Arquivo mensal: setembro 2015

Cartas na mesa

Zoltar observa da janela de seu quarto a agitação dos alunos, profundamente decepcionado com o reitor. As estratégias dele eram estupidamente evidentes, indiscretas e ineficientes. Depois de seu acerto de contas com o vice-reitor, Zoltar voltou sua atenção para Hermione, a vice-reitora, que certamente tentaria alguma coisa contra Alexis. As ações dos detetives em torno da ala feminina eram suficientes para prever que a reitoria faria algo muito em breve que envolveria tanto a ele como Alexis. Alguém bate na porta e seu parceiro de dormitório nerd atende.

– Boa tarde, Zoltar. Eu sou Moe Howard e estes são meus irmãos. Eu acredito que teremos informações mais relevantes com você do que com o reitor e seus capangas. Você teria um tempo para conversarmos?

Zoltar conduz os detetives até um canto de seu dormitório e prepara quatro xícaras de seu chá favorito. Conversar com os detetives seria uma forma interessante de contrainformação.

– Senhores Howard, eu estou à disposição dos senhores. O que desejam saber?

– Nossa suspeita é que o senhor é o autor da explosão na vice-reitoria da ala masculina.

– A explosão foi consequência de meu embate com o vice-reitor State. Efeitos colaterais.

– Entendo. Nós também temos informes que apontam o senhor como o possível “monstro” que invadiu a ala feminina e matou a vice-reitora Circe.

– Eu, monstro? Isso soa irônico, considerando que estamos na Universidade de Vilões. Os senhores devem se perguntar como eu consegui transitar livremente pela ala masculina e entrar na ala feminina, o que eu fiz, para encontra uma pessoa, mas eu não matei Circe. Certamente o reitor mandou que sumissem com ela.

– No entanto em sua incursão na ala feminina o senhor entrou em combate com as amazonas e as matou, correto? Quem era essa pessoa que o senhor foi procurar? Como conseguiu encontrar tal pessoa?

– Os senhores são detetives. Por acaso fariam diferente se fossem atacados por suspeitos de um crime? Eu fui atacado, por ordem de Circe, eu me defendi. Se quiserem culpar alguém, culpem ao reitor, por sua incapacidade em proteger esta instituição. Eu fui encontrar a aluna chamada Alexis e obtive seu paradeiro com a própria finada Circe, mais um sinal da incompetência do reitor.

– Entendo. Nós também estamos investigando o motivo da morte da coordenadora de turma da ala feminina, a senhora Felícia. O senhor por acaso está envolvido? Se não, sabe quem está?

– Eu não estou diretamente envolvido, mas a morte de Felícia está ligada aos meus atos, então eu sou indiretamente responsável. Assim como os senhores, eu tenho meus meios e minhas suspeitas, mas sobre isto, eu irei me calar.

– Entendo. O senhor deve ter uma razão boa e forte para evitar falar de nossa suspeita, Alexis. Nossas investigações sugerem que vocês tem algum tipo de conexão. Por acaso o senhor e Alexis estão confabulando algum tipo de conspiração contra o reitor?

– Eu tenho? Disso eu não tenho certeza. Eu ainda sequer sei o que está acontecendo entre eu e Alexis, nem se este sentimento é mútuo. No entanto, se os senhores investigarem o motivo pelo qual Circe foi substituída por Hermione e que Mérida ficou no lugar dela na reitoria, não será difícil descobrirem que Felícia foi uma vitima das maquinações entre a vice-reitoria e a reitoria.

– Com isso nós encerramos nossas perguntas. Mas antes de irmos embora, eu devo entregar ao senhor esta mensagem, vinda de Sauron.

Zoltar foi pego de surpresa e não gostou da sensação. Ele não havia previsto este evento. Os irmãos Howard tinham vindo para investigar os fatos acontecidos por ordem da delegacia, mas também eram emissários de Sauron. Isto estava além de qualquer eventualidade, Zoltar não conseguia encaixar os irmãos Howard com Sauron. Forças que estão além da compreensão e controle. Estas palavras de Sauron soavam como um sino de bronze. Assim que os detetives saíram, Zoltar acionou a mensagem.

– Surpreso, Zoltar? Não fique surpreso. Eu sei o que você fez e eu sei o que você fará e resolvi te ajudar. Um dos maiores erros do vilão é subestimar alguém, julgar por sua aparência. Nesse instante um jovem chamado Marvin está no hospital, sofrendo por sua causa. Zoltar fui eu quem aprovou sua vinda para a universidade, fui eu quem escolheu seu parceiro de dormitório e também enviei Kevin, o aluno nerd. Os irmãos Howard são um acréscimo recente aos meus colaboradores. Lembre-se Zoltar, colaboradores são melhores do que capangas. Eu ainda não sei exatamente como você vai atingir seus objetivos, mas agora é hora de por as cartas na mesa. Não há mais tempo para titubear. Agora mesmo Severo está coordenando com Hermione e Mérida um chamado a todos os alunos para participarem dos Jogos Estudantis, quando ele pretende acabar com você e sua namorada. Bom, é isso, eu fiz a minha parte. Mostre para todos o que é ser um vilão de verdade. Ah, sim, essa mensagem se autodestruirá em cinco segundos.

Kevin, o nerd, ficou surpreso quando viu Zoltar colocar seu corpo sobre a mensagem, que explodiu em um som abafado, mas sem causar mais danos além de arruinar a camisa que Zoltar estava vestindo.

– Hã… Zoltar, certo? Obrigado pelo que fez.

– Kevin, cuide de Marvin. Depois nós todos teremos muito que conversar.

– Você vai agir? O que você irá fazer, Zoltar?

– Nesse momento, eu devo desapontar meu ídolo. Tudo o que eu consigo pensar agora é em Alexis. Minhas ações dependem da cooperação e colaboração dela.

– Ah! Então ela é mesmo sua namorada!

– Eu espero que sim, Kevin. Pela primeira vez eu estou agindo às cegas, sem planos mirabolantes, sem pensar nas eventualidades. Tudo que importa agora é Alexis.

O espetáculo deve continuar

Severo assistiu ao noticiário apreensivo com a repercussão que estava acontecendo na ala masculina. Na entrada da reitoria, uma enorme quantidade de jornalistas, feito urubus, queriam se aproveitar do acontecido para ganhar mais dinheiro e audiência. O problema começou na porta de seu escritório, onde três detetives o aguardavam.

– Senhor Severo, reitor da Universidade de Vilões? Eu sou Moe Howard, detetive chefe da delegacia central. Estes são meus irmãos, Curly e Shemp. O delegado está muito nervoso e nos incumbiu de investigarmos o fato ocorrido ontem. O senhor pode nos dizer tudo o que sabe sobre a explosão que aconteceu na vice-reitoria da ala masculina desta universidade?

– Bom dia, senhores detetives. Eu estou tão chocado quanto os senhores. Nossa Equipe de Incêndio ainda está vasculhando o local. Nenhuma possibilidade está descartada. Assim que nós tivermos as informações sobre o caso, enviaremos aos senhores um comunicado público.

– Eu entendo, senhor reitor. Com a sua permissão, nós faremos nosso serviço por aqui, falando com os alunos, se não tiver problemas.

– Absolutamente! Levem com os senhores esta autorização. Nosso intuito em comum é descobrir o que aconteceu, o que causou o fato e quem é o possível culpado.

– Muito obrigado, senhor reitor. Ah, sim, mais uma coisa antes de irmos. A Secretaria Estadual de Educação está muito preocupada e interessada em sua administração. Aparentemente existem denuncias e relatos que seus métodos educacionais são… como eu diria… severos demais, se me desculpe o trocadilho. Espero que o senhor não se oponha para que nós investiguemos estas denuncias.

– Evidente que não! Os senhores devem saber que eu tenho muitos críticos e adversários que espalham boatos a meu respeito e a respeito desta digníssima instituição.

– Nós seremos os primeiros a declarar em público as falsidades, senhor reitor, disto o senhor pode ter certeza. Tenha um bom dia.

Assim que os detetives saíram, Severo liga para a vice-reitora Hermione, no que recebe o comunicado de Sibila que ela está em estado de choque, sem condições para trabalhar. Algo aconteceu na ala feminina e a vice-reitora que ele nomeou não estava disponível. Severo tenta ligar para Felícia, pois estava tateando feito cego, mas o número caía na caixa postal. Sem outra opção, Severo usa o interfone e fala com sua secretária, Mérida.

– Mérida, nós estamos em uma situação de urgência. Pegue a limusine da reitoria e vá até a vice-reitoria da ala feminina e averigue o que aconteceu com Hermione e Felícia. Rápido!

Mérida sai do escritório e da reitoria, embarca na limusine, em direção da ala feminina, sem se dar conta de que era seguida pelos irmãos Howard. Ao entrar na ala feminina, percebe uma grande agitação entre amazonas e alunas. Em todos os rostos, medo e pânico estão estampados. A situação na secretaria da vice-reitoria feminina está caótica. Funcionários correm de um lado a outro e os telefones não cessam de soar. Mérida consegue chegar em Sibila, a secretária de Hermione.

– Bom dia, Sibila. O senhor reitor me enviou aqui para ver o que está acontecendo. Você pode me ajudar?

– Claro, Mérida. Aliás, parabéns por sua promoção. Eu fui uma das poucas aqui nesta vice-reitoria que pressentiu que você tinha futuro. Quem diria que de aluna você se tornaria secretária do reitor? Desculpe a bagunça e confusão, mas a explosão na vice-reitoria masculina causou um verdadeiro alvoroço por aqui.

– Eu entendo, Sibila. A reitoria também está um caos depois da explosão. Obrigada por acreditar em mim, obrigada pelo cumprimento. Por que Hermione não atende ao reitor? Onde está Felícia?

– Hermione chegou aqui em estado catatônico. Foi carregada para dentro de seu escritório, toda encolhida, em posição fetal, tal como foi retirada do veículo dessa vice-reitoria. Eu estou tentando acalmá-la, pois ela não fala coisa com coisa. Ela fala em cabeça rolando e algo como duas casacas. Depois que ela chegou, eu recebi a notícia terrível de que foi encontrado o corpo de Felícia, sem cabeça, jogado no pedaço barra-pesada da universidade. Faz algum sentido para você?

Mérida não era exatamente uma intelectual, mas tinha esperteza suficiente para saber que a morte de Felícia tinha sido um recado para ela. Ela acompanhou o movimento na ala feminina quando o reitor conversava com Hermione e sabia que ela acabaria levando Felícia. Mérida engole seco, sente tontura, o fôlego faltar e sua pele fica esbranquiçada. Seria uma questão de tempo até ela ser a próxima a ser alvejada por Alexis.

– Sibila, isso é muito importante. Por mais difícil que seja, eu preciso falar com Hermione agora. Nossas vidas estão em jogo.

– Horror! Vamos tentar, então.

Mérida encontra Hermione em um canto do escritório, no chão, ainda em posição fetal, em estado de choque, balbuciando palavras sem sentido. Sibila chora pelo estado de sua chefe, Mérida sente compaixão, mas a situação não é ocasião para expressar sentimentos. Mérida sacode Hermione vigorosamente, a chama pelo nome, estapeia seu rosto, até perceber que seus olhos recuperam um pouco da lividez e cor.

– Hermione! Aqui quem fala é Mérida! Volte! Acorde! Agora não é hora de fraquejar! Felícia morreu e se não fizermos algo, nós seremos as próximas!

– Não! Eu não quero! Eu vi o Diabo em pessoa!

– Eu também vi o Diabo em pessoa, mas eu estou aqui, não estou? Nós estamos vivas e devemos aproveitar enquanto podemos. O espetáculo deve continuar! Ligue imediatamente para o reitor e diga a ele tudo o que sabe! Ele vai nos ajudar!

– Claro! Você tem razão! Ele precisa saber do perigo que corre! Eu agora sei de tudo! Mérida, você será extremamente necessária. Você é nosso trunfo que vai salvar nossas vidas.

Hermione consegue se controlar e liga para o reitor. Deixa o telefone em viva voz para que Mérida e Sibila saibam de tudo também, apenas para o caso de acontecer algo com ela.

– Senhor reitor, aqui é a vice-reitora Hermione. Desculpe-me por ter ficado ausente, mas eu estava com dificuldades em lidar com o que eu descobri recentemente.

– Hermione, que bom que está bem. Depois me lembre de agradecer pela ajuda de Mérida. Agora não vamos falar de coisas menores. Diga-me, com detalhes tudo o que sabe.

– Sim, senhor reitor. Antes, eu peço que o senhor inclua Sibila, pois sem ela eu estaria perdida. Graças a ela eu estou conseguindo cumprir com minhas obrigações como vice-reitora. Sem ela e as amazonas, eu não teria descoberto quem invadiu nossa ala feminina, possivelmente matou Circe e visitou a aluna chamada Alexis. Antes da explosão, eu flagrei um aluno invasor chamado Marvin que, voluntariamente, disse que no mesmo dia dos fatos o aluno chamado Zoltar esteve ausente do dormitório que compartilhavam, chegando somente na manhã do dia seguinte. Eu tentei, junto com Felícia, fazer com que Alexis colaborasse conosco, mas ela alvejou a pobre Felícia com seu arco e flecha. Eu não tenho vergonha de dizer que corri por minha vida, mas agora restabeleci a razão e estou à disposição do senhor. Quais são as ordens?

– Muito bem. Primeiro eu nomeio Sibila para ser coordenadora de turma. Segundo eu quero que aproveite que Mérida está aí para confirmarem essas informações dadas pelo Marvin. Terceiro eu quero que você, Mérida e Sibila convoquem todos os alunos para os Jogos Estudantis. Façam isso e eu cuido dos detalhes. Nós iremos matar dois coelhos com uma só paulada.

Briga de cachorro grande

Zoltar estava em sua mesa favorita, em um ponto estratégico, na varanda da cafeteria da universidade, esperando pacientemente para que seus adversários fizessem alguma coisa. O dia de vantagem que ele concedeu passou e tudo que aconteceu foi a chegada da ambulância com um corpo enfaixado. Zoltar nem precisa ouvir os boatos para saber que ali está Marvin, seu parceiro de dormitório. Não é necessário ser um gênio para descobrir que ele se meteu onde não devia e foi pego. Detalhes são irrelevantes. A busca dele pela vice-reitoria da ala masculina diz mais.

Zoltar notou um aumento repentino de alunos que certamente não estão ali para assistir às aulas. Estes alunos vieram dos formandos ou de último-anistas, jovens que estão dispostos a qualquer coisa para começarem na carreira, promessa que sem duvida foi oferecida pela vice-reitoria. Decepcionado, Zoltar termina seu chá favorito e toma o caminho da secretaria do vice-reitor. Chegou a hora de dar a ele a chance de fazer algo, ou de ver que Zoltar não blefa.

Ao sair da cafeteria, o coordenador de turma fez um breve comunicado, apontando outro aluno como seu parceiro de dormitório. O garoto é pequeno, mirrado, tem prótese de ponta na orelha, cabelo em forma de cuia e usa uma camiseta com o emblema da Confederação dos Planetas Livres da Galáxia, um perfeito estereótipo do nerd. Seria um milagre se este aluno sobrevivesse até o fim da semana. Zoltar os ignorou e seguiu adiante, entrou na secretaria da vice-reitoria como havia feito na primeira vez, entrando sem cerimônia no gabinete do vice-reitor.

– Quê? Você de novo? Como entrou aqui?

– Pela porta da frente, como antes. Eu creio que temos assuntos pendentes.

– Eu não gostei de você desde o primeiro dia. Mas desta vez sua ousadia não sairá impune.

Gritaria, corrida, barulho de briga, vidros e madeira quebrando, funcionários fugindo em disparada, explosões, fogo, fumaça. Os alunos saem das salas ou observam de alguma janela para ver o que está acontecendo. Os vigias se aproximam, com armas e cassetetes, mas chegam muito tarde para fazer algo. Depois de algum tempo chegam os bombeiros vindo da administração central e encontram apenas escombros. O serviço ambulatorial envia médicos e enfermeiras, mas não encontram feridos. Quando o fogo diminui, os bombeiros vasculham para tentar detectar o foco do incêndio e acham apenas um corpo carbonizado. Demorou algum tempo até a perícia determinar que aqueles eram os restos mortais do vice-reitor State. No fim do dia chegam os detetives para tentar apurar o que aconteceu.

Na ala feminina, Hermione observava, espantada e assustada, o noticiário. Ela sabia que Circe havia sido “aposentada” pelo reitor, mas quem teria afastado o vice-reitor State? Ela tinha conseguido muitas informações com Marvin e State não poderia mais ajuda-la a encontrar o “monstro” que invadiu a ala feminina.

A sua intuição lhe dizia que um aluno chamado Zoltar devia estar envolvido e, de alguma forma, Alexis devia saber algo sobre isso. Ela iria precisar de um tempo a sós com sua antiga parceira de dormitório, mas agora na função de vice-reitora. Ainda insegura se teria força e coragem para fazer isso, Hermione chama Sibila, sua secretária. Sibila recebe a ordem de chamar Felícia com urgência e esta responde prontamente.

Hermione combina com Felícia e as duas vão até a ala sete, corredor onze, terceiro andar, quarto 311. Alexis atende.

– Hermione? Coordenadora de turma? O que desejam?

– Olha, Alexis, eu estou aqui como vice-reitora, não como sua parceira de dormitório. Eu e a coordenadora de turma, senhora Felícia, viemos aqui para lhe fazer algumas perguntas.

– Perguntas? Sobre o que?

– Sobre quem, para ser exata. Você foi a única aluna que não saiu do dormitório, mesmo depois de eu ter mandado para que todas ficassem no ginásio. Eu tenho relatos de alunas que viram algo ou alguém, entrar e sair de seu quarto. Se você confessar e disser quem ou o que esteve aqui, nós iremos facilitar para você.

– Senhora coordenadora, se a senhora teve tanta preocupação com as alunas, por que não se certificou que todas as alunas tenham ouvido sua ordem? Por que a senhora não se certificou de que todas estavam no ginásio? Como explica sua incompetência para a atual vice-reitora, de quem, aliás, eu ouvi sobre os rumores e boatos, mas nenhuma ordem da senhora? Será que a senhora simplesmente me deixou para trás por ordem da vice-reitora antecessora? Ou será que a senhora queria e esperava que me acontecesse algo, visto que a senhora e eu temos assuntos pendentes?

– Cale-se! Você está vendo, Hermione, o que eu tenho que aguentar? Ela nunca me obedeceu! Ela nunca me ouviu! Ela sempre desafia minha autoridade! Desde o primeiro dia que chegou, ela fez o que queria! Veja a cicatriz que ela deixou na minha pobre mão!

– Ora, vamos, meninas! Não vãos chegar a lugar algum nos acusando. Isso é muito importante, Alexis. Algo aconteceu com a vice-reitora anterior e isso está relacionado a essa noite fatídica. Agora aconteceu algo na ala masculina e eu temo que os dois casos estejam conectados. Os problemas que você e Felícia possuem devem ficar de lado, pois o que está em jogo é a nossa honra, nossa integridade. Imagine como ficaria a ala feminina se o reitor descobrir que fomos invadidas por um monstro? Imagine o que será de nosso futuro se o reitor souber que estamos envolvidas, sabemos de algo e nada fizemos? Então, Alexis, se você souber de algo, qualquer coisa, esse é o momento para nos ajudar. Eu, como vice-reitora, posso te ajudar a conseguir uma boa colocação em um bom estágio.

– Hermione, parece que nós temos, enfim, resposta a uma pergunta que você me fez um dia. Nós não podemos ser amigas. Você é duas casacas. Você só pensa e se importa com seu novo cargo, seu nome, sua carreira, sua vida. Você trouxe Felícia por que é fraca e covarde demais em me enfrentar. Eu preferia lidar com isso de outra forma, mas foi você quem escolheu. Você entrou em briga de cachorro grande.

Alexis apanha com incrível rapidez e habilidade seu arco e dispara a flecha certeira na cabeça de Felícia, cujo corpo cai e se contorce no chão, decapitado. Hermione mal tem tempo para pensar, pula pela janela, desesperada, rolando pelo chão, aguentando a dor nas pernas, até entrar no veículo blindado que aguardava seu retorno. Alexis olhava com desdém e repugnância, custando a acreditar o quão baixo alguém pode chegar.

Alexis sempre foi a melhor no clube da arquearia, acertar Hermione, mesmo em movimento, era muito fácil, mas para Alexis ela simplesmente não valia isso. Hermione teve o que merecia, naquele momento.

Um pensamento atravessa o olhar iridescente de Alexis e sua pele arrepia ao pensar em Zoltar. Ele teria gostado? Ele estava bem? Ele estaria machucado? Bobagem, pensa Alexis, o vice-reitor State não teve a menor chance. Zoltar deve estar rindo desse circo que foi armado. Por falar em circo, pensa Alexis, o que deveria fazer com o corpo de Felícia estatelado em seu dormitório? O que fazer com os miolos e sangue? Por que ela só consegue pensar em Zoltar?

O dilema do personagem coadjuvante

Interrompemos nossa transmissão normal para uma mensagem da Associação dos Personagens Coadjuvantes.

Distinta plateia, perdoem-me por esta intromissão, mas os senhores e as senhoras devem saber que sem nós, personagens coadjuvantes, não teria uma história para ser contada e, no entanto, nós apenas aparecemos em uma trama para servir de escada ao protagonista para depois sermos mortos em outra cena.

Quem daqui dos presentes lembra o nome da vice-reitora? Não consultem a história. Ninguém se lembra da pobre Circe. A plateia consegue imaginar o que seria da história sem o abnegado sacrifício de Circe? Não seguiria adiante! E o pobre vice-reitor, que nem nome recebeu? Confessem, senhores e senhoras, quem derramou uma lágrima ou lamentou quando o pobre Martin foi espancado? Ou quem das senhoras se ergueu contra a morte das amazonas? Ninguém! Todos só querem saber dos protagonistas! Então nós pedimos o apoio da distinta plateia para que o nosso direito como personagens dessa história sejam reconhecidos e respeitados. Agradeço a atenção de todos e boa leitura.

Um tiranossauro rex surge de trás da tela de teatro, abocanha o porta-voz da Associação dos Personagens Coadjuvantes e, enquanto sangue e vísceras se espalham pelo chão, a plateia aplaude efusivamente.

Continuístas correm de um lado a outro, a maquiadora dá os últimos retoques, o diretor berra para o pessoal do som e da luz enquanto o ator que interpreta o vice-reitor aguarda, com um olhar indiferente, o início da cena.

– Vamos lá, pessoal! Nós estamos no ar! Vamos de qualquer jeito! Agora é com você, Sicrano!

– Desculpe, senhor diretor, mas qual é a minha motivação?

– Agora não é hora de dar uma de estrelinha, Sicrano! Interprete, pelo amor dos Deuses! Você é o vice-reitor e sabe que a vice-reitora foi inexplicável e rapidamente substituída. Você está nervoso, agitado, com medo de ser o próximo. Agora vai!

– Aham… Eu não estou gostando nada disso. Estes boatos de que a Circe foi trocada por uma garota qualquer estão me incomodando. Estes boatos de que um monstro invadiu a ala feminina é ainda pior. Eu preciso achar um jeito de usar isto a meu favor. Eu vou resolver tudo com um telefonema… Ei diretor, que droga de roteiro é esse? Eu estou no bico da caçapa e um telefone é a solução?

– Cale-se, Sicrano! Faça seu trabalho que eu faço o meu! Atenção, técnica, barulho de telefone e de ligação! Preparem o áudio com a atriz que interpreta Hermione!

– [Ator sussurra um palavrão] Alô, vice-reitora Hermione? Aqui quem fala é o vice-reitor State, da ala masculina da Universidade de Vilões. Eu estou te ligando para lhe dar os parabéns por sua promoção.

– Ah, oi State! Obrigada por ligar e pelo cumprimento. Desculpe a demora, eu estava um pouco ocupada. Que loucura ser vice-reitora! Até a pouco eu tinha que marcar hora para falar com o senhor, mesmo sendo a serviço do reitor e agora o senhor me telefona. Olha, eu ainda sou verde nisso, espero que o senhor me dê dicas e me ajude nessa nova tarefa.

– Claro, claro, senhorita Hermione, será um prazer. Mas diga-me o que aconteceu com a vice-reitora Circe?

– Nossa, o senhor não soube? Um monstro invadiu a ala feminina e a vice-reitora o enfrentou, conseguiu afastá-lo, mas acabou perecendo, coitadinha! Aliás o reitor me incumbiu de investigar esse monstro. Eu posso contar com a ajuda do senhor?

– Oh, sim, sim, sem dúvida! Nós somos colegas, temos que nos ajudar.

– Que bom ouvir isso. Eu estou com um… problema, sabe? Um aluno seu foi visto bisbilhotando em minha área e acabou se acidentando. O senhor poderia fazer a gentileza de vir retirar este aluno de meus domínios, por favor?

– Certamente, Hermione. Desculpe pelo transtorno. Meus emissários cuidarão disso o mais rapidamente possível. Ele será severamente punido, eu te garanto.

– Eu tenho confiança que sim. Se bem, coitadinho, que ele está muito machucado. Poupe-o, pelo menos até que se recupere. Se o senhor souber alguma coisa desse monstro, não hesite em me contar, oquei?

Um dos continuístas tropeça em um cabo da câmera, deixando cair um pedestal de contraluz, que faz um grande barulho. Mais gritos do diretor, mais correria. De fora do cenário, de dentro de um estúdio, a atriz que interpreta Hermione desata a rir e suas risadas vazam no áudio simulando uma ligação de telefone.

– Isso é o fim. Quando eu era mais jovem as coisas não eram assim. Tinha profissionalismo. Os roteiros eram escritos por escritores, não por estagiários. Agora eu estou velho, eu tenho que me submeter e aceitar figuração. Eu ganhei um Oscar, pelos Deuses! Agora eu sou um mero figurante! E todos nós sabemos o que acontece com figurante!

– Pare de chorar, Sicrano! Acha que é fácil ser diretor? Então sente aqui e veja como se sai!

– Ai, esses meninos só sabem brigar. Dureza é a vida de atriz. Pronto, eu disse.

– Difícil? Desde quando passar no Teste do Sofá é algo difícil? Nós sabemos, “princesinha” o que você fez para ganhar esse papel.

– Sei e se eu fosse um ator, um homem e fizesse a mesma coisa seria mais aceitável, mais compreensível? Machistas! Sexistas!

– Calem-se todos! Acabei de receber da central! Nós ainda continuamos ao vivo! Pelo amor aos Deuses, vamos continuar com a cena!

– Aham…aqui quem fala é o narrador. Distinta plateia, concentre sua atenção no vice-reitor State. Veja seu olhar, veja sua postura, veja sua roupa ridícula. Apesar de saber que é inútil, incompetente e ineficiente, ele tem amor próprio. Veja o olhar desconfiado, pusilânime, covarde do vice-reitor State tentando ser um pouco inteligente enquanto pensa no que fazer. Esta é a deixa para você, Sicrano.

– Aham… eu não engulo essa estorinha que a Hermione me disse. Deve ter algo que está sendo escondido, mas eu vou descobrir e usar isto a meu favor. Estão achando que eu sou velho, não perdem por esperar. Eu vou dar o golpe certo e serei eu o reitor dessa universidade ou não me chamo State. Eu vou usar a ida de meus emissários para ir buscar mais do que um aluno infrator, mas informações confiáveis, do que realmente aconteceu na ala feminina. Se for confirmada a existência de algum monstro, eu vou encontrar um meio de controla-lo e serei invencível. Pelos cornos de Pan! Que lixo é esse? Isso é o máximo que meu personagem consegue pensar em fazer?

– Sicrano, pare de choramingar! Seu papel é o de um personagem coadjuvante! Fale baixo, antes que apareça um tiranossauro rex por aqui!

– Olha, se o destino do meu papel nessa obra for o que eu imagino, eu prefiro ser devorado por um tiranossauro rex agora mesmo.

– Aham… distinta plateia, aqui quem fala é o narrador. Não percam os próximos episódios. A trama segue e cada personagem tenta moldar seu destino, sua fortuna. O que State fará? O que Hermione fará? O que Severo fará? O que Alexis fará? O que Zoltar fará?

A vida não tem roteiro

Mérida arruma seus pertences com pressa naquele que seria seu domicilio funcional como secretária, um quarto existente dentro da reitoria, por praticidade, o que incluía seu escritório pessoal ao lado da sala do reitor. Mérida faz o que pode para ficar apresentável e bate na porta do reitor.

– Sim, quem é?

– Bom dia, senhor reitor. Meu nome é Mérida, eu fui chamada para ser sua secretária.

– Ah, claro! Eu a estava esperando. Entre, vamos nos conhecer e conversar.

Mérida entra na sala do reitor, maravilhada com tanto luxo. Duas vezes maior e mais elegante do que a sala da vice-reitora da ala feminina. Tudo impecavelmente arrumado, limpo, organizado. Ela percebe o reitor sentado atrás de sua impressionante mesa, em uma poltrona que mais parece um trono, ocupado lendo algo. Seguindo algumas orientações passadas por Felícia e Hermione, Mérida espera ao lado das cadeiras dispostas na fronte da mesa, como testemunhas silentes.

– Muito bem, senhorita… Mérida. A coordenadora de turma entregou-me seu dossiê e Hermione a indicou. Eu espero que a senhorita seja tão eficiente quanto sua antecessora. Seu trabalho aqui não será motivo para sua ausência em classe. Eu quero que a senhorita aproveite este tempo para reunir toda informação que puder sobre a aluna Alexis. Seu contato e conhecimento com esta aluna irão auxiliar muito meu trabalho. A senhorita pode falar agora.

– Obrigada, senhor reitor. Eu prometo ao senhor que irei me dedicar total e inteiramente a atender a esta reitoria. Eu garanto ao senhor que conseguirei dar conta de minhas responsabilidades, como secretária e como aluna. Sobre Alexis, eu diria que é uma aluna estranha até para os padrões do estranho. Ela não tem amigas, não participa de conversas ou de eventos da sororidade. No entanto ela é muito aplicada, nos estudos e na arquearia. De tempos em tempos ela tem um comportamento muito suspeito. Há quatro dias, quando eu voltei do clube de arquearia, onde eu e outras alunas tínhamos passado a noite por ordem da coordenadora de turma, eu me deparei com ela dormindo toda nua sobre a cama e, quando eu fui cobri-la, eu notei várias escoriações, machucados e arranhões. Pelo sorriso que ela tinha no rosto, ela deve ter estado com mais alguém. Eu sei de rumores que existem garotas assim, que gostam de garotas. Ela não falou muito e fez pouco de mim quando eu falei da invasão de um monstro na ala feminina. Eu ainda não sou amiga dela, mas acho que consigo chegar lá.

– Excelente, Mérida. Lembre-me mais tarde de agradecer Felícia e Hermione por terem te indicado. Seu primeiro trabalho será redigir uma carta para o vice-reitor e para a vice-reitora para que averiguem tudo sobre esse monstro, sobre a invasão e sobre quem poderia estar no quarto com Alexis. Pode se retirar.

Enquanto Mérida mergulha em suas fantasias e ilusões, Marvin persegue seu sonho em ser igual a Zoltar. Embora arriscado, ele vai até um local barra-pesada da universidade, apenas para comprar no mercado negro uma capa com capuz, acreditando que a roupa emprestaria aquilo que ele não tem.

Marvin chega a pegar todo o dinheiro que seus pais juntavam com sacrifício para passar pelos vigias e comprar com uma amazona informações sobre Hermione. Subornar os vigias da ala masculina era muito fácil, mas foi difícil encontrar uma amazona que aceitasse dinheiro. Marvin tinha alguma ingenuidade, se aplicasse melhor seus recursos, teria descoberto que há tempos a instituição das amazonas deixara de ser nobre e altruísta, com as constantes contratações de mercenárias. Para Marvin era difícil, mas Zoltar certamente riria dele e de seu esforço.

– O que é isso, garoto? Acha que eu estou mendigando? Acha que eu vou me arriscar a te dar informações sobre a nova secretária da reitoria por essa micharia?

– Desculpe, senhora. Eu tenho apenas isto. Eu vou tentar com outra amazona.

– Eeieieiei… espere, garoto. Não sabe brincar não? Eu estava brincando. Você quer saber sobre a outra ruiva do reitor? Sem problemas. Ela é bem mais nova que a anterior e ainda é aluna. Ela conseguiu o cargo de secretária porque foi indicada por Felícia e Hermione. Você sabe né? Uma é coordenadora de turma das alunas a outra era a secretária do reitor. Está anotando? Então, anote, pois parece que ela ganhou o cargo apenas porque conhece uma aluna chamada Alexis.

– Mas por que o reitor trocou de secretária? Para onde foi Hermione? Por que o reitor está interessado nessa aluna?

– Você é lesado, hem, garoto? Não ouviu os boatos sobre a invasão da ala feminina por um monstro? Eu não estava aqui no dia do fato, mas minhas colegas me contaram que muitas amazonas morreram. Eu só não estou certa se foi por causa do ataque do monstro ou se foi uma retaliação da reitoria. Enfim, essa tal de Mérida, a nova secretária, é parceira de dormitório da Alexis, suspeita de ter recebido uma pessoa não autorizada em seu quarto. Aparentemente essa pessoa, o monstro e a morte das amazonas estão interligados e tudo converge para Alexis. O reitor é muito inteligente! Vai usar essa garota como um joguete para encontrar esse monstro, essa pessoa, esse assassino de amazonas.

Marvin anota tudo em seu caderno, puxa o capuz por sobre a cabeça, arreganha os dentes e solta uma risada típica de vilão e sai todo orgulhoso de si e de seus feitos. Ele encena em sua mente como ele vai conseguir impressionar Zoltar assim que ele apresentar seu relatório, mas não foi muito longe. A primeira regra que um espião deve saber é que não se deve se expor. Marvin é tão desastrado que ele estava sendo seguido há um bom tempo. Capturado pela mesma mercenária que quem havia comprado as informações, Marvin foi levado ao mesmo pedaço barra-pesada onde havia comprado sua capa com capuz e dentro de algum galpão velho e abandonado foi severamente surrado. Antes de perder os sentidos, ouve uma voz feminina.

– Então você está bisbilhotando por aí, para saber de mim? Bom, eu estou bem aqui. Pergunte o que quiser. Pode ser que eu responda ou não. Em troca, você vai me dizer tudo que sabe. só que você vai ter que dizer. Pobre garoto, entrou em um jogo de gente grande. A vida não tem roteiro, garoto.

Dois corações

A universidade tem um restaurante e uma cafeteria belíssimos e a cafeteria tem uma varanda grande em seu terceiro andar, onde os alunos costumam descansar e paquerar. Zoltar estava em uma mesa estrategicamente posicionada, observando toda a movimentação que acontecia embaixo. Esboçou um leve sorriso ao perceber a simplicidade da estratégia do reitor. Não é muito inteligente mover seus peões com muita pompa. Hermione saiu de seu casulo sob os auspícios do reitor e uma limusine a levou em direção da ala feminina. Zoltar esperou para ver quem voltava no lugar de Hermione.

O clube de arquearia encerrava seu treino e as alunas andavam para seus próximos destinos, cada grupo fazendo um grande burburinho. Alexis voltou sozinha para seu dormitório e ao entrar viu que Mérida estava arrumando suas coisas. Ela parecia bastante nervosa, apressada, alegre e esperançosa. Alexis viu quando sua parceira de dormitório havia sido levada pela coordenadora de turma em direção da administração central. Pela animação de Mérida deve ser algo importante. Mérida estava com todos seus pertences arrumados, quando esta virou e parou um instante ao perceber que Alexis estava lá.

– Ai, Alexis, me desculpe! Nós estávamos quase ficando amigas. Mas eu fui chamada para ser secretária do reitor! Não é ótimo? Mas eu vou manter contato, viu?

Tão rápida quanto saiu do treino de arco e flecha, Mérida saiu do dormitório apressada. Alexis olhou pela janela do corredor que dava para a rua e viu quando Mérida entrou na limusine em direção da administração central. Em alguns dias ela teria outra parceira de dormitório. Alexis apenas pegou um pequeno caderno e anotou o nome de Mérida na página marcada com inimigos, riscando o nome dela da pagina marcada com indefinido, bem abaixo do nome de Zoltar. Um arrepio subiu pela espinha de Alexis ao pensar em Zoltar e ela gostou do que sentiu.

Zoltar sentiu um calor em suas orelhas e sabia que Alexis pensava nele. Antes de terminar seu chá favorito, Zoltar viu quando chegou uma garota ruiva na mesma limusine que havia levado Hermione. Esta garota seria a secretaria do reitor a partir daquele dia. Os cabelos cor de fogo lembram Hermione, embora não a forma física, mais atlética.

Zoltar sai da mesa, paga na caixa pelo se lanche da noite e começa a andar casualmente entre os alunos. Bastou descer ao átrio da cafeteria e andar pela recepção do restaurante para Zoltar saber tudo que precisava dessa garota. Os sentidos apurados de Zoltar puderam captar das conversas entre alunos as informações que ele precisava. Haveria tempo e oportunidade de sobra para falar diretamente com esse projeto de heroína. Sem perder o foco, Zoltar daria ao reitor a vantagem de dar o primeiro passo e mais nada.

Do restaurante e cafeteria até a fraternidade de alunos são poucos passos. Na porta da fraternidade Zoltar se depara com Marvin, seu parceiro de dormitório e futuro capanga, com um olhar vitorioso e triunfante, como se tivesse algo importante para contar a ele.

– Zoltar, eu tenho uma novidade que pode te interessar.

– Novidade, Marvin? Que Hermione saiu da secretaria e Mérida chegou para ficar no lugar dela? Onde está a novidade? Isso é deprimente. Eu esperava um plano melhor de nosso reitor.

– Poxa, Zoltar, você é maldoso! Como eu posso te ajudar se você antecipa tudo?

– Marvin, elogios são inúteis. Você não está sequer se esforçando. Você vai precisar muito mais do que o óbvio se quiser ser um bom vilão. Aprenda a jogar xadrez, por exemplo.

– Já sei! Eu vou ficar de olho na Mérida e vou te passar tudo que ela fizer. Assim eu te ajudo, certo?

Zoltar sente uma leve dor de cabeça ao pensar nas variantes que um capanga como Marvin poderia lhe causar. Ele provavelmente nem deve ter notado que tinha se sujeitado ao papel de capanga. Zoltar faz um meneio com a mão, como se concordasse com Marvin, apenas para se livrar do empecilho. Marvin sai pulando de alegria e Zoltar pega o telefone da fraternidade e faz uma ligação.

– Alô?

– Boa noite, Alexis. Como foi seu dia? Dormiu bem?

– Zoltar? Você é mesmo louco! Como consegui este numero?

– Eu tenho meus recursos. Por exemplo, eu sei que hoje você perdeu sua parceira de dormitório.

– E você me ligou para quê? Para me impressionar? Tem noção do risco que você corre? Do risco que eu estou correndo?

– Eu não preciso te impressionar, Alexis. Mas eu queria ouvir sua voz, saber como você está. Eu agradeço por sua consideração por mim. Eu não creio que algo ou alguém seja capaz de ameaçar uma elfa negra, criada com leite de súcubo.

– Ah, seu malvado, agora vai usar o que eu te contei contra mim? E ainda diz que gosta de mim? Olha que eu estouro sua cabeça com minhas flechas!

– Oh, não, isso jamais. Além do que o que nos atrai é exatamente nossa natureza semelhante. Você é a primeira criatura que eu confiei e contei toda minha história. Eu seria um péssimo vilão usar o que sei contra você, considerando que você sabe muito sobre mim. O que me intriga é sua parceira de dormitório, Mérida. Qual sua relação ou relacionamento com ela?

– Eu e Mérida? Nós somos no máximo colegas de universidade. Você deve ter visto como ela é. Insuportavelmente bela. Insuportavelmente alegre. Ela é a figura típica da heroína.

– Eu posso imaginar como ela é repulsiva. Eu tenho que lidar com Marvin. Com sorte, os próximos acontecimentos irão me livrar desse incômodo.

– Sorte? O poderoso Zoltar acredita na sorte? Seus brilhantes planos não conseguem tirar esse espinho? Eu fico em duvida se o poderoso Zoltar conseguiria lidar comigo.

– Sorte, fortuna, destino. Sauron falou de forças que estão além de qualquer poder. Ações em uma direção resultam em inúmeras variantes que acabam sendo contrárias aos meus planos, então eu avalio a vida como ela é e a vida não tem roteiro. Isso é bom, por que eu ainda quero descobrir o que é isto que existe entre nós. Eu sinto uma ligação forte com você. Então tudo que te ameace é uma ameaça para mim. Eu queria te falar isso.

– Falou tudo? Está satisfeito? Então pare de me incomodar. De insetos, cuido eu. Eu só não decidi o que fazer com você. Agora vá dormir! Deixe-me dormir em paz! E não me ligue mais! Boa noite!

Alexis desliga o telefone, batendo o aparelho em sua base. Duas lágrimas saem de seus olhos. Seu corpo todo está arrepiado e quente. No fundo Alexis queria ter Zoltar bem ali, para poder abraça-lo. Seu negro coração pulsa acelerado. O telefone está desligado, mas a conexão ainda está presente, como dois corações batendo como um só. Alexis abre a janela de seu dormitório, pousa dois dedos em seus lábios e envia um beijo na direção da lua com um destino certo.

Sob nova direção

Hermione voltou para sua escrivaninha, arrumou seus poucos objetos pessoais, ainda custando a acreditar que seria vice-reitora da ala feminina. Quando o reitor falou em promoção, ela imaginou que seria algum abono ou aumento salarial, este era um salto que ela não estava preparada para dar. Despediu-se dos demais funcionários da administração da reitoria e caminhou como se estivesse andando entre as nuvens.

Um carro administrativo a aguardava do lado de fora, pronto para leva-la até a vice-reitoria da ala feminina. O clima estava ameno e algumas árvores estavam repletas de flores. Alguns alunos acenaram ao longo do caminho. Estariam dando adeus ou olá?

Na entrada da ala feminina, um destacamento de amazonas ficou ao lado do carro, como que se o escoltasse. Na entrada da vice-reitoria, várias alunas e funcionários da vice-reitoria pareciam ansiosos e alegres por sua chegada. Muitas palmas, muitos parabéns, tapinhas nas costas, abraços, apertos de mãos. Tantos rostos conhecidos! Com alguns ela havia estudado, com outros ela tinha tido aulas e até problemas. Quantos rostos cínicos e hipócritas!

O prédio da vice-reitoria da ala feminina era grande, belo e amplo. O saguão estava lotado de alunas, professores e funcionários. Hermione foi agradecendo aqui e acolá. Placas indicavam a direção e Hermione respira fundo ao chegar diante da grande e pesada porta. Gira a maçaneta e encontra a sala impecavelmente pronta e arrumada para sua chegada. Nenhum sinal de sua antecessora. Em cima de uma mesa imponente, um enfeite tem seu nome gravado. Hermione dá a volta na mesa pelo lado direito, para dar sorte. Ela nota que a cadeira está limpa e perfumada. Hermione se posiciona entre a poltrona e a mesa, posiciona-se e senta. A poltrona é extremamente confortável e Hermione se estica, para expender ao máximo essa sensação, essa emoção. Ela não tem sequer ideia de onde começar ou do que fazer. Batidas na porta interrompem seu devaneio.

– Oi? Pode entrar!

Uma aparição fêmea classe C surge da porta, tremendo, encolhida, com os olhos no chão. Hermione sente um pingo de compaixão, pois a aparição a lembra de quando começou a trabalhar com o reitor.

– Senhora vice-reitora, a coordenadora de turma chegou para falar com a senhora, conforme solicitado?

– Eu não sei qual é o assunto, mas diga para ela entrar. Meu nome é Hermione. Qual é o seu nome?

– Hã… Sibila, senhora vice-reitora. Eu serei sua secretária. A Felícia é a coordenadora de turma. A senhora a chamou por que ela não obedeceu suas ordens.

– Sibila, peça para Felícia entrar sem temor. Esta vice-reitoria está sob nova direção. E me chame de Hermione, por favor.

– Sim se… hã… Hermione. A senhora Felícia pode entrar.

– Boa tarde, Felícia. Venha, entre, vamos nos conhecer e conversar.

– Boa tarde, se… hã… Hermione. Você me chamou aqui, mas antes eu gostaria de me explicar.

– Sente-se Felícia. Olha, não precisa explicar coisa alguma. Eu estou começando hoje. O que minha antecessora disse ou fez não importa mais. Conte-me de você e do que você faz.

– Claro… hã… eu sou a coordenadora de turma. Eu estudo nessa universidade há três anos. Eu fui eleita como a melhor aluna ao longo destes três anos e recebi dessa vice-reitoria o cargo de coordenadora de turma. Minha obrigação é garantir a ordem e a disciplina entre as alunas. Todo dia eu verifico se todas as alunas estão uniformizadas, com seu material escolar em ordem, como está a frequência em aula e como estão as notas. Eu sou a porta-vos dessa vice-reitoria diante das alunas.

– Puxa, isso parece complicado, estressante e cansativo! Eu tenho certeza de que você é bem competente no que faz. Você deve conhecer todas as alunas, não é?

– Eu agradeço pelo seu voto de confiança. Eu posso te garantir que conheço todas as alunas.

– Ótimo, excelente! Então você vai fazer um favor para mim. Eu quero que você me indique uma aluna de confiança para ficar no meu lugar. Uma aluna que conheça a aluna Alexis.

– Eu posso indicar Mérida, Hermione. Ela é parceira de dormitório da aluna Alexis e é bastante confiável.

– Perfeito! Consegue trazê-la para cá bem rápido?

– Sim, eu consigo. Eu sou uma criatura felina. Cinco minutos!

Tal como o personagem a qual Felícia tem o mesmo nome e aparência, ela sai rápida feito uma gata e em cinco minutos traz a espantada Mérida com ela.

– Boa tarde, Mérida. Eu sou Hermione, a vice-reitora.

– Mu… muito prazer, senhora vice-reitora.

– Apenas Hermione, por favor. A Felícia me indicou por você ser confiável. Eu posso confiar em você, Mérida?

– Sim se… hã… Hermione. Você pode confiar em mim.

– Eu fico muito feliz com isso. Eu preciso que vocês duas trabalhem juntas e sejam minhas assistentes, junto com Sibila. Eu vou precisar de toda ajuda que vocês puderem dar. Em troca, eu irei ajuda-las no que eu puder, com o acesso direto que tenho com o reitor. Então, combinado? Vamos ser um quarteto de amigas? Eu vejo que sim. Então, Mérida, você ficará em meu lugar como secretária do reitor e irá me contar de tudo que acontece ali. Você, Felícia, ficará de olho na Alexis e junto com Mérida me contará tudo sobre ela. Sibila, prepare uma carta de apresentação para Mérida. Queridas, se tudo der certo, nós mandaremos nessa universidade.

Hermione havia trabalhado tempo suficiente com o reitor para saber como funcionava a universidade e como pensava o reitor. Ela assimilou muitos dos hábitos do reitor, mas sabia quais erros deveria evitar, erros que sua antecessora ignorou. Os fins justificam os meios. Hermione queria ser a reitora para dar fim a muitas das regras absurdas, como a separação entre alunos e alunas. Ela sofrera com isso, pois perdeu contato com uma pessoa que ela amava. Certamente ela poderia consertar muitos dramas desnecessários assim que se tornassem reitora e este era seu intento final.