Viajanças de Pedro Vera Cruz – V

No arreio dos nativos, muita festa, pois haviam capturado mais homens brancos. Ruivo esbarrou em Pedro para que ele olhasse que não eram os primeiros homens brancos a estarem ali. Alguns estavam presos em cadeias feitas com algum tipo de galho verde, enquanto outros estavam completamente ambientados. Ruivo pressentiu ali uma oportunidade.

– Eu estou curioso, Jurema, pelo tratamento diferenciado que tua gente dá para minha gente.

– Isto te surpreende? Pois tua gente também não se decide o que faz com minha gente. Ora nos quer como aliados, ora nos quer como escravos. Quanto a isto não somos muito diferentes.

– Sem duvida não somos e somos diferentes, sem o que não nos poderíamos nos reconhecer e nos dar o devido tratamento ao nos vermos tão iguais. Mas se minha palavra valer algo, nós não temos coisa alguma com aqueles te tratam mal. Eu diria mesmo que nós receberíamos um tratamento desumano por aquele que se dizem ser nossa gente. Tal é a volatilidade do humor das gentes, muda de direção com mais constância do que os ventos.

– Seu palavrório rebuscado é parecido com tantos que tentaram nos enganar, então eu prefiro que demonstrem com ações e não com elogios. Vê estes de sua gente presos? Também tiveram belas palavras para nós, mas mostraram seus verdadeiros espíritos com o tempo. Vê estes que estão integrados? Nós os libertamos das cadeias de sua gente e foram estes os que mais se integraram aos nossos hábitos, o que mostra como a justiça pode ser enganada.

– Eu não estou surpreso, Jurema. Aqueles que não se situam diante de novas circunstâncias são os que perdem o rumo. Aposto que se tiverem chance, voltam feito cães bem ensinados aos seus donos, mesmo que estes os maltratem. Assim é o ser humano, em troca de algumas migalhas concebe até mesmo adular o tirano.

– Eu bem sei disso, Ruivo. Nós observamos a Casa de Pedra dos homens brancos e seus hábitos. Dependendo da bandeira, da coroa, do rei ou do Deus que seguem, fazem com que seus paus de trovões soem alto contra sua própria gente. Aqui nós temos sua gente como brancos e apenas isso, mas é bem possível que vocês os vejam de forma diferente. Tal como sua gente nos olha como um povo só, mas temos diversas tribos e conflitos. Até nisso somos iguais.

– Devo então supor que tal como em nossa gente, aqui existe um tributo, uma tarifa, a que todos é imposta, para ser parte e ser aceito desta tribo.

– Pelo poder de Mandacaru! Você é bem esperto, Ruivo. Mas e você, Pedro, o que tem a oferecer?

– Eu estou ouvindo o que dizem e posso dizer então que eu sou bom ouvinte. Quando eu saí de Angicos, meu mundo era apenas aquele rincão de terra. Quando eu embarquei em Ortigia, eu desafiei o medo e a morte. A Fortuna me concedeu um tutor e não ofendo a Deus quando fomos abandonados nesse mundo incógnito, eu devo aceitar o fardo do Destino e confiar na providência. Eu coisa alguma esperei, nem criei expectativas e eis-me aqui, tendo mais uma tutora para minhas viajanças. Eu não tenho tanta experiência quanto Ruivo, mas estou disposto a aprender.

– Eia, Pedro, que é isto tudo que Deus quer de nós. Nosso corpo não é diferente de um barco. Deus nos deu o corpo e quer que nos naveguemos pela vida ao sabor dos ventos que Ele nos dá. Se sairmos do barco, acaso acaba nosso velejar? Não, o barco sita silente e é tudo, aquilo que o faz velejar é nossa vontade, o que o impulsiona é o sopro que vem de Deus. O que dizer do capitão desse barco que é o corpo se este ao invés de assumir sua responsabilidade maldiz o mar, o vento, as estrelas? Essa é a condição imposta a todos que vivem, a carne sente, então há dor, mas o que se faz disso compete a quem está na jornada, o sofrimento é opcional. As coisas são o que devem ser, se vemos bem ou mal nas coisas isto vem de nosso julgamento limitado e finito, a vida é amoral.

– Que bom seria se fosse fácil assim, mas o nosso barco parte de um porto carregado de coisas que nos põem e nossa rota é traçada por mapas que outros nos deram. Quem pode resistir aos ventos ou às marés? Isto é a Fortuna agindo em nossa vida. De onde viemos e para onde vamos, isto é Destino e assim nosso barco é uma peça em um jogo entre poderes divinos.

– Ainda assim, quem está no timão é a tua mão. Quem controla as cordas e as velas são teus braços. Quem observa a bússola e as estrelas são teus olhos. Quem decide quais cargas mantem à bordo é o teu governo. Teu rumo é o que tu faz dele, não são teus pais, teus avós ou teus ancestrais.

– Eu não convivi muito bem com meus pais. Eu imagino que se conhecesse meus ancestrais, minha relação com eles não seria muito diferente.

– E isto importa? Nossos pais sabem tanto quanto nós sabemos. Nossos avós fizeram o que podiam com o que sabiam. Nossos ancestrais viveram as vidas deles. Que jornada trágica quem carrega consigo as culpas ou as glórias de vidas passadas, jamais terá vida própria. Quem está aqui agora é tu e mais ninguém, sinta o mar, observa as estrelas, enfune suas velas com os ventos, siga a rota que você e apenas você escolheu.

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