O coração negro

“Diz a lenda que foi Lorde Byron quem começou o estilo literário de horror, ao reunir em sua mansão a escritora Mary Shelley e o escritor Bram Stocker.

Naquela época livros de magia [chamados de grimoires] circulavam pela aristocracia, que organizavam ordens, grupos e festas para sair de suas vidas entediadas com atos de heresia, blasfêmia e sacrilégio contra a Igreja.

Quando aqueles fidalgos se reuniram na mansão de Lorde Byron, não demorou para surgirem histórias sobre fantasmas e outras criaturas sobrenaturais. A crença e a cultura popular estão recheadas de lendas com seres do Submundo. Nada mais humano do que atribuir ao que é estranho e diferente certos traços e comportamentos que são considerados malignos, porque não conseguimos admitir que eles são parte de nossa natureza. A história da humanidade é testemunha de que o homem é o maior autor de horrores do que qualquer monstro.”

Kristy pronuncia sua palestra diante de um auditório lotado, tal como vinha fazendo desde que defendeu sua tese, há trinta anos atrás, durante sua formatura na Universidade de Psiquiatria em Columbo. Desde então ela tem feito diversas entrevistas, eventos e palestras, em escolas, universidades e empresas. Desde que o esoterismo se tornou mais um produto comercial, sua agenda e palestras tem ficado lotada de gente querendo saber mais sobre a teoria psicanalítica do eu, como formamos nossa “persona” e sobre o id, como formamos nossa sombra. As primeiras dez fileiras ficam sempre os mais interessados, anotando tudo, gravando, tirando fotos. Como sempre, as ultimas fileiras são ocupadas por aqueles que estão lá para cumprir alguma ordem do professor ou da empresa.

Na saída, é inevitavel perguntas sobre a relação entre seu trabalho e a obra de Clive Barker, se existe a Ordem de Gash, os cenobitas e a caixa de Lemarchand. Ela lembra de que o escritor a procurou no fim de sua primeira exposição, propondo dar uma nova versão para suas anotações e a analogia com sua família que Kristy usava nas palestras. Na época, Clive era apenas um aspirante a escritor que tinha acabado de se formar e queria algo que abrisse portas. Na época ela achou que era uma boa idéia dar à sua tese um ar mais leve, mais fácil de ler e entender, na forma de literatura popular. A princípio ela achara que o livro seria de drama ou romance. Quando recebeu seu exemplar em casa, antes de seu lançamento ao público, ela havia mudado de idéia ao ver a assustadora equação de ocultismo, esoterismo e horror que a obra havia se tornado.

Foram meses conturbados, tendo que dividir seu escasso tempo entre seu trabalho profissional e a ação na justiça. Os leitores puderam ler apenas parte do que ela tinha lido, a publicação oficial passou por sua revisão, nomes trocados, lugares omitidos e vários capítulos sumiram nessa negociação por simplesmente serem terríveis demais. Exatamente o que ela tentava evitar, com suas palestras, é que o ser humano encontre justificativas, explicações, desculpas, para seus atos malignos. Se o homem desse asas ao seu coração negro, Hitler se tornaria apenas um garoto mimado diante dos horrores que aconteceriam.

Ela não consegui, entretando, evitar os clichês, como o encontro da caixa em algum lugar do Oriente Médio, achada em algum Mercado Persa. Ou a evidente tecnofobia implícita ao mostrar uma mera caixa de música como a protagonista do Apocalipse. A escolha do nome das criaturas tinha um certo ranço anti-religioso, pois cenobitas existiam, mas não como o livro e o filme descrevem. Kristy nunca entendeu como Clive colocou em uma mesma obra tanta simbologia mística enquanto incorporava a histeria do homem contra ordens religiosas. Mas Clive era americano e americanos tem uma estranha predileção por violência. Então para que o escritor pudesse, ainda que de forma sublimada, oferecer ao seu público americano, uma forma segura de fazer a catarse dessa sede por sangue, morte e dor, ele teria que fazer exatamente aquilo que Kristy aborda em sua tese – projetar no “outro”, no “demônio”, as sombras internas que viviam nas pessoas.

Ela também não entendeu porque Clive ficou tão encantado e entusiasmado ao ver a caixa de música que ela havia herdado de seus avós. A caixa é uma herança de família, de sua parte francesa, que vivia como artesãos de pequenas engenhocas, feitas sob encomenda. A caixa foi uma edição unica feita pelo bisavô de seu bisavô tentando copiar e imitar uma caixa chinesa. Kristy herdou do seu lado inglês o interesse por enigmas, especialmente quebra-cabeças mecânicos, então ela sempre brincava com a caixa de música quando as coisas não iam bem na família.

A caixa estava em suas mãos quando aconteceu a cisão definitiva em sua família, a rachadura explodiu no casamento de sua tia Louisie. Seu envolvimento amoroso com um primo, ser mulher divorciada, ou de ter escolhido casar com uma pessoa de outra etnia não causaria qualquer comoção atualmente, mas há quarenta anos atrás ainda era um escândalo social. No auge da briga, seu avô, um senhor doente e mentalmente perturbado, arrancou a caixa de suas mãos, amaldiçoou e jogou pela janela, atribuindo toda a culpa dos fatos à caixa e aos demônios que viviam nela. Aquilo para a pequena Kristy foi a maior mágoa, mas para a Kristy adulta foi o impulso que precisava para concluir sua tese e sua querida caixa de música foi usada como analogia.

A caixa em nada lembra o famigerado cubo criado pela equipe de filmagem ao verter papel para celulóide. Seu formato é retangular, sua aparência é de um pequeno cofre. A caixa não tem enfeites ou pinturas, no máximo uma rústica engastação muito comum em objetos de madeira e metal. Ela havia descoberto como abrir a caixa aos dois anos, mas Clive teve dificuldades em perceber como disparar seu dispositivo, liberar a tampa e abrir seu conteúdo. Kristy nunca entendeu porque os olhos de Clive brilharam intensamente ao ver, dentro da caixa, o camafeu de sua avó, um coração, que infelizmente perdera toda a cor original e adquirira, depois da Segunda Guerra Mundial, o tom monocromático e monótono dessa noite eterna que habita no coração humano.

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