Dois corações

A universidade tem um restaurante e uma cafeteria belíssimos e a cafeteria tem uma varanda grande em seu terceiro andar, onde os alunos costumam descansar e paquerar. Zoltar estava em uma mesa estrategicamente posicionada, observando toda a movimentação que acontecia embaixo. Esboçou um leve sorriso ao perceber a simplicidade da estratégia do reitor. Não é muito inteligente mover seus peões com muita pompa. Hermione saiu de seu casulo sob os auspícios do reitor e uma limusine a levou em direção da ala feminina. Zoltar esperou para ver quem voltava no lugar de Hermione.

O clube de arquearia encerrava seu treino e as alunas andavam para seus próximos destinos, cada grupo fazendo um grande burburinho. Alexis voltou sozinha para seu dormitório e ao entrar viu que Mérida estava arrumando suas coisas. Ela parecia bastante nervosa, apressada, alegre e esperançosa. Alexis viu quando sua parceira de dormitório havia sido levada pela coordenadora de turma em direção da administração central. Pela animação de Mérida deve ser algo importante. Mérida estava com todos seus pertences arrumados, quando esta virou e parou um instante ao perceber que Alexis estava lá.

– Ai, Alexis, me desculpe! Nós estávamos quase ficando amigas. Mas eu fui chamada para ser secretária do reitor! Não é ótimo? Mas eu vou manter contato, viu?

Tão rápida quanto saiu do treino de arco e flecha, Mérida saiu do dormitório apressada. Alexis olhou pela janela do corredor que dava para a rua e viu quando Mérida entrou na limusine em direção da administração central. Em alguns dias ela teria outra parceira de dormitório. Alexis apenas pegou um pequeno caderno e anotou o nome de Mérida na página marcada com inimigos, riscando o nome dela da pagina marcada com indefinido, bem abaixo do nome de Zoltar. Um arrepio subiu pela espinha de Alexis ao pensar em Zoltar e ela gostou do que sentiu.

Zoltar sentiu um calor em suas orelhas e sabia que Alexis pensava nele. Antes de terminar seu chá favorito, Zoltar viu quando chegou uma garota ruiva na mesma limusine que havia levado Hermione. Esta garota seria a secretaria do reitor a partir daquele dia. Os cabelos cor de fogo lembram Hermione, embora não a forma física, mais atlética.

Zoltar sai da mesa, paga na caixa pelo se lanche da noite e começa a andar casualmente entre os alunos. Bastou descer ao átrio da cafeteria e andar pela recepção do restaurante para Zoltar saber tudo que precisava dessa garota. Os sentidos apurados de Zoltar puderam captar das conversas entre alunos as informações que ele precisava. Haveria tempo e oportunidade de sobra para falar diretamente com esse projeto de heroína. Sem perder o foco, Zoltar daria ao reitor a vantagem de dar o primeiro passo e mais nada.

Do restaurante e cafeteria até a fraternidade de alunos são poucos passos. Na porta da fraternidade Zoltar se depara com Marvin, seu parceiro de dormitório e futuro capanga, com um olhar vitorioso e triunfante, como se tivesse algo importante para contar a ele.

– Zoltar, eu tenho uma novidade que pode te interessar.

– Novidade, Marvin? Que Hermione saiu da secretaria e Mérida chegou para ficar no lugar dela? Onde está a novidade? Isso é deprimente. Eu esperava um plano melhor de nosso reitor.

– Poxa, Zoltar, você é maldoso! Como eu posso te ajudar se você antecipa tudo?

– Marvin, elogios são inúteis. Você não está sequer se esforçando. Você vai precisar muito mais do que o óbvio se quiser ser um bom vilão. Aprenda a jogar xadrez, por exemplo.

– Já sei! Eu vou ficar de olho na Mérida e vou te passar tudo que ela fizer. Assim eu te ajudo, certo?

Zoltar sente uma leve dor de cabeça ao pensar nas variantes que um capanga como Marvin poderia lhe causar. Ele provavelmente nem deve ter notado que tinha se sujeitado ao papel de capanga. Zoltar faz um meneio com a mão, como se concordasse com Marvin, apenas para se livrar do empecilho. Marvin sai pulando de alegria e Zoltar pega o telefone da fraternidade e faz uma ligação.

– Alô?

– Boa noite, Alexis. Como foi seu dia? Dormiu bem?

– Zoltar? Você é mesmo louco! Como consegui este numero?

– Eu tenho meus recursos. Por exemplo, eu sei que hoje você perdeu sua parceira de dormitório.

– E você me ligou para quê? Para me impressionar? Tem noção do risco que você corre? Do risco que eu estou correndo?

– Eu não preciso te impressionar, Alexis. Mas eu queria ouvir sua voz, saber como você está. Eu agradeço por sua consideração por mim. Eu não creio que algo ou alguém seja capaz de ameaçar uma elfa negra, criada com leite de súcubo.

– Ah, seu malvado, agora vai usar o que eu te contei contra mim? E ainda diz que gosta de mim? Olha que eu estouro sua cabeça com minhas flechas!

– Oh, não, isso jamais. Além do que o que nos atrai é exatamente nossa natureza semelhante. Você é a primeira criatura que eu confiei e contei toda minha história. Eu seria um péssimo vilão usar o que sei contra você, considerando que você sabe muito sobre mim. O que me intriga é sua parceira de dormitório, Mérida. Qual sua relação ou relacionamento com ela?

– Eu e Mérida? Nós somos no máximo colegas de universidade. Você deve ter visto como ela é. Insuportavelmente bela. Insuportavelmente alegre. Ela é a figura típica da heroína.

– Eu posso imaginar como ela é repulsiva. Eu tenho que lidar com Marvin. Com sorte, os próximos acontecimentos irão me livrar desse incômodo.

– Sorte? O poderoso Zoltar acredita na sorte? Seus brilhantes planos não conseguem tirar esse espinho? Eu fico em duvida se o poderoso Zoltar conseguiria lidar comigo.

– Sorte, fortuna, destino. Sauron falou de forças que estão além de qualquer poder. Ações em uma direção resultam em inúmeras variantes que acabam sendo contrárias aos meus planos, então eu avalio a vida como ela é e a vida não tem roteiro. Isso é bom, por que eu ainda quero descobrir o que é isto que existe entre nós. Eu sinto uma ligação forte com você. Então tudo que te ameace é uma ameaça para mim. Eu queria te falar isso.

– Falou tudo? Está satisfeito? Então pare de me incomodar. De insetos, cuido eu. Eu só não decidi o que fazer com você. Agora vá dormir! Deixe-me dormir em paz! E não me ligue mais! Boa noite!

Alexis desliga o telefone, batendo o aparelho em sua base. Duas lágrimas saem de seus olhos. Seu corpo todo está arrepiado e quente. No fundo Alexis queria ter Zoltar bem ali, para poder abraça-lo. Seu negro coração pulsa acelerado. O telefone está desligado, mas a conexão ainda está presente, como dois corações batendo como um só. Alexis abre a janela de seu dormitório, pousa dois dedos em seus lábios e envia um beijo na direção da lua com um destino certo.

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