Viajanças de Pedro Vera Cruz – VII

O sol estava em seu maior grau, brilhando como a coroa de Apolo, quando Pedro acordou e se deu conta de que estava debaixo de Jurema, tendo seu corpo unido ao dela, como um homem e uma mulher foram criados para se unirem. Com jeito, Pedro se desvencilhou do abraço carnal, para não acordar Jurema. Ao levantar, quase tropeçou em Ruivo que estava entrelaçado com duas nativas. Pedro procurou por suas roupas, mas não as encontrou, tudo o que seu corpo portava eram as coras coloridas que os nativos usam. Deu de ombros e saiu da palhoça para lavar o rosto e comer algo.

Do lado de fora, em toda parte do arreio havia corpos de nativos entorpecidos pela festividade. Ao lavar o rosto, ouviu algo parecido com uma trovoada ao longe. Depois ele sentiu o cheiro de pólvora indicando que o estrondo veio de um canhão. Algum navio ou alguma fortaleza estava em dificuldades. Pela sensação ouvida, Pedro concluiu que a refrega estava a dois dias de caminhada. Não seria bom se outros homens brancos lá chegassem, com canhões e bacamartes, para invadir, tomar, pilhar e matar os nativos. Pedro estava praticamente se considerando parte daquela tribo depois de uma agradável noite de celebração pagã. A despeito de ainda ter em seu pescoço, pulsos e tornozelos as fibras que indicam seu estado como cativo tutelado.

Decidido, Pedro pegou algo parecido com um remo que estava largado diante do tronco decorado e embrenhou sozinho na floresta para deter os possíveis invasores. Caminhou bastante até ouvir o farfalhar das folhas denunciando a chegada de algo. Parado, Pedro aguçou os sentidos para observar o que estava se aproximando. Há cerca de quatro passos dele, três padres pareciam vasculhar os arbustos e pareciam colher frutos, flores e folhas nativas. Curioso em descobrir os intentos dos padres, Pedro continuou quieto em seu esconderijo. O que parecia ser mais jovem e irritado falou primeiro.

– Eu digo sim, Nóbrega. Não é o momento certo para colher ervas. Mercúrio está retrógado.

– Pois diga mais alto Barnabé, que se o cura te ouvir há de voltar para Portugal se explicar ao Santo Ofício o que tens com Mercúrio.

– Por São Simão, quieto os dois. Batedores disseram que nessa região há muitos nativos que irão nos cozer, com ervas e tudo. Mercúrio que vá às favas. Temos que colher estas ervas para os males que atingem nossa vila.

– E podemos confiar nas curas que os nativos nos ensinaram, Tomás? Com podemos saber que eles não estão afrancesados? Não tem três dias que vimos uma caravela nossa fugindo da fragata normanda. A mesma fragata que agora está ancorada na entrada da baía e quer nos pôr todos na boca do canhão.

– O chumbo é nosso menor problema. Colher ervas é uma atividade precisa. A mesma mistura pode curar ou envenenar, conforme os astros. Diga-lhe Tomás que eu estou certo.

– Oh, puxa, Barnabé, se tivesse me avisado eu teria trazido meu astrolábio para olhar os astros. Como se nós pudéssemos realmente ver algo em pleno dia. Como se as estrelas de cá fossem as mesmas de lá. Como se as ervas de cá fossem as mesmas de lá. Como se um pergaminho sobre o uso de ervas escrito por um cristão novo fosse mais confiável do que a recomendação do bruxo nativo.

– Quieto os dois! Mercúrio, Vênus e Marte hão de entender que nossa condição é de tal urgência que não podemos nos dar ao luxo de perscrutar os astros. Peguemos as ervas e voltemos, antes que o Diabo nos carregue todos e nos faça de jantar para os nativos.

O rosto de Tomás torna-se lívido e ele se vira. Pedro também está atento, pois algo mais agita a folhagem da densa vegetação. Serão mais homens brancos, nativos ou algum predador? De algum lugar o pio de uma estranha ave faz os padres chacoalharem os joelhos e Pedro reconhece o sinal de movimentação de nativos. Amigos ou inimigos? De onde veio o sinal e pela proximidade do alvoroço, Pedro está bem entre estes nativos e os padres. Que interessante dilema e paradoxo: Pedro, homem branco, se considerando nativo suficiente para querer enfrentar invasores da sua gente e ao mesmo tempo não sendo nativo suficiente para se sentir seguro diante de nativos de outras tribos. Pedro sabe que sua luta irá denunciar sua presença aos padres, mas no momento o seu couro é que está em risco. Tenso, Pedro segura a arma e crispa as mãos, preparando o ataque. O vulto que surge ele reconhece bem. Aliviado, Pedro encontra Jurema.

– Então meu porquinho está aqui? Eu posso saber com autorização de quem o senhor passeia por nosso território?

– Psst! Ali adiante tem três padres, eles vão nos ouvir. Eles parecem estar inocentemente colhendo ervas, mas podem muito bem ser espiões e devem ter alguma escolta.

– Não faça ‘psst’ para mim, porquinho. Quanto aos padres, pegue e use a borduna, vamos cair em cima deles. Quanto mais tiverem, melhor será.

– Quem está aí? Quem vem lá? Se é cristão, nos ajude. Se é pagão, que o poder da cruz de Cristo te esconjure!

Jurema passa direto por Pedro que, sem escolha, segue sua senhora e abate os padres com a borduna. Nenhuma escolta por perto. Com os padres, foram pegos os sacos com as ervas, os alforjes de água e as bolsas com moedas. Os terços, os missários e um livro foram descartados por serem completamente inúteis. Pedro avalia seus atos e Jurema tenta animá-lo.

– Então estes são os ditos padres? Eu havia visto antes homens brancos com estas vestes, mas toda sua gente é tão estranha com esse costume de cobrir o corpo com tecido que, para mim, são todos iguais. O que são padres?

– Os padres são os homens santos de minha gente.

– Mesmo? Que estranho. Homens santos são sábios e prudentes. Estes padres não parecem sábios e prudentes. Homens santos têm vários espíritos a seu serviço, eu não vejo espírito algum a serviço destes padres. O que eles tanto discutiam?

– Um deles estava avisando os outros de que não era o momento certo para colher as ervas.

– Momento certo?

– Sim, os padres dizem que existe a hora certa para colher as ervas. Para isso eles observam os astros. Mas fazem escondidos porque se a Igreja souber ou pegar um padre usar desse conhecimento, a Igreja irá processá-los por heresia, feitiçaria e bruxaria.

– Ah, porquinho, você tem que me contar mais dessas histórias engraçadas de sua gente! A Igreja, que é feita por padres, não deixa que padres usem do conhecimento!

– O que vamos fazer com eles e com as ervas?

– Eles são tua caça, você leva para nossa tribo. As ervas boas, usaremos para cozê-los. As ervas sagradas nós daremos para Tamoio.

– Mas e os astros?

– Estão longe. Se há algum tipo de influência vinda deles, esta energia é a mesma, independente de onde estejam. O que é mais interessante de uma erva é em que tipo de solo está, se cresce em rio ou lago, se brota de outra árvore, se tem flores e frutos, o que ela extrai da terra. As propriedades de uma erva não se alteram.

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