O dilema do personagem coadjuvante

Interrompemos nossa transmissão normal para uma mensagem da Associação dos Personagens Coadjuvantes.

Distinta plateia, perdoem-me por esta intromissão, mas os senhores e as senhoras devem saber que sem nós, personagens coadjuvantes, não teria uma história para ser contada e, no entanto, nós apenas aparecemos em uma trama para servir de escada ao protagonista para depois sermos mortos em outra cena.

Quem daqui dos presentes lembra o nome da vice-reitora? Não consultem a história. Ninguém se lembra da pobre Circe. A plateia consegue imaginar o que seria da história sem o abnegado sacrifício de Circe? Não seguiria adiante! E o pobre vice-reitor, que nem nome recebeu? Confessem, senhores e senhoras, quem derramou uma lágrima ou lamentou quando o pobre Martin foi espancado? Ou quem das senhoras se ergueu contra a morte das amazonas? Ninguém! Todos só querem saber dos protagonistas! Então nós pedimos o apoio da distinta plateia para que o nosso direito como personagens dessa história sejam reconhecidos e respeitados. Agradeço a atenção de todos e boa leitura.

Um tiranossauro rex surge de trás da tela de teatro, abocanha o porta-voz da Associação dos Personagens Coadjuvantes e, enquanto sangue e vísceras se espalham pelo chão, a plateia aplaude efusivamente.

Continuístas correm de um lado a outro, a maquiadora dá os últimos retoques, o diretor berra para o pessoal do som e da luz enquanto o ator que interpreta o vice-reitor aguarda, com um olhar indiferente, o início da cena.

– Vamos lá, pessoal! Nós estamos no ar! Vamos de qualquer jeito! Agora é com você, Sicrano!

– Desculpe, senhor diretor, mas qual é a minha motivação?

– Agora não é hora de dar uma de estrelinha, Sicrano! Interprete, pelo amor dos Deuses! Você é o vice-reitor e sabe que a vice-reitora foi inexplicável e rapidamente substituída. Você está nervoso, agitado, com medo de ser o próximo. Agora vai!

– Aham… Eu não estou gostando nada disso. Estes boatos de que a Circe foi trocada por uma garota qualquer estão me incomodando. Estes boatos de que um monstro invadiu a ala feminina é ainda pior. Eu preciso achar um jeito de usar isto a meu favor. Eu vou resolver tudo com um telefonema… Ei diretor, que droga de roteiro é esse? Eu estou no bico da caçapa e um telefone é a solução?

– Cale-se, Sicrano! Faça seu trabalho que eu faço o meu! Atenção, técnica, barulho de telefone e de ligação! Preparem o áudio com a atriz que interpreta Hermione!

– [Ator sussurra um palavrão] Alô, vice-reitora Hermione? Aqui quem fala é o vice-reitor State, da ala masculina da Universidade de Vilões. Eu estou te ligando para lhe dar os parabéns por sua promoção.

– Ah, oi State! Obrigada por ligar e pelo cumprimento. Desculpe a demora, eu estava um pouco ocupada. Que loucura ser vice-reitora! Até a pouco eu tinha que marcar hora para falar com o senhor, mesmo sendo a serviço do reitor e agora o senhor me telefona. Olha, eu ainda sou verde nisso, espero que o senhor me dê dicas e me ajude nessa nova tarefa.

– Claro, claro, senhorita Hermione, será um prazer. Mas diga-me o que aconteceu com a vice-reitora Circe?

– Nossa, o senhor não soube? Um monstro invadiu a ala feminina e a vice-reitora o enfrentou, conseguiu afastá-lo, mas acabou perecendo, coitadinha! Aliás o reitor me incumbiu de investigar esse monstro. Eu posso contar com a ajuda do senhor?

– Oh, sim, sim, sem dúvida! Nós somos colegas, temos que nos ajudar.

– Que bom ouvir isso. Eu estou com um… problema, sabe? Um aluno seu foi visto bisbilhotando em minha área e acabou se acidentando. O senhor poderia fazer a gentileza de vir retirar este aluno de meus domínios, por favor?

– Certamente, Hermione. Desculpe pelo transtorno. Meus emissários cuidarão disso o mais rapidamente possível. Ele será severamente punido, eu te garanto.

– Eu tenho confiança que sim. Se bem, coitadinho, que ele está muito machucado. Poupe-o, pelo menos até que se recupere. Se o senhor souber alguma coisa desse monstro, não hesite em me contar, oquei?

Um dos continuístas tropeça em um cabo da câmera, deixando cair um pedestal de contraluz, que faz um grande barulho. Mais gritos do diretor, mais correria. De fora do cenário, de dentro de um estúdio, a atriz que interpreta Hermione desata a rir e suas risadas vazam no áudio simulando uma ligação de telefone.

– Isso é o fim. Quando eu era mais jovem as coisas não eram assim. Tinha profissionalismo. Os roteiros eram escritos por escritores, não por estagiários. Agora eu estou velho, eu tenho que me submeter e aceitar figuração. Eu ganhei um Oscar, pelos Deuses! Agora eu sou um mero figurante! E todos nós sabemos o que acontece com figurante!

– Pare de chorar, Sicrano! Acha que é fácil ser diretor? Então sente aqui e veja como se sai!

– Ai, esses meninos só sabem brigar. Dureza é a vida de atriz. Pronto, eu disse.

– Difícil? Desde quando passar no Teste do Sofá é algo difícil? Nós sabemos, “princesinha” o que você fez para ganhar esse papel.

– Sei e se eu fosse um ator, um homem e fizesse a mesma coisa seria mais aceitável, mais compreensível? Machistas! Sexistas!

– Calem-se todos! Acabei de receber da central! Nós ainda continuamos ao vivo! Pelo amor aos Deuses, vamos continuar com a cena!

– Aham…aqui quem fala é o narrador. Distinta plateia, concentre sua atenção no vice-reitor State. Veja seu olhar, veja sua postura, veja sua roupa ridícula. Apesar de saber que é inútil, incompetente e ineficiente, ele tem amor próprio. Veja o olhar desconfiado, pusilânime, covarde do vice-reitor State tentando ser um pouco inteligente enquanto pensa no que fazer. Esta é a deixa para você, Sicrano.

– Aham… eu não engulo essa estorinha que a Hermione me disse. Deve ter algo que está sendo escondido, mas eu vou descobrir e usar isto a meu favor. Estão achando que eu sou velho, não perdem por esperar. Eu vou dar o golpe certo e serei eu o reitor dessa universidade ou não me chamo State. Eu vou usar a ida de meus emissários para ir buscar mais do que um aluno infrator, mas informações confiáveis, do que realmente aconteceu na ala feminina. Se for confirmada a existência de algum monstro, eu vou encontrar um meio de controla-lo e serei invencível. Pelos cornos de Pan! Que lixo é esse? Isso é o máximo que meu personagem consegue pensar em fazer?

– Sicrano, pare de choramingar! Seu papel é o de um personagem coadjuvante! Fale baixo, antes que apareça um tiranossauro rex por aqui!

– Olha, se o destino do meu papel nessa obra for o que eu imagino, eu prefiro ser devorado por um tiranossauro rex agora mesmo.

– Aham… distinta plateia, aqui quem fala é o narrador. Não percam os próximos episódios. A trama segue e cada personagem tenta moldar seu destino, sua fortuna. O que State fará? O que Hermione fará? O que Severo fará? O que Alexis fará? O que Zoltar fará?

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