Briga de cachorro grande

Zoltar estava em sua mesa favorita, em um ponto estratégico, na varanda da cafeteria da universidade, esperando pacientemente para que seus adversários fizessem alguma coisa. O dia de vantagem que ele concedeu passou e tudo que aconteceu foi a chegada da ambulância com um corpo enfaixado. Zoltar nem precisa ouvir os boatos para saber que ali está Marvin, seu parceiro de dormitório. Não é necessário ser um gênio para descobrir que ele se meteu onde não devia e foi pego. Detalhes são irrelevantes. A busca dele pela vice-reitoria da ala masculina diz mais.

Zoltar notou um aumento repentino de alunos que certamente não estão ali para assistir às aulas. Estes alunos vieram dos formandos ou de último-anistas, jovens que estão dispostos a qualquer coisa para começarem na carreira, promessa que sem duvida foi oferecida pela vice-reitoria. Decepcionado, Zoltar termina seu chá favorito e toma o caminho da secretaria do vice-reitor. Chegou a hora de dar a ele a chance de fazer algo, ou de ver que Zoltar não blefa.

Ao sair da cafeteria, o coordenador de turma fez um breve comunicado, apontando outro aluno como seu parceiro de dormitório. O garoto é pequeno, mirrado, tem prótese de ponta na orelha, cabelo em forma de cuia e usa uma camiseta com o emblema da Confederação dos Planetas Livres da Galáxia, um perfeito estereótipo do nerd. Seria um milagre se este aluno sobrevivesse até o fim da semana. Zoltar os ignorou e seguiu adiante, entrou na secretaria da vice-reitoria como havia feito na primeira vez, entrando sem cerimônia no gabinete do vice-reitor.

– Quê? Você de novo? Como entrou aqui?

– Pela porta da frente, como antes. Eu creio que temos assuntos pendentes.

– Eu não gostei de você desde o primeiro dia. Mas desta vez sua ousadia não sairá impune.

Gritaria, corrida, barulho de briga, vidros e madeira quebrando, funcionários fugindo em disparada, explosões, fogo, fumaça. Os alunos saem das salas ou observam de alguma janela para ver o que está acontecendo. Os vigias se aproximam, com armas e cassetetes, mas chegam muito tarde para fazer algo. Depois de algum tempo chegam os bombeiros vindo da administração central e encontram apenas escombros. O serviço ambulatorial envia médicos e enfermeiras, mas não encontram feridos. Quando o fogo diminui, os bombeiros vasculham para tentar detectar o foco do incêndio e acham apenas um corpo carbonizado. Demorou algum tempo até a perícia determinar que aqueles eram os restos mortais do vice-reitor State. No fim do dia chegam os detetives para tentar apurar o que aconteceu.

Na ala feminina, Hermione observava, espantada e assustada, o noticiário. Ela sabia que Circe havia sido “aposentada” pelo reitor, mas quem teria afastado o vice-reitor State? Ela tinha conseguido muitas informações com Marvin e State não poderia mais ajuda-la a encontrar o “monstro” que invadiu a ala feminina.

A sua intuição lhe dizia que um aluno chamado Zoltar devia estar envolvido e, de alguma forma, Alexis devia saber algo sobre isso. Ela iria precisar de um tempo a sós com sua antiga parceira de dormitório, mas agora na função de vice-reitora. Ainda insegura se teria força e coragem para fazer isso, Hermione chama Sibila, sua secretária. Sibila recebe a ordem de chamar Felícia com urgência e esta responde prontamente.

Hermione combina com Felícia e as duas vão até a ala sete, corredor onze, terceiro andar, quarto 311. Alexis atende.

– Hermione? Coordenadora de turma? O que desejam?

– Olha, Alexis, eu estou aqui como vice-reitora, não como sua parceira de dormitório. Eu e a coordenadora de turma, senhora Felícia, viemos aqui para lhe fazer algumas perguntas.

– Perguntas? Sobre o que?

– Sobre quem, para ser exata. Você foi a única aluna que não saiu do dormitório, mesmo depois de eu ter mandado para que todas ficassem no ginásio. Eu tenho relatos de alunas que viram algo ou alguém, entrar e sair de seu quarto. Se você confessar e disser quem ou o que esteve aqui, nós iremos facilitar para você.

– Senhora coordenadora, se a senhora teve tanta preocupação com as alunas, por que não se certificou que todas as alunas tenham ouvido sua ordem? Por que a senhora não se certificou de que todas estavam no ginásio? Como explica sua incompetência para a atual vice-reitora, de quem, aliás, eu ouvi sobre os rumores e boatos, mas nenhuma ordem da senhora? Será que a senhora simplesmente me deixou para trás por ordem da vice-reitora antecessora? Ou será que a senhora queria e esperava que me acontecesse algo, visto que a senhora e eu temos assuntos pendentes?

– Cale-se! Você está vendo, Hermione, o que eu tenho que aguentar? Ela nunca me obedeceu! Ela nunca me ouviu! Ela sempre desafia minha autoridade! Desde o primeiro dia que chegou, ela fez o que queria! Veja a cicatriz que ela deixou na minha pobre mão!

– Ora, vamos, meninas! Não vãos chegar a lugar algum nos acusando. Isso é muito importante, Alexis. Algo aconteceu com a vice-reitora anterior e isso está relacionado a essa noite fatídica. Agora aconteceu algo na ala masculina e eu temo que os dois casos estejam conectados. Os problemas que você e Felícia possuem devem ficar de lado, pois o que está em jogo é a nossa honra, nossa integridade. Imagine como ficaria a ala feminina se o reitor descobrir que fomos invadidas por um monstro? Imagine o que será de nosso futuro se o reitor souber que estamos envolvidas, sabemos de algo e nada fizemos? Então, Alexis, se você souber de algo, qualquer coisa, esse é o momento para nos ajudar. Eu, como vice-reitora, posso te ajudar a conseguir uma boa colocação em um bom estágio.

– Hermione, parece que nós temos, enfim, resposta a uma pergunta que você me fez um dia. Nós não podemos ser amigas. Você é duas casacas. Você só pensa e se importa com seu novo cargo, seu nome, sua carreira, sua vida. Você trouxe Felícia por que é fraca e covarde demais em me enfrentar. Eu preferia lidar com isso de outra forma, mas foi você quem escolheu. Você entrou em briga de cachorro grande.

Alexis apanha com incrível rapidez e habilidade seu arco e dispara a flecha certeira na cabeça de Felícia, cujo corpo cai e se contorce no chão, decapitado. Hermione mal tem tempo para pensar, pula pela janela, desesperada, rolando pelo chão, aguentando a dor nas pernas, até entrar no veículo blindado que aguardava seu retorno. Alexis olhava com desdém e repugnância, custando a acreditar o quão baixo alguém pode chegar.

Alexis sempre foi a melhor no clube da arquearia, acertar Hermione, mesmo em movimento, era muito fácil, mas para Alexis ela simplesmente não valia isso. Hermione teve o que merecia, naquele momento.

Um pensamento atravessa o olhar iridescente de Alexis e sua pele arrepia ao pensar em Zoltar. Ele teria gostado? Ele estava bem? Ele estaria machucado? Bobagem, pensa Alexis, o vice-reitor State não teve a menor chance. Zoltar deve estar rindo desse circo que foi armado. Por falar em circo, pensa Alexis, o que deveria fazer com o corpo de Felícia estatelado em seu dormitório? O que fazer com os miolos e sangue? Por que ela só consegue pensar em Zoltar?

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