvam-se de vinho. Vedes o que eu tenho que aguentar? Olhe só esta petição. Um fardo de feno deve ter cinco faias. Este pede que o fardo tenha sete. Faz alguma diferença um fardo ter cinco ou sete faias? E como as faias são formadas? Cada faia tem cinco estames de feno? Faz alguma diferença se forem apenas quatro estames?

Os três começam a gargalhar com estardalhaço enquanto os emissários assistem a tudo embasbacados. Com a ajuda de Lucia e Dolores, Savério vê-se livre da pilha de pergaminhos e da fila de pedintes.

– Está tarde. Dariam a esse velho homem a satisfação de acompanha-lo no jantar? Podemos nos divertir conversando um pouco mais.

– Nós aceitamos de bom grado.

Savério acompanha as jovens até a sala de jantar, onde uma refeição os aguarda. Savério faz questão para que as jovens ocupem cada qual um lado.

– Os urubus saíram. Agora podemos conversar. Diga-me, Lucia e Dolores, vocês são boas amigas, certo?

– Sim, meu senhor. Eu e Dolores somos intimas.

– Eu fico contente em saber. Por favor, Dolores, cuide bem de Lucia. Quando ela chegou aqui ela era muito reservada. Eu receava que ela não conseguiria se entrosar e se ambientar aqui, tão longe de Mântua.

– Meu senhor, confie em mim. Eu cuidarei muito bem de Lucia.

– Sabe de uma coisa, senhoras? O melhor édito que eu proclamei foi o de restaurar os costumes e crenças de nosso povo. Se os padres da Igreja tivessem entrado aqui eles teriam feito o mesmo estrago que causaram em outros reinos. A loucura deles está se espalhando e dominando a Europa. Eu gostaria de fazer algo a respeito.

– Meu senhor, o tratado não nos impede de fazer algo?

– Diretamente eu não posso fazer coisa alguma. Mas me ocorreu algo enquanto eu me delicio com a beleza das senhoras. Lembram-se do absurdo dos fardos? Um fardo é algo bem visível e concreto, mas a quantidade que o faz é abstrata. Os padres da Igreja são como o meeiro, eles juntam o fardo como bem entendem e do padrão que eles definem querem mandar no fardo dos outros. O real é aquilo que eles definiram como real. Mas dizem que ninguém é mais real do que o rei, então sou eu quem determina o que é a realidade. Mas minha realeza depende do reconhecimento de outras pessoas. Então eis que eu concluo que a realidade é uma convenção acertada pelos homens. Ora, se um grupo arroga a si o monopólio sobre o real, então este grupo comete crime de lesa-majestade. O que acham? Será que eu consigo convencer os reis e nobres a lutarem contra essa usurpação?

– Meu senhor, desperdiça palavras demais. Argumentos sutis não transformam coisas e pessoas. Além do que pertence aos senhores dos outros reinos a responsabilidade por terem permitido que os padres dominassem a Europa com essa loucura.

– Eu capitulo e dou-te a vitória. Eu apenas tenho a agradecer aos Deuses por você ter vindo para cá, Lucia. Você é mais do que minha cunhada, eu te estimo como se fosse minha filha. O que faz de Dolores a minha enteada. Vocês fazem esse homem velho feliz.

A conversa é interrompida coma entrada de uma mulher deslumbrante.

– Ah! Então vocês estão aí! Cuidado com ele, garotas. E você, velho babão, não tem vergonha de flertar com estas jovens?

– Oh, meu amor, faz péssima ideia desse seu velho homem apaixonado. Você sabe muito bem que é a única que sabe e consegue cuidar de meu brinquedo.

– Pois eu sou bem capaz de apostar que, se eu não tivesse vindo, você teria dado um jeito para convidar estas jovens a jogar com seu brinquedo. Vamos, velho babão, deixe as jovens em paz e venha jogar comigo.

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