Nossa Senhora do Arouche – II

Ou a Encenação do Gênero.

Primeiro Ato – Anunciação.

Cenário – Avenida Paulista.

Personagens: Beatriz e Ivete.

B: – Ai, Ivete, eu estou esgotada. Quanto tempo falta para o carnaval?

I: – Olha, não falta muito, amiga. Você tem planos?

B: – Eu tenho. Passagem para o Rio e ingressos para o Desfile de Carnaval no Gávea.

I: – Nossa! Está podendo, hem, amiga? Vai com seu marido?

B: – Não, eu vou sozinha.

I: – O marido vai deixar?

B: – Deixando ou não, eu vou. O Brasil já proclamou a alforria da escravidão.

I: – Ele vai chiar.

B: – Ele não vai saber. O que os olhos não veem, o chifre não sente.

Beatriz caminha pelo tablado enquanto o cenário muda para a Gávea, para dentro do salão de festa, para dentro da farra de carnaval.

Personagens: Beatriz e Anjo.

B: – Alô, Ivete? Cara, você precisa dar um jeito e vir para cá! A festa mal começou e está bombando! Tem muito homem aqui! Eu estou me sentindo a Cleópatra aqui!

A: – Mas o que vejo? Uma anunciação? Oh, meu Deus, me perdoe, mas esta deve ser a Escolhida.

B: – Alô, Ivete? Desculpe, eu tenho que desligar. Tem um anjo me xavecando. Aham, um anjo. Como ele é? Olha, se ele for anjo, eu vou fazer diabruras com ele. Depois te conto. Beijos, beijos.

A: – Nada tema, mulher, pois Deus está contigo.

B: – Olha, essa paradinha de anjo é legal, mas não exagera, oquei? Vamos dançar que a farra está apenas começando.

A: – Mas, mulher, eu sou um mensageiro de Deus! Você, dentre tantas, foi a Escolhida por Deus!

B: – Cara, essa paradinha está ficando sinistra. Eu não curto ménage a trois, sacou? O seu amiguinho, se quiser uma mulher, vai ter que ir à luta.

A: – Você se recusa a fazer a vontade de Deus?

B: – No momento eu quero é fazer a minha vontade, pode ser ou está difícil?

As personagens somem no meio da multidão. Cenário muda para um hospital. Beatriz está deitada em um leito enquanto espera o diagnóstico do médico.

Personagens: Beatriz e Médico.

M: – Senhora Beatriz da Conceição?

B: – Aqui, doutor, sou eu mesma.

M: – Não se preocupe que seu estado não é grave, mas é grávido. Meus parabéns, a senhora está no quinto mês de gestação.

B: – Como assim, doutor? Eu? Grávida? Impossível. Eu e meu marido trabalhamos tanto que mal temos tempo para isso.

M: – Dona Beatriz, a senhora é religiosa?

B: – Não, não senhor, muito pelo contrário.

M: – Então a senhora está grávida, a menos que comece a acreditar em Espírito Santo.

B: – Ai, meu Deus. Eu estou fodida.

M: – De novo? Sim, por que se a senhora não acredita em Deus, a senhora está grávida porque foi fodida.

B: – Está gozando com a minha cara?

M: – Oh, não, senhora. Mas alguém gozou. Dentro da senhora, para ser mais específico.

B: – Hahaha. Corte essas piadinhas machistas, doutor. Escute e entenda bem minha situação doutor. Eu não estou grávida. Eu não posso estar grávida. Use seus dedos mágicos e tire isso de mim.

M: – Se a senhora tivesse tomado as devidas precauções, nenhum dedo mágico precisaria trabalhar na senhora.

B: – Hahaha. O senhor deve ser um sucesso com as mulheres. Tire. Agora.

M: – Infelizmente eu não posso, senhora. Não há qualquer circunstância que indique o procedimento abortivo.

B: – Será que cinquinho mil fazem aparecer uma circunstância?

M: – Dona Beatriz, aqui é um hospital, não um açougue.

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