Em terreno minado

Zoltar sabia que entrar na ala feminina não seria fácil ou simples. A ala feminina é guardada por amazonas. Mulheres são normalmente mais espertas do que homens. Assim que ele se aproximou, as amazonas o mantiveram distante dos portões com suas lanças, não por sua estranha aparência, mas por causa de sua aura. Com a ponta de uma lança, pegaram o papel que tinha em suas mãos, leram com certa suspeita, pediram orientações da vice-reitora por um intercomunicador.

Zoltar esperava que isto acontecesse. Tudo corria segundo sua estratégia. Por mais zelosa que fosse a vice-reitora, ela acabaria em um beco sem saída. Zoltar sabia que podia contar com o excesso de serviço da administração central e a indiferença do reitor principal para que seu papel forjado fosse aceito sem muitas reservas. As amazonas abriram o caminho, com alguns protestos. Do portão, uma voz decretava que antes o visitante teria que passar na sala da vice-reitora. Perfeito. Tudo como planejado. Sem problemas, distúrbios ou intermissões, Zoltar chegou até a sala da vice-reitora, contando até com a escolta de algumas amazonas.

– Boa tarde, senhor… hã… Zoltar. Entre, por favor e sente-se. Milu, sirva um chá ao cavalheiro.

– Eu te agradeço, senhora vice-reitora. Eu não quero casar incomodo à senhora ou a esta vice-reitoria. Eu ficaria constrangido por ter que aceitar sua gentil oferta de uma xícara de chá.

– Circe, senhor Zoltar. Vejo que é um cavalheiro, eu faço questão de que aceite o chá, mesmo a contragosto. Algum de sua preferência?

– Se vamos ser tão informais eu dispenso o “senhor”, Circe. Eu aceito um chá de Beladona, Mandrágora e Sicômoro.

– Oh! Meu favorito! Vejo que você tem bom gosto. Duas xícaras, Milu. Então, Zoltar, vamos aos negócios. O que te traz ao meu pequeno Jardim?

– Pouca coisa, Circe, nadica mesmo. Assunto rápido. Antes de vir a esta majestosa universidade, eu tive a satisfação de conhecer uma pessoa que neste momento deve desfrutar da estadia desta ala feminina. Não deve ser um empecilho, nem trabalho algum, a tão poderosa Circe, saber onde se encontra, nem deve ser um óbice que eu possa encontrar e falar com a aluna conhecida por Alexis.

– O-ho… Galanteio e pedido ousado. Zoltar, você sabe que nós temos regras… regras são sagradas. Permitir que você entrasse nesta ala foi bastante ousado. Você está indo muito longe, abusando de minha gentileza e paciência para me pedir algo tão disparatado. Você pode me dar uma única boa razão para que eu não o fulmine agora mesmo?

– Perdoe por minha ousadia, Circe, mas nós somos vilões. Regras, principalmente as sagradas, servem para ser desafiadas, quebradas, infringidas. Eu vou ainda mais além, Circe, pois um vilão deve sempre ser ousado, direto, honesto e sincero, mesmo em seu sarcasmo, ironia e maldade. Eu devo avisá-la que não tente me fulminar. Eu convivi e conheci diversos magos, bruxas e demônios em minha terra natal. Todos fizeram a mesma promessa. Todos falharam. Todos morreram. Seria uma catástrofe para esta universidade se a poderosa Circe, a vice-reitora da Universidade dos Vilões, fosse morta por um… novato.

A vice-reitora torceu os dedos de suas mãos e cerrou seus dentes em evidente descontentamento. A vontade era a de pulveriza-lo ali mesmo, mas ela não tinha certeza se aquela bazofia era blefe ou não. Sem perder sua pose e sua nobreza, Circe disfarça tomando o ultimo gole de chá e dissimuladamente finge que nada havia acontecido.

– Alexis… pelo meu registro de alunas, ela está na ala sete, corredor onze, terceiro andar, quarto 311. Como você tem a autorização do reitor, eu não irei impedi-lo de ir visita-la, mas não posso garantir sua integridade física.

Zoltar ficou imperturbável, terminou de tomar o chá sem pressa, levantou e fez apenas uma mesura simples para Circe antes de sair da sala da vice-reitora. Em uma situação parecida, Zoltar teria feito o mesmo. Ele antecipou que Circe enviaria primeiro capangas para mata-lo. Isso é uma estratégia básica em um conflito. Enviar capangas para testar o adversário para depois enfrenta-lo e derrota-lo.

O problema é que capangas são, geralmente, 90% da razão do fracasso do vilão. Não foi difícil para Zoltar perceber que ele estava sendo observado, seguido e feito de alvo. Objetos zunem através do pátio da ala feminina, flechas cravam em cheio o corpo de Zoltar e gritos de júbilo denunciam a posição dos arqueiros. Calma e pacientemente, Zoltar remove cada uma das flechas e sumindo pouco depois da ultima ser retirada. Os arqueiros trocaram os gritos de vitória por gritos de dor e medo. Instantes depois, apenas o som de carne, sangue, ossos e tripas esparramando pelo chão.

O solo treme conforme uma cavalaria de amazonas avança, em formação de ataque, com lanças, em direção a Zoltar. Ele fica um pouco irritado, pois esperava que Circe fosse mais competente em estratégia de batalha, um ataque tão trivial era uma ofensa para Zoltar porque o subestimava. Calmo e plácido, Zoltar não teve esforço algum, visto que as amazonas vinham em sua direção. Assim que estavam na distância certa, foi fácil para Zoltar estraçalhar toda a cavalaria, utilizando uma das lanças. Aquela que parecia ser a comandante ficou na ponta da lança, um pequeno jogo que Zoltar gostava de fazer.

– Diga, amazona, quem as mandou me atacar?

– Pode fazer o que quiser, criatura infernal, mas eu não direi nada!

– Sua honra e dedicação são tocantes, amazona. Eu não preciso que me diga que vocês vieram me matar a mando de Circe. Eu queria apenas ouvir de sua boca. Eu queria apenas ter certeza de que vocês são tão orgulhosas quanto dizem, se não esmorecem o moral diante da morte iminente. Como demonstrou ser fiel a seus princípios, amazona, eu te darei uma morte sem dor.

A linguagem da boca pode mentir, mas a linguagem do corpo não. O semblante assustado, surpreso e lívido são sinais de que Zoltar havia acertado. Um movimento rápido e forte, a amazona tem seu corpo trespassado pela lança, cuja ponta sobressai do outro lado da árvore onde a amazona permaneceu pendurada.

Zoltar prosseguiu tranquilamente. Ainda estava sendo seguido e observado, mas os capangas de Circe não tentariam ataca-lo. Prezavam mais a vida do que temiam Circe. Na ala sete, Zoltar não percebeu a presença de qualquer amazona ou armadilha. O corredor onze estava vazio e não tinha uma única aluna nas escadas. O terceiro andar estava silencioso como cemitério. Um bom lugar para uma emboscada, mas nada aconteceu e Zoltar pode bater na porta do quarto 311, onde ele ouviu uma voz familiar.

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