Viajanças de Pedro Vera Cruz – VIII

A lua começava sua ronda pelo véu de Nix quando Pedro e Jurema retornavam ao arreio, juntamente com três presuntos frescos para o jantar, mas os nativos estavam agitados demais. A princípio Pedro pensou que estavam se preparando para mais uma festividade, mas pela expressão de Jurema a coisa era séria. Pedro seguiu bem atrás de Jurema que foi atrás de Tamandaré para ver o que estava acontecendo.

– O que aconteceu, Tamandaré? Os homens brancos estão vindo nos invadir?

– Não, Jurema. Nossos batedores voltaram recentemente dizendo que a Casa de Pedra foi cercada e invadida pelos franceses. Nós sabíamos como ignorar e combater os portugueses, mas nós sempre tivemos problema com os franceses.

– Eu me recordo dos franceses. Cheiram mal, são resistentes à integração e tratam mal às mulheres. O que vamos fazer?

– Nós estamos nos organizando para tentar resistir. Se vierem com todos seus paus de fogo, não teremos muita chance. Mesmo se conseguirmos reunir outras tribos, atacar seria suicídio.

Repentinamente surge Tamoio, sorridente, dando um tapinha nas costas de Pedro.

– Nós não precisamos resistir ou invadir. Nós temos bem aqui nossa arma secreta. Os franceses vão se aportuguesar, vão ficar mais agradáveis para nossas mulheres e poderemos ser uma enorme nação de mestiços.

Jurema, Tamandaré e Pedro olharam para Tamoio sem entender como isso seria possível. Sorrindo, o homem santo e sábio explicou.

– Ora, vamos, tenham fé! Os portugueses e franceses tem a mesma fraqueza. Ambos abrem as portas de suas fortalezas aos padres. A providência de Mandacaru fez com que Pedro nos trouxesse três padres. Tudo que precisamos fazer é escolher três guerreiros, vesti-los com os hábitos dos padres e simplesmente bater na porta da Casa de Pedra. Os franceses vão fazer biquinho e falar algo, mas vão deixar os nossos padres entrarem. Tudo que nossos emissários precisam fazer é abrir as portas da fortaleza quando todos estiverem dormindo.

Tamandaré pisca seus olhos, espantado em ver que seu velho amigo sabe traçar uma estratégia militar. Para resumir um pouco a coisa toda, os escolhidos foram Pedro, Ruivo e Jurema. Segue então um diálogo entre Pedro e Tamoio.

– Mas Tamoio, eu não sou padre! Eu não posso vestir esse hábito!

– Por que não, meu jovem? O que esses homens têm de diferente de você? Acaso aprenderam mais coisas do que você? Duvido. Se fossem homens sábios e santos, não estariam a serviço de uma instituição criada por homens. Se fossem homens de conhecimento e esclarecidos, não teriam que colher ervas às escondidas.

– Eles foram escolhidos por Deus para serem padres.

– E por acaso todos nós não fomos escolhidos por Deus ao nascermos? Acredita mesmo que você está distante ou separado de Deus? Acredita mesmo que estes padres saberiam discernir Deus se aparecesse para eles? Deus não está em igrejas, em livros, em escolas, nem está em um distante Firmamento. Deus está bem aqui, dentro de você e em toda sua volta, na natureza, nos animais e em outros seres humanos. Este mundo é Deus, a vida é Deus, a natureza é Deus, você é parte de tudo isso. Por que você acredita que um padre teria mais conexão com Deus do que você? Ouça bem, Pedro, você tem mais conhecimento, propriedade, santidade e contato com Deus do que qualquer um destes padres. De fato, os padres não se comportam muito diferente de outros humanos, então vista o hábito sem receio.

Pedro ouviu e aceitou os conselhos de Tamoio e vestiu o hábito. Ruivo ficou com o hábito do padre que era maior e mesmo assim o hábito ficou justo. Difícil mesmo foi disfarçar as curvas e os volumes de Jurema dentro do hábito. Ela ensaiou uma voz mais masculina, mas depois desistiu ao lembrar que muitos padres tinham vozes mais afeminadas do que ela. Prontos os emissários, seguiram a missão, apenas os três, postaram- se diante do pesado portão de entrada da fortaleza.

– Quem vem lá? Aproxime-se, identifique-se, pois somos também servos do rei.

– Nós somos apenas três padres solicitando ajuda, auxílio e exílio. Nós rogamos, pela graça do rei e do Senhor, que nos abriguem, pois os nativos nos perseguem para nos comer.

– Nós também servimos ao Senhor, mas a qual rei vós servis?

– O Rei, Cristo, a quem todos os reis obedecem. Se vós sois cristãos, deveis abrir vossas portas.

Constrangidos, os franceses abrem os pesados portões aos padres e os deixam entrar, sem muitas perguntas, nem lhes vistoriam as bolsas e pertences. Os padres tratam de adentrar na fortaleza e seguirem não para a capela interna, mas em direção da capitania onde ficam os guardas e soldados. Antes, porem, eles tiveram que passar por um grande salão, onde estavam reunidos padres, franceses, portugueses e nativos. Mas não decorria qualquer reunião secreta, ou alguma preleção discorrendo sobre planos e estratégias militares. Estavam todos bem à vontade, dançando, cantando, bebendo, fazendo música e amor. Aqui e ali, padres, oficiais e fidalgos estavam entrelaçados com mulheres nativas, em algum tipo de programa de integração. Um dos convivas percebeu a presença dos padres.

– Oh, evoé, meu irmão! Venha, juntem-se a nós!

– Mas… o que significa isso? Perguntou Pedro, tentando disfarçar um padre indignado.

– Ora, ora, irmão, não sabe que dia é hoje? Hoje é carnaval. Nosso bom e abençoado Deus está descansando. Hoje quem está no comando é Dioniso. Tal como nossos pais, avós e aqueles todos que vieram antes de nós celebravam. Lamentável que tenhamos que seguir um costume tão belo e antigo nesse calabouço, nessa fortaleza. Bem que gostaríamos de fazer como a tradição manda. Mas lá fora os nativos poderiam nos comer e isso não no bom sentido. Que bom seria se todos nós pudéssemos sentar, conversar, dialogar. Eu tenho certeza que todas as animosidades acabariam. A Coroa não precisa saber. Eles estão lá longe, do outro lado do mar. Nós podemos fazer as coisas do nosso jeito. Onde todos saem ganhando. Portugueses, franceses, nativos. Nós comemos as mulheres deles e eles comem as nossas mulheres, no bom sentido. Nós seremos todos irmãos e irmãs, ligados pela carne, pelo sangue e por esta terra. Que o Diabo carregue Dom João, a Igreja e Portugal todo. Aqui e agora mesmo, nós estamos dando origem a um novo país. Apenas não decidimos por qual nome ele será batizado. Mas isso fica para depois, depois… depois que conseguirmos deixar as coisas em bons termos com os nativos.

O conviva tropeça em um dos muitos corpos em ação, cai bêbado e fica no chão mesmo. os padres fajutos se olham, indecisos entre levar a missão adiante ou levar a boa nova. Como Jurema e Ruivo tinham precedência sobre Pedro, ele foi “escolhido” para levar os novos planos para a tribo, o que ele foi, mas sob protesto.

Tamandaré e Tamoio lideraram a comitiva dos nativos, que encontraram os pesados portões completamente abertos, sendo efusivamente recebidos pelos habitantes da Casa de Pedra, completamente tomada e dominada pelo carnaval. Fantasiados ou não, não fazia mais diferença. No meio de tanta folia o nome Terra de Santa Cruz apareceu justamente porque este era o sobrenome de Pedro, que foi coroado herói. Depois que portugueses, franceses, nativos e até holandeses se acertaram é que acharam e começaram a comercializar uma árvore de cujo tronco era extraído uma tintura vermelha, por isso foi chamada de pau brasil. O nome era tão bom que acabou se tornando o nome da nação mais alegre, feliz, bagunçada e mestiça de todos os tempos.

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