La Regina

Dolores aproxima-se cautelosamente do cortinado que desce do dossel. Uma fera escondida debaixo de lençóis em cetim ronrona, como se fosse domesticada. Pé ante pé, ela se aproxima para cutucar com jeito, só com a ponta do dedo, ao mesmo tempo em que nervosamente olha para a porta do quarto, para certificar-se de que estava aberta e calculando quanto tempo e distância ela teria que percorrer para salvar-se da fúria de sua senhoria. O dedo de Dolores tremula, em harmonia com o resto do corpo, a poucos milímetros do ponto que irá desencadear o caos. Repentinamente, os lençóis de cetim são jogados na direção dela e uma figura debaixo de fartos e longos cachos dourados esboceja. Por sorte Dolores não tinha sua bexiga ou tripa cheias, senão ia se cagar e se mijar toda.

– Uãããã… que horas são? Onde está, minha aia? O que tanto fazia que não veio nos acordar?

– E…e…eu estou bem aqui, Vossa Majestade. Como vossa realeza passou a noite? Dormistes bem? Sonhastes?

– Estás atrasada, lacaia. E que modos e intimidades são estas? Como te perguntas a nós como passamos a noite, se dormimos bem e se sonhamos?

– O…o… oh, não, Vossa Majestade. Perdoem minha intromissão e deselegância, este é apenas o procedimento normal que é concedido à mim pelo grande e nobre soberano, Vosso pai. Nosso ilustríssimo rei e senhor, ao designar-me como Vossa aia. Agora são exatamente sete horas da manhã e Vossa Majestade foi muito generosa em despertar diante de minha humilde pessoa, sem necessitar de meus cuidados.

– Há! Então admites que teus serviços não nos são necessários. Nós devemos ter um conciliatório com o Supremo Soberano de Gotardo para dispensá-la, a menos que nossa misericórdia decida poupá-la. Nós daremos a ti a chance de provar durante este dia que és merecedora de nossa misericórdia.

– O…o…oh, Vossa Majestade, eu vos agradeço! Como demonstração de minha dedicação, eis que eu vos trouxe seu desjejum.

– Ahá! Estás tentando nos subornar com uma mera baixela com louça e acepipes? Credes que nós somos tão baratas? Mas traga, assim mesmo, que hoje nós acordamos com apetite.

Dolores atravessa rapidamente a distancia que a separa da porta, grata pela sorte de não ser para fugir e pega o carrinho, cheio de louças, pães, bolos e frutas. Lucia observa Dolores com um olhar impaciente e severo, se segurando para não levantar da cama e avançar com tudo na comida.

– Hum… a apresentação está satisfatória, lacaia. Vejamos o que vai nos servir nestas cerâmicas vulgares.

Delicadamente Dolores apanha o bule e o inclina sobre a delicada xícara, derramando uma mistura de chá mate com leite. No prato de cerâmica decorado com delicados bordados, Dolores dispõe um pão de creme, uma fatia de presunto, uma fatia de queijo e uma fatia de bolo de chocolate com nozes. Estando tudo arrumado em uma mesinha de cama, Dolores aproxima-se de sua senhoria, que tem os olhos fixos no que está sendo serviço e tenta disfarçar que está com água na boca, mas o estômago ronca, lembrando-a de quem está com a coroa. Dolores faz-se de surda, deposita a mesinha de cama no colo de sua senhoria e se afasta. Lucia não consegue se conter mais. Dane-se a etiqueta. Farelos voam pelo ar, juntamente com gotas de chá e leite. Satisfeita, Lucia deixa escapar um arroto.

– Muito bem, lacaia. Neste serviço foi aprovada. Mas nós devemos avisar que se disser algo sobre isto, se nós ouvirmos algo, ainda que um sussurro ou boato do que testemunhaste, saiba que nós haveremos de arrancar tua língua.

– O… o… oh, não, Vossa Majestade! Eu jamais faria tal coisa! Eu prefiro me matar a cometer tal indelicadeza. Eu agradeço a Vossa Majestade por ter apreciado meu serviço e agradeço ainda mais por vossa consideração comigo. Agora, se eu não estiver abusando de vossa paciência, eu vos peço que me permita levar-vos ao vosso banho, onde eu deverei limpar e vestir vosso corpo.

– Apostamos que sentirá satisfação com isso. Viste que temos fome. Deve ser uma tentação, vendo-nos tão vulnerável, nosso corpo desprovido de qualquer nobreza, majestade ou decência, um corpo tão tênue e mortal como o de uma pessoa qualquer.

– O… o… oh, não, Vossa Majestade! De forma alguma nós, reles plebeus, podemos nos comparar com vossa magnificência. Mesmo que vós estejais desprovidos de vossas vestes, vosso corpo jamais seria como o nosso. Eu me recordo, quando eu estava aprendendo a servir na corte, de ter ido ao museu real e de lá ter visto as estátuas de um tempo antigo retratando os Deuses. Eu era mais jovem, pouco ou nada sabia, mas ao ver os Deuses sendo retratados quase ou completamente nus era, para mim, uma visão sublime. Eu me sentia extasiada e encantada ao ter a honra e a oportunidade de ver os corpos nus dos Deuses, aquele era um ideal de harmonia e perfeição que estava muito distante de minha realidade. Ora, Vossa Majestade, se os Deuses se mostram nus sem que percam a santidade, a sacralidade e a divindade própria das naturezas deles, certamente vós jamais irás perder vossa nobreza, majestade e decência. Eu temo até por minha vida, se eu tocar em vosso corpo sem vosso consentimento, se eu tocar em vosso corpo de forma imprópria ou desonrosa.

– Muito bem. Passou no teste. Nós permitimos que nos conduza ao banho, nos dispa e nos banhe.

Lucia disse isto com a voz um pouco trêmula e com as faces ruborizadas. Ela poderia ralhar com Dolores, acusando-a de querer ensinar ou dar lição, mas a resposta tão sincera, honesta e devotada de sua serva a pegou desprevenida. Lucia não sabia que era possível um plebeu ter tamanha educação e sabedoria. Desta vez, pensava ela, ia engolir seu orgulho e dar a vitória para sua serva. Lucia crescera acostumada a ficar cercada de cuidados, todas suas necessidades eram satisfeitas por servas. Dolores não era a primeira nem seria a ultima a lhe tirar a roupa e dar-lhe banho, então Lucia não sabia por que ela estava se sentindo tão acanhada e envergonhada. Dolores estava absolutamente concentrada no que fazia e o fazia com zelo, cuidado e gentileza.

– Vossa Majestade, a água está na temperatura ideal, a banheira está cheia. Por favor, me conceda a honra de vos segurar a mão para vos ajudar a subir e entrar na banheira para iniciarmos a limpeza de vosso corpo.

– Está pedindo nossa mão, lacaia? Então nós devemos anunciar ao Supremo Soberano que pediste nossa mão. Pediste nossa mão, uma mão que somente pode ser pedida por condes, duques, barões ou reis.

– O… o… oh, não, Vossa Majestade! Por favor, me perdoe! Eu não estou pedindo vossa mão nesse sentido. Eu estou meramente oferecendo meu apoio para que vós possais subir e entrar na banheira. Diante de vós, eu não sou mais do que uma mera escada.

– Ora, mas que petulância! Pedes nossa mão e agora declina dela? Lacaia, é mais volúvel do que os cavaleiros que nos vem fazer a corte.

– O… o… o… oh, não, Vossa Majestade! Isso não! Eu… eu… jamais!

Dolores está roxa como berinjela, tremendo dos pés à cabeça, movendo freneticamente sua cabeça e braços de um lado a outro, sem saber o que fazer ou o que falar. Lucia sorri, sentindo o gosto de uma vitória amarga. Dessa vez ela venceu, mas foi fácil demais e não teve graça.

– Pare de balbuciar, palerma. Pronto, aqui está nossa mão. Upa, cá estamos dentro da banheira. Agora pare de tremer e comece a lavar nosso corpo.

Lucia sente uma ponta de remorso ao perceber que Dolores deixa uma lágrima correr pelo rosto. Evidente que Lucia não pode fraquejar, ela é a soberana, sua palavra é lei, mas no fundo seu lado humano chora também. Demorou um pouco para Dolores se acalmar, somente quando recobrou seu foco é que ela parou de tremer. Cinco minutos depois foi como se nada tivesse acontecido, Dolores voltou a tagarelar enquanto se ocupava com sua senhoria. Dolores derramava elogios sem parar, aos cabelos de Lucia, à pele de Lucia e às formas de Lucia. Em outra situação, ditos por outros lábios, Lucia teria considerado um flerte. Mas não era isso que a incomodava, mas o que Dolores fazia. Isto estava começando a se tornar comum. Sua irmã, mais velha e rainha, havia conversado com ela sobre dias assim.

– Irmã, por que todo mundo me trata como criança?

– Por que você ainda é pequena, Lucia e isso é bom, aproveite seu tempo de infância. Você verá, em breve seu corpo vai crescer e se modificar. Você irá largar seus brinquedos e roupas favoritas. Os meninos começarão a te chamar a atenção e eles te notarão de um jeito diferente. Agora você tem nojo de certas coisas e pessoas, mas seu gosto vai mudar e você vai querer certas coisas e pessoas e isso também é bom. Eu quero que você saiba que não há nada de errado em você, assim como não haverá nada de errado quando você chegar nesses dias. Isso não é uma doença ou castigo, isso é normal, natural e saudável. Quando chegar esses dias, aceite-se como é, tal como você se aceita agora e tudo ficará bem.

Sua irmã tinha explicado desses dias muito bem, antes dela se casar com o rei Gotardo e Lucia sente muita saudades dela. Miriam saberia ouvir e aconselhar nos dias difíceis, quando a mudança começara. Ela saberia dizer e explicar porque ela se sentia tão envergonhada e constrangida. Em sua infância ela teve seu corpo lavado por servas sem problemas, mas agora, tinha algo nela, ou no jeito como Dolores a tocava que mexia com ela. Pode ser que, o jeito como ela e Dolores se davam tão bem, desde o dia que ela chegou, deve ter surgido algum tipo de amizade, de intimidade entre elas. O toque intimo não era de todo estranho para Lucia, mas o fato de ser Dolores quem a tocava surtia um efeito maior no prazer que sentia. A voz de Miriam ressoava em sua cabeça, dizendo: “aceite-se como é, tal como você se aceita agora e tudo ficará bem”. Lucia suspirou e decidiu fazer algo. Do nada, agarra Dolores e lhe dá um beijo apaixonado. Pega de surpresa, perdendo o fôlego, Dolores volta a ficar roxa, tornando lívida assim que Lucia soltou-a do beijo, deixando-a com aquela expressão abobalhada de espanto.

– O… o… oh… Vossa Majestade… meus lábios… por favor, não me mande para o calabouço nem ordeneis que me torturem! Eu… eu… me desculpe! Eu não fiz de propósito! Foi sem querer! Eu… eu tropecei, é isso, eu tropecei e esbarrei em vossos lábios.

– Cale-se palerma. Nós sabemos muito bem o que fizemos. Considere-se com muita sorte e ventura. Deixe dessas bobagens, tire suas roupas e junte-se a nós no banho. Seja uma lacaia que preste, pelo amor dos Deuses! Você nasceu para nos servir, então nos sirva.

Dolores ficou algum tempo parada, calada. Mas enfim, sua senhoria tinha lhe dado uma ordem. Não seria ela a contrariar a vontade da soberana, oh não, ela não. Timidamente Dolores tira a roupa, sobe e entra na banheira, ainda sem saber muito que fazer, com um braço protegendo os seios e uma mão protegendo sua intimidade.

– Mas que porcaria é essa, lacaia? Que diacho de escola você cursou? Não te ensinaram coisa alguma? Vamos, faça alguma coisa! Abra esses braços, deixe-nos apreciar teu corpo e use-o para lavar o nosso.

Dolores deixa suas defesas de lado e expõe seu corpo para Lucia. Uma mão pega o escovão e a outra pega o sabão. Dolores encosta seu corpo ao corpo de Lucia e começa a limpeza. Lucia aprecia o corpo de Dolores e o compara com o seu. Dolores não é muito mais velha do que Lucia, entretanto as diferenças eram notáveis.

O toque intimo também não era de todo desconhecido para Dolores e meio que instintivamente ambas foram descobrindo e experimentando como jogar esse jogo. Lucia havia visto como funciona os meninos e sabia muito bem como funciona o corpo de uma menina. Dolores havia visto como se joga esse jogo, quando flagrou sua irmã com o leiteiro, mas com outra menina era diferente. Diferente, mas nem tanto. Diferente, mas com o mesmo objetivo.

Ainda que as mentes estejam confusas, os corpos sabem o que fazer. Não demora para que os corpos se entrelacem, se contorçam e se misturem. Lucia sente o gosto de uma vitória saborosa e verdadeira. Ali, dentro da banheira, ela provara para Dolores que elas não eram tão distantes quanto acreditava. Ali ela provara que seus corpos são iguais, sentem da mesma forma, tem as mesmas necessidades e se submetem a leis maiores. Ali não há uma plebeia e uma soberana, apenas duas pessoas, se entregando à lei maior do desejo, do prazer e do amor. Não há coroa, não há majestade, não há nobreza. Nenhuma riqueza é comparável ao gemidos que saem de Dolores, nenhuma pompa é comparável ao espetáculo de ver o êxtase transbordando do rosto de Dolores. Lucia está prestes a perder totalmente a consciência, a mente tenta entender, esquadrinhar e compreender o universo, mas some rapidamente dentro da enorme onda rosácea e brilhante de Eros.

Lucia desperta depois que Dolores a cutuca. Quanto tempo passou, isso é irrelevante. Lucia tem suas obrigações, assim como Dolores. Há tempos a banheira foi abandonada e esvaziada. Há tempos seus corpos estavam enxutos. Dolores passa a pentear o cabelo de Lucia, cabelo cujos fios parecem ser de ouro. Depois pega algumas fitas para enfeitar o cabelo com tranças e laços. Lucia faz então uma observação amena.

– O que está fazendo? Amarrar o cabelo com laços de fita na lateral é coisa de menina. Arrume meu cabelo como faz a rainha.

Dolores trava de novo, mas antes dela começar suas lástimas, Lucia lhe corta o discurso.

– E vamos parar com bobagens. Depois de termos feito o que fizemos, o mínimo que eu te peço é que me trate com menos formalidade. Você pode fazer isso, Dolores?

– Hã… sim, Vossa… hã… senhora… hã… Lucia, eu posso.

– Que bom. Eu vejo que aprende rápido. Infelizmente eu terei que te pedir para que faça todas as mesuras ridículas diante da corte. Por favor, me perdoe por te forçar a isto.

– Não tem problema, Lucia. Eu estou acostumada a viver invisível. A mim me basta saber que eu estou em seu coração.

Nenhum outro reino ou corte conheceu soberana e aia mais felizes e mais companheiras do que estas.

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