Nasce um capanga

A maior parte dos vilões dos jogos possuem capangas. Capangas são criaturas, servos ou empregados que, por algum motivo sombrio ou escuso, se juntaram ao vilão e fazem tudo que ele pede. Capangas podem ser escravos do vilão, que devem fazer tudo o que ele manda, caso o contrário morrerão ou serão torturados. Capangas podem também ter se juntado por livre e espontânea vontade, por acharem que o vilão possui a razão, ou apenas por gostarem do caos.

Os capangas normalmente são completamente obedientes, ao ponto de morrerem em nome do vilão. Em certas ocasiões, eles talvez mudem de lado, após serem derrotados pelo herói ou após perderem a crença no vilão. É comum em muitos jogos o herói ter de derrotar os capangas antes do confronto final contra o vilão. [Wikia]

Marvin acorda com o despertador tocando a música de seu anime favorito. Religiosamente ele levanta e saúda a imagem de seu ídolo: um jovem mago de uma ficção infanto-juvenil de sucesso. A princípio Marvin havia vindo para a Universidade de Vilões acreditando que existia realmente a escola de magos e bruxos do livro que ele lera.

Por alguns dias, Marvin achou que estava em alguma instalação da tal escola de magos e bruxos, apesar de tantos alunos diferentes. Marvin olhava para seu ídolo, ainda confiante de que seria igual a ele e que alguém perceberia o engano e o levaria para o lugar que acreditava pertencer. Sua meditação matinal foi interrompida com a janela do dormitório abrindo, um vulto entrar e cair na outra cama. Seria o mensageiro que ele esperava? Marvin se aproxima e vê que é o seu parceiro de dormitório, extremamente cansado e com mais cicatrizes do que a última vez que o viu.

Metodicamente, Marvin abriu sua lancheira e ficou matutando, enquanto comia e bebia. Em três dias de universidade, ele tinha assistido vinte aulas, mas seu parceiro nenhuma. Por que ele não assistia às aulas? Por que ninguém o punia? Como ele conseguia andar pela universidade sem ser incomodado? Para onde ia e o que ele fazia enquanto os outros alunos assistiam às aulas? Ele teria brigado? Com quem? Por quê? Quem era, afinal, seu parceiro? A inquietação de Marvin foi interrompida pelo sinal de início das aulas.

– Ei… colega… ei? O sinal! As aulas vão começar.

– Não incomode, projeto de mago. Eu não preciso ir às aulas.

– Como assim? Como vai se formar sem assistir às aulas?

– Veja você mesmo, projeto de mago. O reitor me dispensou. Essa universidade demonstrou ser uma decepção.

Marvin olha os papéis amassados que seu parceiro derrubou no chão. Em todos os papéis o reitor dispensava por um ano o aluno Zoltar de assistir às aulas. Isso explicava por que seu parceiro não assistia às aulas, mas não explicava como ele conseguia andar pela universidade sem ser incomodado. Teria seu parceiro, Zoltar, mais recursos escondidos? Para onde Zoltar teria ido? O que teria feito para deixa-lo nesse estado?

– Então… hã… Zoltar… você não precisa de aulas. Mas como consegue andar por aí?

– Você não está atrasado para suas aulas, projeto de mago?

– Marvin… meu nome é Marvin. As aulas são um saco. Pode me mostrar como conseguiu isso? Para onde você vai? Eu posso ir junto?

Zoltar faz um esforço para levantar da cama, apesar do cansaço e do esgotamento. Ele teve uma boa “luta” com Alexis, mas relevar algo assim para outro aluno seria uma terrível inconsequência. Zoltar olha para aquele garoto humano, pele rosada, bochechas cheias de leite e biscoito, olhos verdes, cabelo loiro. Se tivesse o porte físico adequado, ele estaria melhor na Universidade de Heróis. Remexendo em sua bolsa, Zoltar encontra um frasco provincial, toma todo seu conteúdo e ajeita o espesso pelo enquanto o liquido faz seu efeito.

– Marvin, eu não estou nem um pouco interessado em seus problemas e certamente a última coisa que eu preciso é de um cúmplice. Vá assistir a suas aulas, tente aprender algo que preste e encontre por seus próprios meios o que eu consegui.

– Isso… não é justo. Você é maldoso.

– Marvin, elogiar não resolve coisa alguma. Eu sou vilão. A única coisa que conseguirá ficando ao meu lado é dor, sofrimento e morte. Você é tão útil para mim quanto essa embalagem vazia de leite.

– Mas… e se… e se… e se eu conseguir algo para você? E se eu te ajudar a realizar seus planos?

Zoltar pressiona com seus dedos o espaço entre seus olhos, pouco acima do nariz. Zoltar acabava de arrumar um capanga. Zoltar podia prever inúmeras variantes que um único capanga pode causar a ponto de arruinar até mesmo os melhores planos dos melhores vilões. Se o maltratasse, o capanga desenvolveria uma devoção cega. Se o torturasse, o capanga interpretaria como um sinal de aceitação. Se o desabilitasse de alguma forma, o capanga interpretaria como um teste. Se o matasse, outro aluno ocuparia o lugar dele e provavelmente apresentaria o mesmo comportamento. Inevitavelmente em algum momento de sua carreira um vilão terá um capanga, goste disso ou não.

– Marvin, se quer mesmo conseguir algo para mim, ajudar em meus planos, você vai precisar aprender algo de útil e descobrir o que você tenha ou que seja capaz de dar que me interesse. Assista às aulas malditas. Ano que vem conversamos.

– Sim! Claro! Combinado! Ano que vem!

Zoltar vê Marvin sair todo animado, correndo para não chegar atrasado. Zoltar volta para a cama, tentando esquecer esse futuro incomodo, relembrando da noite que teve com Alexis. Ela teria acordado? Estaria bem? Sentiria esse mesmo estranho vazio da ausência? Ela estaria pensando nele? Zoltar balançava sua cabeça, como se julgasse a si mesmo o quanto parecia com um tolo jovem apaixonado. Todo vilão deve pensar em todas as variantes. Todo vilão tem que ter um plano secundário. Como encaixar tudo isso com o que sentia por Alexis e o que ela significava para ele era o desafio e obstáculo mais imediato. Para o dia que iniciava, Zoltar voltaria sua atenção para solucionar este dilema.

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