A gente dá para quem quer

[Madalena Paschoalini]

Estava na academia (não a do saber, dessa, depois de obter os títulos, prefiro manter distância segura) e isso já pode ser algo que fala contra mim, já que vai que eu frequente esse lugar pela pressão do patriarcado para ter um belo corpo de acordo com os padrões do marketing machista? Dane-se, farei meu textão assim mesmo, já que na rádio começou a tocar Queixa e pensei no que andei lendo.

E, quando uma coisa assim violenta torna-se mágoa, é isso mesmo, dá vontade de jogar tudo pela janela. Parece que umas moças assim o fizeram no caso do professor, jogaram no ventilador o que metade das conhecidas do moço já sabia. Você não sabia? Agora ficou sabendo. Você ficou chocada? Você ficou chocado? Com o que exatamente?

Voltando ao que quero escrever. Quer saber? Deixa a moça feliz e deixa a moça espalhar merda se quiser. Mas vamos começar a supor que uma mulher sabe o que faz? Vamos começar a imaginar uma agente capaz de saber das suas ações, inclusive sobre dar para quem quer dar? Vamos pensar em um cenário no qual mulheres sabem o que fazem, sabem para quem querem dar, sabem o que querem? E olha, que revolucionário, mulheres que dão para quem querem dar?

O cara casado, solteiro, noivo, viúvo, que se usa da legalzice, da fama, do dinheiro, da inteligência, da beleza, do carrão, das promessas, do que quer que seja que nos atraia porque assim o desejamos, está agindo de acordo com o que combinamos. Daí desfaz-se um primeiro engano infelizmente comum que paira sobre nós, mulheres. Não “caímos” no papo do cara. Para esta e outras frases vale trocar quando quiser o cara por moça que dará no mesmo, aliás. Mulheres e homens estão e ficam na relação porque assim a desejam. Às vezes desejamos mais, ou relações de natureza distinta das que temos. Mas não temos. Às vezes o cara deseja mais e não tem. Aí, desfaz o trato. E faz-se a treta. Ou não.

Das acusações ao professor, mais me choca a ideia de que as mulheres ali envolvidas precisam de proteção. Não desfoquemos a atenção de quem realmente precisa de acolhimento e segurança com pessoas que não quiseram mais brincar juntas. Sim, li as mensagens trocadas. Parece que há consentimento. E que sim, parte da brincadeira mexia com submissão. Essa é a parte que chocou você?

Relações que envolvam submissão não são humilhantes, necessariamente. Há pessoas que têm prazer nessa prática. Elas podem estar ao seu lado, podem ser de esquerda, podem ser eleitores da Luciana Genro ou do Bolsonaro. E bem, pense nisso também, talvez o prazer da mulher esteja exatamente aí, na submissão.

Como a mulher e o homem têm prazer em suas relações consentidas, deveria ser uma questão deles. Envolvem mais pessoas? Oba, suruba. Há quem faça, há quem goste, há quem busque. Isso choca você? Por isso, sim, avalio que há excesso de moralismo na treta como um todo, quando começam a pipocar palavras como vítimas, alertas, culpados. Buscar culpados? Culpados do que? De buscar o gozo? Peço desculpas de antemão, mas isso é o mais puro purê do moralismo.  

Parece que muitas mulheres foram abordadas pelo professor. Umas disseram não, obrigada. Parece também que a namorada do rapaz não sabia que ele é assim. Será? Temos mesmo que defender a moça do tal namorado que se comportava assim nas sombras e talvez, dessa forma, não a magoasse publicamente? A moça precisa se defender dele? Ela não pode fazer isso sozinha?

Caso o sujeito queira algo que a mulher não queira, não tirem a possibilidade de agência nossa de não mais querer. E dizer não. E por isso devemos batalhar. Disse não é não.

E caso o cara ou a mulher não queiram mais, também não tirem também a agência do outro de reclamar, de bater pé, de chorar. E vice versa. Isso vale para as relações homossexuais também, vejam só. Há barracos de todos os gêneros, quando um quer o que o outro não quer mais. Ou um quer o que o outro não quer dar.

Desde que respeitado o trato de que as relações vão até onde os dois consentem que devam ir, deixem as pessoas serem felizes. 

O machismo existe sim, é claro, está todo dia em todo lugar, em todo canto. Mas não falarei sobre o feminismo no qual eu acredito, porque há mais possibilidade de interpretação do que sei lá, árvores na Amazônia. Mas pode ser que não tenha a visão tão clara como algumas pessoas têm, mas não vejo machismo em uma relação entre homens e mulheres adultos que consentem fazer sexo, seja lá como for esse sexo. Não direi que estudei mais que ninguém, nem que tenho o domínio sobre todas as ondas do feminismo. Não tenho e ninguém tem.

Não quero pontuar o óbvio. Aliás, esse textão está de uma obviedade que será lamentada pelos muito sábios. Por que preciso afirmar que sim, há muitas estruturas machistas presentes no nosso dia a dia? Estão tão entranhadas no nosso senso comum, que todo dia temos que trabalhar mais, sermos mais, não ganhamos o mesmo salário que os homens, tememos estupros, não temos o direito ao nosso corpo, não temos direito ao aborto, nossa vida nos metrôs e trens é horrível, nosso processo de envelhecimento é tido como degradante e ainda temos jornada tripla. Mas isso, moças e moços, todos nós sabemos.

Precisa mesmo pontuar que se a relação de sexo sai do quarto e envolve pressão no mundo de fora o acordo foi rompido? Amiga, me diga, você sabia disso. Caso o sujeito ou a sujeita usem o sexo como moeda de troca para manter o outro com aluno, aluna, no cargo, no emprego, aí, a coisa é outra, mas sendo sexo? Por favor.

A treta em questão trata do desejo. Vamos combinar algumas coisas? Deixa a menina dar para quem ela quiser dar. Deixa a menina sambar em paz.

Fonte: Revista Pittacos

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