A entrevista com Sauron

Zoltar despertou quando seu parceiro de dormitório o sacudiu, balbuciando algo. O coitado não entendeu quando Zoltar não pegou o kit do estudante nem a mochila, apenas uma pasta e foi em direção ao portão da universidade. Os alunos que corriam em direção às salas de aula também não entendiam porque Zoltar seguia em direção oposta.

Os vigias da universidade fizeram caretas, bufaram, mas não podiam fazer coisa alguma diante de uma autorização assinada pelo reitor. Capangas burros são a ruina de qualquer vilão. Zoltar aprendera essa lição lendo os livros de aventuras. Por mais decepcionantes que fossem pelo seu fim previsível.

O retiro dos vilões não estava muito longe da universidade. Estava até indicado pelo mapa da universidade. Ali não têm vigias ou policiais, apenas funcionários de empresas privadas que executavam serviços simples. Criaturas que mal são alfabetizadas não são um empecilho se não estiverem armadas e estimuladas. Zoltar passa por entre eles que o olha como se fossem ovelhas. Zoltar ajeita sua roupa e cabelo, bate na porta e ouve uma voz respondendo.

– Sim, eu ouvi! Quem é?

– Meu nome é Zoltar… hã… senhor Sauron?

– Ah! Faz um tempo que não me chamam pelo meu nome. Entre, meu jovem.

Quando Zoltar entra na casa, foi como tivesse entrado em um santuário, embora a casa e a decoração em nada se identificavam como o domicílio de um vilão do nível de Sauron.

– Sente-se… Zoltar, certo? Diga-me jovem, o que te trouxe aqui?

– Sim, senhor Sauron. Obrigado. Eu vim aqui para conversar com o senhor, pois o senhor é meu ídolo. Eu quero ser como o senhor quando eu me formar.

– Deixe de lado esse “senhor”. Nós somos dois vilões. Nós não precisamos desse tratamento. Nós somos irmãos, certo? Eu sei como é quando se é jovem. Acredite, Zoltar, você será muito melhor do que eu mesmo fui em meus áureos anos.

– Mas sen… hã… Sauron, nenhum outro vilão foi tão grandioso quanto o sen… quanto você.

– Bobagem, Zoltar, bobagem. Por maior e melhor que eu pareça nos livros, você está vendo aonde eu cheguei. Inevitavelmente, nós acabamos assim.

– Por isso mesmo que eu quis te ver e falar com você. Eu quero entender. Como você, que possuía os anéis do poder, não conquistou o trono da Terra Média?

– Sério, Zoltar, você viu a Terra Média? Pelo Mal Supremo, onde eu estava com a cabeça? Eu devia ter algum plano maior, mas agora eu não lembro. O que eu lembro e posso te falar é que existem forças que estão além de nossa compreensão e controle. Quando eu tive em minha posse os anéis do poder, eu senti a satisfação, eu me senti invencível e acreditei que seria fácil ser o senhor absoluto, mas lembre-se Zoltar, nós sempre somos peões.

– Mesmo você, Sauron, o Grande?

– Bom você não está vendo nada grandioso aqui, vê? Na verdade eu deveria agradecer àquelas criaturas asquerosas por terem me derrotado. Ser o rei da Terra Média não me traria a honra e a majestade que eu desejava.

– Eu não consigo aceitar isso. Deve ter um jeito de controlar, suprimir ou sujeitar essas forças. Deve ter alguma forma do vilão realizar seus objetivos. Deve haver algum jeito de nós sermos vencedores.

– Ah, mas nós vencemos. Diversas vezes. Embora estas histórias não sejam contadas. O que eu acho bom, pois vilão quando ganha se torna herói. Você já conheceu, viu ou esteve na Universidade de Heróis? Evite ir, garoto. Prefira morar no pior Inferno a conviver com um herói. O que um herói tem? Os favores dos poderes benignos. Os favores dos reis. Os favores das fêmeas. Nós somos cultos, elegantes e temos os melhores diálogos, mas o herói sempre será o preferido.

– Pois é exatamente isso que eu pretendo mudar.

– Haha! Boa piada, garoto. Por que fará isso? Justiça? Nós somos vilões. Igualdade? Nós somos vilões. Reconhecimento? Garoto, eu estou de saco cheio de ser reconhecido. Aceitação? A única pessoa que precisa nos aceitar somos nós mesmos. Aplauso? Eu prefiro gritos, lamúrias e expressões de horror. Vingança? Garoto, vingança apenas gera mais vingança, não há vencedores.

– Mas você falou no Mal Supremo e em um plano maior. Não vale a pena conquistar o mundo por isto?

– Garoto, se há um Mal Supremo, isto deve estar se revirando em gargalhadas. Acredite, meu jovem, não há um plano maior. A vida não precisa ter um plano maior. Mas se você achar algo pelo que ou por quem lutar, que Diabo, vá em frente.

– Obrigado, Sauron. Você me ajudou bastante.

– Não há de que, garoto. Só não saia por aí dizendo que falou comigo, que eu te ajudei, nem me tome por um tipo de guru. Eu sou um vilão. Eu posso estar exatamente te direcionando para um caminho onde você encontrará dor, sofrimento e destruição.

– Se for este o caso, Sauron, eu te garanto que volto aqui para arrancar seu coração, com um sorriso nos lábios, pois nada neste mundo é capaz de me causar dor, sofrimento e destruição.

– Haha! Muito bem, garoto! Esse é o espírito! Agora saia, pois está chegando na hora de eu ver minha novela favorita.

Zoltar saiu e seguiu pelas ruas. Ele ainda teria que concluir seu segundo plano agendado. Invadir a ala feminina, encontrar Alexis e falar com ela.

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