Arquivo mensal: novembro 2015

Nossa Senhora do Arouche – II

Ou a Encenação do Gênero.

Primeiro Ato – Anunciação.

Cenário – Avenida Paulista.

Personagens: Beatriz e Ivete.

B: – Ai, Ivete, eu estou esgotada. Quanto tempo falta para o carnaval?

I: – Olha, não falta muito, amiga. Você tem planos?

B: – Eu tenho. Passagem para o Rio e ingressos para o Desfile de Carnaval no Gávea.

I: – Nossa! Está podendo, hem, amiga? Vai com seu marido?

B: – Não, eu vou sozinha.

I: – O marido vai deixar?

B: – Deixando ou não, eu vou. O Brasil já proclamou a alforria da escravidão.

I: – Ele vai chiar.

B: – Ele não vai saber. O que os olhos não veem, o chifre não sente.

Beatriz caminha pelo tablado enquanto o cenário muda para a Gávea, para dentro do salão de festa, para dentro da farra de carnaval.

Personagens: Beatriz e Anjo.

B: – Alô, Ivete? Cara, você precisa dar um jeito e vir para cá! A festa mal começou e está bombando! Tem muito homem aqui! Eu estou me sentindo a Cleópatra aqui!

A: – Mas o que vejo? Uma anunciação? Oh, meu Deus, me perdoe, mas esta deve ser a Escolhida.

B: – Alô, Ivete? Desculpe, eu tenho que desligar. Tem um anjo me xavecando. Aham, um anjo. Como ele é? Olha, se ele for anjo, eu vou fazer diabruras com ele. Depois te conto. Beijos, beijos.

A: – Nada tema, mulher, pois Deus está contigo.

B: – Olha, essa paradinha de anjo é legal, mas não exagera, oquei? Vamos dançar que a farra está apenas começando.

A: – Mas, mulher, eu sou um mensageiro de Deus! Você, dentre tantas, foi a Escolhida por Deus!

B: – Cara, essa paradinha está ficando sinistra. Eu não curto ménage a trois, sacou? O seu amiguinho, se quiser uma mulher, vai ter que ir à luta.

A: – Você se recusa a fazer a vontade de Deus?

B: – No momento eu quero é fazer a minha vontade, pode ser ou está difícil?

As personagens somem no meio da multidão. Cenário muda para um hospital. Beatriz está deitada em um leito enquanto espera o diagnóstico do médico.

Personagens: Beatriz e Médico.

M: – Senhora Beatriz da Conceição?

B: – Aqui, doutor, sou eu mesma.

M: – Não se preocupe que seu estado não é grave, mas é grávido. Meus parabéns, a senhora está no quinto mês de gestação.

B: – Como assim, doutor? Eu? Grávida? Impossível. Eu e meu marido trabalhamos tanto que mal temos tempo para isso.

M: – Dona Beatriz, a senhora é religiosa?

B: – Não, não senhor, muito pelo contrário.

M: – Então a senhora está grávida, a menos que comece a acreditar em Espírito Santo.

B: – Ai, meu Deus. Eu estou fodida.

M: – De novo? Sim, por que se a senhora não acredita em Deus, a senhora está grávida porque foi fodida.

B: – Está gozando com a minha cara?

M: – Oh, não, senhora. Mas alguém gozou. Dentro da senhora, para ser mais específico.

B: – Hahaha. Corte essas piadinhas machistas, doutor. Escute e entenda bem minha situação doutor. Eu não estou grávida. Eu não posso estar grávida. Use seus dedos mágicos e tire isso de mim.

M: – Se a senhora tivesse tomado as devidas precauções, nenhum dedo mágico precisaria trabalhar na senhora.

B: – Hahaha. O senhor deve ser um sucesso com as mulheres. Tire. Agora.

M: – Infelizmente eu não posso, senhora. Não há qualquer circunstância que indique o procedimento abortivo.

B: – Será que cinquinho mil fazem aparecer uma circunstância?

M: – Dona Beatriz, aqui é um hospital, não um açougue.

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Nossa Senhora do Arouche – I

Ou a Encenação do Gênero.

Prolegômenos.

Narrador diante do palco, cortinas fechadas.

Minhas saudações a vós que aqui estão. Minha gratidão eu lhes dou também, pois se deram o trabalho de sair do conforto de seus lares, enfrentarem as agruras do trânsito, estoicamente esperando sua vez na fila, resignados inclusive a pagar a este barqueiro cego para levá-los por este atentado chamado teatro.

Concedam-me a condescendência de vos entreter dentro de meus escassos recursos, pois não sou de Brundísio nem de Stratford Avon, se eu evocar as Musas Elas hão de cuspir em mim. Mas eis-me aqui, diante de vós, contando com vossa concupiscência e cumplicidade em não me delatarem. Existe uma lista enorme de pessoas e instituições interessadas no meu sumiço, se me permitem o eufemismo.

O que vos tenho a apresentar é uma heresia, uma blasfêmia, um sacrilégio. Mas foi assim que aconteceu, eu sou testemunha, podem confiar em minhas palavras. Isto poderia ter acontecido em qualquer lugar, mas foi aqui mesmo, no Arouche, na cidade da garoa de São Paulo. Isto poderia ter acontecido com qualquer pessoa aqui presente, religiosa ou descrente, famosa ou desconhecida, então chorem e riam, pois todos nós somos atores nesse grande palco da vida.

Oh, sim, nós encenamos. Aqui nesta peça os atores são profissionais, alguma mente insana escreveu este roteiro e atrás desta cortina existem inúmeros outros profissionais do teatro que não são nem conhecidos, nem amados e nem invejados pelas pessoas. Mas deem uma boa olhada ao lado. Rostos empertigados, roupas alinhadas, comportamento comedido. Daqui de onde eu olho, eu vejo personagens e máscaras. Cada um aqui presente constrói sua figura e escreve seu roteiro na tragicomédia da vida.

A cortina fecha para todos, algum dia. Então vamos comemorar! Orquestra, música! Que entrem os malabares! Vamos nos alegrar, vamos dançar! Levantem de suas poltronas! Vamos todos aplaudir! Que entre ela, nossa personagem principal e protagonista. Ela ou ele? Ou seria terceiro? Pouco importa! Debaixo de seu divino manto púrpura, todos são bem vindos! Venham de onde vierem, venham como quiserem, venham como desejarem ser! Aplausos para ela, a Nossa Senhora do Arouche!

Empoderamento, discurso e prática

Segundo o dicionário, o déspota esclarecido era o soberano europeu, geralmente um monarca absolutista, que tentava colocar em prática as ideias dos pensadores iluministas. Um governante absoluto utilizando para seus propósitos pensamento que são antagônicos ao seu próprio regime parece inconcebível, mas e quanto ao inverso? Como podemos chamar um pensador que oferece seus serviços a um sistema ou poder politico, social e econômico para explicar, justificar e sancionar as injustiças? A palavra mais próxima é mercenário. Muitos são os pensadores que receberam dinheiro em troca de seus serviços para garantir o status quo de uma Elite. Estes pensadores também são conhecidos por defender ideais conservadores, quando não reacionários.

O discurso do conservador é caracterizado por querer manter certos valores, ideias, opiniões e modelos que são o cerne de um sistema social, politico e cultural. O discurso do reacionário é o extremo do discurso conservador, visto que sua tônica visa eliminar qualquer diálogo ou contestação. A nuance nem sempre é possível perceber, pois um discurso conservador acaba tendendo ao reacionarismo quando tenta refutar discursos dissonantes.

A universidade é, segundo o conservador e o reacionário, ambiente propício à doutrinação marxista. Mediante tantos pensadores, professores e alunos que reproduzem ideais conservadores e reacionários, esse alarme da “doutrinação” é apenas uma falácia do espantalho. A universidade tem, segundo o conservador e o reacionário, “vacas sagradas” que não podem ser contestadas, mas reclamam quando a universidade mata suas “vacas sagradas”. Supostamente a universidade é um ambiente de diálogo, questionamento e contestação, desde que não seja contra os patrões destes mercenários.

O discurso conservador e reacionário a favor do discurso normativo se vale, geralmente, de análises superficiais e generalizantes. O discurso conservador e reacionário contra o discurso dissonante se vale, amiúde, de citações tendenciosas, fora de contexto, de interpretações de texto intelectualmente desonestas senão preguiçosas.

Uma boa maneira de explicar a diferença está em pequenas frases, bordões ou palavras de ordem, que são transmitidas de forma implícita ou explicita. Sem identificar qual é qual, eu citarei duas frases.

  • – A liberdade é uma calça jeans azul.
  • – O corpo é meu, as regras são minhas.

A primeira frase demonstra no que o ideal humano de liberdade se transformou no mundo ocidental contemporâneo, movido pelo capitalismo e pelo consumismo. Este é o cerne do ideal neoliberal que pode ser percebido no livro “Liberdade Para Escolher” de Milton Friedman. A partir do momento que você precisa ir ao mercado para suprir suas necessidades, não há liberdade. A partir do momento que você não tem acesso aos produtos ou aos meios de suprir suas necessidades, não há liberdade. Há algo de muito errado em uma sociedade a partir do momento que a liberdade é reduzida ao consumo. Na sociedade capitalista há o foco no ter, não no ser. Quando a liberdade é reduzida ao o que e o quanto se consome, o próprio ser humano se torna uma mercadoria. Aquele que não consome, não existe, não é produtivo, não é um cidadão, não é um ser humano. Assim a sociedade explica e justifica a exclusão e segregação social, seus guetos, seus preconceitos e discriminações, suas periferias.

A segunda frase demonstra a exata dimensão da ideia de liberdade na humanidade, onde a unidade [o indivíduo] empodera-se de sua mais básica, crucial e essencial propriedade, que é seu corpo. Ainda que consideremos que o individuo apenas pode existir, se identificar e se afirmar dentro de um contexto coletivo, dentro da cultura que faz parte de uma sociedade, ao colocar o centro da questão na pessoa, no corpo, não em objetos ou em termos de consumo, o indivíduo situa a base da sociedade na associação entre seres humanos. Ao reafirmar a base humana da sociedade, o indivíduo reafirma os códigos sociais, as normas, as leis que regem as relações de uma pessoa com outra, de uma pessoa com seu meio e da comunidade com o indivíduo. Paradoxalmente quando o indivíduo retoma a posse de seu corpo, este reafirma o mais básico direito de propriedade, algo que o Marxismo é teoricamente contra, o que refuta totalmente o discurso conservador e reacionário contra o discurso dissonante.

A primeira frase resume o pensamento conservador, onde cada pessoa tem seu lugar como se fosse uma mera engrenagem, mecanismo, não cabendo qualquer contestação ou dissonância contra o sistema. A segunda frase resume o pensamento libertário, humanista, progressista, onde cada pessoa é responsável pela organização e estrutura da sociedade em que vive.

Os que adotam o pensamento conservador, a prática é o controle social mediante aparatos de repressão. Os que adotam o pensamento progressista, a prática é contestar e resistir à opressão.

O meu bem querer

Almeida nasceu em algum lugar de São Paulo, um de uma prole, vivendo em vila de operários, sua existência era pouco mais que uma sombra. Crianças apenas vivem suas vidas sem as amarras da vida adulta, Almeida cresceu sendo elu mesmu.

A ficha começou a cair aos cinco anos, quando Almeida foi junto com seus irmãos e irmãs ao desfile de carnaval para crianças. Foi a tia Clara ou a Tia Maria que colocou uma fantasia nelu? As lembranças são confusas quanto a rostos, nomes e pessoas, mas não a experiência. Almeida foi ensacado em um vestido, pela primeira vez. Muitos outros meninos também se travestiram, jovens e adultos, travestiram-se de mulheres em uma péssima paródia de mulher. Naquela algazarra, ninguém notou nem se deu conta, mas Almeida estava extasiado. A sensação de conforto, de bem estar, de segurança, vestido como mulher, foi o mais próximo do paraíso que elu pode estar. Mas acabou o carnaval. Sua mãe não gostou quando elu tentou ir para escola de vestido. Seu pai arrancou e rasgou o vestido, não dando importância aos seus rogos e choros.

Foi constrangedor quando a família foi chamada para decidir o que fariam com elu. Almeida era apenas criança no meio de vários adultos. Aqueles rostos acusadores, aqueles olhares aterradores, aquelas palavras duras. Foi o tio João ou o tio Mário que sugeriu mandar elu para um internato de padres? Felizmente memórias ruins também são confusas, mas são excelentes para gravar a experiência. Almeida conheceu outrus como elu, muitus que passaram suas infâncias sendo duplamente violentados, um por terem que se vestir como menino e outra por terem que servir como menina. Os padres fabricaram meninos que viraram meninas ou ajudaram a definir meninos que eram meninas.

Almeida saiu do internato quando completou dezoito anos, devidamente ensinado pelos padres qual papel elu teria que encenar pelo resto de sua vida, mas com a alma dividida entre a máscara de menino que elu tinha que usar e o corpo de menina que elu tinha que esconder. Almeida desempenhava seu papel tão bem que não foi difícil encontrar um emprego, uma vaga na faculdade, conseguir uma promoção, construir um patrimônio e até casar com uma mulher, ter filhos, ser bem sucedidu.

Almeida encenou sua tragicomédia por trinta anos. Até dar um estalo. Casualmente, enquanto se vestia, viu um vestido deslumbrante que sua esposa tinha. Seria cansaço? Seria crise de meia-idade? Almeida colocou o vestido. Sentou a mesma sensação agradável de sua infância. A mesma sensação de bem estar, de segurança, conforto, pertencimento. Seus olhos brilharam ao se reidentificar, ao voltar a se ver como Almeida. Combinou o vestido com um dos mais belos sapatos de salto alto de sua esposa e foi trabalhar. Almeida atraiu muitos olhares, nem todos de reprovação, alguns eram concupiscenciosos, alguns eram de reconhecimento. No trabalho, seu chefe primeiro achou que elu era uma “menina nova” e deu em cima delu, mas depois surtou quando percebeu que elu era Almeida.

Novamente Almeida estava diante de uma reunião, mas não com familiares. Faces estranhas, sem qualquer vinculo ou parentesco, decidiam o que fazer com Almeida, como se tivessem poder sobre a vida delu. Mas Almeida era crescido, não tinha mais medo. Aqueles olhares sisudos, aquelas palavras duras e as ameaças não significavam coisa alguma para elu. Almeida foi jogado de encarregado a faxineiro, elu perdeu benefícios, vantagens, promoções. Quando voltou para casa, seus filhos adoraram conhecer o verdadeiro Almeida, mas sua esposa não gostou da novidade. Almeida aturou o divorcio, a perda de guarda das crianças, foi morar em um barraco, mas estava feliz.

Então um belo dia saiu a noticia que uma grande empresa estava sofrendo um processo por discriminação, preconceito e intolerância contra uma pessoa devido a seu gênero, identidade e opção sexual. A justiça aceitou a ação e a grande empresa teve que pagar uma enorme indenização. Não demorou para que outras empresas, pequenas e grandes, tivessem o cuidado de publicar uma declaração lamentando ocaso e que as políticas destas empresas foram sempre pautadas pela inclusão. Aquela em que Almeida trabalhou não foi exceção. Almeida foi esperto e guardou todos os documentos, entrou com a mesma ação contra sua empresa. A princípio, na audiência de conciliação, a empresa achou que estavam tão isentos que mandaram apenas dois advogados. Mas na audiência de julgamento, diante dos documentos, a empresa aumentou para vinte advogados. Houve muita tensão no julgamento e fora dele. Tentativa de suborno, tentativa de assassinato, constrangimento de testemunhas, mas no final a justiça prevaleceu.

Com a indenização, Almeida pode reconstruir sua vida. Conseguiu a guarda compartilhada de seus filhos, mas não aceitou reatar com sua ex-esposa. Com o que elu ganhou, Almeida não precisaria trabalhar, mas queria fazer algo. Almeida fundou sua ONG, voltada para dar assistência a todus aquelus que fossem como elu. Almeida ensinou a muitus como elu que o verdadeiro bem querer é se querer bem.

Dancing blues with red shoes

Eu evoco uma lembrança de minha juventude para me ajudar a aperceber qual a minha posição enquanto pessoa privilegiada na sociedade.

Foi nos anos 80, eu acho que tinha 15 anos e tinha um cabelão, algo normal para a juventude da época. Meu pai me incumbiu de ir ao bar da esquina para comprar Coca-Cola. Eu levei duas dúzias de vasilhames em uma sacola de feira, eu tinha acabado de entregar os cascos e estava esperando o atendente encher a sacola quando eu senti uma mão passar pelos meus cabelos. Eu achei que era alguém da família ou algum conhecido, mas era um homem completamente desconhecido. Ele não pediu desculpa, não explicou seu ato, apenas demonstrou sua decepção ao ver que eu não era menina.

Isso demorou no máximo cinco minutos, mas é possível imaginar como deve ser estar vivenciando isto todos os dias, o dia inteiro. Há trinta e cinco anos atrás, o pior xingamento que se podia fazer não era chamar alguém de “filho da puta”, mas chamar alguém de “bicha”. Embora ambos os termos sejam uma indicação de papel e lugar do feminino em nossa sociedade.

O senhor Y, como homem, acha que tem todo o direito e liberdade de assediar a mulher, a menina. Ele não é assim por que quer, não é algo consciente, ele nasceu e foi criado em uma realidade social e cultural que o programou assim. Mas não resolve suas inseguranças. Ele ficou atraído por aquilo que eu representava. Por que ele não teria interesse se eu fosse “menino”? Gostar de mim o faria menos homem? E se eu fosse “menina”? Eu seria mais aceitável se tivesse os símbolos de feminilidade socialmente aceitos? Então nosso ser “masculino” e “feminino” é um mero código social? O que há de errado em ser feminino? Um código social é aprendido, assimilado, imitado, repetido. Um código social não é determinado pelo léxico do DNA, não se nasce X ou Y, portanto, não se herda o gênero.

Meninos imaturos preferem tergiversar, apontando como nós, homens, brancos e heterossexuais, “sofremos”. Ainda que eu liste todas as minhas dificuldades, nenhuma é resultante de minha condição, personalidade, identidade ou opção sexual. Ainda que eu tenha tido dificuldades, as opções estão ao meu favor, simplesmente por pertencer ao grupo privilegiado. Basta olhar para a realidade para listar meus privilégios. Eu tenho mais acesso à educação, emprego, escolaridade, do que outras pessoas, em condições adversas.

A Antiguidade carrega consigo o estigma da escravidão. Alguns humanos eram menos humanos que outros. Aos que faziam parte da sociedade tinham o seu espaço, tinham sua voz ouvida, tinham representantes no governo. Aos demais humanos era-lhe negado até sua humanidade. A estes a sociedade dos patrícios reservava as migalhas, a servidão, a submissão, a segregação, a discriminação, o preconceito. Como não eram vistos como humanos, viviam como podiam, negligenciados, esquecidos pela sociedade, morando em ruinas, debaixo de pontes, na periferia, nos guetos.

No mundo contemporâneo não convém mais falar em escravidão, em racismo, mas a desumanização ainda está presente. A sociedade ainda exclui e omite uma pessoa simplesmente quando esta não se adequa aso padrões sociais de personalidade, identidade e preferência sexual. Eu vou propor um exercício prático para exemplificar. Eu vou pegar emprestada a história de Robinson Crusoé. Fora de seu contexto social, o indivíduo perderá todos os referenciais e reforços que orientam sua sexualidade. Robinson não deve ter tido medo ou constrangimento algum em demonstrar interesse e atração pelo aborígene Sexta-Feira. Mas quando retornou ao “mundo civilizado”, ele deve ter recuperado sua mentalidade provinciana.

Não há coisa alguma de civilizado em uma sociedade que [re]produz preconceitos. Não há coisa alguma de civilizado em uma sociedade que ainda acha normal pensar que existam humanos que são menos humanos. Existem outros modelos de cultura além da do homem branco ocidental. Existem outros modelos de sexualidade além da ideologia binomial de gênero.

Todos nós somos humanos, todos nós temos direito de existir nesse mundo. O mundo é um salão de dança e a vida é a orquestra. Vamos todos dançar. Mesmo que você esteja com sapatos vermelhos e a orquestra esteja tocando blues.

Greve Global de Gênero

A Assembleia Transmaricabollo de Sol na Campanha Pela Despatologização da Transsexualidade convoca para a Greve Global de Gênero.

  1. As identidades binárias de gênero (mulher e homem) são instrumentos históricos de dominação que se situam na base dos sistemas econômicos e de poder que articulam o capitalismo atual.
  2. Estas identidades, longe de serem universais, são arbitrárias e são impostas às pessoas a partir do sistema médico-legal con a finalidade de inscrevê-las em um modelo de produção baseado na família nuclear heterossexual.
  3. As identidades binárias de gênero são impostas às pessoas quando nascem através das categorias de sexo biológico (fêmea e macho), que implicam uma redução da sexualidade à genitalidade e desta a sua funcionalidade no marco da reprodução heterossexual.
  4. Porém a sexualidade não se reduz nem à genitalidade nem à reprodução… então, para que usamos a distinção mulher-homem, senão para gerar diferenças de classe?
  5. As pessoas intersexuadas, que nascem com uma anatomia genital não claramente identificável em termos de macho ou fêmea, são habitualmente operadas pouco tempo depois de nascerem, com a finalidade de serem inscritas no sistema binário de dominação.
  6. Ao mesmo tempo, a transexualidae e o travestismo são considerados como condições patológicas nos manuais médicos e em leis aprovadas por este Governo com “disforia” política.
  7. Por isso defendemos a despatologização das pessoas trans, demandamos a eliminação do patológico requisito de diagnóstico de “disforia de gênero” para a mudança de nome e sexo no registro civil, assim como a eliminação dos prazos de hormonização obrigatória que condenam a maioria das pessoas trans à esterilidade.
  8. Por último, exigimos a eliminação dos protocolos médicos de normalização binária para pessoas trans e intersexuadas (como o teste de vida real, cirurgias de reaparelhamento genital, etc.), e defendemos a luta de todas as pessoas trans por uma redesignação de gênero diante dos problemas e obstáculos com que se deparam para fazer isso.
  9. Por outro lado, há pessoas transgêneras que não se identificam nem como homens nem como mulheres, assim como há as que reivindicam identidades em trânsito ou trajetórias de gênero, e outras que reivindicam um gênero neutro, que inventam outros gêneros, ou que rechaçam a identidade de gênero em sua totalidade.
  10. Qualquer pessoa pode legitimamente, se assim o desejar, rejeitar esta identidade que se nos foi imposta a tod@s de forma arbitrária para incluir-nos e subjugar-nos ao sistema global de dominação.
  11. Esta não é apenas uma opção legítima de cada pessoa mas também uma luta solidária com as pessoas trans e intersexuadas pela violência oficial da qual sistematicamente têm sido vítimas, tanto por parte do sistema médico-legal como da sociedade em geral, uma violência que sofrem também todas as pessoas que não encaixam nas normas sexuais e de gênero e que de forma implícita afeta a todas as pessoas, já que tod@s nós somos submetid@s à identificação binária, querendo ou não, sem que o sistema nos apresente qualquer outra alternativa possível.
  12. Por isso, convocamos uma GREVE GLOBAL DE GÊNERO durante o mês de outubro trans, com possível prorrogação por prazo indeterminado, na qual qualquer pessoa, de qualquer idade, classe social, nacionalidade ou condição econômica, em qualquer lugar do mundo, poderá rejeitar por um tempo indefinido, a identidade de mulher ou de homem que lhe tenha sido imposta.

Como VOCÊ PODE PARTICIPAR desta Greve de Gênero?

1. Manifestando publicamente, sempre que se tenha ocasião, a sua não identificação em nenhuma categoria de gênero, nem como homem nem como mulher, assim como a sua total rejeição a estas categorias de dominação, passando a identificar-se simplesmente como DE-GENERAD@.

2. Questionando e subvertendo os papeis e comportamentos binários de gênero a que você mecanicamente se sujeita em sua vida diária (formas de se vestir e de se apresentar em público, linguagem corporal, etc.)

3. Entrando em banheiros do sexo-gênero oposto ao gênero que lhe foi consignado ao nascer, especialmente naqueles lugares em que os banheiros sejam separados em função das categorias binárias de homem-mulher, se por mais não for pela simples solidariedade às pessoas trans, em nome do combate ao constrangimento e à violência que sofrem diariamente nos baheiros de lugares públicos.

4. Cobrando das lojas de roupas tamanhos e modelos que não sejam diferenciados em função de sexo-gênero binário.

5. Recusando-se a preencher formulários impressos ou online, oficiais ou de qualquer outro tipo, nos quais seja obrigatória a menção de gênero e apresentando reclamações ante as entidades correspondentes, exigindo a correção do formulário para que inclua a possibilidade de você não ter que se identificar nem como homem nem como mulher.

6. Fazendo requerimentos e interpondo recursos perante os tribunais locais, estaduais, nacionais e internacionais, solicitando a sua não adscrição a nenhum gênero binário, exigindo terminantemente que a menção a esta categoria desapareça da sua Carteira de Identidade e demais documentos oficiais para todas as pessoas que assim o desejem.

(trad. adapt. Letícia Lanz)

Meu corpo, meu território, minha lei

Nenhum artigo, inciso ou portaria pode alterar minha atitude de soberania sobre o que me pertence por natureza. Não sou especialista em direito, mas sei que nem tudo o que é legal é legítimo. E não existe outra lei sobre o corpo a não ser aquela que vigora nas fronteiras das minhas entranhas.

Percebo que é egoísta falar por mim com tanta segurança, enquanto a maioria das mulheres deste país detêm menos poder sobre suas vidas e menor autonomia sobre si mesmas. Gostaria de transferir-lhes minha convicção, mas só posso oferecer minha intransigente e sincera sororidade: serei sempre irmã e parceira de outras mulheres na guerra pela defesa desse território objeto de tão raivosas disputas e regulações – os nossos corpos. (É claro que a defesa é de todos que têm um corpo em litígio. Por isso falo sobre as mulheres, para as mulheres e pelas mulheres principalmente).

O direito total sobre sua reprodução.
O direito de modificar o corpo como bem entender.
O direito de não submetê-lo a terapias e procedimentos forçados.
O direito de decidir quando não se quer mais viver.

O corpo é laço para as futuras gerações ou ponto final na história. Meu corpo delimita a vida e a morte, extremamente minhas, para que eu as experimente e as consuma sozinha.

Meu corpo não está isolado, mas encadeado numa rede de ações para dar a outros corpos sua carta de alforria. Meu corpo é o meu manifesto de desobediência civil a toda lei que pretende regulá-lo, porque no meu território tais leis não apitam nem fazem eco. São vazias.

Suponha que esta é uma resposta rebelde, mas não há nada mais tranquilo do que uma verdade interior. No fundo, não interessa o que é legal ou ilegal quando vigora no nosso íntimo o conhecimento do que é legítimo. E quando sabemos o que é legítimo, nos autolegislamos.

E, ainda assim, não há nada mais subversivo do que dizer: “Meu corpo me pertence. Deito, rolo, faço com ele o que quiser.”
E nada mais criminoso do que pactuar: “Tens a minha ajuda para que no teu corpo seja feita a tua vontade.”

Assim colocado, desfilo meu samba nos gabinetes de vossas excelências e anuncio:
– Meu corpo me pertence, sabiam ?

Sou livre. E agora venham me prender se forem capazes.

Autora: Cris Lasaitis.