A delicadeza do samurai

A internet é uma ferramenta incrível, basta saber usá-la. Eu leio um pouco de tudo através dessa ferramenta, pois o contraste é fundamental a um escritor e um filósofo. Afinal, sem um antagonista não há um protagonista.

Eu costumo acessar o blog do professor Ghiraldelli e no blog do Murilo eu leio os artigos de Luiz Ponde porque ambos são, cada qual a seu jeito, filósofos corporativistas. Ambos se colocam comodamente em um pedestal e fazem seu discurso ex-cátedra para nós, reles mortais e ignorantes.

Para a minha sanidade e a de meus leitores, há tempos eu desisti de tentar comentar e dialogar em blogs, grupos e fóruns, visto que sofrem do mesmo mal que existe nas redes sociais: o completo despreparo do autor ou responsável em manter o diálogo, o argumento, o debate. Ao invés disto, eu brindarei meus leitores com um texto agradável, simples, fácil de entender, decantado de toda pose de superioridade que um pensador, um intelectual e um filósofo se coroam.

O tema deste texto parte do artigo de Luiz Pondé: “Samurai vs Ciências Humanas”. Artigo baseado na noticia de que o Japão iria acabar com o ensino de ciências humanas. O que é de estranhar, haja visto que Luiz Pondé formou-se na cátedra de filosofia, uma cadeira das ciências humanas. Eu vou tentar não interpretar isto como um Complexo de Édipo.

A notícia é real, em parte. O ministro da educação do Japão não demorou em desmentir a notícia. Isso foi noticiado dessa forma no mundo ocidental porque nós temos tido um crescimento do conservadorismo, da ideologia politica de direita e não faltam intelectuais, pensadores e professores que falam em nome do reacionarismo e do fascismo. Então a crítica de Luiz Pondé é compreensível, pois ele [como todo reacionário e fascistoides] acha que a cátedra de ciências humanas [senão todo o campus universitário] é ambiente para a “doutrinação marxista”.

O artigo de Ponde não é para falar de politica educacional de outros países, ele apenas usa um factoide para extravasar suas próprias inseguranças a respeito da sexualidade. Coisa que Freud explica, mas o tema que mais suscita reação de quem está em seu nicho confortável como homem, branco e heterossexual é a questão de gênero, identidade, preferência e opção sexual.

Esta questão sobre o gênero é bastante simples. Sexo é biológico. Mas aquilo que os faz ser “homem” ou “mulher” é uma identidade de gênero e isto é produto de uma construção cultural. Afinal, todos nós vivemos em uma cultura, que é expressa na forma de linguagem, que define como entendemos a vida, o mundo, a existência e a sociedade. se Luiz Ponde se desse ao trabalho de ler Deleuze, Guattari e Derrida, não teria tanta dificuldade em entender que “corpo” é uma representação social.

Assim como a cultura, a filosofia não é algo fixo, determinado. Os heróis de Luiz Pondé ganharam seus louros entendendo o mundo melhor que seus precursores. Mesmo os heróis de Luiz Pondé estão no Nirvana da filosofia por alguns séculos somente depois de questionar pensadores que eram considerados os patriarcas do pensamento ocidental. Isto é algo que Luiz Pondé e Paulo Ghiraldelli demorarão a entender. Para ser filósofo, basta saber pensar. Sócrates, considerado Pai da Filosofia, nunca frequentou um curso de Filosofia nem tinha bacharelado em alguma universidade.

A cátedra de filosofia foi uma invenção recente que veio junto com o aparecimento das universidades. O ser humano começou a se preocupar com problemas que não são nem matemáticos nem científicos com a Era Moderna, daí o nome de “ciências humanas” a esse estudo que inclui sociologia, antropologia, politica, economia. Se tudo isso não ajuda em coisa alguma para resolver “problemas reais”, então toda a cultura ocidental deveria ser extinta.

Luiz Pondé deveria conhecer melhor a cultura japonesa, ou pelo menos conhecer melhor a figura do samurai. Luiz Ponde deveria conhecer algo de psicologia antes de revelar sua insegurança neurótica infantil com o pênis, sublimado na forma da katana, a espada do samurai. Afinal na mentalidade imatura de Luiz Pondé o samurai era machão, “espada”, para usar um termo da gíria. Como reagiria Luiz Pondé ao saber que a flor de cerejeira, leve, fina e rosa, era um dos símbolos adotados pelo samurai? Como reagiria Luiz Ponde ao saber que os samurais se maquiavam antes das batalhas? Como reagiria Luiz Ponde ao saber que muitos samurais eram cross-dressers [se vestiam e se comportavam como
mulheres]? Como reagiria Luiz Ponde ao saber que muitos samurais tinham relações homossexuais com outros samurais e certamente com seu xogum?

O ideal do samurai é um ideal do Japão medieval, algo que o mundo ocidental superou, algo que os heróis de Luiz Pondé enterraram há tempos. O mundo ocidental deve muito de sua cultura e conhecimento ao oriente, assim como a ciência e tecnologia deve muito de sua existência e desenvolvimento aos povos antigos [todos religiosos]. Mas a humanidade cresceu, evoluiu, pensamentos tidos como incontestáveis foram derrubados, instituições obsoletas foram esquecidas. Ao mesmo tempo, preservamos princípios e valores antigos que mostraram ser, se não universais, ao menos humanos. Humano como o samurai, firme e preciso como a katana diante das batalhas da vida, mas leve e suave como a flor da cerejeira diante da efemeridade da vida.

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