Duas casacas

Na ala feminina da Universidade de Vilões, a coordenadora de turma entra no ginásio onde, sem mais explicações, comunica a ordem da vice-reitora para que todas as alunas voltassem para seus dormitórios, com ordem e organização. Não havia qualquer ameaça, tudo não passara de um alarme falso e os responsáveis seriam punidos. As alunas, algumas sonolentas, vão saindo em ordem e organização, mas não cessam o burburinho.

Mérida estava na arquearia com suas colegas e ficava apreensiva como todas as alunas. Ontem de noite a mesma coordenadora havia vindo, esbaforida, anunciar que todas as alunas da ala sete deveriam sair imediatamente de seus dormitórios para que as amazonas pudessem debelar a invasão de um monstro. Quem seria capaz de espalhar tal mentira? Mérida não conseguiu dormir direito, pensando em sua parceira de dormitório, Alexis. Todas as outras alunas do clube de arquearia passaram a noite no ginásio, menos a Alexis. Por que ela não foi avisada? Ou alguém a mandou ficar? Com que propósito? Mérida tratou de ir direto ao quarto que dividia com Alexis, torcendo para encontrá-la segura.

Mérida tem uma cópia da chave do quarto, ela destranca a porta, gira a maçaneta e entra. Depara-se, envergonhada, com a visão de Alexis deitada nua em sua cama. Com cuidado, Mérida pega uma coberta para por sobre Alexis e nota que ela dormiu com um sorriso no rosto. Mérida nunca havia visto Alexis sorrir. Não que elas eram amigas, elas não eram sequer próximas. Ambas apenas toleravam a presença uma da outra.

Mérida é uma aluna que destoa totalmente do seu ambiente. Seu aspecto físico é muito semelhante de uma personagem de uma animação de um famoso estúdio. Ela está mais para um personagem de princesa do que de vilã. Ela foi parar na Universidade de Vilões unicamente porque amava arco e flecha. Teimosa e orgulhosa, disse a seu pai que podia ir aonde quisesse e fez sua inscrição para as universidades com uma única observação de que queria estar na universidade com o melhor clube de arquearia. O teste de perfil tratou de encaminhá-la para a Universidade de Vilões. A Fortuna tratou de destiná-la a compartilhar o quarto com Alexis. Resignadamente estoica, Mérida aceita as coisas como elas são.

– Mmmhmm… que horas são? Mérida, é você?

– Bom dia Alexis. Agora são oito da manhã. Você dormiu bem?

– Huhu. Mérida, você é muito engraçada. Foi você que me cobriu?

– Sim, hã… não fique brava. Você estava deitada na cama com seu corpo todo exposto.

– Eu não estou brava com você. Mas você não precisa se preocupar em cobrir o meu corpo. Nós estamos em uma ala feminina. Recebemos o desjejum da sororidade?

– Sim, recebemos. Olha, eu sei que estamos em uma ala feminina, mas não se esqueça que existem garotas que gostam de garotas e podem querer te estuprar. Além do mais, parece que ontem nós fomos invadidas por um monstro. Desmentiram, mas acho que estão encobrindo a verdade.

– Passe o croissant e o suco de uva. Agradeço sua preocupação, Mérida, mas mesmo esse tipo de garota não é uma ameaça para mim. Mas que negocio é esse de invasão de monstro?

– Ontem de noite a coordenadora de turma apareceu, quase sem fôlego, no hall social da nossa ala e mandou que todas nós nos dirigíssemos até o ginásio, para nossa segurança. Ela estava com os olhos esbugalhados, tremia toda enquanto falava e repetia que nós tínhamos sido invadidas por um monstro. O burburinho se alastrou pelos corredores e rapidamente toda a ala ficou vazia. Nós passamos a noite no ginásio e eu fiquei com nossas colegas de arquearia. Ai, Alexis, eu sei que não somos amigas, mas eu não te vi lá e fiquei muito preocupada. Você não ouviu os avisos? Ou alguém mandou você ficar?

– Haha. Segunda piada que você faz, Mérida. Acha mesmo que alguém pode mandar em mim? Você lembra o que aconteceu com a coordenadora de turma quando ela tentou me “colocar na linha”. Eu ouvi os burburinhos, eu ouvi os gritos e a movimentação, mas isso é algo que irritantemente acontece todo dia. Eu tenho a impressão de estar no ginasial com tanta garota imatura. Mas me conte o que falam desse “monstro”.

– Dizem que ele tem cinco metros, coberto de pelos espessos, garras longas, mandíbulas cheia de dentes, sua cabeça tem diversos chifres e dela emana uma aura sombria. Algumas sussurram que ele veio direto do Inferno. Outras falam coisas sem sentido como olhos de cor púrpura como fogo fátuo saindo de criptas do cemitério. Os relatos são muitos com tantos detalhes que não faz sentido a coordenadora de turma vir agora dizer que foi um falso alarme.

Alexis não pode segurar o riso enquanto Mérida fazia caras, bocas e sons enquanto descrevia o suposto monstro. A coitada parou de falar enquanto seus olhos enchiam de lágrimas.

– Não fique chateada, Mérida. Você precisa ver a cara que fez, os gestos e os sons. Isso foi engraçado, eu não estou fazendo pouco de você. Eu acho que em breve saberemos se a vice-reitora está tentando encobrir algo. Vai ser divertido. Eu vou me arrumar rápido. Vem comigo?

– Hã… sim?

– Que cara espantada. Ora, vamos, não me diga que você ficou impressionada com minha atitude de garota malvada! Debaixo dessa minha máscara eu sou uma garota como você.

– Isso quer dizer que… somos amigas?

– Eu não sei, Mérida. Nós somos amigas? Você precisa de uma amiga? Você acha que eu sou alguém que pode ser considerada uma amiga? O que sabemos uma da outra? Nós estamos estudando para ser vilãs. A pior coisa para uma vilã é um duas casacas.

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