A cura do cura

O pobre escritor tentava passar seu merecido descanso de seu ofício mercenário, ocupando-se apenas de receber visitas de familiares por conta das festas de fim de ano.

Meus vizinhos ficaram curiosos quando se formou uma troupe de mulheres na frente do portão de sua casa, certos de que ele iria fazer algum de seus rituais pagãos indecentes.

Talvez em um mundo utópico todas as pessoas pudessem amar e se relacionar livremente, mas nós estamos bem longe de sermos parecidos com as fantasias eróticas do universo hentai.

Quando eu fui atender a porta, achei que fosse mais um desses grupos de cristãos que querem que todos tenham vidas tão infelizes quanto a deles. O fato é que muitas vezes eu sou alvo de pagãos e ateus. O ser humano é complicado.

Diante do meu portão tinham seis mulheres, isso é tudo o que eu podia falar. A que parece ser mais jovem e mais extrovertida tratou de apresentar as intenções do grupo. Pelos modos e palavras, eu diria que são mulheres da sociedade. Pelo sotaque, eu diria que vieram de Minas Gerais.

– Senhor escritor, o senhor precisa contar melhor seu conto da Nossa Senhora do Arouche. Não que sejamos muito religiosas ou católicas, mas o senhor não disse como Nossa Senhora do Arouche virou santa.

– Na verdade, o conto por si mesmo faz isso.

– Senhor escritor, o conto não faz sentido. Uma pessoa santa se torna santa fazendo milagres, antes e depois de morrer.

– As senhoras dizem que não são religiosas ou católicas, mas ainda acreditam que a santidade depende de milagre, sacrifício e morte. isso me lembra a história do cura que foi curado.

Vindo da Itália para as novas colônias na Terra de Vera Cruz, o Vaticano incumbiu Felipe Martello de ser o cura de toda a região do Vale do Paraíba. Uma tarefa que não foi fácil, pois os habitantes dessa nova terra havia trazido consigo muitas de suas superstições que a Igreja proibia. E não havia muito o que o cura podia fazer quanto as festas de colheita, senão se trancar na sacristia, enquanto o povo consumava antigos ritos pagãos no campo.

Foi em uma noite de maio que Martello viu algo cair dentro da sacristia. De início o cura achou que fosse uma daquelas criaturas que apareciam do meio do mato, de forma que foi com sua cruz e livro sagrado enfrentar o invasor. Quando chegou perto, viu asas, como de pássaor e um corpo aparentemente humano, o que vocês dizem ser um anjo.

Martello pegou a pobre criatura nos braços para ver se estava ferido, se estava consciente e viu que seu corpo era igualmente masculino e feminino. Horrorizado pelo fato de que um anjo de Deus desmontava anos de estudos, Martello soltou o anjo que acordou ao bater no chão.

– O que faz, Felipe? Achaste algum mal em mim? Teu amor para Deus é tão pequeno assim?

A voz do anjo era como de um coro de igreja. Envergonhado e confuso, Martello tenta se explicar.

– Senhor, perdão. Eu nunca tinha visto um anjo. E eu fiquei confuso ao ver que um servo de Deus é andrógino. A Igreja nos ensina que anjos não tem sexo e que o Homem é feito a imagem de Deus.

– Que bobagens tua Igreja tem te ensinado, Felipe? Sim, o ser humano é a imagem da existência mais perfeita, então porque te escandaliza que eu seja hermafrodita? Eis-me aqui, Felipe, tal como tu e tua espécie nasceram da união do Senhor com a Senhora. Vocês cresceram e foram criados como um de nós, mas preferiram viver como seres carnais. Foram vocês que desenvoluiram ao separar sua existência perfeita entre duas categorias imperfeitas, definidas como “homem” e “mulher”. Inevitavelmente adquiriram também medo, insegurança, rejeição e aversão ao que Deus lhes deu.

– Eu não entendo, senhor. Do que temos medo, insegurança, rejeição e aversão?

– Do mundo, de seus corpos carnais, de seus desejos, de seus prazeres, de seus sexos. Ou tu realmente crês que Deus poderia condenar aquilo que Ele criou? Creia em Deus, Felipe, não na tua Igreja. Tua Igreja ensina o ódio enquanto Deus te ensina o Amor. Aproxima-te sem medo de mim e mostre teu amor.

Martello aproximou-se aos poucos do anjo. Quanto mais próximo, mais seus olhos se encantavam com tamanha beleza. Quanto mais próximo, menos as restrições impostas pela Igreja faziam sentido. Quando seu corpo ficou bem junto ao do anjo, o calor era igual, o toque era igual, a textura era igual. As diferenças deixaram de existir, tudo que Martello queria era unir seu corpo ao do anjo e assim aconteceu.

– Quando amanheceu, Martello queimou o texto sagrado, tirou todas as imagens de santos e abriu a sacristia para que os camponeses fizessem o culto a Deus tal como faziam no campo. Daquele dia em diante, a Igreja foi banida daquela região. Curiosamente aquela foi a região de onde mais surgiram santos e aconteceram milagres, sem mortificação, flagelação ou sacrifício. A santidade, senhoras, vem de uma vida vivida conforme a vontade de Deus.

As mulheres ficaram se entreolhando, tentando entender o que lhes havia contado. Aquela que parecia ser a mais jovem e extrovertida, Margarete, ficou com uma expressão séria e agressiva e demonstrou se descontentamento sem reservas.

– Acredita mesmo, escritor pervertido, que esses contos que inventa são algum tipo de explicação ou justificação de seus devaneios imorais e libertinos?

– Oh, não, senhora, longe de mim. Eu simplesmente compartilho o sonho de uma humanidade realmente humana, livre das correntes e algemas que instituições, seculares e clericais, colocam em nossa gente. O que acontece é que meus contos chocam porque desafiam esses poderes. Há de convir que não há moral alguma em impingir regras, tabus, proibições e restrições. Condicionar a vida, a felicidade e a satisfação de terceiros segundo preceitos subjetivos é imoral.

– Ah, Margarete, deixa disso. O que queremos é saber o que aconteceu com Nossa Senhora do Arouche. Ela morreu? Como ela morreu? Ela deixou algum testamento? Quantos apóstolos ela tem? Quantos templos foram erigidos para ele? Onde sua imagem é venerada?

– Ah, essas questões de sempre. Senhoras, a morte é uma ilusão. A morte é simplesmente um estado, uma circunstância. Nós não somos os nossos corpos. Aquilo que faz com que sejamos vivos, a alma, permanece existindo. Nossa Senhora do Arouche não deixou escrituras, deixou seu exemplo. Nossa Senhora do Arouche não tem uma religião e está em todas. Nossa Senhora do Arouche não tem seguidores, ela tem pessoas que aceitam a fagulha divina e a fazem brilhar com e nos seus corpos. Os santuários e templos de Nossa Senhora do Arouche é cada esquina, cada cabaré, cada bordel, cada pessoa que aluga seu corpo para satisfazer a necessidade sexual de outra pessoa. Nossa Senhora do Arouche está também nas senhoras, se quiserem. Nós salvaremos o mundo pelo prazer. Amém.

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