Arquivo mensal: outubro 2015

O coração negro

“Diz a lenda que foi Lorde Byron quem começou o estilo literário de horror, ao reunir em sua mansão a escritora Mary Shelley e o escritor Bram Stocker.

Naquela época livros de magia [chamados de grimoires] circulavam pela aristocracia, que organizavam ordens, grupos e festas para sair de suas vidas entediadas com atos de heresia, blasfêmia e sacrilégio contra a Igreja.

Quando aqueles fidalgos se reuniram na mansão de Lorde Byron, não demorou para surgirem histórias sobre fantasmas e outras criaturas sobrenaturais. A crença e a cultura popular estão recheadas de lendas com seres do Submundo. Nada mais humano do que atribuir ao que é estranho e diferente certos traços e comportamentos que são considerados malignos, porque não conseguimos admitir que eles são parte de nossa natureza. A história da humanidade é testemunha de que o homem é o maior autor de horrores do que qualquer monstro.”

Kristy pronuncia sua palestra diante de um auditório lotado, tal como vinha fazendo desde que defendeu sua tese, há trinta anos atrás, durante sua formatura na Universidade de Psiquiatria em Columbo. Desde então ela tem feito diversas entrevistas, eventos e palestras, em escolas, universidades e empresas. Desde que o esoterismo se tornou mais um produto comercial, sua agenda e palestras tem ficado lotada de gente querendo saber mais sobre a teoria psicanalítica do eu, como formamos nossa “persona” e sobre o id, como formamos nossa sombra. As primeiras dez fileiras ficam sempre os mais interessados, anotando tudo, gravando, tirando fotos. Como sempre, as ultimas fileiras são ocupadas por aqueles que estão lá para cumprir alguma ordem do professor ou da empresa.

Na saída, é inevitavel perguntas sobre a relação entre seu trabalho e a obra de Clive Barker, se existe a Ordem de Gash, os cenobitas e a caixa de Lemarchand. Ela lembra de que o escritor a procurou no fim de sua primeira exposição, propondo dar uma nova versão para suas anotações e a analogia com sua família que Kristy usava nas palestras. Na época, Clive era apenas um aspirante a escritor que tinha acabado de se formar e queria algo que abrisse portas. Na época ela achou que era uma boa idéia dar à sua tese um ar mais leve, mais fácil de ler e entender, na forma de literatura popular. A princípio ela achara que o livro seria de drama ou romance. Quando recebeu seu exemplar em casa, antes de seu lançamento ao público, ela havia mudado de idéia ao ver a assustadora equação de ocultismo, esoterismo e horror que a obra havia se tornado.

Foram meses conturbados, tendo que dividir seu escasso tempo entre seu trabalho profissional e a ação na justiça. Os leitores puderam ler apenas parte do que ela tinha lido, a publicação oficial passou por sua revisão, nomes trocados, lugares omitidos e vários capítulos sumiram nessa negociação por simplesmente serem terríveis demais. Exatamente o que ela tentava evitar, com suas palestras, é que o ser humano encontre justificativas, explicações, desculpas, para seus atos malignos. Se o homem desse asas ao seu coração negro, Hitler se tornaria apenas um garoto mimado diante dos horrores que aconteceriam.

Ela não consegui, entretando, evitar os clichês, como o encontro da caixa em algum lugar do Oriente Médio, achada em algum Mercado Persa. Ou a evidente tecnofobia implícita ao mostrar uma mera caixa de música como a protagonista do Apocalipse. A escolha do nome das criaturas tinha um certo ranço anti-religioso, pois cenobitas existiam, mas não como o livro e o filme descrevem. Kristy nunca entendeu como Clive colocou em uma mesma obra tanta simbologia mística enquanto incorporava a histeria do homem contra ordens religiosas. Mas Clive era americano e americanos tem uma estranha predileção por violência. Então para que o escritor pudesse, ainda que de forma sublimada, oferecer ao seu público americano, uma forma segura de fazer a catarse dessa sede por sangue, morte e dor, ele teria que fazer exatamente aquilo que Kristy aborda em sua tese – projetar no “outro”, no “demônio”, as sombras internas que viviam nas pessoas.

Ela também não entendeu porque Clive ficou tão encantado e entusiasmado ao ver a caixa de música que ela havia herdado de seus avós. A caixa é uma herança de família, de sua parte francesa, que vivia como artesãos de pequenas engenhocas, feitas sob encomenda. A caixa foi uma edição unica feita pelo bisavô de seu bisavô tentando copiar e imitar uma caixa chinesa. Kristy herdou do seu lado inglês o interesse por enigmas, especialmente quebra-cabeças mecânicos, então ela sempre brincava com a caixa de música quando as coisas não iam bem na família.

A caixa estava em suas mãos quando aconteceu a cisão definitiva em sua família, a rachadura explodiu no casamento de sua tia Louisie. Seu envolvimento amoroso com um primo, ser mulher divorciada, ou de ter escolhido casar com uma pessoa de outra etnia não causaria qualquer comoção atualmente, mas há quarenta anos atrás ainda era um escândalo social. No auge da briga, seu avô, um senhor doente e mentalmente perturbado, arrancou a caixa de suas mãos, amaldiçoou e jogou pela janela, atribuindo toda a culpa dos fatos à caixa e aos demônios que viviam nela. Aquilo para a pequena Kristy foi a maior mágoa, mas para a Kristy adulta foi o impulso que precisava para concluir sua tese e sua querida caixa de música foi usada como analogia.

A caixa em nada lembra o famigerado cubo criado pela equipe de filmagem ao verter papel para celulóide. Seu formato é retangular, sua aparência é de um pequeno cofre. A caixa não tem enfeites ou pinturas, no máximo uma rústica engastação muito comum em objetos de madeira e metal. Ela havia descoberto como abrir a caixa aos dois anos, mas Clive teve dificuldades em perceber como disparar seu dispositivo, liberar a tampa e abrir seu conteúdo. Kristy nunca entendeu porque os olhos de Clive brilharam intensamente ao ver, dentro da caixa, o camafeu de sua avó, um coração, que infelizmente perdera toda a cor original e adquirira, depois da Segunda Guerra Mundial, o tom monocromático e monótono dessa noite eterna que habita no coração humano.

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Toda pessoa deve ler isso

Querida pessoa Queer,

É provável que você nem saiba que é sagrada, ou nobre ou mágica, mas você é. Você é parte de uma família adotiva presente em todas as gerações da existência humana.

Muito antes de você nascer, nosso povo estava criando coisas incríveis. Mentes especiais como a do inventor do computador Alan Turing ou do pai da aviação Alberto Santos-Dumont vivem em você. A marca que indivíduos ousados e brilhantes como Lynn Conway e Martine Rothblatt – ambas mulheres trans ainda vivas – deixaram na tecnologia moderna é inegável, enquanto engenheiros contemporâneos continuam seu legado na criação de robôs e microprocessadores. E por falar em acontecimentos mais recentes, um dos co-fundadores do Facebook se assumiu gay, assim como o atual presidente da Apple.

Frequentemente, fomos deuses e deusas através dos séculos, como Hermafrodite (a cria de Hermes e Afrodite), e Atena e Zeus, que tinham amantes do mesmo sexo. No Japão se diz que o casal de homens Shinu No Hafuri e Ama No Hafuri “introduziu” a homossexualidade ao mundo. A habilidade de mudar de gênero ou de assumir uma identidade que englobe dois gêneros é comum entre as divindades Hindu. O ser que teria criado o Daomé (um reino na área que hoje é o Benim) foi formado, segundo a tradição oral, quando um irmão e uma irmã gêmeos (o sol e a lua) se combinaram em uma forma que hoje pode se identificar como “intersex”. Da mesma forma, os aborígenes deuses-serpente arco-íris australianos Ungud e Angamunggi possuem muitas características que espelham as definições atuais de uma identidade transgênero.

Nossa habilidade de transcender o binarismo e atravessar os limites de gênero era vista como um dom especial. Éramos honrados com papéis culturais especiais, muitas vezes virando xamãs, curandeiros e líderes em sociedades ao redor do globo. Os americanos nativos da região de Santa Barbara nos chamavam de “jóias”. Nossos registros de europeus que escreveram sobre seus encontros com pessoas “Dois-Espíritos” indicam que a atividade homossexual ou identidades de gênero não-binárias eram parte da cultura de oitenta e oito diferentes tribos indígenas americanas, incluindo os Apaches, os Astecas, os Cheyenne, os Crow, os Maias e os Navajo. Sem registros escritos não temos como saber do restante, mas sabemos que fazíamos parte da maioria, se não de todas, as populações das Américas.

Seus ancestrais foram membros da realeza como a Rainha Christina da Suécia, que não só se recusou a casar com um homem (abrindo mão do trono no processo), mas adotou um nome masculino e saiu a cavalo para explorar a Europa sozinha. Seu tutor uma vez disse que a rainha “não era nada parecida com uma fêmea”. Sua herança também inclui o regente Nzinga dos reinos de Ndongo e Matamna (hoje conhecidos como Angola), que era percebido biologicamente como mulher mas se vestia como homem, mantinha um harém de jovens rapazes tradicionalmente vestidos em roupas femininas e era chamado de “rei”. Imperadores como Heliogábalo são parte de sua linhagem cultural também. Ele teve cerimônias de casamento tanto com pessoas identificadas como homens quanto com mulheres, e ficou conhecido por assediar homens enquanto estava carregado na maquiagem. Califas de Córdoba incluindo Hisham II, Abd-ar-Rahman III e Al-Hakam II mantinham haréns masculinos (às vezes em adição aos femininos, às vezes ao invés deles). O imperador Ai da Dinastia Han da China nos deu a expressão “paixão de cortar a manga”, porque quando dormia com seu amado, Dong Xian, e acordava para sair, preferia cortar a manga de seu robe do que acordar o amante.

Você descende de indivíduos que deixaram uma marca nas artes que é impossível de ignorar. Esse grupo de criadores influentes inclui compositores como Tchaikovsky, pintores como Leonardo da Vinci e atores como Greta Garbo. Seus antepassados pintaram a Capela Sistina, gravaram o primeiro blues e ganharam incontáveis prêmios OSCAR. Foram poetas, bailarinos e fotógrafos. Gente queer contribuiu tanto para a arte que existe um tour exclusivo dedicado a esses artistas no Museu de Arte Moderna de Nova York.

Você tem o sangue de grandes guerreiros, como as Amazonas, aquele povo com corpos de mulher que assumia papel protetor e tinha pouco tempo ou interesse, entre seus atos de bravura, para as necessidades dos homens. E seu coração bate tão corajoso quanto o dos homens do Batalhão Sagrado de Tebas, um grupo de 150 casais masculinos que, no século 4 A.C, eram conhecidos como lutadores especialmente poderosos porque cada homem estaria lutando pela vida de seu amor (o que estava). Mas sua herança também inclui pacifistas, como Bayard Rustin, um gay que militava sem violência no movimento civil negro dos Estados Unidos.

Redefinimos palavras como urso, bolacha, lontra, rainha e bicha, e criamos novos termos como drag queen, twink e genderfuck. Mas não é porque palavras como homossexual, bissexual, transgênero, intersex e assexual foram criadas em um passado relativamente recente que significa que sejam coisa nova. Antes de usarmos os termos de hoje, éramos Winkte para os Ogala, A-go-kwe para os Chippewa, Ko’thlama para os Zuni, Machi para os Mapuche, Tsecats para os Manghabei, Omasenge para os Ambo e Achnutschik para os Konyaga através dos continentes. Embora nenhum desses termos reflita identicamente suas contrapartes modernas, todos se referem a algum aspecto de, ou a alguma identidade relacionada a, amor de mesmo gênero, práticas homossexuais ou transição de gêneros.

Você é normal. Você não é uma criação da era moderna. Sua identidade não é uma “tendência” ou uma “modinha”. Praticamente todos os países tem algum registro histórico de pessoas cujas identidades ou comportamentos são semelhantes ao que hoje chamamos de bissexualidade, homossexualidade, transgeneridade, intersexualidade, assexualidade e mais. Lembre-se: o modo como a cultura ocidental construiu gênero e sexualidade hoje em dia não é o que sempre foi. Muitas culturas, de Papua Nova Guiné ao Peru, aceitavam o sexo entre homens como parte da rotina ou de rituais; algumas dessas sociedades acreditavam que a transmissão de sêmen de um homem para outro fazia o receptor mais forte. No passado, nós não precisávamos de certas palavras para designar quem se atraía por pessoas do mesmo sexo, aqueles com gêneros não-binários e outros que não se conformavam com as expectativas culturais de seu sexo biológico ou gênero percebido porque eles não eram tão raros como hoje consideramos que sejam.

O fato de sermos tão singulares e poderosos fez com que algumas vezes os outros nos temessem. Eles nos prenderam, torturaram e mataram. Ainda somos executados por governos e indivíduos atualmente, em sociedades onde antes éramos aceitos como iguais e valiosos membros do corpo social. Eles agora dizem que “a homossexualidade não é africana” e que “não existem homossexuais no Irã”. Você, e nós, sabemos que esses comentários na defensiva não são verdadeiros – mas ainda são dolorosos. Então, quando nos deram nomes como viado e sapatão, os ressignificamos. Quando disseram que estávamos recrutando crianças, dissemos “queremos recrutar vocês!” Quando colocaram triângulos rosa ou pretos em nossos uniformes nos campos de concentração, os transformamos em símbolos de orgulho.

Aqueles que desafiam nossa presença sem desculpas nas culturas de hoje, que tentam tirar nossos direitos, que nos transformam em alvos de violência, permanecem ignorantes ao fato de que eles – e não a gente – são as anomalias históricas. Na maior parte da história registrada, perseguir indivíduos que transgrediam as normas de gênero e sexualidade de suas culturas era mal visto, no pior dos casos, e inédito, no melhor. Hoje, as pessoas que continuam a nos assediar tentam justificar suas campanhas cruéis afirmando que defendem valores “tradicionais”. Entretanto, nada poderia estar mais distante da verdade.

Mas agora você sabe que eles estão errados. Apenas imagine um mundo sem aquele primeiro computador ou sem o teto da capela sistina, ou sem uma enorme parte da música que existe, da erudita “Appalachian Spring” ao clássico YMCA (tipo, temos títulos como “mãe do Blues” e “rei do pop latino”!). Como o mundo seria menos colorido sem a gente? Fico grata de que você esteja aqui para ajudar a manter nossa tradição.

Então, feliz mês histórico LGBT! Eu espero celebrar com você aqui no Quist. Essa lista de pesquisa histórica LGBTQ é um bom ponto de partida para explorar essa herança em específico.

Lesbianamente,
Sarah Prager.

Publicado na coluna Os Entendidos, no Portal Forum.

O despertar de Shakti

A mulher e a essência do feminino por Nathalia Pandava.

A sexualidade feminina foi e é sistematicamente reprimida cultural e socialmente; somos ensinadas a nos distanciarmos de nosso próprio corpo, e essa mesma sociedade explora, objetifica e subjuga o potencial corporal ao poder e controle do outro;  reprimindo e julgando a expressão de nossa natureza sensual. O resultado disso é a repressão de nosso próprio poder, abafando a sexualidade, a capacidade de sentir prazer, alienando-nos de nossas sensações, ditas proibidas e sujas. Somos diariamente desafiadas a nos despirmos desses padrões limitadores e empoderarmos nossa verdadeira essência, aceitando sua natureza selvagem, sua beleza e potência.

A filosofia tântrica, que é essencialmente matriarcal, traz luz ao que a sociedade atual obscurece, o tantra celebra a energia feminina, Shakti – detentora do poder criativo, sexual, um portal para o transcendente, o sutil, para os mistérios da existência. Com as práticas tântricas voltamos para a casa, encontrando a sabedoria feminina, Shakti, dentro de nós, temos a possibilidade de reconhecer e apropriar nossa própria sexualidade, vivendo cada vez mais em fluidez.

O Tantra possibilita o resgate da presença em nosso próprio corpo, levando consciência para a verdade de que a sensualidade é o modo natural da mulher se conectar com o mundo, de que a sexualidade é a energia do amor e da vida e que a partir dela o nosso corpo se abre ao mundo para dar e receber. Temos a possibilidade de trazer nossa energia vital, sexual, à luz, para que seja expressada e apreciada, intensificando, assim, todos os aspectos da nossa vida.

O corpo registra todas as nossas experiências, por meio dele percebemos desde o mais leve toque até os sentimentos mais profundos, é através dele que nossa energia propulsora de vida – Shakti – flui e nutre a totalidade do nosso ser. Reconhecer essa nossa energia sexual como energia criativa, vital, nos conecta com o potencial de expressão dos aspectos mais verdadeiros do nosso ser.
 
Ao estarmos conectadas – presentes no corpo, aterradas – com nossa raiz de autoconfiança encontramos nosso verdadeiro lugar no mundo. Atraímos e criamos, então, tudo o que realmente está relacionado com a nossa essência (vida), sem desperdício de energia, vivendo em abundância e prazer.
 
 

Limitar a beleza e o valor do corpo à forma e superficialidade idealizadas socialmente e não acolher suas possibilidades de sensação é restringir todo o poder inerente ao nosso ser. Temos que resgatar o vínculo com o prazer e com o coração e despertar o corpo para que através dele a essência de cada um de nós possa expressar-se livremente.

Somos mulheres, Shaktis, poderosas, temos o poder criativo, gerador, transformador. E unidas em círculo somos ainda mais fortes. Vamos falar de sexualidade, (re)descobrir nossa própria força e energia, dançar nossa sensualidade, explorar nossos corpos, rir, brincar e celebrar e nos curar!
O despertar de Shakti é uma vivência na qual percorremos uma jornada pelo poder sagrado da sexualidade feminina; juntas, em círculo, (re)escobrimos o fluxo livre da Kundalini (energia vital, sexual) e despertamos Shakti!  Resgatando o vínculo com o prazer e com o coração, despertamos o corpo para que, através dele, a essência de cada uma de nós possa expressar-se livremente. Vivenciamos uma jornada pela sabedoria do corpo, da sexualidade sagrada e pelos mistérios da filosofia tântrica e xamânica, trazendo luz ao que a sociedade atual obscurece e celebrando a energia feminina, Shakti.

O poder sexual como ferramenta de libertação

Todos sabem que vivemos em um mundo doente, mas muito poucos conseguem identificar que a causa desta doença está na forma como as religiões monoteístas e o capitalismo ensinaram as pessoas a lidarem com o sexo e a sexualidade.
 
A energia sexual é a força mais poderosa que o ser humano possui e ela é a responsável por toda a vida existente no planeta. Aqueles que aprendem a utilizar esta energia são bem sucedidos, resolvidos consigo mesmo, por que aprenderam a lidar com o próprio poder pessoal. Diferente do que ensinam, o poder não corrompe, o que corrompe é exatamente a falta de poder, que leva as pessoas a criarem barreiras, mecanismo de autodefesa e muralhas sentimentais para esconder os traumas vividos na infância e na adolescência. Esta falta de empoderamento pessoal torna as pessoas vulneráveis e guiadas para seguirem o que consciências externas lhe ordenam, objetivando tornarem-nas funcionais aos interesses religiosos e econômicos.
 
As religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo) consideram o sexo como uma depravação e, visando impor o patriarcado, reprimiram brutalmente a sexualidade feminina. O patriarcado tem um sentido histórico claro: a manutenção da propriedade privada dos meios de produção sob o controle masculino. Com isto, não apenas as mulheres foram proibidas de tomar contato com seu poder sexual, como o homem foi obrigado a reprimir qualquer vestígio de sua energia feminina.
 
Energias masculina e feminina não se resumem a sexualidade. Homens e mulheres possuem seus lados femininos e masculinos, mas ambos são obrigados por fatores culturais a serem masculinizados e se relacionarem de forma prática, objetiva e agressiva. Ou seja, de forma masculina.
 
Assim, da repressão sexual religiosa, desponta-se o outro extremo da alienação sexual, que é a pornografia e o sexo mecânico, vulgar, baseado unicamente no visual e no objetivo final da ejaculação. A pornografia encontra no funk sua reificação: o sexo é praticado de forma automática, como se fosse realizado na linha de produção de uma fábrica, no típico estilo de “Tempos Modernos”. Ou seja, como tudo o que o capitalismo produz, o sexo é transformado em mercadoria na qual a mulher é simplesmente um objeto a ser perseguido para satisfazer os níveis mais básicos de prazer.
 
Há níveis muito mais elevados de se trabalhar de forma expansiva a energia sexual, que não se resumem ao roteiro hollywoodiano de sedução-conquista-penetração-gozo. A busca pelo orgasmo através do simples bombeamento do falo é um modelo perverso de limitação do poder pessoal e de mecanização sexual. O sexo poderoso e sublimador precisa de magia e encanto e para isto há muitas ferramentas como o olhar, a respiração, os toques em diferentes níveis e os distintos graus de contato, em busca dos pontos de liberação de energia. Mas para se alcançar este nível de maturidade, é preciso integrar, independentemente da orientação sexual, as polaridades masculina e feminina, tanto no homem quanto na mulher, rompendo padrões de preconceito social e historicamente impostos.
 
Quando se deixa a dicotomia repressão sexual x pornografia, redescobre-se o sexo como a fonte de energia para todas as tarefas práticas e objetivos de vida. As fantasias e desejos sexuais estão associadas a traumas e momentos de alegria vividos, pois elas são formas de se abstrair e sublimar experiências. Quando se pratica o sexo sadio, consciente e sagrado, tudo isto é compreendido e os obstáculos que prejudicaram a evolução pessoal passam a ser olhados com compaixão e amor, resultando na cura.
 
Deste modo, se integra a experiência dolorosa à história pessoal de forma respeitosa, compreendendo que o caminho do guerreiro é de vencer a si mesmo, antes de tudo. Por isto, hoje compreendo por que o Tantra é chamado de a suprema consciência.
 
A cura do planeta e de todos os seres humanos está no reconectar ao caráter sagrado do sexo como ferramenta de poder pessoal, autoconhecimento e evolução pessoal. Mas isto exige, acima de tudo, romper com as crenças arraigadas impostas pela religião e pelo sistema, que sempre objetivaram tornar os seres humanos cativos a seus projetos de poder.
 
Libertem-se e deixem fluir o poder da vida!
 
Conheçam os mistérios milenares do Tantra.
 

A cura da humanidade passa pelo sexo e a sexualidade

A cura da humanidade passa pela cura do sexo e da sexualidade. A forma como as pessoas lidam com o sexo na atualidade não é apenas Freud quem explica, mas também as teorias de Karl Marx e Max Weber.
Como ensinou Marx, tudo no capitalismo torna-se uma mercadoria, inclusive o sexo. Assim, quanto mais ele é reprimido pela religião, mais ele somatiza-se como pornografia vulgar, resultando em visões distorcidas da realidade e de como as pessoas lidam com o próprio poder pessoal.
Weber mostrou que o mundo capitalista rompeu o encantamento, a visão mágica, e no seu lugar surgiu um mundo mecânico, lógico e racional. Aliás, é exatamente o que o funk faz: reproduz este padrão por uma música que não tem harmonia nem melodia, mas que se resume a um ritmo repetitivo, industrial, no qual os jovens que vão aos bailes simulam a colocação de um parafuso em várias porcas, como se estivessem numa linha de montagem de uma fábrica.
Sexo é a energia da vida, da liberdade, do autoconhecimento e o que as religiões patriarcais fizeram foi condená-lo por uma moral criada para controlar as pessoas. Controlando os desejos, as vontades e as projeções de poder, domina-se as massas. Em especial quando se reprime qualquer manifestação do sagrado feminino.
Ciente disto, o capitalismo o padronizou de forma falocêntrica, baseado na penetração mecânica de acordo com o script: beijo-penetração-ejaculação, eliminando a sedução, a beleza e o encamento, os toques, a descoberta dos pontos, etc. Mas nem tudo é perdido: resgatar a magia e o encantamento nos ensinamentos milenares do Tantra e do Paganismo são formas de reconciliar a espiritualidade com a animalidade humana.
A energia sexual quando bem usada é uma poderosa fonte de autoconhecimento e evolução espiritual. Mas não só isto: é a forma mais deliciosa de se experimentar e vivenciar o poder 😉
 

Cai o pano

Hermione trabalha incessantemente, com a ajuda de Sibila e Mérida, a ala feminina da universidade consegue organizar os Jogos Estudantis. O que sobrou da vice-reitoria da ala masculina foi no embalo e os alunos ficaram animados com a ideia, que suspendia por um mês a proibição de alunos e alunas se misturarem. Sibila cuidou da ala feminina, em sua nova função de vice-reitora e seu comunicado foi bem vindo. Delicado era transmitir o comunicado para Alexis. Hermione ainda não estava em condições de enfrenta-la e Mérida não queria ser a próxima vítima. Jogaram o abacaxi nas mãos de Sibila. Sem muitas opções, ela vai ao dormitório de Alexis.

– Oi? Alexis? Aqui quem fala é a Sibila. Eu posso entrar?

– Oi, Sibila. Pode entrar.

– Você não me conhece, mas eu sou a nova coordenadora de turma. Eu fui incumbida pela vice-reitora de avisar a todas as alunas que nossa universidade começará em breve os Jogos Estudantis, com a participação de todos os alunos. Como você é a melhor aluna do clube de arquearia, nós estamos contando com o seu comparecimento nas competições de arco e flecha.

– Eu acho que te vi na vice-reitoria feminina, quando eu estive com a antecessora de Hermione. Meus parabéns, você mostrou desde aquele momento que é mais capaz do que a tal de Felícia. Eu fico mais sossegada sabendo que você é a nova coordenadora de turma. Então você está me convidando para participar dos Jogos Estudantis, na categoria de arco e flecha? Eu aceito, não por Hermione ou por Mérida, mas por você e pelas alunas, que não tem culpa alguma.

– Mesmo? Puxa, muito obrigada! Você é muito gentil. Bem diferente do que falam de você. Olha, pode contar com minha ajuda no que precisar. Nos vemos nos Jogos Estudantis!

Assim que Sibila sai, Alexis apanha uma adaga e aponta para um canto escuro do quarto, onde ela percebe uma presença.

– Eu fico feliz em ver que seus instintos e reflexos não foram afetados pelos acontecimentos recentes, Alexis?

– Zoltar? Você realmente é louco. Tem ideia de que eu poderia te apunhalar?

– Você pode tentar, embora eu duvide que consiga. Você não conseguiu lançar sua flecha contra mim, mas não hesitou em atingir Felícia. Eu também resolvi meus assuntos pendentes com State e aqui estamos nós. Sauron mandou uma mensagem com um aviso, estes Jogos Estudantis foram organizados apenas para nos matarem.

– Você é muito ousado, garoto! Como eu posso confiar em você?

– Pois é por isso que eu vim aqui, nós precisamos resolver a pendencia entre nós. Eu não tenho medo ou vergonha em admitir que penso constantemente em você desde que te vi naquele trem. Eu não consigo explicar e definir o que aconteceu naquela primeira noite que nos vimos em seu quarto. Nesse instante nossas vidas estão em risco fatal, então eu vou ser bem direto com você. Alexis, eu te amo. Essa é a única explicação que existe. Eu senti o que sentiu, eu pude ouvir seus pensamentos e sinto o que seu corpo sente quando ouve meu nome. Então decida o que vai fazer comigo, Alexis. Mate-me ou ame-me.

Alexis franze o rosto, como se estivesse com raiva, aperta os lábios, afasta a adaga e aponta direto para o coração de Zoltar. Ela perdeu a conta de quantas vezes tinha atravessado o peito de inimigos e adversários com sua adaga. Este é um ato incrivelmente simples e ela executava tão bem que mesmo um lutador experiente teria dificuldades em desviar ou bloquear sua estocada. Alexis sente o suro no rosto, um suor frio, as mãos tremendo, a vista embaçando. Sua mente apenas consegue lembrar-se de quando ela apontara seu arco e flecha para Zoltar. A mesma sensação invade sua essência e impede que se mova. Alexis precisa concentrar muito de seu instinto assassino para mover sua mão, mas erra totalmente seu alvo, a adaga perfura com violência a parede a poucos centímetros de Zoltar, mas seu corpo não cerra de tremer, com se ela tivesse cometido o maior sacrilégio do mundo.

– Maldito seja, Zoltar. Milhões de vezes, maldito seja. Se eu descobrir que isso é efeito de alguma poção ou magia, por Hades, você conhecerá minha fúria! Você tem ideia do que disse? Sabe o que isso significa? Ainda que sobrevivamos ao reitor e suas conjurações, o que será de nossa carreira? Isso é inaceitável! Nós somos vilões! Nós rimos do amor! Nós rimos da morte! Em algum momento, nós haveremos de nos matar! E não pense que eu farei o papel da capanga gostosa submissa! Eu ainda não sei o que está acontecendo e não quero decidir ainda o que eu farei com você Zoltar, mas nós temos interesses em comum no momento, então por enquanto eu serei sua aliada.

– Então ouça meu plano, com paciência, pois eu dependo de sua colaboração. Meu plano é ousado e é dolorido, mas é a melhor alternativa para realizarmos nosso objetivo. Nós iremos aos Jogos Estudantis e permitiremos ser capturados. Nossos adversários, evidentemente, farão horrores conosco e nos matarão, ou ao menos acreditarão nisso. No momento certo, quando todos estiverem entorpecidos, nós despertamos, rompemos as cadeias e matamos a todos.

– Você é louco, mesmo. Eu não sei que segredos, magias ou técnicas você tem, Zoltar, mas é bem provável que eu realmente sangrarei quando me cortarem, eu realmente ficarei com trauma quando quebrarem meus ossos e eu realmente morrerei quando me matarem.

– Não tenha tanta certeza, Alexis. Se você confia em mim, eu confiarei a você meu segredo. Eu te entregarei meu sangue, fluido e essência. Com isso, você será capaz de fazer coisas além da compreensão. Mas você precisa ser sincera consigo mesma e dizer o que sente por mim.

– Não seja tão convencido. O que eu sinto, por quem quer que seja, eu não preciso dizer ou admitir, por que eu não escondo de mim. Eu estou disposta a fazer o que deve ser feito, mas não se engane, isso nada significará para mim.

Alexis passou a noite com Zoltar e seus corpos tornaram-se um só. Depois cada um preparou sua cena para o palco dos Jogos Estudantis. O dia seguinte acordou ao som de fanfarras, alunos e alunas desfilavam, orgulhosos, com seus uniformes, todos alegres e felizes. Uma breve cerimônia de abertura, um breve discurso do reitor e os jogos tiveram início.

Chega a vez da apresentação de Alexis, que acerta cinco alvos ao mesmo tempo com uma única de suas flechas. Os alunos e alunas aplaudem a exibição, embora não entendam porque Alexis foi retirada abruptamente do campo de competição de arco e flecha.

Zoltar tem também sua chance de apresentar seus talentos, provocando uma aurora boreal, para o espanto da plateia. Muitos aplausos, mas invariavelmente Zoltar também é retirado com violência do palco montado no ginásio.

Os captores levam Alexis para um lado e Zoltar para outro. Conforme havia planejado Zoltar, passam horas satisfazendo suas pulsões mais baixas, até cansarem ou perderem o interesse, o que aconteceu muito depois de Alexis e Zoltar encenarem sua morte. O reitor e seus asseclas comemoraram muito, ingerindo bebidas alcoólicas, substâncias alucinógenas e praticando relações sexuais brutais. Quando todos caíram de cansaço ou de overdose, Alexis e Zoltar abrem os olhos, rompem as cadeias que os detém e fazem um massacre. Sem pressa, andam pela universidade e acabam se encontrando. Seus corpos nus, banhados de sangue, têm quase todas as cicatrizes totalmente fechadas. Ambos se olham com orgulho e se aproximam para um abraço.

Pequenas bolhas amarelas se formam na beirada da imagem e se espalham por toda tela, aumentando de tamanho, tomando tonalidades amarronzadas, enquanto um forte cheiro de queimado invade o teatro.

Distinta plateia, lamentamos o inconveniente. Devido a uma falha no equipamento, toda a sequência final foi perdida. Como os atores terminaram o filme e este narrador que vos fala irá tirar férias, que cada um faça o final dessa história por conta própria.