O arco de Diana

– Sim? Quem é? Zoltar! Seu maluco! O que está fazendo aqui? Como entrou?

– Olá, Alexis. Eu vi aqui para te ver mais uma vez e eu entrei pela porta da frente.

– Não caçoe de mim! A Universidade de Vilões é muito rigorosa com suas regras. O reitor separa alunos e alunas, sua presença aqui não será tolerada!

– Eu jamais caçoaria de você Alexis. Mas não tema por mim, minha presença aqui tem a garantia do meu plano, que tem funcionado perfeitamente.

– Você é maluco! Eu não sei o que você planejou, mas mesmo assim existe um grande risco, que apenas aumenta por você estar neste dormitório. Nós somos vigiadas por terríveis amazonas!

– Sua preocupação comigo é tocante. Isto demonstra que sente algo por mim e eu adianto que sinto também algo por você. Não se preocupe com as amazonas. Elas não me atacarão. As que tentaram pagaram com a vida por sua ousadia.

– Você… venceu as amazonas? Zoltar, eu não estou te reconhecendo. Você parece um jovem estudante para vilão, assim como eu. Quando eu te vi no trem, eu fiquei feliz e aliviada por ter outro igual a mim naquele vagão. Outras criaturas me dão medo por que eu não sei do que são capazes ao ver um de nós. Você me parecia tão… inofensivo. Como pode ter vencido as amazonas?

– Eu sou um jovem estudante. E esperava algo mais desta Universidade. Eu aprendi mais com a Natureza do que eu aprenderia aqui. Foi por isso que eu tive que te ver. Quando eu te vi, ao entrar no vagão, era algo que eu não havia previsto nem planejado. Eu cresci acostumado com os olhares das outras criaturas. O medo, a desconfiança, o ódio. Criaturas simples têm mentalidades simplórias, são fáceis de serem lidas. Os demais passageiros não representavam ameaça para mim. Mas eu não estava preparado para você. Nem para o que eu senti. Você é a chave do mistério, Alexis. Quem é você? O que você representa? O que é que eu senti? O que eu devo fazer com tudo isso? Ajude-me a descobrir, Alexis.

– Você é maluco, mesmo. Não sabe que essas coisas não se perguntam para uma garota? Principalmente se está interessado nela? Principalmente quando ela está insegura com seus sentimentos? Como eu posso te responder isso, Zoltar, se eu não sei o que eu faço com você?

– Na verdade, isso é perfeito. E eu não planejei. E isso me incomoda. Não o incomodo causado pela incerteza e insegurança. O incomodo de ver que mesmo aquilo que não é previsto parece ser definido por algum tipo de força. Se eu puder te entender, se eu puder entender o que sinto, eu poderei entender essa força. Imagine o que poderemos fazer com essa força Alexis! Vamos descobrir juntos o que nos aproxima e nos atrai tanto.

Alexis se esforça para não desmoronar. Seu corpo é tomado por sentimentos conflitantes. Ela aperta a maçaneta da porta e abaixa a cabeça para tentar esconder seu rubor. Alexis retoma o controle sobre si mesma e faz Zoltar entrar, antes que alguma aluna os visse conversando no corredor. Por mais que Zoltar tenha chego até ali por seus planos, seria outra coisa no dia seguinte. Em algum momento ele teria que voltar ao seu próprio dormitório e ela teria que lidar com as consequências por si mesma. Alexis vinha de uma nobre família de elfas negras e sabia tomar conta de si mesma. E jubilou em silencio ao saber que era capaz de perturbar um coração tão negro quanto o dela. E talvez por isso mesmo Alexis não se importava em admitir, ainda que para si mesma, que estava saboreando essa sensação nova, desafiadora e ameaçadora.

– Muito bem, Zoltar. Você foi capaz de chegar até aqui, pode muito bem entrar e sentar. Quer descobrir o mistério? Quer me conhecer? Vejamos se ainda tem coragem de olhar em meus olhos depois que ouvir a minha história.

– Acredite, Alexis, eu temo mais por contar a minha história do que em ouvir a tua.

– Está tentando me impressionar, garoto? Ou está blefando? Seja bem sincero, comigo, Zoltar. Seja o que tenha do seu passado, eu quero saber tudo.

Sem pestanejar, Zoltar conta toda sua história para Alexis, sem amenizar ou esconder os detalhes. Alexis não conseguia conceber ou imaginar semelhante vida. Ao contrário de Zoltar, ela conheceu seus pais, conhecia suas origens, conheceu o calor e carinho de uma família, ela não teve que lutar por sua sobrevivência a todo instante nem sofreu diversas tentativas de assassinato. Constrangida, Alexis muda de assunto.

– Eu quero que me diga o que você vê em mim a ponto de te interessar. Eu estou bem longe de qualquer ideal de beleza que um macho possa procurar em uma fêmea.

Zoltar elogia com desembaraço os dotes que via em Alexis. Ele via mais beleza em sua pele cinza do que em qualquer outra pele. Ele preferia olhar em seus olhos vermelhos a olhar um jardim florido. Ele admirava como seus cabelos refletiam o prateado da lua. Ele ansiava por ouvir de sua boca seu nome pronunciado. Ele trocaria todos seus livros de magia por um único sorriso dela. Ele confessou desejar morrer por um abraço dela. Então parou. Como se antecipasse que poderia ir longe demais.

– Então você gosta de minha pele, cinza como a pele de um cadáver. Você gosta de meus olhos, vermelhos como sangue fresco sendo derramado. Você gosta de meus cabelos prateados como a lua. Você gosta de minha boca e de meus dentes. Quer morrer enquanto eu o tenho em meus braços. Por que parou? Será que há algo que mesmo o poderoso Zoltar não pode falar? Será que eu provoco algo mais em você? Eu não confiarei nem acreditarei em você enquanto não me disser tudo. Vejamos se continua tão ousado diante da morte!

Alexis levanta-se, como se estivesse zangada, abre seu armário e tira uma sacola de dentro dele. Da sacola, Alexis puxa um arco, retesa a corda e aponta na direção de Zoltar. Conforme retesa a corda, uma flecha de energia se materializa no espaço entre suas mãos, pronta para atingir o alvo.

– Diga, agora, o que esconde Zoltar, ou eu juro que disparo essa flecha direto em sua cabeça! E saiba que eu irei rir enquanto agoniza no chão!

Evidente que Alexis não pode fazer coisa alguma. Seus braços fraquejaram e a flecha de energia quase não se materializava. Tudo que Zoltar teve que fazer foi sorrir. Ver o rosto sombrio, cheio de cicatrizes, coberto de pelos espessos, com um sorriso que contrastava com os olhos púrpuras de Zoltar, fez com que o coração de Alexis disparasse.

– Não ria! Não caçoe de mim! Eu te mato! Eu juro que te mato! Maldito! Eu posso explodir sua cabeça com essa flecha! Diga algo!

– Alexis, nem mesmo o arco da própria Diana poderia me atingir. Mas se realmente quer acabar comigo, abrace-me, beija-me, consuma meu corpo com teu corpo.

Zoltar levanta, aproxima-se de Alexis, a desarma, a envolve em seu braço, deixa seu rosto próximo ao dela e a beija sem qualquer temor. Alexis e Zoltar ainda não sabem o que está acontecendo. Seja o que for é bom, é muito bom.

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