Um dia no laboratório

Dexter acordou de bom humor e fio até a cozinha fazer o desjejum quando encontrou uma nota afixada na geladeira de sua mãe.

– Bom dia meu filho. Eu e Didi vamos ao mercado fazer compras. Nós vamos demorar, então faça seu café da manhã. Beijos, mamãe.

– Viva! Eu vou ter a casa toda só para mim! Eu vou poder fazer meus experimentos sem ter que me preocupar com a Didi.

Sem a supervisão de sua mãe, Dexter foi se servindo do que mais gostava, não do que é saudável. Quando acabou, foi em direção ao seu laboratório quando a campainha tocou.

– Ah, não! Será que elas voltaram e esqueceram a chave?

Dexter olhou pelo sistema de segurança e percebeu que era um entregador. Estava com uma caixa grande.

– Oba! Eu espero que sejam os cubos azuis de Madagascar. O Comitê Científico abriu inscrições para cientistas de todas as idades. O Comitê aceitou minha inscrição e solicitou que eu apresentasse u trabalho sobre essas estranhas formas geológicas. Vai ser moleza! Eu finalmente serei reconhecido!

Dexter abriu a porta, o entregador mostrou a ordem de entrega e ali dizia que a caixa estava endereçada para ele continha cubos azuis de Madagascar. Dexter ficou muito alegre, assinou o canhoto de recibo, pegou a caixa e a levou para seu laboratório.

– Que sorte! Eu vou poder realizar as medições e experimentos com os cubos azuis sem ter que me preocupar com Didi me atrapalhando. Muito bem, vamos seguir os procedimentos solicitados pelo Comitê.

A papelada do Comitê tinha várias páginas, muita informação dispensável e desnecessária. Dexter vai direto ao capítulo de protocolos preparatórios. Abrir a caixa. Tirar os cubos da caixa. Observar, avaliar, contar e pesar os cubos. Dexter ficou irritado com instruções tão primárias.

– Muito bem, eu abri a caixa e tirei os cubos. Eu contei cem cubos. Os cubos tem um tom de azul. Opa! Alguns cubos estão manchados, outros apresentam corrosão e poucos vieram quebrados ou rachados. Ah, provavelmente resultado de diversos fatores. Eu vou ignorar as amostras defeituosas. Dos cubos restantes, o peso médio está em torno de 50 gramas. Vamos ao próximo passo.

O protocolo solicitava que o pesquisador procedesse com uma série de exames, com diversos equipamentos, contendo o total de cem experimentos e o pesquisador deveria relatar os resultados. O protocolo deixava bem específico que os cubos deveriam ter uma cor de azul bem específica e deviam pesar exatamente 50 gramas, pois este é o padrão cientificamente aceitável.

– Opa. Eu perdi dez espécimes na preleção. Mas eu vou continuar. Vejamos nos papéis do Comitê o tom correto de azul. Opa. Tem cinco que estão fora do padrão. Tem cinco que estão fora do desvio padrão de 50 gramas. Com isso eu perdi mais dez espécimes. Acho que o Comitê não irá se importar se eu continuar. Vamos aos testes.

Dexter foi perdendo mais espécimes conforme os equipamentos apresentaram resultados fora das especificações consideradas aceitáveis pelo Comitê Científico. No fim, dos cem cubos recebidos, apenas vinte cumpriam com as especificações. Dexter ficou um pouco apreensivo.

– E agora? O que eu faço? Eu tenho apenas mais um mês até apresentar meu relatório. Eu posso pedir mais cubos, mas para chegarem demora seis meses. Na prática, são apenas vinte cubos que foram testados e aprovados. Eu preciso de cem testes. A não ser que eu dê um jeito em meu relatório.

Dexter ligou seu laptop e começou a digitar o relatório ao Comitê Científico.

– Apresento ao Comitê Cientifico meu relatório sobre os cubos azuis de Madagascar. Das amostras consideradas válidas, 100% apresentam a forma de cubo, a cor azul, a densidade rochosa e o peso de 50 gramas, demonstrando empiricamente que está correta a Teoria Sobre os Cubos Azuis de Madagascar. Certamente é resultado de um fenômeno geológico único, atípico e singular de Madagascar.

Dexter entupiu o relatório com gráficos, dados, medidas e imagens. Salvou tudo em PDF e enviou por e-mail ao Comitê Científico. Acreditando que tinha feito um bom trabalho, assegurou-se de não deixar pistas de suas falhas. Juntou os cubos, mais as lascas resultantes dos experimentos na mesma caixa que havia recebido as amostras e despejou tudo no entulho de uma pedreira que tinha na periferia da cidade.

Quando a mãe e a irmã de Dexter voltaram das compras, o laptop acusou a chegada de um e-mail. Para desespero do jovem cientista, seu relatório foi recusado por não ter realizado aquilo que fora pedido. Dexter não pode estudar em uma escola melhor, não pode entrar para uma faculdade científica renomada, teve que se contentar em ser assistente de laboratório, trabalhando até a aposentadoria em pequenos serviços burocráticos. Dexter morreu de ataque cardíaco quando Jay, a filha de Didi, ganhou o Prêmio Nobel por seu estudo intitulado “A Diversidade das Formas Geológicas de Madagascar”. Considerado uma revolução no entendimento desse fenômeno geológico, Jay desafiou os modelos e padrões fossilizados ao provar que a Teoria Sobre os Cubos Azuis de Madagascar estava incorreta, equivocada e incompleta. Essa é a história triste do método científico.

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