Nada de novo sob o sol

Conforme o ano chega em dezembro o ser humano parece que adquire outro humor.

As lojas estão cheias de enfeites e decoração desde novembro e o ser humano comemora o Natal, uma celebração roubada das antigas religiões. Até a noite de Natal todo mundo parece possuído de bondade, embora isto seja traduzido em comércio e consumismo. Mal o tempo vira o dia e esquecemos de toda bondade.

Uma semana depois tem a inevitável festa de Fim de Ano, canais de televisão fazem a retrospectiva do ano, milhares de pessoas se juntam em um espaço público para a contagem regressiva, fazendo suas promessas de Ano Novo. Mal o tempo vira o dia e esquecemos de toda promessa.

Todo ano é assim. Não há coisa alguma de bom em comemorar o Natal, não há coisa alguma de novo em comemorar o Ano Novo. Aparentemente somos incapazes de melhorar, mudar, aperfeiçoar. Velhos hábitos persistem porque nos acostumamos com eles e são cômodos, confortáveis. Mudar exige compromisso, esforço, persistência.

Assim fingimos que nos importamos, fingimos que gostamos, fingimos amizades com colegas de empresa, com familiares, com pessoas que, muitas das vezes, passamos a maioria dos dias em conflito.

O Diário do Centro do Mundo explicou porque as promessas de Ano Novo são impossiveis de serem cumpridas. Basicamente acreditamos que esse ritual, que se tornou uma mera formalidade, há de gerar automaticamente, magicamente, a mudança que queremos.

Eu sei como é essa experiência. Nós criamos uma expectativa, como se a mudança individual fosse o resultado final desse processo e como se essa modificação pessoal fosse melhorar a realidade, a sociedade que vivemos. Infelizmente a vida, a realidade, a sociedade, não é nem será como idealizamos.

Aqui há um dilema: a base da sociedade residem ou no indivíduo ou no coletivo. Encontrada a base, as forças que são proativas, encontra-se os meios de fazer a mudança, a melhoria, a transformação.

Nós queremos ser diferentes continuando sendo iguais ao que éramos. Até filósofos e intelectuais confundem muito a questão do “diferente” e do “igual”. O filósofo Ghiraldelli faz muitas apostas nesse sentido, sem se dar conta de que comete várias suposições enganadas.

“A diferença tem chance de trazer o bem. A igualdade tem menos chance. Por isso mesmo as utopias igualitaristas sempre nos trouxeram algum incômodo para além do que inicialmente nós pensávamos que era o seu objetivo fustigador. Os seus criadores procuraram fazê-las em detalhes, exatamente para mostrar o caráter indescritível do bem. Antes do predomínio do pensamento histórico, as utopias sempre foram detalhistas, como se quisessem dizer exatamente isso: uma sociedade do bem não é algo que não exista ou não possa existir, é algo não possível de ser descrita. Ela é inumerável em suas características. Isso foi percebido pelas utopias que se casaram com o pensamento histórico e quiseram se realizar. Ao se fazerem igualitaristas, seus projetores logo apelaram, em um segundo momento, para a liberdade. Tentaram deixar claro que se iriam falar em igualdade era para que se pudesse comemorar a liberdade que viria junto.”

Intelectuais e pensadores conservadores costumam generalizar e confundir o que é ou não “de esquerda”. Também confundem “igualdade” e “diferença”. Não há bem ou mal algum, isto são considerações morais humanas, falíveis e tendenciosas. Existe muita maldade sendo praticada por se ver no “outro” aquilo que se vê como “diferente”. Existe muita maldade sendo cometida por se acreditar na “desigualdade”. Ver a diferença não conduz à desigualdade e a igualdade não suprime as diferenças. Apenas uma mentalidade conservadora de direita acredita nisso.

Costuma-se acreditar que os regimes que surgiram depois da revolução russa e chinesa sejam “socialistas” ou “de esquerda”. Costuma-se acreditar que exista efetivamente um “marxismo cultural” querendo impor um igualitarismo totalitário, nivelando todos à mediocridade, por isso apregoam a meritocracia. O mérito não vem por estipularmos a diferença, o mérito é o resultado de uma competição justa e isso somente existe em uma sociedade igualitária. O que é bom e justo somente é atingido quando a sociedade como um todo possui os mesmos direitos e acesso aos meios de produção. A meritocracia é acreditar que apenas determinadas pessoas, privilegidas, uma elite, é que tem “direito”, tornando a diferença algo inato, herdado, tornando os privilégios algo natural e a miséria como sinal de incapacidade. Não há bem algum nisso, apenas segregação e desigualdade.

Desfeitas as confusões entre igualdade e diferença, entre apostar que a diferença conduz necessariamente ao bem e a igualdade à estagnação, eu devo desfazer outro conceito enganado, que é a separação entre individuo e coletivo. Não há coletivo sem indivíduo, não há individuo sem coletivo. Não existe também agente passivo na história. Não são promessas de qualquer natureza que vão realizar a mudança que queremos. Mudanças ocorrem quando há ações, quando há projetos e execuções. Chame de Espírito do Tempo, chame de Consciência Coletiva, a realidade é [re]produzida e transformada ao mesmo tempo em que é [re]criada.

Isto somente é possivel quando há um desejo e vontade que são iguais, com métodos diferentes, almejando o mesmo objetivo. Isto não precisa acontecer em uma data específica do ano, nem cercada de um ritual que se tornou mera formalidade. Não há nada mais velho do que desejar Feliz Ano Novo. O Ano Novo começa em qualquer um dos 365 dias de todo ano. Então Feliz Humanidade Nova. A partir de agora.

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