Nossa Senhora do Arouche – III

Ou a Encenação do Gênero.

Segundo Ato – Estréia.

Cenário: Centro Obstétrico.

Personagens: Beatriz e Obstetra.

O: – Bom dia, senhora Beatriz. Por suas dilatações, está na hora do seu bebê nascer. Eu vou aplicar a anestesia periodontal.

B: – Põe logo a porra desse caralho! Enfia!

O: – Se a senhora quiser, nós podemos colocar uma divisória para a senhora não ver o parto.

B: – Eu quero ver. Vai que vocês trocam meu bebê? Eu só não quero sentir dor.

O: – Dona Beatriz, faz parte da via sentir dor. Sofrer ou ficar traumatizado são opções pessoais.

B: – Porra, mas você vai me anestesiar com essa injeção ou com essa conversa para boi dormir?

O: Calma, dona Beatriz, a anestesia vai fazer efeito em breve. Enquanto isso, a senhora deve considerar que todos, em algum momento em suas vidas, têm uma experiência espiritual.

B: – Calma o caralho. Quando você for dar a luz, você me diz como é. Quem não tem útero, não tem opinião. Você está aqui para fazer meu bebê nascer, não para viajar na maionese esotérica.

O: – Pronto! Viu só? Você estava tão concentrada em reclamar que nem percebeu que seu bebê nasceu. Opa. Dona Beatriz, o seu bebê precisa de uma cirurgia de adequação.

B: – Cirurgia de adequação? Como assim?

O: – O seu bebê nasceu em uma condição que não é possível definir o sexo dele ou dela. A senhora deu a luz a uma pessoa intersexual. Eu vou fazer um pequeno corte e vou adequar seu bebê.

B: – Nada disso! Pode parar! Quando eu pedi para cortarem, vocês não quiseram. Agora quem não quer sou eu. Meu bebê vai ficar como está.

O: – Dona Beatriz, pense no futuro que esta criança irá ter!

B: – Ele, ela terá o futuro que ele, ela irá construir.

O: – Dona Beatriz, pense no sofrimento que seu bebê vai passar por causa da Igreja.

B: – Foda-se a Igreja. Eu sou agnóstica. Além do que, “o sofrimento é opcional”, não é isso que dizem? Se Deus existe, meu bebê nasceu como filho, filha Dela.

No fundo do cenário, com o obstetra segurando na mão o bisturi, uma imagem do anjo segurando a mão de Abraão. Cenário gira, muda para uma festa de chá de bebê.

Personagens: Beatriz e Comadres.

C1: – Parabéns, Bia, seu bebê é lindo. Que nome vai dar a ele?

B: – Sim, meu bebê é lindo, mas meu bebê não é menino, nem menina. O nome dele, dela eu ainda não escolhi.

C2: – Como assim, Bia? Só existe menino e menina. Você ainda está lesada pela anestesia?

B: – Está me chamando de mentirosa, sua baranga? Se vai ficar ofendendo meu bebê pode ir embora agora mesmo.

C1: – Sem drama, né, Bia? Isso nós aprendemos na escola. Ou se nasce menino ou se nasce menina. Ou você é uma daquelas feministas marxistas que querem impor uma ideologia de gênero.

B: – E quantas coisas que aprendemos na escola que tivemos que reaprender na faculdade? Quantas coisas que aprendemos de nossos pais, professores, padres, sábios que depois nós vimos que eram baseados em preconceitos, não em fatos? Vocês ainda engolem as farsas da Igreja e nem percebem que afirmar que existe apenas menino e menina é uma ideologia de gênero. Vocês me conhecem bem, eu sou anarquista e pragmática, eu não sou militante, mas eu vejo as coisas como elas são. Meu bebê é apenas um dentre muitos que nascem intersexuais. Isso não é visto porque muitos indivíduos intersexuais passam por cirurgias de adequação. Se não acreditam em mim, vejam por si mesmas.

As mulheres se aproximam do berço onde está o bebê. Quando Beatriz levanta o lençol que envolve o bebê, um halo espiritual ilumina todo o cenário, anjos pairam em volta tocando harpas e clarins. As comadres fazem um olhar espantado, diante da revelação.

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