Debate impossível

Querido amigo conservador, moralista, sexista e senso comum.
Eu sei que é interessante postar coisas do tipo “não se combate a violência com mais violência” ou “cotas é um racismo reverso” ou ainda “isso aí tudo é utopia”. Pode ser reconfortante se sentir compartilhando da opinião de pessoas e veículos grandes, pode-se sentir parte de um grande grupo ao defender a pena de morte, ao ser contra a legalização das drogas, ao apoiar pastores homofóbicos e tudo mais.
Pode ser mais legal ainda falar todas essas coisas pra mim ou perto de mim, esperando que eu re responda e que a gente inicie uma discussão que, certamente, vai durar muito tempo e gerar muitos comentários.
Pode ser que tu te sintas especial ao ler no G1 que um professor universitário compartilha da mesma opinião que tu, pode ser que tu se sintas feliz comentando “isso é falta de homem”, em algum post relacionado a feminismo.
Eu sei exatamente como é isso tudo.
Mas, sinto em desapontá-lo, a gente não pode discutir.
A gente não pode debater horas e horas, como eu já fiz diversas vezes com diversas pessoas sobre diversos assuntos. E não é porque eu não quero, sinceramente eu adoraria desperdiçar meu tempo tentando te mostrar que só existe favela porque a miséria dá lucro e que teu celular foi feito com trabalho escravo. Mas, infelizmente, nós não podemos embarcar nessa.
E os motivos são simples:

TUAS OPINIÕES NÃO SÃO TUAS

Isso precisa ficar muito claro. Para defender o que eu defendo, eu tive que me dedicar a leituras, estudos, aprofundamentos, conversas, debates e, principalmente, análise da realidade que não me cerca, da realidade que está longe dos meus privilégios.
Então, tudo que eu falo, escrevo ou opino é subsidiado por uma série de referências e, sobretudo, por conhecimentos que eu demorei para adquirir e que nunca poderão ser passados através de um bate-boca – seja ele virtual ou não.
Assim, as minhas opiniões são minhas, escoradas nos trabalhos de muitas outras pessoas, mas pensadas por mim.
Por outro lado, tudo que tu disser foi colocado na tua cabeça por uma série de instituições que existem exatamente pra isso.
Tu foi programado pra pensar como pensa. E eu também. Tu, assim como eu, nasceu em uma família tradicional, estudou em uma escola desde a infância e assistiu (e assiste) intermináveis horas de televisão.
Teus discursos machistas, homofóbicos, proibicionistas, violentos, elitistas, higienistas, pacifista, conservador, moralista, cristão e capitalista NÃO SÃO TEUS, são discursos prontos, propagados e passados pelos teus pais, pelos teus professores, pelos teus apresentadores de tevê, pelos teus amigos, pelos teus livros, por todas as pessoas que, assim como eu e tu, também passaram por isso.

VERDADE ATÉ QUE SE PROVE O CONTRÁRIO

Basicamente, eu posso provar tudo (ou a enorme maioria) que eu falo, escrevo ou penso. Posso te mostrar quem são os autores, os cineastas, os estudos e as reflexões que me fizeram chegar até o pensamento que quero te expor, posso escrever uma dissertação somente sobre aquilo que estamo debatendo.
Diante disso, as coisas nas quais eu acredito são, pra mim, verdades até que tu possas me provar o contrário, até que tu saia do facebook e vá procurar referências ou análises da realidade que comprovem que, por exemplo, o machismo não mata milhares de pessoas todos os dias.
Assim, enquanto tu só tiver falácias, acusações, discursos inflamados e violentos, sarcasmos e brincadeira, eu prefiro me abster de discutir contigo.

EU SEI TODAS AS TUAS RESPOSTAS

Não podemos discutir e debater saudavelmente porque, como eu disse, tuas respostas não são tuas e, assim, eu conheço-as muito bem. Por já ter debatido muito, por já ter rebatido-as muito e por já ter estudado muito tudo que tu vai dizer.
Sendo assim, eu sei exatamente o que tu vai comentar quando eu disser que “o machismo mata uma mulher a cada 15 segundos no Brasil”, por exemplo, sei exatamente o que tu vai dizer a cada argumento que eu te der, sei até que links tu possivelmente vai me mandar, quais notícias tu pode anexar nos teus comentários e qual vai ser tua próxima resposta.
Desse jeito, todas as nossas discussões vão ser iguais – porque eu provavelmente já saiba o que tu vai responder e tu, também, provavelmente já sabe quais são minhas opiniões.
Tuas respostas já tão prontas, já foram feitas. Discutir contigo seria atacar o problema pela ponta do iceberg. Pra ti falar o que fala, existe um sistema inteiro que te conduz a pensar assim – e é esse sistema que a gente tem que derrotar, não teus gritos de “bandido bom é bandido morto” na internet.
Por saber como tu vai responder, eu poderia simplesmente escrever um texto inteiro, rebatendo cada uma delas e mandar links de textos, livros e vídeos que ajudem a rebater tuas opiniões, logo depois do teu primeiro comentário, nos poupando tempo. Mas eu sei que, do alto da tua soberba, tu jamais vai ler tudo que eu escrevi nem tampouco assimilar o que eu quis te explicar.
Então me abstenho.

Não acho que tu tenhas que seguir com teus pensamentos moralistas e preconceituosos pra sempre, mas também não acho que eu (ou as pessoas em quem confio, as organizações que defendo ou a ideia política que vivo) seja o salvador que vá te levar a verdade.
Enquanto a gente dialoga sobre direitos humanos na internet, a polícia subiu a favela atirando em tudo que se move, matou dezenas de pessoas e ninguém foi sequer condenado; enquanto a gente fala sobre passe livre, algum trabalhador deixa de jantar pra pagar a passagem do transporte no dia seguinte. A realidade é mais dura do que debates e discussões, eu não quero nem vou conseguir te fazer mudar de opinião só porque comentei no teu post preconceituoso e muito menos tu vai me fazer dobrar à direita me dizendo que “o capitalismo funciona nos países desenvolvidos”.

Assim, guardo minhas opiniões par expô-las na rua, nos debates sérios, nas construções cotidianas. E deixo que o senso comum continue se afogando em contradições e se ocupando com a internet.

Autor: Guilherme Ulema.

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