Viajanças de Pedro Vera Cruz – II

A nau Ortia singrava por sobre as águas, o sol sumia no horizonte como se mergulhasse no mar e do outro lado o porto de Lisboa era um borrão que se misturava na indistinta linha do litoral português. Pedro ainda estava tenso, mas não havia mais como voltar atrás e o pior não é pensar na viagem, mas no sentimento que existe atrás dos olhos dos homens. A isto ele também pouco podia fazer, sendo o único jovem no meio de tantos homens feitos era inevitável chamar a atenção. Um vulto parou ao seu lado e o cheiro denunciava que se tratava do holandês que o adotou.

– Não fique com medo. Viajar é bem seguro, lhe garanto.

– Tens experiência em andar pelo mar?

– Oh, sim, senhor. Eu tenho muita. Eu não tenho vergonha em admitir que eu sou corsário. Ingleses, franceses, espanhóis e mesmo minha gente adoraria por as mãos em meu pescoço para estica-lo.

– Eu sinto que este é o desejo desta malfazeja tripulação.

– Por que lhe desejariam mal? Ademais, está comigo. Ninguém mexe com o que pertence ao Ruivo.

– Quiçá lhes incomoda minha juventude, devem crer que este não é meu lugar.

– Então lhe invejam, pois bem sei que muitos que aqui estão começaram sua vida no mar com menos idade do que tens agora.

– Malfadada sorte, se não acabo na ponta de uma faca, certamente acabarei quando cairmos no abismo além do mar.

– Muitas maravilhas tu encontrará no mar, mas nenhum abismo. Estas são carochas ditas por padres. Eu ouvi diversas vezes a história de que velhos navegantes percorreram pelo imenso mar sem jamais lhe encontrar término.

– Então não cairemos na danação? Não estamos atentando contra Deus? Não iremos dar nas terras dos mortos?

– Os padres falam muito do que desconhecem. Homem algum pode conhecer Deus totalmente. Pode mesmo um padre sentado na sacristia conhecer algo mais além de sua comarca? Eu estive em muitas terras e conheci Deus em muitas formas, nomes, cores e ritos. Eu te aconselho a ser como o humilde sapateiro que não põem uma forma para todo sapato.

– Eu tentarei. Tu estiveste nestas terras para onde nos destinamos?

– De passagem. Dizem que ali o mar é caprichoso. Como não bastasse, podemos nos deparar com ataque de bucaneiros ou nativos. Felizmente estamos em uma caravela armada e não temos riquezas que nos façam de alvo. Então apenas devemos torcer para que as pesadas tábuas e vigas aguentem a cólera do mar.

O sol cedeu seu trono para a lua, as velas da nau Ortia encresparam anunciando a chegada de uma tempestade. As estrelas sumiram entre pesadas nuvens e o casco sofria com o castigo da maré. Os marinheiros corriam de um lado a outro, puxando cordames, segurando mastros, arriando velas, enquanto a nau dançava sobre as ondas do mar. Dizem que o mar é o reino de Netuno ou Poseidon, a quem os gregos antigos ofereciam cavalos brancos em sacrifício porque o vai e vem de um barco sobre as ondas é semelhante ao vai e vem de um homem sobre o cavalo.

Horas depois, a tempestade sumiu tão rápido quanto apareceu. O capitão gritou ao vigia para dizer o que via. Do poleiro, o vigia avisou que não via mais frota alguma, não via mais qualquer sinal de terra, as estrelas não estavam em seu lugar habitual. Estavam perdidos no meio do grande mar. Todos corriam um grande risco se fossem abordados por algum navio inimigo. Em época tão incerta, no meio do mar não se sabe quem é amigo ou inimigo. O capitão observou as estrelas por sua luneta, pois teria que decidir em qual direção eles seguiriam viagem. Um bom sinal ele avistou no meio da noite. O capitão reconheceu o Cruzeiro do Sul e este foi sua bússola. Mesmo quando a noite deu lugar ao dia, o capitão seguiu pela mesma trilha que havia fixado, até o vigia dar o sinal que ele esperava de terra avistada. Era dia de São Nicolau a quem todos deram graças.

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