Dancing blues with red shoes

Eu evoco uma lembrança de minha juventude para me ajudar a aperceber qual a minha posição enquanto pessoa privilegiada na sociedade.

Foi nos anos 80, eu acho que tinha 15 anos e tinha um cabelão, algo normal para a juventude da época. Meu pai me incumbiu de ir ao bar da esquina para comprar Coca-Cola. Eu levei duas dúzias de vasilhames em uma sacola de feira, eu tinha acabado de entregar os cascos e estava esperando o atendente encher a sacola quando eu senti uma mão passar pelos meus cabelos. Eu achei que era alguém da família ou algum conhecido, mas era um homem completamente desconhecido. Ele não pediu desculpa, não explicou seu ato, apenas demonstrou sua decepção ao ver que eu não era menina.

Isso demorou no máximo cinco minutos, mas é possível imaginar como deve ser estar vivenciando isto todos os dias, o dia inteiro. Há trinta e cinco anos atrás, o pior xingamento que se podia fazer não era chamar alguém de “filho da puta”, mas chamar alguém de “bicha”. Embora ambos os termos sejam uma indicação de papel e lugar do feminino em nossa sociedade.

O senhor Y, como homem, acha que tem todo o direito e liberdade de assediar a mulher, a menina. Ele não é assim por que quer, não é algo consciente, ele nasceu e foi criado em uma realidade social e cultural que o programou assim. Mas não resolve suas inseguranças. Ele ficou atraído por aquilo que eu representava. Por que ele não teria interesse se eu fosse “menino”? Gostar de mim o faria menos homem? E se eu fosse “menina”? Eu seria mais aceitável se tivesse os símbolos de feminilidade socialmente aceitos? Então nosso ser “masculino” e “feminino” é um mero código social? O que há de errado em ser feminino? Um código social é aprendido, assimilado, imitado, repetido. Um código social não é determinado pelo léxico do DNA, não se nasce X ou Y, portanto, não se herda o gênero.

Meninos imaturos preferem tergiversar, apontando como nós, homens, brancos e heterossexuais, “sofremos”. Ainda que eu liste todas as minhas dificuldades, nenhuma é resultante de minha condição, personalidade, identidade ou opção sexual. Ainda que eu tenha tido dificuldades, as opções estão ao meu favor, simplesmente por pertencer ao grupo privilegiado. Basta olhar para a realidade para listar meus privilégios. Eu tenho mais acesso à educação, emprego, escolaridade, do que outras pessoas, em condições adversas.

A Antiguidade carrega consigo o estigma da escravidão. Alguns humanos eram menos humanos que outros. Aos que faziam parte da sociedade tinham o seu espaço, tinham sua voz ouvida, tinham representantes no governo. Aos demais humanos era-lhe negado até sua humanidade. A estes a sociedade dos patrícios reservava as migalhas, a servidão, a submissão, a segregação, a discriminação, o preconceito. Como não eram vistos como humanos, viviam como podiam, negligenciados, esquecidos pela sociedade, morando em ruinas, debaixo de pontes, na periferia, nos guetos.

No mundo contemporâneo não convém mais falar em escravidão, em racismo, mas a desumanização ainda está presente. A sociedade ainda exclui e omite uma pessoa simplesmente quando esta não se adequa aso padrões sociais de personalidade, identidade e preferência sexual. Eu vou propor um exercício prático para exemplificar. Eu vou pegar emprestada a história de Robinson Crusoé. Fora de seu contexto social, o indivíduo perderá todos os referenciais e reforços que orientam sua sexualidade. Robinson não deve ter tido medo ou constrangimento algum em demonstrar interesse e atração pelo aborígene Sexta-Feira. Mas quando retornou ao “mundo civilizado”, ele deve ter recuperado sua mentalidade provinciana.

Não há coisa alguma de civilizado em uma sociedade que [re]produz preconceitos. Não há coisa alguma de civilizado em uma sociedade que ainda acha normal pensar que existam humanos que são menos humanos. Existem outros modelos de cultura além da do homem branco ocidental. Existem outros modelos de sexualidade além da ideologia binomial de gênero.

Todos nós somos humanos, todos nós temos direito de existir nesse mundo. O mundo é um salão de dança e a vida é a orquestra. Vamos todos dançar. Mesmo que você esteja com sapatos vermelhos e a orquestra esteja tocando blues.

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