Os tropos sociais

Um tropo, é uma figura de linguagem ou da retórica onde ocorre uma mudança de significado, seja interna (em nível do pensamento) ou externa (em nível da palavra). No primeiro caso e quando ocorre apenas uma associação de ideias, dá-se o nome de perífrase; se a associação de ideias é de caráter comparativo, produz-se uma metáfora, que é o tropo por excelência.

A retórica clássica somente classifica como tropos a sinédoque, a antonomásia, a ênfase, a lítotes (“atenuação”), a hipérbole, a metonímia, a metáfora, a perífrase, a ironia e a metalepse (um tipo raro de metonímia). [Wikipédia]

Em filosofia, tropos são argumentos introduzidos pelos céticos gregos para concluir a necessidade de suspensão do juízo. [Wikipédia]

Muitas teorias humanas possuem sua própria estrutura de conceitos, como a Teoria do Capital de Karl Marx. Sua teoria, ainda que descreva o modo de produção capitalista com alguma exatidão, faz uso de palavras, ideias e conceitos que são inovações. Como são inovações, estas palavras instauram um nível de significado, interno e externo, que são diferentes do usualmente compreendido, identificando-os então como “tropos”. Como são inovações, é comum serem confundidos e incompreendidos, se não utilizados de forma tendenciosa por críticos contrários ao filósofo do materialismo dialético.

Karl Marx foi feliz em sua análise e crítica ao modelo de produção capitalista, mas exagerou e extrapolou sua análise ao projetar uma forma de produção e organização social característicos da Era Moderna como modelo para compreender as formas de produção e organização social das outras Eras. Por mais que seja crucial e importante entender a forma de produção capitalista, causa certo mal-estar o simples fato que os maiores teóricos e líderes do socialismo, do comunismo e de outras formas de esquerda são, curiosa e contraditoriamente, burgueses. Mas exatamente quem ou o que são os burgueses?

O burguês é um tropo social. Originalmente burguês=habitante do burgos=habitante das cidades=pessoa que ascendeu socialmente pelo comércio=comerciante. O burguês é uma categoria social, não uma classe social. O burguês não pode ser considerado uma classe social por que falamos de diversos indivíduos que, muito frequentemente, tem ideias e ideais divergentes.

O burguês começou a ascender socialmente no fim da Idade Média, quando a Monarquia Absolutista começou a perder sua força diante do embate político entre os reis e a nobreza. A Carta Magna, o primeiro modelo de “Constituição”, surgiu exatamente porque a aristocracia estava cansada de ser privada de seus “direitos” enquanto o rei abusava de seus “privilégios”. A ideia foi tão boa que foi imitada e copiada nas posteriores revoluções burguesas contra a aristocracia, com uma ampliação do conceito de “direito” e de “Estado” baseados no indivíduo, no cidadão, abolindo o conceito de que os direitos sejam um privilégio de poucos. Curiosa e contraditoriamente, muitos dos Governos que surgiram dessas revoluções adotaram uma politica de repressão, opressão e negação dos direitos do indivíduo, do cidadão, do trabalhador. Agora era interessante falar e defender os privilégios e os direitos especiais a poucos.

Esta é a realidade social, politica e econômica da Era Moderna, do Capitalismo. Toda forma de produção é resultado de uma organização social, econômica e politica da sociedade, então o Capitalismo é uma ideologia. Karl Marx percebeu que a sociedade reflete o modo de produção e que no modo de produção Capitalista o burguês assume o lugar do nobre, ao querer manter seus privilégios e seu monopólio dentro do Governo. Assim como na Idade Média os reis reprimiam os burgueses, na Era Moderna os burgueses reprimem o trabalhador. Para Karl Marx era evidente então que havia então uma perpétua “luta de classes”, mas equivocou-se ao satanizar o burguês e a idealizar o “proletariado”. Mas exatamente quem ou o que são os proletariados?

O proletariado é um tropo social. Originalmente proletariado=prole=pessoa que contribui para a sociedade produzindo progênie=individuo sem propriedade e meios de subsistência=pobre. Tal como o burguês, o proletariado é uma categoria social, não uma classe social. Tal como o burguês, o proletariado é composto por diversos indivíduos que tem ideias e ideais divergentes. Não é possível distinguir e diferenciar o “proletariado” do “trabalhador”, ou mesmo do “artesão”, do “autônomo”, o que tipifica que falamos de categorias sociais.

Karl Marx equivocou-se ao identificar o trabalhador, uma categoria social que constitui a característica da Era Moderna, da Era Industrial e do Capitalismo, como sendo a mesma categoria social dos miseráveis da Idade Média ou sendo o equivalente aos servos e escravos da Idade Antiga. Cada uma destas Eras tinha sua própria estrutura e organização social e econômica. Em cada Era o indivíduo se encontrava e desempenhava um determinado papel social. Em cada Era as diferentes categorias sociais se organizavam e participavam da vida politica e econômica de sua época, de uma forma ou outra, sendo todos agentes ativos da história. Eu ousaria dizer que não existem categorias sociais que sejam passivos na história.

Mesmo o trabalhador, o artesão, tinham suas organizações, chamadas de guildas, ainda na Idade Média, que deram origem na Era Moderna aos Sindicatos. Como o trabalhador tinha e têm meios de montar um pequeno negócio ou ofício, em muitos aspectos o trabalhador almeja muitos objetivos em comum com o burguês, muitas vezes copiando ou emulando as ideias e ideais da burguesia. O trabalhador tem muitos dos sonhos de consumo do burguês, muitos assumem a mesma postura do patrão quando montam um negócio próprio e contratam funcionários. Em casos mais extremos, o trabalhador produz e reproduz o sistema de opressão, de repressão e alienação sistêmica que resulta na desigualdade social, a mesma desigualdade artificial que o alija de seu valor humano, social, econômico e politico. Por isso que muitas vezes o trabalhador concorda e sustenta regimes de exceção.

Curiosa e contraditoriamente, o trabalhador adota ideias e ideais de direita, resistindo e combatendo ideias e ideais de esquerda, cujas ideias e ideais são adotados por burgueses. Esse aparente paradoxo demonstra que há mais um embate de ideias politicas do que de classes sociais. Além da dicotomia maniqueísta “burguês” versus “proletariado”, nós temos apenas seres humanos, igualmente limitados e falíveis, que são agentes da história, que acreditam e lutam pelos seus objetivos, que acreditam e lutam pelos seus ideais. O Capitalismo não precisa ser um Inferno e o Socialismo não é um Paraíso. Para nossa espécie ter algum futuro, o que precisamos é de mais Humanismo.

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