Arquivo mensal: janeiro 2016

Viajanças de Pedro Vera Cruz – VIII

A lua começava sua ronda pelo véu de Nix quando Pedro e Jurema retornavam ao arreio, juntamente com três presuntos frescos para o jantar, mas os nativos estavam agitados demais. A princípio Pedro pensou que estavam se preparando para mais uma festividade, mas pela expressão de Jurema a coisa era séria. Pedro seguiu bem atrás de Jurema que foi atrás de Tamandaré para ver o que estava acontecendo.

– O que aconteceu, Tamandaré? Os homens brancos estão vindo nos invadir?

– Não, Jurema. Nossos batedores voltaram recentemente dizendo que a Casa de Pedra foi cercada e invadida pelos franceses. Nós sabíamos como ignorar e combater os portugueses, mas nós sempre tivemos problema com os franceses.

– Eu me recordo dos franceses. Cheiram mal, são resistentes à integração e tratam mal às mulheres. O que vamos fazer?

– Nós estamos nos organizando para tentar resistir. Se vierem com todos seus paus de fogo, não teremos muita chance. Mesmo se conseguirmos reunir outras tribos, atacar seria suicídio.

Repentinamente surge Tamoio, sorridente, dando um tapinha nas costas de Pedro.

– Nós não precisamos resistir ou invadir. Nós temos bem aqui nossa arma secreta. Os franceses vão se aportuguesar, vão ficar mais agradáveis para nossas mulheres e poderemos ser uma enorme nação de mestiços.

Jurema, Tamandaré e Pedro olharam para Tamoio sem entender como isso seria possível. Sorrindo, o homem santo e sábio explicou.

– Ora, vamos, tenham fé! Os portugueses e franceses tem a mesma fraqueza. Ambos abrem as portas de suas fortalezas aos padres. A providência de Mandacaru fez com que Pedro nos trouxesse três padres. Tudo que precisamos fazer é escolher três guerreiros, vesti-los com os hábitos dos padres e simplesmente bater na porta da Casa de Pedra. Os franceses vão fazer biquinho e falar algo, mas vão deixar os nossos padres entrarem. Tudo que nossos emissários precisam fazer é abrir as portas da fortaleza quando todos estiverem dormindo.

Tamandaré pisca seus olhos, espantado em ver que seu velho amigo sabe traçar uma estratégia militar. Para resumir um pouco a coisa toda, os escolhidos foram Pedro, Ruivo e Jurema. Segue então um diálogo entre Pedro e Tamoio.

– Mas Tamoio, eu não sou padre! Eu não posso vestir esse hábito!

– Por que não, meu jovem? O que esses homens têm de diferente de você? Acaso aprenderam mais coisas do que você? Duvido. Se fossem homens sábios e santos, não estariam a serviço de uma instituição criada por homens. Se fossem homens de conhecimento e esclarecidos, não teriam que colher ervas às escondidas.

– Eles foram escolhidos por Deus para serem padres.

– E por acaso todos nós não fomos escolhidos por Deus ao nascermos? Acredita mesmo que você está distante ou separado de Deus? Acredita mesmo que estes padres saberiam discernir Deus se aparecesse para eles? Deus não está em igrejas, em livros, em escolas, nem está em um distante Firmamento. Deus está bem aqui, dentro de você e em toda sua volta, na natureza, nos animais e em outros seres humanos. Este mundo é Deus, a vida é Deus, a natureza é Deus, você é parte de tudo isso. Por que você acredita que um padre teria mais conexão com Deus do que você? Ouça bem, Pedro, você tem mais conhecimento, propriedade, santidade e contato com Deus do que qualquer um destes padres. De fato, os padres não se comportam muito diferente de outros humanos, então vista o hábito sem receio.

Pedro ouviu e aceitou os conselhos de Tamoio e vestiu o hábito. Ruivo ficou com o hábito do padre que era maior e mesmo assim o hábito ficou justo. Difícil mesmo foi disfarçar as curvas e os volumes de Jurema dentro do hábito. Ela ensaiou uma voz mais masculina, mas depois desistiu ao lembrar que muitos padres tinham vozes mais afeminadas do que ela. Prontos os emissários, seguiram a missão, apenas os três, postaram- se diante do pesado portão de entrada da fortaleza.

– Quem vem lá? Aproxime-se, identifique-se, pois somos também servos do rei.

– Nós somos apenas três padres solicitando ajuda, auxílio e exílio. Nós rogamos, pela graça do rei e do Senhor, que nos abriguem, pois os nativos nos perseguem para nos comer.

– Nós também servimos ao Senhor, mas a qual rei vós servis?

– O Rei, Cristo, a quem todos os reis obedecem. Se vós sois cristãos, deveis abrir vossas portas.

Constrangidos, os franceses abrem os pesados portões aos padres e os deixam entrar, sem muitas perguntas, nem lhes vistoriam as bolsas e pertences. Os padres tratam de adentrar na fortaleza e seguirem não para a capela interna, mas em direção da capitania onde ficam os guardas e soldados. Antes, porem, eles tiveram que passar por um grande salão, onde estavam reunidos padres, franceses, portugueses e nativos. Mas não decorria qualquer reunião secreta, ou alguma preleção discorrendo sobre planos e estratégias militares. Estavam todos bem à vontade, dançando, cantando, bebendo, fazendo música e amor. Aqui e ali, padres, oficiais e fidalgos estavam entrelaçados com mulheres nativas, em algum tipo de programa de integração. Um dos convivas percebeu a presença dos padres.

– Oh, evoé, meu irmão! Venha, juntem-se a nós!

– Mas… o que significa isso? Perguntou Pedro, tentando disfarçar um padre indignado.

– Ora, ora, irmão, não sabe que dia é hoje? Hoje é carnaval. Nosso bom e abençoado Deus está descansando. Hoje quem está no comando é Dioniso. Tal como nossos pais, avós e aqueles todos que vieram antes de nós celebravam. Lamentável que tenhamos que seguir um costume tão belo e antigo nesse calabouço, nessa fortaleza. Bem que gostaríamos de fazer como a tradição manda. Mas lá fora os nativos poderiam nos comer e isso não no bom sentido. Que bom seria se todos nós pudéssemos sentar, conversar, dialogar. Eu tenho certeza que todas as animosidades acabariam. A Coroa não precisa saber. Eles estão lá longe, do outro lado do mar. Nós podemos fazer as coisas do nosso jeito. Onde todos saem ganhando. Portugueses, franceses, nativos. Nós comemos as mulheres deles e eles comem as nossas mulheres, no bom sentido. Nós seremos todos irmãos e irmãs, ligados pela carne, pelo sangue e por esta terra. Que o Diabo carregue Dom João, a Igreja e Portugal todo. Aqui e agora mesmo, nós estamos dando origem a um novo país. Apenas não decidimos por qual nome ele será batizado. Mas isso fica para depois, depois… depois que conseguirmos deixar as coisas em bons termos com os nativos.

O conviva tropeça em um dos muitos corpos em ação, cai bêbado e fica no chão mesmo. os padres fajutos se olham, indecisos entre levar a missão adiante ou levar a boa nova. Como Jurema e Ruivo tinham precedência sobre Pedro, ele foi “escolhido” para levar os novos planos para a tribo, o que ele foi, mas sob protesto.

Tamandaré e Tamoio lideraram a comitiva dos nativos, que encontraram os pesados portões completamente abertos, sendo efusivamente recebidos pelos habitantes da Casa de Pedra, completamente tomada e dominada pelo carnaval. Fantasiados ou não, não fazia mais diferença. No meio de tanta folia o nome Terra de Santa Cruz apareceu justamente porque este era o sobrenome de Pedro, que foi coroado herói. Depois que portugueses, franceses, nativos e até holandeses se acertaram é que acharam e começaram a comercializar uma árvore de cujo tronco era extraído uma tintura vermelha, por isso foi chamada de pau brasil. O nome era tão bom que acabou se tornando o nome da nação mais alegre, feliz, bagunçada e mestiça de todos os tempos.

Viajanças de Pedro Vera Cruz – VII

O sol estava em seu maior grau, brilhando como a coroa de Apolo, quando Pedro acordou e se deu conta de que estava debaixo de Jurema, tendo seu corpo unido ao dela, como um homem e uma mulher foram criados para se unirem. Com jeito, Pedro se desvencilhou do abraço carnal, para não acordar Jurema. Ao levantar, quase tropeçou em Ruivo que estava entrelaçado com duas nativas. Pedro procurou por suas roupas, mas não as encontrou, tudo o que seu corpo portava eram as coras coloridas que os nativos usam. Deu de ombros e saiu da palhoça para lavar o rosto e comer algo.

Do lado de fora, em toda parte do arreio havia corpos de nativos entorpecidos pela festividade. Ao lavar o rosto, ouviu algo parecido com uma trovoada ao longe. Depois ele sentiu o cheiro de pólvora indicando que o estrondo veio de um canhão. Algum navio ou alguma fortaleza estava em dificuldades. Pela sensação ouvida, Pedro concluiu que a refrega estava a dois dias de caminhada. Não seria bom se outros homens brancos lá chegassem, com canhões e bacamartes, para invadir, tomar, pilhar e matar os nativos. Pedro estava praticamente se considerando parte daquela tribo depois de uma agradável noite de celebração pagã. A despeito de ainda ter em seu pescoço, pulsos e tornozelos as fibras que indicam seu estado como cativo tutelado.

Decidido, Pedro pegou algo parecido com um remo que estava largado diante do tronco decorado e embrenhou sozinho na floresta para deter os possíveis invasores. Caminhou bastante até ouvir o farfalhar das folhas denunciando a chegada de algo. Parado, Pedro aguçou os sentidos para observar o que estava se aproximando. Há cerca de quatro passos dele, três padres pareciam vasculhar os arbustos e pareciam colher frutos, flores e folhas nativas. Curioso em descobrir os intentos dos padres, Pedro continuou quieto em seu esconderijo. O que parecia ser mais jovem e irritado falou primeiro.

– Eu digo sim, Nóbrega. Não é o momento certo para colher ervas. Mercúrio está retrógado.

– Pois diga mais alto Barnabé, que se o cura te ouvir há de voltar para Portugal se explicar ao Santo Ofício o que tens com Mercúrio.

– Por São Simão, quieto os dois. Batedores disseram que nessa região há muitos nativos que irão nos cozer, com ervas e tudo. Mercúrio que vá às favas. Temos que colher estas ervas para os males que atingem nossa vila.

– E podemos confiar nas curas que os nativos nos ensinaram, Tomás? Com podemos saber que eles não estão afrancesados? Não tem três dias que vimos uma caravela nossa fugindo da fragata normanda. A mesma fragata que agora está ancorada na entrada da baía e quer nos pôr todos na boca do canhão.

– O chumbo é nosso menor problema. Colher ervas é uma atividade precisa. A mesma mistura pode curar ou envenenar, conforme os astros. Diga-lhe Tomás que eu estou certo.

– Oh, puxa, Barnabé, se tivesse me avisado eu teria trazido meu astrolábio para olhar os astros. Como se nós pudéssemos realmente ver algo em pleno dia. Como se as estrelas de cá fossem as mesmas de lá. Como se as ervas de cá fossem as mesmas de lá. Como se um pergaminho sobre o uso de ervas escrito por um cristão novo fosse mais confiável do que a recomendação do bruxo nativo.

– Quieto os dois! Mercúrio, Vênus e Marte hão de entender que nossa condição é de tal urgência que não podemos nos dar ao luxo de perscrutar os astros. Peguemos as ervas e voltemos, antes que o Diabo nos carregue todos e nos faça de jantar para os nativos.

O rosto de Tomás torna-se lívido e ele se vira. Pedro também está atento, pois algo mais agita a folhagem da densa vegetação. Serão mais homens brancos, nativos ou algum predador? De algum lugar o pio de uma estranha ave faz os padres chacoalharem os joelhos e Pedro reconhece o sinal de movimentação de nativos. Amigos ou inimigos? De onde veio o sinal e pela proximidade do alvoroço, Pedro está bem entre estes nativos e os padres. Que interessante dilema e paradoxo: Pedro, homem branco, se considerando nativo suficiente para querer enfrentar invasores da sua gente e ao mesmo tempo não sendo nativo suficiente para se sentir seguro diante de nativos de outras tribos. Pedro sabe que sua luta irá denunciar sua presença aos padres, mas no momento o seu couro é que está em risco. Tenso, Pedro segura a arma e crispa as mãos, preparando o ataque. O vulto que surge ele reconhece bem. Aliviado, Pedro encontra Jurema.

– Então meu porquinho está aqui? Eu posso saber com autorização de quem o senhor passeia por nosso território?

– Psst! Ali adiante tem três padres, eles vão nos ouvir. Eles parecem estar inocentemente colhendo ervas, mas podem muito bem ser espiões e devem ter alguma escolta.

– Não faça ‘psst’ para mim, porquinho. Quanto aos padres, pegue e use a borduna, vamos cair em cima deles. Quanto mais tiverem, melhor será.

– Quem está aí? Quem vem lá? Se é cristão, nos ajude. Se é pagão, que o poder da cruz de Cristo te esconjure!

Jurema passa direto por Pedro que, sem escolha, segue sua senhora e abate os padres com a borduna. Nenhuma escolta por perto. Com os padres, foram pegos os sacos com as ervas, os alforjes de água e as bolsas com moedas. Os terços, os missários e um livro foram descartados por serem completamente inúteis. Pedro avalia seus atos e Jurema tenta animá-lo.

– Então estes são os ditos padres? Eu havia visto antes homens brancos com estas vestes, mas toda sua gente é tão estranha com esse costume de cobrir o corpo com tecido que, para mim, são todos iguais. O que são padres?

– Os padres são os homens santos de minha gente.

– Mesmo? Que estranho. Homens santos são sábios e prudentes. Estes padres não parecem sábios e prudentes. Homens santos têm vários espíritos a seu serviço, eu não vejo espírito algum a serviço destes padres. O que eles tanto discutiam?

– Um deles estava avisando os outros de que não era o momento certo para colher as ervas.

– Momento certo?

– Sim, os padres dizem que existe a hora certa para colher as ervas. Para isso eles observam os astros. Mas fazem escondidos porque se a Igreja souber ou pegar um padre usar desse conhecimento, a Igreja irá processá-los por heresia, feitiçaria e bruxaria.

– Ah, porquinho, você tem que me contar mais dessas histórias engraçadas de sua gente! A Igreja, que é feita por padres, não deixa que padres usem do conhecimento!

– O que vamos fazer com eles e com as ervas?

– Eles são tua caça, você leva para nossa tribo. As ervas boas, usaremos para cozê-los. As ervas sagradas nós daremos para Tamoio.

– Mas e os astros?

– Estão longe. Se há algum tipo de influência vinda deles, esta energia é a mesma, independente de onde estejam. O que é mais interessante de uma erva é em que tipo de solo está, se cresce em rio ou lago, se brota de outra árvore, se tem flores e frutos, o que ela extrai da terra. As propriedades de uma erva não se alteram.

Viajanças de Pedro Vera Cruz – VI

Conforme Hélios atravessa Urano, o sol começa a entrar no portal do oeste, os nativos ficam agitados. Jurema abre as cadeias de Pedro e Ruivo e os leva ao centro do arreio para começar a integração deles.

– Nada temam, esta agitação toda é pela festividade que em breve começaremos. Esta festividade é uma boa oportunidade para se mostrarem uteis. Venham conhecer nosso chefe e homem santo.

Havia um tronco decorado, em torno do qual, homens, mulheres e crianças estavam todos ocupados nos preparativos da festividade. Com os calcanhares amarrados em um tipo de correia feita de fibra vegetal, Pedro e Ruivo foram levados por Jurema até um nativo cuja cabeça estava decorada com um arranjo de penas e outro cujo corpo estava coberto de ossos.

– Chefe Tamandaré e homem santo Tamoio, estes são Pedro e Ruivo, os homens brancos que eu tomei em tutela. Eu os trouxe para conhecer nossos hábitos e serem recebidos como nossos afilhados.

Tamandaré lança um olhar para Pedro e Ruivo que faria gelar uma alma, enquanto Tamoio apenas sorria, como que adivinhasse uma estripulia infantil. Ruivo retorna a Tamandaré o olhar, acostumado que era a não se intimidar. Tamoio desatou a rir e falou primeiro.

– Não levem a mal Tamandaré. Ele sempre faz isso com os novatos. Apenas fracos e covardes ficam impressionados. No entanto eu vejo que este de cabelo vermelho é feito aço malhado pela experiência. O senhor deve ser um homem do mar com muitas batalhas para contar.

– Oh, sim, eu as tenho. Eu não tenho porque ficar amuado com Tamandaré, eu simplesmente lhe devolvi a gentileza, pois reconheci que nós somos iguais. Ainda que minha condição seja a de tutelado por Jurema, isso em nada diminui meu espírito.

– Aham… Tamoio tem seus recursos, eu tenho os meus. Este chamado de Ruivo tem a compleição perfeita para um guerreiro, mas e este garoto, chamado Pedro? Acha prudente permitir que um homem branco tão verde faça parte dessa festividade que iremos começar?

– Eu, Jurema, digo que sim. Ele parece um garoto, mas se não tivesse valor, a vila que destruímos não o teria escolhido para fazer a lida de vigia.

– Como quiser, minha filha.

– Eu não sou tua filha. Eu sou filha de Ceci. A terceira amante da sua terceira esposa.

– Que irá me suceder assim que se unir a Peri.

– Eu não desejo me unir a Peri, meu primo, praticamente meio irmão, nem desejo te suceder.

– Está vendo o que eu aguento, Tamoio? Foi isto que os Espíritos quiseram para nós?

– [Gargalhada] Oh, sim, é isso. A chegada de Pedro e Ruivo apenas completa a profecia. Aquilo que vier a ser entre Jurema e seus tutelados é que irá escrever o futuro de nossa tribo. Então nada mais justo do que eles saberem o que lhes aguarda, se falharem.

– Posso explicar a meus tutelados sobre o que é esta festividade ou devo deixar para que lhes relate, Tamoio?

– Oh não, “princesa” Jurema, eu não quero te tirar esta satisfação.

Jurema fecha o semblante e isto deu arrepios em Pedro e também em Ruivo. Puxando pela correia que prendia a ambos pelo pescoço, Jurema conduz seus prisioneiros até diante do tronco decorado.

– Este tronco está nessa tribo desde os primeiros, desde nossos ancestrais. Este tronco é a alma de nossos ancestrais. Quando nós morremos, nosso corpo é queimado e nossas cinzas são guardadas dentro deste tronco. Tamoio consegue falar com o Grande Espírito que revela tudo que precisamos saber através da voz de nossos ancestrais. Esta noite teremos lua cheia, nestas ocasiões Tamoio faz suas artes e nossos ancestrais falam através deste tronco. Quando temos que julgar a sorte de alguém, nós consultamos aos nossos ancestrais e é isso que será feito esta noite. Três de nós trará diante do tribunal seus tutelados que não se integraram. Três dos seus terão a sorte decidida. Se a Fortuna e o Destino, como o homem branco diz, lhes for boa, viverão por mais algum tempo. Mas se a sorte lhes for nefasta, esta noite comeremos das carnes dos condenados.

– Vocês comerão um homem? Pergunta Pedro.

– Por que não? No que um homem é diferente de uma galinha, um porco ou um boi? Responde Tamoio.

– Gente é diferente de bicho.

– Sim, gente é diferente de bicho. Mas todo ser existente vive pela consumação de outro ser existente. Acreditar que por sermos diferentes nós somos melhores do que o bicho não fará com que não sejamos devorados. Além do que, o que você come, seja vegetal ou animal, cresceu pela absorção daquilo que a terra come. Seja vegetal ou animal, aquilo que você come é o corpo e a alma de seu ancestral. Recusar a comer algo que nosso corpo necessita por algum receio espiritual é uma ofensa aos nossos ancestrais. Acreditar que a terra não nos comerá e que da terra não nascerá aqueles que virão a nos comer é ingenuidade. Como tantas almas e espíritos poderão renascer e se livrarem da prisão que estão sujeitos em um corpo, se não comermos aquilo que vem da terra?

– Nós causaremos dor e sofrimento a um homem.

– Por que o homem é diferente do fruto ou do bicho? Tudo que vive sente dor. Se não sente dor, não é ser vivo. Tudo que vive depende de satisfazer as necessidades de sua existência. Quando há sede, bebemos; quando há fome, comemos; quando há desejo, amamos. Então por que ficar constrangido?

O diálogo é interrompido com um puxão dado por Jurema na coleira de Pedro. A festividade havia começado. Diante do tronco, três homens esperavam a sentença do tribunal enquanto Tamoio começa a falar com os ancestrais. Os réus estão ajoelhados, tremendo de medo, lançando lamúrias contra si mesmos. Criados no medo incutido pelos padres, temem a morte e o que lhes aguarda depois. Do que lhes adiantaram as lendas dos santos mártires? Todo mundo quer ir para o Céu, mas ninguém quer morrer. Ruivo esbarra em Pedro com a ponta do pé para que lhe escute.

– Lembre-se, Pedro, do que eu te disse no inicio de nossa jornada. Nós estamos aqui como convidados, não nos cabe falar mal dos hábitos de nossos anfitriões. Você pode sentir suas tripas revirando com o que vê, mas saiba que eu vi que mesmo um bom cristão é capaz de comer as carnes de outro bom cristão. A única diferença, se é que podemos dizer que há uma, é que nós nos dizemos civilizados.

Três baques surdos interrompem o pensamento de Pedro. Três corpos caem inertes depois de terem se separado de suas cabeças. Uma justiça não teme dar fim a uma existência que, se continuar, fará os mesmos crimes que é acusada. Nenhuma sociedade sobrevive guardando condenados. Por alguns instantes Pedro sente suas tripas revirando, mas, conforme a festividade e a noite segue, seja pela fome, seja pelo vinho de palmeira, Pedro se junta a Ruivo e Jurema no churrasco.

Viajanças de Pedro Vera Cruz – V

No arreio dos nativos, muita festa, pois haviam capturado mais homens brancos. Ruivo esbarrou em Pedro para que ele olhasse que não eram os primeiros homens brancos a estarem ali. Alguns estavam presos em cadeias feitas com algum tipo de galho verde, enquanto outros estavam completamente ambientados. Ruivo pressentiu ali uma oportunidade.

– Eu estou curioso, Jurema, pelo tratamento diferenciado que tua gente dá para minha gente.

– Isto te surpreende? Pois tua gente também não se decide o que faz com minha gente. Ora nos quer como aliados, ora nos quer como escravos. Quanto a isto não somos muito diferentes.

– Sem duvida não somos e somos diferentes, sem o que não nos poderíamos nos reconhecer e nos dar o devido tratamento ao nos vermos tão iguais. Mas se minha palavra valer algo, nós não temos coisa alguma com aqueles te tratam mal. Eu diria mesmo que nós receberíamos um tratamento desumano por aquele que se dizem ser nossa gente. Tal é a volatilidade do humor das gentes, muda de direção com mais constância do que os ventos.

– Seu palavrório rebuscado é parecido com tantos que tentaram nos enganar, então eu prefiro que demonstrem com ações e não com elogios. Vê estes de sua gente presos? Também tiveram belas palavras para nós, mas mostraram seus verdadeiros espíritos com o tempo. Vê estes que estão integrados? Nós os libertamos das cadeias de sua gente e foram estes os que mais se integraram aos nossos hábitos, o que mostra como a justiça pode ser enganada.

– Eu não estou surpreso, Jurema. Aqueles que não se situam diante de novas circunstâncias são os que perdem o rumo. Aposto que se tiverem chance, voltam feito cães bem ensinados aos seus donos, mesmo que estes os maltratem. Assim é o ser humano, em troca de algumas migalhas concebe até mesmo adular o tirano.

– Eu bem sei disso, Ruivo. Nós observamos a Casa de Pedra dos homens brancos e seus hábitos. Dependendo da bandeira, da coroa, do rei ou do Deus que seguem, fazem com que seus paus de trovões soem alto contra sua própria gente. Aqui nós temos sua gente como brancos e apenas isso, mas é bem possível que vocês os vejam de forma diferente. Tal como sua gente nos olha como um povo só, mas temos diversas tribos e conflitos. Até nisso somos iguais.

– Devo então supor que tal como em nossa gente, aqui existe um tributo, uma tarifa, a que todos é imposta, para ser parte e ser aceito desta tribo.

– Pelo poder de Mandacaru! Você é bem esperto, Ruivo. Mas e você, Pedro, o que tem a oferecer?

– Eu estou ouvindo o que dizem e posso dizer então que eu sou bom ouvinte. Quando eu saí de Angicos, meu mundo era apenas aquele rincão de terra. Quando eu embarquei em Ortigia, eu desafiei o medo e a morte. A Fortuna me concedeu um tutor e não ofendo a Deus quando fomos abandonados nesse mundo incógnito, eu devo aceitar o fardo do Destino e confiar na providência. Eu coisa alguma esperei, nem criei expectativas e eis-me aqui, tendo mais uma tutora para minhas viajanças. Eu não tenho tanta experiência quanto Ruivo, mas estou disposto a aprender.

– Eia, Pedro, que é isto tudo que Deus quer de nós. Nosso corpo não é diferente de um barco. Deus nos deu o corpo e quer que nos naveguemos pela vida ao sabor dos ventos que Ele nos dá. Se sairmos do barco, acaso acaba nosso velejar? Não, o barco sita silente e é tudo, aquilo que o faz velejar é nossa vontade, o que o impulsiona é o sopro que vem de Deus. O que dizer do capitão desse barco que é o corpo se este ao invés de assumir sua responsabilidade maldiz o mar, o vento, as estrelas? Essa é a condição imposta a todos que vivem, a carne sente, então há dor, mas o que se faz disso compete a quem está na jornada, o sofrimento é opcional. As coisas são o que devem ser, se vemos bem ou mal nas coisas isto vem de nosso julgamento limitado e finito, a vida é amoral.

– Que bom seria se fosse fácil assim, mas o nosso barco parte de um porto carregado de coisas que nos põem e nossa rota é traçada por mapas que outros nos deram. Quem pode resistir aos ventos ou às marés? Isto é a Fortuna agindo em nossa vida. De onde viemos e para onde vamos, isto é Destino e assim nosso barco é uma peça em um jogo entre poderes divinos.

– Ainda assim, quem está no timão é a tua mão. Quem controla as cordas e as velas são teus braços. Quem observa a bússola e as estrelas são teus olhos. Quem decide quais cargas mantem à bordo é o teu governo. Teu rumo é o que tu faz dele, não são teus pais, teus avós ou teus ancestrais.

– Eu não convivi muito bem com meus pais. Eu imagino que se conhecesse meus ancestrais, minha relação com eles não seria muito diferente.

– E isto importa? Nossos pais sabem tanto quanto nós sabemos. Nossos avós fizeram o que podiam com o que sabiam. Nossos ancestrais viveram as vidas deles. Que jornada trágica quem carrega consigo as culpas ou as glórias de vidas passadas, jamais terá vida própria. Quem está aqui agora é tu e mais ninguém, sinta o mar, observa as estrelas, enfune suas velas com os ventos, siga a rota que você e apenas você escolheu.

Viajanças de Pedro Vera Cruz – IV

Bem cedo, enquanto a lua se despedia com seu rebanho de estrelas, enquanto Vênus anunciava a chegada de Hélios, Ruivo levantou e preparava suas abluções para saudar a chegada do sol, tal como seus pais e avôs o haviam ensinado, quando o corsário redimido deu pela falta de seu protegido, que deveria estar voltando de sua lida de vigia.

Acalma-te, ouvinte, que o holandês nutre a mais perfeita fraternidade por Pedro e assim seus olhos buscam pelo jovem adotado, não falhando em seus ofícios, tão acostumados que estavam pela lida no mar, apontaram para a clareira da floresta, de onde Pedro, muito bem amarrado, era escoltado por uma gente. Ruivo supôs, com acerto, que se tratavam de nativos, como muitos que ele anteriormente havia conhecido das terras ditas selvagens e, contando com sua experiência, foi lidar com tais nativos.

– Saudações, gente da terra. Eu não carrego espada, mosquete ou lança. Eu peço que me devolvam o que é meu, que injustamente me tomaram e amarraram.

Liderando a gente da terra, a mesma jovem que havia dominado Pedro responde intrépida ao imenso holandês.

– Saudações, cabelo de fogo. Eu vejo que armas não possui, mas vejo muitas com teus compadres, então não depomos nossos meios de defesa. Muitos somos e aqui estão nossas ferramentas, pois nos acostumamos a ter o que é nosso tomado por tua gente. Com que autorização entrastes em nossa praia? Com que autorização fizestes cair nossas árvores? Ora, cabelo de fogo, tua gente é que é a causa de tudo, então nós manteremos cativo o que é teu a quem os teus se somará. Use do bom senso e diga a estes todos que não resistam, entreguem-se para evitar derramamento de sangue.

O sol saindo aos pouquinhos, pintava a manhã com cores alaranjadas, fazia com que o cabelo de Ruivo uma imitação de seu fogo. Se estivesse em uma boa galera, ou junto com outros corsários, o holandês riria e daria do mesmo fogo a todos, mas a situação pedia uma estratégia mais diplomática. Seu corpanzil voltou-se, como que para admoestar aos seus iguais para que aceitassem aquilo que a Fortuna lhes havia reservado, mas tal como o sol pintava as nuvens com vermelho, assim as areias foram salpicadas com o sangue dos habitantes da vila, tolamente avançando contra os nativos.

Gritos são dados, mas vem das estranhas aves locais, mal havia nascido a Vila de Nicolau, esta caía ao chão enquanto os sobreviventes eram juntados amarrados ao lado de Pedro. Como eu soube da história, se nada sobrou da vila, é algo que o ouvinte saberá se aguentar mais meu pobre relato. Eu poderia aclamar que testemunha eu era, mas ainda não é meu momento. O que eu sei, é o que eu ouvi mais tarde, mas não digo a fonte. Este sim, testemunha de que Ruivo e Pedro foram levados ao arreio dos nativos.

– Jovem senhorita da floresta, eu te aconselho a dizer ao teu povo que é mau negócio se pretendem cozinhar e comer de nossas carnes. Veja bem meu cabelo vermelho. A natureza sábia pinta com cores aquilo que é venenoso. Quanto a este porquinho, veja como é pequeno e mirrado! Se o comerem, quebrarão os dentes em ossos com tão pouca carne.

– Silêncio, cabelo de fogo. Caberá a nós decidir sua Fortuna. Caberá a nós decidir o que comemos ou não. Eu bem sei o que planeja, com tamanha lábia, mas teu porquinho não deve ser conta pequena, visto que a ele confiaram a lida da vigia. Diante de nós, não mostrou receio, temor ou suspeita. Então ele me interessa e, sendo teu, pode ser que tenhamos que negociar por ele.

– Falam de mim como se aqui eu não estivesse. Nossa situação não é boa, Ruivo, o que pretende dialogando com esta mulher nativa? Como podem barganhar pela vida, pela minha posse, como se de fato eu fosse um objeto ou bicho? Eu sou gente e nome tenho por Pedro.

– O seu porquinho sabe grunhir, cabelo de fogo. Sem duvida ele me interessa, pois mostra sabedoria. Não te convêm querer alguma vantagem com seu palavreado, pois eu estou bem escolada destes gorjeios. Mas vede, Pedro, como a vida é engraçada! Nós, que somos tidos por tua gente como selvagens, não tomamos o que não nos pertence, nem fazemos outras gentes nos servirem as colocando em pesadas cadeias. No entanto tua gente tem feito isto desde que aqui chegaram, tomando terra e espaço que nos pertencem, se apossando e vendendo nossa gente como se objeto e gado fosse. De nosso ponto de vista, Pedro, tua gente é que é a selvagem.

– Parece que a mulher nativa nos pegou nessa, Pedro. Quem diria que em terras tão longínquas encontraríamos mais humanidade do que encontraríamos em nossas terras?

– Eu não os culpo pelo que tua gente fez, Ruivo e Pedro. Eu quero crer que aqui chegaram por acaso, se é que isto existe. Neste pouco tempo que eu os tenho em minha guarda e ouvindo o que dizem, eu cheguei a esta conclusão. Vocês são diferentes dos homens brancos que aqui chegaram, eu desconfio até que pior destino teriam se fosse tua gente a lhes achar. Entendam, entretanto, que são invasores e diante de minha gente terão que se explicar. Como eu não desejo que seu espírito me persiga se algum mal advier ao seu amigo, eu, Jurema, irei toma-los em minha tutela.

– Gratos nós te seremos, Jurema e a ti serviremos se assim vossa mercê desejar.

– Teus serviços, Ruivo, são exagerados e velhos para meu interesse. O que Pedro tem a oferecer parece mais comedido e adequado para minha satisfação.

– Ora, ora, Pedro! Pelo visto Jurema há de te comer, não pela boca de cima, mas pela de baixo.

Sem a malícia e a experiência, Pedro nada entende e fica amuado, pensando que ambos faziam pouco dele, por sua pouca estatura ou  idade.

Viajanças de Pedro Vera Cruz – III

O capitão desceu ferros estando há dez léguas do litoral, a distância mínima recomendada para que uma caravela não atinja o fundo do mar. De sua luneta, tudo o que podia ver era diversos tons de verde salpicados de diversas cores. Do poleiro, o vigia apenas avistou o esvoaçar de estranhas aves entre as copas das árvores. Não havia presença de gente naquelas areias e não havia qualquer sinal de cidade ou porto. Isto era o que menos importava ao capitão, sua missão era desembarcar os passageiros em outras terras e certamente a coroa portuguesa não fará falta da carga que levava. Gritou aos marinheiros que, rapidamente, prepararam os batéis, nos quais foram enchendo com os passageiros, sobre a mira de um mosquetão ou acorrentados. Sem muita cerimônia, o capitão fez descer os batéis e, com um empurrão, os direcionou para o lado da praia, deixando toda aquela gente por conta própria.

– Ora essa. Parece que vamos ter que nos virar nessa terra estranha, grumete.

– Como isto pode acontecer? O capitão não pode nos abandonar aqui.

– Pedro, o homem é capaz de fazer qualquer coisa. Eu faria o mesmo no lugar do capitão. Nossos companheiros de viagem não são exatamente cavalheiros, se tiver notado.

– A despeito dos crimes que possam ter cometido, como pode um cristão abandonar outro para morrer de fome?

– Acredita mesmo que sentar em uma igreja, ler as santas letras ou ter um crucifixo pendurado no pescoço pode melhorar o homem? Eu vi cristãos matarem cristãos com a mesma facilidade com que se mata gado. No entanto cá estamos nós, no meio de gente que foi julgada e condenada por essa sociedade. Mas mantenha a calma, que eu fugi tantas vezes de cadeias e ferros que estas aqui não me deterão muito. Um, dois, três. Vê? Mãos livres. Agora vamos libertar os demais.

– Eles irão nos matar!

– Por isso mesmo que iremos libertá-los. Isto se chama ato de fé. Mesmo condenados conhecem honra e gratidão melhor que muito barão. Veja como eu faço e faça o mesmo.

Com presteza e habilidade, Ruivo e Pedro soltam as cadeias e ferros dos demais condenados. Conforme o esperado, estes os agradecem e não olham mais para Pedro com desdém. Agora são todos companheiros de Fortuna, laços de fraternidade são jurados e todos se põem a montar um acampamento provisório. Curiosamente, há milhas de léguas de qualquer autoridade oficial, aqueles condenados demonstram um comportamento mais cordial e cooperativo do que se podia encontrar em todo reino de Portugal.

Ainda assim, volta e meia, parecem ressabiados e ariscos, pois percebem vultos e movimentações no meio da mata cerrada. Uma floresta tão densa assim certamente abriga animais de todos os tipos e nunca se sabe quando um predador irá pular no pescoço de algum coitado distraído. Ruivo presenteia Pedro com um bom facão, forte e resistente para desmatar e também afiado o suficiente para partir ao meio um predador. Estranhamente o que quer que seja parecia ter mais medo do que os degredados, pois não avançava nem atacava. Com o tempo acabaram acostumando com esse fantasma tímido e não deram mais conta disto.

O dia findava e o acampamento contava com palhoças bem formadas, um reservatório para água potável, uma cova para assar alimento no fogo e um armazém para guardar os víveres. Estavam praticamente começando a construir uma vila que com o tempo cresceria e seria uma cidade. Condenados pela gente de sua terra criaram uma sociedade organizada, com direito até a patrulha, pois convém ficar prevenido e atento caso apareça gente. Por aclamação, coube a Pedro a primeira lida de vigilância na Vila de Nicolau, tal como batizaram a precária habitação, em honra ao santo que lhes salvaram do naufrágio. Pedro estava em sua lida quando ouvia não um som de bicho, mas um som parecido com flauta, vindo do brechão da mata. O tempo que passou com Ruivo lhe inflou a coragem e o destemor de tal forma que Pedro seguiu, vagarosamente, pé ante pé, a direção do som da flauta até chegar em um lago, em cujas águas brincavam o que se parecia com mulheres, embora não parecessem com algo que tenha visto em seu lar natal.

Aquelas criaturas, que reunidas estavam como em sororidade, tinham a tez como dos mouros, mas não pareciam ter ou possuir qualquer vestimenta, banhavam-se despreocupadamente nas águas do lago sem temer ataque de predador algum. Sem duvida deviam estar acostumadas a tal feitio e bem poderiam estar usufruindo de uma propriedade das gentes locais, de forma que Pedro é quem era o intruso, o estranho, cuja presença não demorou a ser notada pela mais jovem e formosa de todas. Não houve algazarra, gritos, medo ou surpresa. A jovem mulher nativa simplesmente aproximou-se de Pedro enquanto as demais observavam e riam da cena.

– O que faz tão longe de sua Casa de Pedra, homem branco? Perdeu-se de sua expedição? Não tem medo de servir de comida para nós?

– Eu atravessei milhas de terras, milhas de águas para aqui chegar. Não temo mal algum. Meus companheiros não estão muito longe, de forma que lhe recomendo que não atentem contra minha vida.

– Nossa gente conhece suas estórias, homem branco. Deveras deve ter vindo a pouco tempo, sem sequer ter entrado nos portos que sua gente ergueu, senão saberia que estes morros todos estão interditados para tua gente, assim nos garantiram teus prelados. Mas como homem branco nunca honra sua palavra, agora o que fazemos nós de ti e teus companheiros? Basta um assobio nosso para vir mil de nossa gente para cada um de tua gente. Este não é um carteado, homem branco, vai blefar ou vai usar o bom senso? Mostre onde ergueram suas ocas e entreguem-se para evitar desnecessário derramamento de sangue.

Viajanças de Pedro Vera Cruz – II

A nau Ortia singrava por sobre as águas, o sol sumia no horizonte como se mergulhasse no mar e do outro lado o porto de Lisboa era um borrão que se misturava na indistinta linha do litoral português. Pedro ainda estava tenso, mas não havia mais como voltar atrás e o pior não é pensar na viagem, mas no sentimento que existe atrás dos olhos dos homens. A isto ele também pouco podia fazer, sendo o único jovem no meio de tantos homens feitos era inevitável chamar a atenção. Um vulto parou ao seu lado e o cheiro denunciava que se tratava do holandês que o adotou.

– Não fique com medo. Viajar é bem seguro, lhe garanto.

– Tens experiência em andar pelo mar?

– Oh, sim, senhor. Eu tenho muita. Eu não tenho vergonha em admitir que eu sou corsário. Ingleses, franceses, espanhóis e mesmo minha gente adoraria por as mãos em meu pescoço para estica-lo.

– Eu sinto que este é o desejo desta malfazeja tripulação.

– Por que lhe desejariam mal? Ademais, está comigo. Ninguém mexe com o que pertence ao Ruivo.

– Quiçá lhes incomoda minha juventude, devem crer que este não é meu lugar.

– Então lhe invejam, pois bem sei que muitos que aqui estão começaram sua vida no mar com menos idade do que tens agora.

– Malfadada sorte, se não acabo na ponta de uma faca, certamente acabarei quando cairmos no abismo além do mar.

– Muitas maravilhas tu encontrará no mar, mas nenhum abismo. Estas são carochas ditas por padres. Eu ouvi diversas vezes a história de que velhos navegantes percorreram pelo imenso mar sem jamais lhe encontrar término.

– Então não cairemos na danação? Não estamos atentando contra Deus? Não iremos dar nas terras dos mortos?

– Os padres falam muito do que desconhecem. Homem algum pode conhecer Deus totalmente. Pode mesmo um padre sentado na sacristia conhecer algo mais além de sua comarca? Eu estive em muitas terras e conheci Deus em muitas formas, nomes, cores e ritos. Eu te aconselho a ser como o humilde sapateiro que não põem uma forma para todo sapato.

– Eu tentarei. Tu estiveste nestas terras para onde nos destinamos?

– De passagem. Dizem que ali o mar é caprichoso. Como não bastasse, podemos nos deparar com ataque de bucaneiros ou nativos. Felizmente estamos em uma caravela armada e não temos riquezas que nos façam de alvo. Então apenas devemos torcer para que as pesadas tábuas e vigas aguentem a cólera do mar.

O sol cedeu seu trono para a lua, as velas da nau Ortia encresparam anunciando a chegada de uma tempestade. As estrelas sumiram entre pesadas nuvens e o casco sofria com o castigo da maré. Os marinheiros corriam de um lado a outro, puxando cordames, segurando mastros, arriando velas, enquanto a nau dançava sobre as ondas do mar. Dizem que o mar é o reino de Netuno ou Poseidon, a quem os gregos antigos ofereciam cavalos brancos em sacrifício porque o vai e vem de um barco sobre as ondas é semelhante ao vai e vem de um homem sobre o cavalo.

Horas depois, a tempestade sumiu tão rápido quanto apareceu. O capitão gritou ao vigia para dizer o que via. Do poleiro, o vigia avisou que não via mais frota alguma, não via mais qualquer sinal de terra, as estrelas não estavam em seu lugar habitual. Estavam perdidos no meio do grande mar. Todos corriam um grande risco se fossem abordados por algum navio inimigo. Em época tão incerta, no meio do mar não se sabe quem é amigo ou inimigo. O capitão observou as estrelas por sua luneta, pois teria que decidir em qual direção eles seguiriam viagem. Um bom sinal ele avistou no meio da noite. O capitão reconheceu o Cruzeiro do Sul e este foi sua bússola. Mesmo quando a noite deu lugar ao dia, o capitão seguiu pela mesma trilha que havia fixado, até o vigia dar o sinal que ele esperava de terra avistada. Era dia de São Nicolau a quem todos deram graças.