Viajanças de Pedro Vera Cruz – III

O capitão desceu ferros estando há dez léguas do litoral, a distância mínima recomendada para que uma caravela não atinja o fundo do mar. De sua luneta, tudo o que podia ver era diversos tons de verde salpicados de diversas cores. Do poleiro, o vigia apenas avistou o esvoaçar de estranhas aves entre as copas das árvores. Não havia presença de gente naquelas areias e não havia qualquer sinal de cidade ou porto. Isto era o que menos importava ao capitão, sua missão era desembarcar os passageiros em outras terras e certamente a coroa portuguesa não fará falta da carga que levava. Gritou aos marinheiros que, rapidamente, prepararam os batéis, nos quais foram enchendo com os passageiros, sobre a mira de um mosquetão ou acorrentados. Sem muita cerimônia, o capitão fez descer os batéis e, com um empurrão, os direcionou para o lado da praia, deixando toda aquela gente por conta própria.

– Ora essa. Parece que vamos ter que nos virar nessa terra estranha, grumete.

– Como isto pode acontecer? O capitão não pode nos abandonar aqui.

– Pedro, o homem é capaz de fazer qualquer coisa. Eu faria o mesmo no lugar do capitão. Nossos companheiros de viagem não são exatamente cavalheiros, se tiver notado.

– A despeito dos crimes que possam ter cometido, como pode um cristão abandonar outro para morrer de fome?

– Acredita mesmo que sentar em uma igreja, ler as santas letras ou ter um crucifixo pendurado no pescoço pode melhorar o homem? Eu vi cristãos matarem cristãos com a mesma facilidade com que se mata gado. No entanto cá estamos nós, no meio de gente que foi julgada e condenada por essa sociedade. Mas mantenha a calma, que eu fugi tantas vezes de cadeias e ferros que estas aqui não me deterão muito. Um, dois, três. Vê? Mãos livres. Agora vamos libertar os demais.

– Eles irão nos matar!

– Por isso mesmo que iremos libertá-los. Isto se chama ato de fé. Mesmo condenados conhecem honra e gratidão melhor que muito barão. Veja como eu faço e faça o mesmo.

Com presteza e habilidade, Ruivo e Pedro soltam as cadeias e ferros dos demais condenados. Conforme o esperado, estes os agradecem e não olham mais para Pedro com desdém. Agora são todos companheiros de Fortuna, laços de fraternidade são jurados e todos se põem a montar um acampamento provisório. Curiosamente, há milhas de léguas de qualquer autoridade oficial, aqueles condenados demonstram um comportamento mais cordial e cooperativo do que se podia encontrar em todo reino de Portugal.

Ainda assim, volta e meia, parecem ressabiados e ariscos, pois percebem vultos e movimentações no meio da mata cerrada. Uma floresta tão densa assim certamente abriga animais de todos os tipos e nunca se sabe quando um predador irá pular no pescoço de algum coitado distraído. Ruivo presenteia Pedro com um bom facão, forte e resistente para desmatar e também afiado o suficiente para partir ao meio um predador. Estranhamente o que quer que seja parecia ter mais medo do que os degredados, pois não avançava nem atacava. Com o tempo acabaram acostumando com esse fantasma tímido e não deram mais conta disto.

O dia findava e o acampamento contava com palhoças bem formadas, um reservatório para água potável, uma cova para assar alimento no fogo e um armazém para guardar os víveres. Estavam praticamente começando a construir uma vila que com o tempo cresceria e seria uma cidade. Condenados pela gente de sua terra criaram uma sociedade organizada, com direito até a patrulha, pois convém ficar prevenido e atento caso apareça gente. Por aclamação, coube a Pedro a primeira lida de vigilância na Vila de Nicolau, tal como batizaram a precária habitação, em honra ao santo que lhes salvaram do naufrágio. Pedro estava em sua lida quando ouvia não um som de bicho, mas um som parecido com flauta, vindo do brechão da mata. O tempo que passou com Ruivo lhe inflou a coragem e o destemor de tal forma que Pedro seguiu, vagarosamente, pé ante pé, a direção do som da flauta até chegar em um lago, em cujas águas brincavam o que se parecia com mulheres, embora não parecessem com algo que tenha visto em seu lar natal.

Aquelas criaturas, que reunidas estavam como em sororidade, tinham a tez como dos mouros, mas não pareciam ter ou possuir qualquer vestimenta, banhavam-se despreocupadamente nas águas do lago sem temer ataque de predador algum. Sem duvida deviam estar acostumadas a tal feitio e bem poderiam estar usufruindo de uma propriedade das gentes locais, de forma que Pedro é quem era o intruso, o estranho, cuja presença não demorou a ser notada pela mais jovem e formosa de todas. Não houve algazarra, gritos, medo ou surpresa. A jovem mulher nativa simplesmente aproximou-se de Pedro enquanto as demais observavam e riam da cena.

– O que faz tão longe de sua Casa de Pedra, homem branco? Perdeu-se de sua expedição? Não tem medo de servir de comida para nós?

– Eu atravessei milhas de terras, milhas de águas para aqui chegar. Não temo mal algum. Meus companheiros não estão muito longe, de forma que lhe recomendo que não atentem contra minha vida.

– Nossa gente conhece suas estórias, homem branco. Deveras deve ter vindo a pouco tempo, sem sequer ter entrado nos portos que sua gente ergueu, senão saberia que estes morros todos estão interditados para tua gente, assim nos garantiram teus prelados. Mas como homem branco nunca honra sua palavra, agora o que fazemos nós de ti e teus companheiros? Basta um assobio nosso para vir mil de nossa gente para cada um de tua gente. Este não é um carteado, homem branco, vai blefar ou vai usar o bom senso? Mostre onde ergueram suas ocas e entreguem-se para evitar desnecessário derramamento de sangue.

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