Arquivo mensal: dezembro 2015

A cura do cura

O pobre escritor tentava passar seu merecido descanso de seu ofício mercenário, ocupando-se apenas de receber visitas de familiares por conta das festas de fim de ano.

Meus vizinhos ficaram curiosos quando se formou uma troupe de mulheres na frente do portão de sua casa, certos de que ele iria fazer algum de seus rituais pagãos indecentes.

Talvez em um mundo utópico todas as pessoas pudessem amar e se relacionar livremente, mas nós estamos bem longe de sermos parecidos com as fantasias eróticas do universo hentai.

Quando eu fui atender a porta, achei que fosse mais um desses grupos de cristãos que querem que todos tenham vidas tão infelizes quanto a deles. O fato é que muitas vezes eu sou alvo de pagãos e ateus. O ser humano é complicado.

Diante do meu portão tinham seis mulheres, isso é tudo o que eu podia falar. A que parece ser mais jovem e mais extrovertida tratou de apresentar as intenções do grupo. Pelos modos e palavras, eu diria que são mulheres da sociedade. Pelo sotaque, eu diria que vieram de Minas Gerais.

– Senhor escritor, o senhor precisa contar melhor seu conto da Nossa Senhora do Arouche. Não que sejamos muito religiosas ou católicas, mas o senhor não disse como Nossa Senhora do Arouche virou santa.

– Na verdade, o conto por si mesmo faz isso.

– Senhor escritor, o conto não faz sentido. Uma pessoa santa se torna santa fazendo milagres, antes e depois de morrer.

– As senhoras dizem que não são religiosas ou católicas, mas ainda acreditam que a santidade depende de milagre, sacrifício e morte. isso me lembra a história do cura que foi curado.

Vindo da Itália para as novas colônias na Terra de Vera Cruz, o Vaticano incumbiu Felipe Martello de ser o cura de toda a região do Vale do Paraíba. Uma tarefa que não foi fácil, pois os habitantes dessa nova terra havia trazido consigo muitas de suas superstições que a Igreja proibia. E não havia muito o que o cura podia fazer quanto as festas de colheita, senão se trancar na sacristia, enquanto o povo consumava antigos ritos pagãos no campo.

Foi em uma noite de maio que Martello viu algo cair dentro da sacristia. De início o cura achou que fosse uma daquelas criaturas que apareciam do meio do mato, de forma que foi com sua cruz e livro sagrado enfrentar o invasor. Quando chegou perto, viu asas, como de pássaor e um corpo aparentemente humano, o que vocês dizem ser um anjo.

Martello pegou a pobre criatura nos braços para ver se estava ferido, se estava consciente e viu que seu corpo era igualmente masculino e feminino. Horrorizado pelo fato de que um anjo de Deus desmontava anos de estudos, Martello soltou o anjo que acordou ao bater no chão.

– O que faz, Felipe? Achaste algum mal em mim? Teu amor para Deus é tão pequeno assim?

A voz do anjo era como de um coro de igreja. Envergonhado e confuso, Martello tenta se explicar.

– Senhor, perdão. Eu nunca tinha visto um anjo. E eu fiquei confuso ao ver que um servo de Deus é andrógino. A Igreja nos ensina que anjos não tem sexo e que o Homem é feito a imagem de Deus.

– Que bobagens tua Igreja tem te ensinado, Felipe? Sim, o ser humano é a imagem da existência mais perfeita, então porque te escandaliza que eu seja hermafrodita? Eis-me aqui, Felipe, tal como tu e tua espécie nasceram da união do Senhor com a Senhora. Vocês cresceram e foram criados como um de nós, mas preferiram viver como seres carnais. Foram vocês que desenvoluiram ao separar sua existência perfeita entre duas categorias imperfeitas, definidas como “homem” e “mulher”. Inevitavelmente adquiriram também medo, insegurança, rejeição e aversão ao que Deus lhes deu.

– Eu não entendo, senhor. Do que temos medo, insegurança, rejeição e aversão?

– Do mundo, de seus corpos carnais, de seus desejos, de seus prazeres, de seus sexos. Ou tu realmente crês que Deus poderia condenar aquilo que Ele criou? Creia em Deus, Felipe, não na tua Igreja. Tua Igreja ensina o ódio enquanto Deus te ensina o Amor. Aproxima-te sem medo de mim e mostre teu amor.

Martello aproximou-se aos poucos do anjo. Quanto mais próximo, mais seus olhos se encantavam com tamanha beleza. Quanto mais próximo, menos as restrições impostas pela Igreja faziam sentido. Quando seu corpo ficou bem junto ao do anjo, o calor era igual, o toque era igual, a textura era igual. As diferenças deixaram de existir, tudo que Martello queria era unir seu corpo ao do anjo e assim aconteceu.

– Quando amanheceu, Martello queimou o texto sagrado, tirou todas as imagens de santos e abriu a sacristia para que os camponeses fizessem o culto a Deus tal como faziam no campo. Daquele dia em diante, a Igreja foi banida daquela região. Curiosamente aquela foi a região de onde mais surgiram santos e aconteceram milagres, sem mortificação, flagelação ou sacrifício. A santidade, senhoras, vem de uma vida vivida conforme a vontade de Deus.

As mulheres ficaram se entreolhando, tentando entender o que lhes havia contado. Aquela que parecia ser a mais jovem e extrovertida, Margarete, ficou com uma expressão séria e agressiva e demonstrou se descontentamento sem reservas.

– Acredita mesmo, escritor pervertido, que esses contos que inventa são algum tipo de explicação ou justificação de seus devaneios imorais e libertinos?

– Oh, não, senhora, longe de mim. Eu simplesmente compartilho o sonho de uma humanidade realmente humana, livre das correntes e algemas que instituições, seculares e clericais, colocam em nossa gente. O que acontece é que meus contos chocam porque desafiam esses poderes. Há de convir que não há moral alguma em impingir regras, tabus, proibições e restrições. Condicionar a vida, a felicidade e a satisfação de terceiros segundo preceitos subjetivos é imoral.

– Ah, Margarete, deixa disso. O que queremos é saber o que aconteceu com Nossa Senhora do Arouche. Ela morreu? Como ela morreu? Ela deixou algum testamento? Quantos apóstolos ela tem? Quantos templos foram erigidos para ele? Onde sua imagem é venerada?

– Ah, essas questões de sempre. Senhoras, a morte é uma ilusão. A morte é simplesmente um estado, uma circunstância. Nós não somos os nossos corpos. Aquilo que faz com que sejamos vivos, a alma, permanece existindo. Nossa Senhora do Arouche não deixou escrituras, deixou seu exemplo. Nossa Senhora do Arouche não tem uma religião e está em todas. Nossa Senhora do Arouche não tem seguidores, ela tem pessoas que aceitam a fagulha divina e a fazem brilhar com e nos seus corpos. Os santuários e templos de Nossa Senhora do Arouche é cada esquina, cada cabaré, cada bordel, cada pessoa que aluga seu corpo para satisfazer a necessidade sexual de outra pessoa. Nossa Senhora do Arouche está também nas senhoras, se quiserem. Nós salvaremos o mundo pelo prazer. Amém.

Azul é a cor mais careta

Dois filmes que não tem a ver um com o outro em diversos aspectos tem algo em comum: a cor azul.

Um deles é o filme de animação “Divertidamente”. O outro é o polêmico “Azul é a Cor Mais Quente”. Em ambos a cor azul está presente.

Em “Divertidamente” a cor azul é utilizada para praticamente caracterizar a personagem “Tristeza”, pois para países de língua estrangeira se diz que quando alguém está triste, essa pessoa está “blue”. O estilo musical chamado “Blues” explica bem esse sentimento e associação.

Em doses exageradas, a tristeza conduz à melancolia e à depressão. O personagem “Tristeza” é uma epítome desse comportamento. Por sua “atitude”, “Tristeza” praticamente configura como um coadjuvante, uma “escada” e um “antagonista” da personagem “Alegria”. A “Tristeza” quase causa um apagamento total das memórias de Riley, sua hospedeira.

Até que “Alegria” tem uma revelação e “Tristeza” é colocada como co-protagonista e, juntas, conseguem “salvar” as memórias de Riley. O interessante é notar a diferença entre antes e depois de Riley quase ter suas memórias apagadas. Antes suas memórias eram monocromáticas, depois suas memórias são compostos mistos de alegria, tristeza, raiva, nojo, medo. Depois dessa experiência, Riley passa por um “upgrade” que inclui também um novo “comando”, chamado “puberdade”. Algo que os estúdios de animação tem medo de explorar.

O que não foi o caso de “Azul é a Cor Mais Quente”, onde a cor azul está presente no cabelo da co-protagonista e no vestido da protagonista. A cor azul é algo artificial, uma tintura, exerce outra função nesse filme.

Em “Azul é a Cor Mais Quente”, Adele, uma garota comum que, aparentemente, é heterossexual, repentinamente se interessa por Emma, uma garota que é francamente homossexual. O romance e envolvimento delas não é tão interessante, salvo por este ser um “filme comercial”, não um pornô.

Tirando as cenas de pegação, o filme demonstra que, mesmo entre pessoas homossexuais, certos hábitos e comportamentos “socialmente aceitos” continuam válidos.

Aqui eu faço o elo entre a cor azul e sua artificialidade. Apesar de Adele e Emma serem um casal “fora das normas”, em diversos pontos seus comportamentos românticos são os mesmos do que preconiza a sociedade. Apesar de viverem uma relação homossexual, ambas “apresentam” sua “amiga” para seus pais. Os pais nem desconfiam de que há algo mais do que uma amizade e ambas parecem terem feito um pacto de silêncio sobre seu relacionamento.

Relacionamento este que desanda por que Adele se sente “negligenciada” por Emma, então sai com outra pessoa, um homem, para “fazer ciúme” em Emma para “se vingar” do que ela acha ser uma “traição” de Emma contra ela. Emma, evidentemente, mostra que os receios de Adele são infundados, mas o “estrago” estava feito, Emma não aceita que Adele se relacione com outra pessoa. Apesar de serem um casal “fora das normas”, ainda vigora a monogamia, o privilégio e exclusividade sobre o amor e o sexo da outra pessoa envolvida. Paradoxalmente, o relacionamento de Adele e Emma ainda mantém os mesmos padrões de amor e relacionamento ditos “normais”.

O filme não teve uma revelação e Adele e Emma, apesar de terem formas de relacionamento fora do socialmente aceito, não saíram do mundo das memórias monocromáticas de “Divertidamente”.

Tomando os dois filmes em retrospectiva, eu posso dizer que azul é a cor mais careta.

Lamúrias de meninos

Eu sou homem, heterossexual, cisgênero. Em muitos aspectos, eu estou na posição de privilegiado. Em muitos aspectos, quando eu escrevo a favor de alguma minoria, eu ainda escrevo na condição de privilegiado e apenas escrevo depois de ter, ao menos, feito uma pesquisa sobre o assunto. Isso se chama bom senso, mas nem sempre é o que encontramos na internet. Não é muito difícil encontrar pessoas que usam a internet e as plataformas disponíveis para manifestar e extravasar todo tipo de imbecilidade.

Por exemplo, não faltam páginas, fóruns e blogs machistas ou em defesa do direito masculino. O discurso é ininteligível, mas o pior é que não falta gente que concorde. Para que tiver estômago forte, não é difícil encontrar páginas que defendem a supremacia branca. O que é mais interessante é que geralmente estas pessoas também frequentam páginas de direita, reacionárias, fascistas, racistas e militaristas.

Seja pelo meu gosto por controvérsia, por polêmica, seja por dó de quem tem preguiça ou desonestidade intelectual para escrever textos, eu vou responder e comentar um texto que encontrei.

As feministas pregam que o corpo é da mulher e ela faz o que desejar com ele, mas se é assim, a modelo que faz propaganda da cerveja esta usando o seu corpo da maneira que deseja e utilizando capital/empresas privadas.

Menino, você precisa entender e diferenciar os tipos de discursos. Uma mulher que é dona de seu corpo não aceita que seus predicados sejam comparados com uma mercadoria. Quando o Feminismo diz que o corpo é da mulher, esse é um discurso de Empoderamento. Quando a mulher usa seu corpo para fazer uma propaganda de cerveja, esse é um discurso de Objetificação, de Sexismo, de Machismo. Mesmo uma mulher que aluga seu corpo, esta aluga seu tempo para atender uma necessidade, há um a troca comercial, há a prestação de serviço, mas o corpo continua sendo propriedade da mulher.

Machismo mata?

Menino, a violência atinge a mulher não pelas questões sociais, mas simplesmente pelo fato dela ser mulher. A violência contra a mulher acontece exatamente porque vivemos em uma sociedade machista e patriarcal, onde a mulher é um ser humano inferior, posse/propriedade do homem.

Elas podem ser feministas… mas não pode um homem ser machista?

Menino, o homem está em situação de poder. Faz tanto sentido um homem ser machista quanto um branco ser racista. Defender o “direito masculino” é tão congruente quanto defender a “soberania branca”.

Elas podem reclamar de uma mulher usar o corpo ao fazer propaganda?

Menino, a reclamação não é contra a mulher ou o uso do corpo, mas do discurso que existe. Uma propaganda de cerveja reforça a concepção social de que o corpo da mulher é um objeto que pode ser comprado, consumido e descartado. As propagandas de cerveja acabam endossando a violência física e sexual contra a mulher.

Elas vão sustentar a modelo que faz propaganda com o corpo?

Menino, você por acaso sustentou o senhor de engenho quando acabou a escravidão? Não, o senhor de engenho teve que reestruturar sua produção. As mulheres que ganham dinheiro com o corpo continuarão a ganhar dinheiro depois que houver uma reestrutura no discurso de poder.

Se tiver uma guerra… elas vão a luta?

Menino, as mulheres foram à luta. Você não sabe isso porque tem preguiça ou desonestidade intelectual para estudar as histórias das guerras.

O Feminismo não é contra o homem. O Feminismo não é contra uso do corpo, quando este é efetivamente propriedade da mulher. O Feminismo tem a ver com a luta pelos Direitos Civis. Nenhuma pessoa deve ter seus direitos negados, por seu gênero, identidade, preferência ou opção sexual, sua origem, sua cultura ou sua religião. O objetivo do Feminismo e de outros movimentos sociais é a construção de uma sociedade mais justa para todos. Discursos como o seu aparecem porque essas propostas incomodam e ameaçam essa sociedade elitista construída pela discriminação, segregação, repressão e opressão.

Ainda temos muito que lutar, pois infelizmente ainda impera a ignorância, o conservadorismo e o reacionarismo. Felizmente as mudanças estão acontecendo e a transformação do mundo é inevitável. Pessoas como você serão apenas motivo de riso e pena. Em um futuro não muito distante, nossos descendentes irão olhar para pessoas como você da mesma forma como hoje olhamos para os fósseis de dinossauros.

Assim seja, assim é, assim será.

Biologicamente livre

Tudo que está no campo do biológico, do natural, do anatômico, do genético parece que é algo imutável, já reparou? Das duas, uma: ou é algo de deus ou algo muito maior que você, o que dá quase na mesma.

Quando vemos um pirú de 1 cm em um feto de 10 cm já começamos infinitas projeções, baseados em premissas biológicas, claro. Se, por um acaso, você não se identifica com esse gênero que você foi obrigado a ser socializado, como fica? Será que nós, pessoas trans, somos biologicamente incorretos? Será que existe “corpo errado”? Sabe qual o problema do “corpo errado”? O corpo certo. Se existe um corpo errado, é porque existe também o tal corpo certo. Qual é o corpo certo? A gente já sabe, né. É o corpo do homem branco, saradão AND CISgênero.

Eu não me enquadro na ideia do “corpo errado”, me recuso a pensar que sou biologicamente incorreto. Por que seria?

A vagina não é “biologicamente de mulher”. Sabe quem disse isso? A medicina, a biologia, mil pessoas. Não são verdades absolutas, são camadas socialmente construídas que estão entre os corpos. Falaram isso da vagina, mas não deixaram a vagina falar. A ciência já falou que margarina faz bem pro coração, falou que chocolate faz bem, depois fez mal. O café é o que eu mais gosto, porque já mudaram de opinião mil vezes. Já falou que os brasileiros são pobres por causa do sol quente. Já falou que as mulheres são BIOLOGICAMENTE inferiores e que as pessoas negras fazem trabalho pesado por causa da ANATOMIA dos corpos.

Você é homem? Então, sua perna também deve ser perna de homem, seu joelho deve ser joelho de homem. Eu sou homem trans, minha vagina é vagina de homem, meu peito é peito de homem. Mesmo. Eu sou homem e meu corpo é corpo de homem. A luta pela DESPATOLOGIZAÇÃO das identidades trans é um longo processo, porque passa pela DESPATOLOGIZAÇÃO da nossa cultura, de como nos referimos aos corpos (nomes, pronomes, identidades) das pessoas trans. Isso afeta diretamente nas maneiras e possibilidades de enxergarmos nossos corpos.

Sim, é preciso mais espaço para se falar sobre identidades trans. Precisamos de transmasculinos na moda, na medicina, no universo pop, na universidade e na empresa que você trabalha. Imagens, corpos e representações para que nós possamos ter uma relação de amor com nós mesmos. É preciso construir caminhos de afeto entre os corpos. Estou falando de homem trans nos espaços de poder, estou falando de igualdade de gênero, estou falando de inclusão no mercado de trabalho.

Querido homem trans, pode olhar no espelho com segurança, você é biologicamente legítimo, anatomicamente genuíno. Parabéns, você está vivo no país que mais mata trans no mundo. #transvivo

10 de Dezembro – Dia Mundial dos Direitos Humanos.

Autor: Ariel Nobre.

Fonte: Os Entendidos.

Nossa Senhora do Arouche – IV

Ou a Encenação do Gênero.

Terceiro Ato – Missão

Cenário: Escola.

Personagens: Professora, Beatriz e NSA.

P: – Dona Beatriz, nós precisamos falar sobre sua filha.

B: – O que tem mei filhu?

P: – Hã… dona Beatriz, sua filha tem apresentado um comportamento estranho. Tem vezes que ela se veste como menino e age como menino. Isso confunde a cabeça das outras crianças.

NSA: – Pois nenhum des minhes amigus reclamam. Les confusus são les professeurs. Ilus só falam de histórias de grandes homens. Por acaso estes grandes homens nasceram por partenogênese? Então deveriam falar nas mulheres que os pariram. Por que les professeurs não falam coisa alguma sobre as grandes mulheres? Por que les professeurs não falam sobre les grans intersexuels da história? Nosotres existimos, mas les professeurs não contam.

P: – Viu só, dona Beatriz? Sua filha inventou essa linguagem esquisita, incompreensível e fica discursando na escola sobre o gênero ser algo culturalmente construído, não como destino ou fatalidade natural.

B: – Eu vejo an professeur despreparade. O que você acredita que é ser mulher foi aprendido, imitando sua mãe, vendo outras mulheres, sendo condicionada por parentes, familiares, conhecidos, professores. Você não aprendeu que há diferença entre sexo e gênero. Você nunca viu uma pessoa intersexual. Você nunca aprendeu que nós formamos nossa cultura e linguagem.

P: – Dona Beatriz, isso é um absurdo. Todo mundo sabe que só existe menino e menina. Todo mundo sabe que cada qual nasce assim. Isso que a senhora e sua filha dizem não passa de bobagem feminista marxista, querendo impor uma ideologia de gênero.

NSA: – Deixa para lá, mamis. This professeur somente irá superar a programação se elu ver por si mesme o que eu sou.

Beatriz faz com que a professora se aproxime de Nossa Senhora do Arouche. Elu abre seu manto púrpura e seu corpo inteiro emite uma luz. A professora tem uma revelação e cai de joelhos, tornando-se a primeira seguidora delu. Alguém filmou a epifania e publicou em um conhecido portal de vídeos. O sucesso foi tão estrondoso que chamou a atenção dos meios de comunicação tradicionais. Não demorou para que as emissoras de televisão iniciasse o linchamento midiático. Um dos muitos programas de auditórios de uma emissora conservadora convidou Nossa Senhora do Arouche para participar de seu programa.

Cenário: Estúdio de televisão.

Personagens: Apresentadora, Pastor, Padre, Psicólogo, Médico, Geneticista e NSA.

Ap: – Boa noite a todos os telespectadores do Programa Alpinista Social. Esta noite nós recebemos o Reverendo Salafrário, o Padre Papanjo, o Psicólogo Chicaneiro, o Médico Butcher, o Geneticista Paraguaio e aquela que tem se apresentado como Nossa Senhora do Arouche. Quem é ela? O que é ela? Fraude ou verdade? Saiba dos fatos e decida!

[Aplausos da platéia]

Ap: – Boa noite, Reverendo Salafrário e obrigada por estar aqui conosco.

RS: – Boa noite, Alpinista Social e agradeço o convite. Eu espero poder desmascarar essa fraude, esse agente do marxismo cultural, que quer destruir nosso país, nossas famílias e nossa fé em Deus.

Ap: – Boa noite, Padre Papanjo e obrigada por estar aqui conosco.

PP: – Boa noite, Alpinista Social e agradeço o convite. Hoje eu vou explicar aos telespectadores o que se esconde atrás dessa “ideologia de gênero” que estão querendo nos impor.

Ap: – Boa noite, Psicóloga Chicaneiro e obrigada por estar aqui conosco.

PC: – Boa noite, Alpinista Social e agradeço o convite. Se você me permitir, no fim do programa eu gostaria de divulgar nosso trabalho cristão voltado para ajudar a pessoas homossexuais.

Ap: Será um prazer. Boa noite, Médico Butcher e obrigada por estar aqui conosco.

MB: – Boa noite, Alpinista Social e agradeço o convite. Eu trouxe laudos médicos que vão provar que não existem pessoas intersexuais.

Ap: – Sempre é bom ouvir um especialista. Boa noite, Geneticista Paraguaio e obrigada por estar aqui conosco.

GP: – Buenas noches, Alpinista Social e gracias por tu llamado. Aquí tengo pruebas de que todas las personas tienen sólo dos cromosomas sexuales, por lo que sólo dos géneros.

Ap: – O público irá querer saber, mas este programa também dará a chance para que essa garota que se apresenta como Nossa Senhora do Arouche possa expor seu lado. Boa noite, Nossa Senhora do Arouche e obrigada por estar aqui conosco.

NSA: – Boa noite, Alpinista Social e agradeço o convite. Eu vou avisando ao telespectador que, para cada suposto argumento e prova, eu tenho dez argumentos e provas.

RS: – Mentiras, falácias. Aqui nós temos dois profissionais da área médica, um psicólogo e dois homens de Deus que vão desmascarar essa fraude.

NSA: – Fraude que o senhor conhece bem. Como está o seu processo por estelionato, Salafrário? Ou o senhor prefere explicar para o telespectador o seu flagrante, gastando dinheiro de sua igreja, com três transexuais, em uma boate LGBT?

RS: – Isso são apenas calúnias. Isso será esclarecido no tribunal.

PP: – Esta é uma típica estratégia do marxismo cultural. Na falta de provas ou evidências, desvia o assunto para outra coisa. Mas o telespectador saberá combater essa perigosa imposição da ideologia de gênero.

NSA: – Desviar do assunto é algo que o senhor conhece bem. Como está o seu processo por abuso sexual de menores, Papanjo? Ou o senhor prefere explicar por que afirmar que existem apenas dois gêneros não é uma ideologia de gênero?

PP: – Absurdo! Eu sou a vítima! Foi uma armação! Aqueles jovens sabiam muito bem o que faziam! Quanto aos gêneros, eu sou o representante do Vaticano e a opinião da Igreja é infalível!

PC: – Esse é um caso típico de projeção. Essa garota deve ter problemas de aceitar a Deus e a forma como Ele a criou, então ela tenta projetar nos outros seus próprios defeitos. Ela certamente teve algum trauma na infância e tenta compensar isso colocando esses homens de Deus no nível dela.

NSA: – Trauma de infância é algo que a senhora conhece bem. Quantas cirurgias e plásticas a senhora passou? Tudo para se adequar a um padrão de beleza idealizado pela sociedade. Você deve ter sofrido muito bullying na infância e na adolescência. Não é de estranhar que a senhora não veja qualquer problema ético ou moral em sua suposta terapia cristã para homossexuais. Sua licença de psicóloga não foi cassada?

PC: – Isso é cerceamento da liberdade de expressão, cerceamento da liberdade religiosa. Todos os procedimentos que eu fiz foram feito por questões de saúde. Algo que meu instituto oferece para todas as pessoas que quiserem ter uma vida conforme o plano de Deus.

MB: – Saúde é algo que eu também me interesso. Eu sou médico formado há muitos anos e consultei muitos de meus colegas. Não há nenhum trabalho acadêmico, exame laboratorial ou caso clínico que fale sobre a existência de pessoas intersexuais. O que essa garota diz simplesmente não existe.

NSA: – Entretanto nós existimos, mas médicos como o senhor tem nos tratado como aberrações ou como portadores de uma patologia, nos conduzindo para cirurgias de redesignação sexual enquanto nós ainda éramos bebê. Ou o senhor quer explicar para o telespectador todos os procedimentos cirúrgicos ilegais e desnecessários que o senhor faz em sua clínica clandestina?

MB: – Não existe qualquer prova ou evidência disso! São apenas calúnias e difamações! Eu tenho centenas de clientes que podem atestar meu profissionalismo!

GP: – Jo conoco Butcher. Nosotros nos encontramos en un congresso de medicina, biologia e genética. Hablamos mucho sobre la incongruência de hablar de personas intersexuales.

NSA: – Deve ter sido um encontro memorável, com centenas de médicos e geneticistas formados em faculdades de fundo de quintal. Ou o senhor prefere explicar ao telespectador porque seu diploma ainda não foi reconhecido ou averbado aqui no Brasil?

GP: – Eso és calunia. Mi diploma ainda está em analise por questiones técnicas e burocráticas. La justicia será hecha.

Ap: – Nossa, mas que situação. Alô, produção, eu pensei que os convidados fossem pessoas íntegras acima de qualquer suspeita. Vocês estão querendo me queimar?

NSA: – Infelizmente, Alpinista Social, você está sendo manipulada para que seus patrões exponham sua ideologia conservadora, obsoleta e arcaica. Você não pode reclamar muito, afinal, você se tornou apresentadora exatamente por saber fazer o que o patrão manda. Você conquistou seu espaço na televisão porque transou com as pessoas certas, não que eu seja contra, mas você mantém uma fachada de moralista que não convence a pessoa alguma. Olha, eu deixo com sua produção todo o material que eu tenho para divulgarem aos poucos. Para esta noite, para provar que o que eu digo é verdade, tudo que eu tenho que fazer é mostrar ao telespectador todo meu brilho fabuloso.

Nossa Senhora do Arouche levanta da poltrona, abre seu manto púrpura e milhões de telespectadores automaticamente se tornam devotos da Santa.

Nossa Senhora do Arouche – III

Ou a Encenação do Gênero.

Segundo Ato – Estréia.

Cenário: Centro Obstétrico.

Personagens: Beatriz e Obstetra.

O: – Bom dia, senhora Beatriz. Por suas dilatações, está na hora do seu bebê nascer. Eu vou aplicar a anestesia periodontal.

B: – Põe logo a porra desse caralho! Enfia!

O: – Se a senhora quiser, nós podemos colocar uma divisória para a senhora não ver o parto.

B: – Eu quero ver. Vai que vocês trocam meu bebê? Eu só não quero sentir dor.

O: – Dona Beatriz, faz parte da via sentir dor. Sofrer ou ficar traumatizado são opções pessoais.

B: – Porra, mas você vai me anestesiar com essa injeção ou com essa conversa para boi dormir?

O: Calma, dona Beatriz, a anestesia vai fazer efeito em breve. Enquanto isso, a senhora deve considerar que todos, em algum momento em suas vidas, têm uma experiência espiritual.

B: – Calma o caralho. Quando você for dar a luz, você me diz como é. Quem não tem útero, não tem opinião. Você está aqui para fazer meu bebê nascer, não para viajar na maionese esotérica.

O: – Pronto! Viu só? Você estava tão concentrada em reclamar que nem percebeu que seu bebê nasceu. Opa. Dona Beatriz, o seu bebê precisa de uma cirurgia de adequação.

B: – Cirurgia de adequação? Como assim?

O: – O seu bebê nasceu em uma condição que não é possível definir o sexo dele ou dela. A senhora deu a luz a uma pessoa intersexual. Eu vou fazer um pequeno corte e vou adequar seu bebê.

B: – Nada disso! Pode parar! Quando eu pedi para cortarem, vocês não quiseram. Agora quem não quer sou eu. Meu bebê vai ficar como está.

O: – Dona Beatriz, pense no futuro que esta criança irá ter!

B: – Ele, ela terá o futuro que ele, ela irá construir.

O: – Dona Beatriz, pense no sofrimento que seu bebê vai passar por causa da Igreja.

B: – Foda-se a Igreja. Eu sou agnóstica. Além do que, “o sofrimento é opcional”, não é isso que dizem? Se Deus existe, meu bebê nasceu como filho, filha Dela.

No fundo do cenário, com o obstetra segurando na mão o bisturi, uma imagem do anjo segurando a mão de Abraão. Cenário gira, muda para uma festa de chá de bebê.

Personagens: Beatriz e Comadres.

C1: – Parabéns, Bia, seu bebê é lindo. Que nome vai dar a ele?

B: – Sim, meu bebê é lindo, mas meu bebê não é menino, nem menina. O nome dele, dela eu ainda não escolhi.

C2: – Como assim, Bia? Só existe menino e menina. Você ainda está lesada pela anestesia?

B: – Está me chamando de mentirosa, sua baranga? Se vai ficar ofendendo meu bebê pode ir embora agora mesmo.

C1: – Sem drama, né, Bia? Isso nós aprendemos na escola. Ou se nasce menino ou se nasce menina. Ou você é uma daquelas feministas marxistas que querem impor uma ideologia de gênero.

B: – E quantas coisas que aprendemos na escola que tivemos que reaprender na faculdade? Quantas coisas que aprendemos de nossos pais, professores, padres, sábios que depois nós vimos que eram baseados em preconceitos, não em fatos? Vocês ainda engolem as farsas da Igreja e nem percebem que afirmar que existe apenas menino e menina é uma ideologia de gênero. Vocês me conhecem bem, eu sou anarquista e pragmática, eu não sou militante, mas eu vejo as coisas como elas são. Meu bebê é apenas um dentre muitos que nascem intersexuais. Isso não é visto porque muitos indivíduos intersexuais passam por cirurgias de adequação. Se não acreditam em mim, vejam por si mesmas.

As mulheres se aproximam do berço onde está o bebê. Quando Beatriz levanta o lençol que envolve o bebê, um halo espiritual ilumina todo o cenário, anjos pairam em volta tocando harpas e clarins. As comadres fazem um olhar espantado, diante da revelação.