Viajanças de Pedro Vera Cruz – I

A Vila de Angicos, uma pequena vila em algum lugar do distrito de Bragança, em Portugal, estava há léguas de Lisboa, mas estava perigosamente próxima das rotas onde franceses e espanhóis passavam. Os mais velhos lembram que ali também passaram os Mouros, antes deles os Visigodos, os Suevos, os Romanos e mais outros a perder no tempo.

Ali as notícias, boas e ruins, chegavam mais rápido. Houve um tempo em que Angicos tinha sido sede de um reino Suevo e depois Visigodo e depois Mouro e depois Cristão. Angicos deixou de ser a sede do reino da Astúrias quando o primeiro rei de Portugal fez seu trono em Lisboa. Desde então Angicos decaiu e perdeu sua formosura, os castelos ficaram à sombra das árvores que lhe tomaram o terreno, quase ruídos, por que a pobreza fazia com que os que insistiam em lá permanecer a lhes tomar as pedras para fazer uma palhoça melhorada.

Angicos cresceu de uma vila de camponeses, voltou aos seus donos e ali os hábitos e costumes fariam os padres pensarem que não são mais cristãos, mas a verdade é que a igreja local também passou de mãos. Em seu alicerce, a igreja de Angicos guarda ainda suas relíquias romanas. Sua arquitetura manteve o desenho de seu primeiro padre, um suevo cristão priscilanista. Que foi substituído por um padre visigodo cristão ariano. Que foi substituído por um padre mouro. Que foi substituído por um padre espanhol católico. Que não mais voltou desde que os franceses começaram a marchar. Angicos havia acostumado-se a essa inconstância nas coisas e tocava a vida, ouvindo o que o Conselho dos Anciãos decidia.

Aceitaram ser parte do Reino de Portugal com a mesma indiferença e facilidade com que aceitaram ser parte do Reino da Espanha. Com a movimentação dos franceses, os anciãos ficavam na expectativa de virarem parte do Reino da França. Quando avistaram um arauto achegando com uma comitiva ao longe, pelas roupas o tomaram por um francês, mas o brasão era português. O arauto anunciou que o duque de Bragança havia declarado a independência do Reino da Espanha, ao ser coroado Dom João IV como Rei de Portugal, vindo o arauto a receber a conversão do senhorio de Angicos e deste receber a vassalagem exigida pelo rei.

Pedro Vera Cruz era um garoto pequeno no meio da turba amontoada enquanto o arauto aguardava que o prefeito de Angicos se apresentasse, não um bando de velhos que se intitulavam Conselho de Anciãos. A comitiva do arauto, cavaleiros do rei Dom João IV, estavam visivelmente irritados, mas há tempos que não se vê pelos campos de Angicos quaisquer alcaide, prefeito, conde, duque ou qualquer administrador real. Os edifícios administrativos foram os primeiros a serem reciclados, por terem pedras e madeiras melhores. O arauto segui com sua missiva tal como estava, no meio da praça do mercado, diante dos velhos e anunciou a ordem real de que Angicos deveria ceder sua gente para tomar posse das colônias além mar.

Os velhos se entreolharam, afinal o litoral era suficientemente longe de Angicos para ser uma aventura, quanto mais tomar uma nau e ir até onde acaba o mundo, onde acaba o mar. Os velhos fizeram o mesmo que as outras vilas da região fizeram. Abriram as cadeias de seus calabouços, asilos e ermidas, entregaram ao arauto e sua comitiva seus condenados, hereges, feiticeiros e loucos. O Reino de Portugal tinha tão pouca gente e tão pouca mão de obra disponível que aceitava todos que vinham, voluntários ou não, nobres ou clandestinos.

Ninguém deu conta nem se importou que Pedro Vera Cruz somou-se a tal trupe. O distrito de Bragança, do mesmo lugar de onde o rei de Portugal era duque, enviou para as caravelas mais alguns portugueses, somando-se aos tantos outros que vieram dos demais distritos. O porto de Lisboa nunca teve tanta população quanto naquele dia. Nem tantas caravelas. Os capitães, prevenidos, separaram a melhores naus aos nobres e deixaram os navios militares, com suas respectivas cadeias, repletas de novos inquilinos. O maior esforço seria o de garantir a travessia aos nobres para que chegassem nas melhores condições, então as maiores provisões iam nas melhores caravelas. Aos demais, que a Fortuna e o destino resolvessem.

Pedro Vera Cruz achou um canto relativamente bom, arejado e seguro. Marujos e condenados olhavam o garoto com certa surpresa, mas não lhe perguntaram coisa alguma nem o incomodou. Pedro quase começou a arrepender-se de sua ousadia, pensando no que tantos homens feitos poderiam cometer contra ele ao longo de sombria viagem, quando um homem grande e cabelos vermelhos sentou-se perto dele e o tomou por adoção. Assim, Pedro ganhou a proteção de um legitimo corsário holandês, ao lado de quem ele deixou escrita suas memórias destas aventuras.

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