Viajanças de Pedro Vera Cruz – VI

Conforme Hélios atravessa Urano, o sol começa a entrar no portal do oeste, os nativos ficam agitados. Jurema abre as cadeias de Pedro e Ruivo e os leva ao centro do arreio para começar a integração deles.

– Nada temam, esta agitação toda é pela festividade que em breve começaremos. Esta festividade é uma boa oportunidade para se mostrarem uteis. Venham conhecer nosso chefe e homem santo.

Havia um tronco decorado, em torno do qual, homens, mulheres e crianças estavam todos ocupados nos preparativos da festividade. Com os calcanhares amarrados em um tipo de correia feita de fibra vegetal, Pedro e Ruivo foram levados por Jurema até um nativo cuja cabeça estava decorada com um arranjo de penas e outro cujo corpo estava coberto de ossos.

– Chefe Tamandaré e homem santo Tamoio, estes são Pedro e Ruivo, os homens brancos que eu tomei em tutela. Eu os trouxe para conhecer nossos hábitos e serem recebidos como nossos afilhados.

Tamandaré lança um olhar para Pedro e Ruivo que faria gelar uma alma, enquanto Tamoio apenas sorria, como que adivinhasse uma estripulia infantil. Ruivo retorna a Tamandaré o olhar, acostumado que era a não se intimidar. Tamoio desatou a rir e falou primeiro.

– Não levem a mal Tamandaré. Ele sempre faz isso com os novatos. Apenas fracos e covardes ficam impressionados. No entanto eu vejo que este de cabelo vermelho é feito aço malhado pela experiência. O senhor deve ser um homem do mar com muitas batalhas para contar.

– Oh, sim, eu as tenho. Eu não tenho porque ficar amuado com Tamandaré, eu simplesmente lhe devolvi a gentileza, pois reconheci que nós somos iguais. Ainda que minha condição seja a de tutelado por Jurema, isso em nada diminui meu espírito.

– Aham… Tamoio tem seus recursos, eu tenho os meus. Este chamado de Ruivo tem a compleição perfeita para um guerreiro, mas e este garoto, chamado Pedro? Acha prudente permitir que um homem branco tão verde faça parte dessa festividade que iremos começar?

– Eu, Jurema, digo que sim. Ele parece um garoto, mas se não tivesse valor, a vila que destruímos não o teria escolhido para fazer a lida de vigia.

– Como quiser, minha filha.

– Eu não sou tua filha. Eu sou filha de Ceci. A terceira amante da sua terceira esposa.

– Que irá me suceder assim que se unir a Peri.

– Eu não desejo me unir a Peri, meu primo, praticamente meio irmão, nem desejo te suceder.

– Está vendo o que eu aguento, Tamoio? Foi isto que os Espíritos quiseram para nós?

– [Gargalhada] Oh, sim, é isso. A chegada de Pedro e Ruivo apenas completa a profecia. Aquilo que vier a ser entre Jurema e seus tutelados é que irá escrever o futuro de nossa tribo. Então nada mais justo do que eles saberem o que lhes aguarda, se falharem.

– Posso explicar a meus tutelados sobre o que é esta festividade ou devo deixar para que lhes relate, Tamoio?

– Oh não, “princesa” Jurema, eu não quero te tirar esta satisfação.

Jurema fecha o semblante e isto deu arrepios em Pedro e também em Ruivo. Puxando pela correia que prendia a ambos pelo pescoço, Jurema conduz seus prisioneiros até diante do tronco decorado.

– Este tronco está nessa tribo desde os primeiros, desde nossos ancestrais. Este tronco é a alma de nossos ancestrais. Quando nós morremos, nosso corpo é queimado e nossas cinzas são guardadas dentro deste tronco. Tamoio consegue falar com o Grande Espírito que revela tudo que precisamos saber através da voz de nossos ancestrais. Esta noite teremos lua cheia, nestas ocasiões Tamoio faz suas artes e nossos ancestrais falam através deste tronco. Quando temos que julgar a sorte de alguém, nós consultamos aos nossos ancestrais e é isso que será feito esta noite. Três de nós trará diante do tribunal seus tutelados que não se integraram. Três dos seus terão a sorte decidida. Se a Fortuna e o Destino, como o homem branco diz, lhes for boa, viverão por mais algum tempo. Mas se a sorte lhes for nefasta, esta noite comeremos das carnes dos condenados.

– Vocês comerão um homem? Pergunta Pedro.

– Por que não? No que um homem é diferente de uma galinha, um porco ou um boi? Responde Tamoio.

– Gente é diferente de bicho.

– Sim, gente é diferente de bicho. Mas todo ser existente vive pela consumação de outro ser existente. Acreditar que por sermos diferentes nós somos melhores do que o bicho não fará com que não sejamos devorados. Além do que, o que você come, seja vegetal ou animal, cresceu pela absorção daquilo que a terra come. Seja vegetal ou animal, aquilo que você come é o corpo e a alma de seu ancestral. Recusar a comer algo que nosso corpo necessita por algum receio espiritual é uma ofensa aos nossos ancestrais. Acreditar que a terra não nos comerá e que da terra não nascerá aqueles que virão a nos comer é ingenuidade. Como tantas almas e espíritos poderão renascer e se livrarem da prisão que estão sujeitos em um corpo, se não comermos aquilo que vem da terra?

– Nós causaremos dor e sofrimento a um homem.

– Por que o homem é diferente do fruto ou do bicho? Tudo que vive sente dor. Se não sente dor, não é ser vivo. Tudo que vive depende de satisfazer as necessidades de sua existência. Quando há sede, bebemos; quando há fome, comemos; quando há desejo, amamos. Então por que ficar constrangido?

O diálogo é interrompido com um puxão dado por Jurema na coleira de Pedro. A festividade havia começado. Diante do tronco, três homens esperavam a sentença do tribunal enquanto Tamoio começa a falar com os ancestrais. Os réus estão ajoelhados, tremendo de medo, lançando lamúrias contra si mesmos. Criados no medo incutido pelos padres, temem a morte e o que lhes aguarda depois. Do que lhes adiantaram as lendas dos santos mártires? Todo mundo quer ir para o Céu, mas ninguém quer morrer. Ruivo esbarra em Pedro com a ponta do pé para que lhe escute.

– Lembre-se, Pedro, do que eu te disse no inicio de nossa jornada. Nós estamos aqui como convidados, não nos cabe falar mal dos hábitos de nossos anfitriões. Você pode sentir suas tripas revirando com o que vê, mas saiba que eu vi que mesmo um bom cristão é capaz de comer as carnes de outro bom cristão. A única diferença, se é que podemos dizer que há uma, é que nós nos dizemos civilizados.

Três baques surdos interrompem o pensamento de Pedro. Três corpos caem inertes depois de terem se separado de suas cabeças. Uma justiça não teme dar fim a uma existência que, se continuar, fará os mesmos crimes que é acusada. Nenhuma sociedade sobrevive guardando condenados. Por alguns instantes Pedro sente suas tripas revirando, mas, conforme a festividade e a noite segue, seja pela fome, seja pelo vinho de palmeira, Pedro se junta a Ruivo e Jurema no churrasco.

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