Biologicamente livre

Tudo que está no campo do biológico, do natural, do anatômico, do genético parece que é algo imutável, já reparou? Das duas, uma: ou é algo de deus ou algo muito maior que você, o que dá quase na mesma.

Quando vemos um pirú de 1 cm em um feto de 10 cm já começamos infinitas projeções, baseados em premissas biológicas, claro. Se, por um acaso, você não se identifica com esse gênero que você foi obrigado a ser socializado, como fica? Será que nós, pessoas trans, somos biologicamente incorretos? Será que existe “corpo errado”? Sabe qual o problema do “corpo errado”? O corpo certo. Se existe um corpo errado, é porque existe também o tal corpo certo. Qual é o corpo certo? A gente já sabe, né. É o corpo do homem branco, saradão AND CISgênero.

Eu não me enquadro na ideia do “corpo errado”, me recuso a pensar que sou biologicamente incorreto. Por que seria?

A vagina não é “biologicamente de mulher”. Sabe quem disse isso? A medicina, a biologia, mil pessoas. Não são verdades absolutas, são camadas socialmente construídas que estão entre os corpos. Falaram isso da vagina, mas não deixaram a vagina falar. A ciência já falou que margarina faz bem pro coração, falou que chocolate faz bem, depois fez mal. O café é o que eu mais gosto, porque já mudaram de opinião mil vezes. Já falou que os brasileiros são pobres por causa do sol quente. Já falou que as mulheres são BIOLOGICAMENTE inferiores e que as pessoas negras fazem trabalho pesado por causa da ANATOMIA dos corpos.

Você é homem? Então, sua perna também deve ser perna de homem, seu joelho deve ser joelho de homem. Eu sou homem trans, minha vagina é vagina de homem, meu peito é peito de homem. Mesmo. Eu sou homem e meu corpo é corpo de homem. A luta pela DESPATOLOGIZAÇÃO das identidades trans é um longo processo, porque passa pela DESPATOLOGIZAÇÃO da nossa cultura, de como nos referimos aos corpos (nomes, pronomes, identidades) das pessoas trans. Isso afeta diretamente nas maneiras e possibilidades de enxergarmos nossos corpos.

Sim, é preciso mais espaço para se falar sobre identidades trans. Precisamos de transmasculinos na moda, na medicina, no universo pop, na universidade e na empresa que você trabalha. Imagens, corpos e representações para que nós possamos ter uma relação de amor com nós mesmos. É preciso construir caminhos de afeto entre os corpos. Estou falando de homem trans nos espaços de poder, estou falando de igualdade de gênero, estou falando de inclusão no mercado de trabalho.

Querido homem trans, pode olhar no espelho com segurança, você é biologicamente legítimo, anatomicamente genuíno. Parabéns, você está vivo no país que mais mata trans no mundo. #transvivo

10 de Dezembro – Dia Mundial dos Direitos Humanos.

Autor: Ariel Nobre.

Fonte: Os Entendidos.

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