Arquivo mensal: agosto 2015

O boneco e os fantoches

A notícia não podia ser mais esdruxula, mas aconteceu. A Polícia Militar deu proteção ao boneco inflável chamado Pixuleco. Algo que o paulistano anda carente. Foi noticiado pela Imprensa que o Pixuleco sofreu atentado no protesto anterior, por isso ganhou proteção policial. Pixuleco teve mais sorte do que dezoito paulistanos, que foram vitimas da chacina que ocorreu em Osasco. Para isso não há protesto nem indignação. Isso só acontece no Brasil.

Bonecos e efígies de governantes é uma tradição popular que acontece no Sábado de Aleluia, durante a Malhação de Judas. Uma tradição que tem suas raízes na cultura judaico-cristã do bode expiatório. Uma folia de rua onde a população sofrida pode extravasar sua revolta contra os poderosos.

Mas não é o caso do Pixuleco. Este boneco é o exato oposto, serve como uma reafirmação desse sistema desigual e cruel. Produto de grupos surgidos e fomentados por setores conservadores, reacionários e fascistóides, o Pixuleco é um acinte à democracia por que serve de expressão de uma elite.

O Brasil foi formado por uma cultura colonial, atrasada e elitista, com uma divisão social excludente e segregacionista. Como muitas das repúblicas da América do Sul, o Brasil passou por diversos golpes militares e grassou uma Ditadura Militar da qual ainda não se livrou totalmente.

O Brasil entrou em sua terceira Republica com o fim do Governo Militar, a volta dos direitos constitucionais e eleições livres e diretas. Nosso passado colonial elitista formou uma sociedade feita de cidadãos sem formação politica, quando não apolíticos, característica típica de um sistema conservador de direita.

O pensamento do brasileiro comum é conservador, quanto maior seu nível econômico, maior sua tendência ao elitismo. A educação brasileira ainda é profundamente influenciada pelo nacionalismo, patriotismo, colonialismo e catolicismo, assim nossa formação politica tornou-se apática e indiferente a questões sociais.

Ideias de esquerda ainda não estão acessíveis a todos, o mais provável é haver uma inculcação de ideias de direita desde o ensino básico. Basta ver como o ensino de qualidade é privatizado para percebermos que ainda vigoram o Capitalismo e o Conservadorismo na mentalidade do brasileiro médio.

Os protestos que têm marcado este ano vêm de setores da sociedade que representam essa mentalidade atrasada e obsoleta. As bandeiras e causas pelas quais estes grupos protestam são mera fachada para outra coisa, como aconteceu na Marcha da Família com Deus de 1964. Tal como em 1964, patrões movimentaram a Classe Média e cooptaram o apoio da Classe Trabalhadora, para ensejar um Golpe de Estado que deu início aos Governos Militares. Pode-se dizer que a riqueza e o privilégio de poucos foram construídos com os esqueletos dos desaparecidos. Mas isso não explica a atual onda de crescimento da direita, do reacionarismo e do fascismo.

A Classe Média e a Classe Alta teve um aumento populacional depois do choque financeiro conhecido como Plano Real, aqueles que tinham acesso ou formas de produzir riqueza tinham agora uma moeda com poder de compra, mas esta politica econômica ainda não atingia a Classe Trabalhadora. A mobilidade social faz muitas vezes com que pessoas tanto ascendam quanto caiam de classe social, mas sua identidade e ideologia classista permanecem. Ao recuperarem seu poder aquisitivo e também seu status social, a Classe Media e a Classe Rica retoma seus velhos ideais segregacionistas e excludentes, defendem o Liberalismo e a Meritocracia por lhes ser útil e cômodo.

Durante o Tucanato [os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso] houve o Segundo Milagre Econômico no Brasil, mas tal como o Primeiro Milagre Econômico, as tentativas de ocultar a inflação, os inúmeros casos de corrupção e as privatizações de estatais minaram as bases fiscais e monetárias da economia brasileira, conta que iria estourar nos governos seguintes.

O Brasil tem o duplo mandato de Lula que é sucedido pelo mandato de Dilma, atualmente em seu segundo mandato. A sucessão do PSDB para o PT reascendeu a Luta de Classes, que estiveram presentes em todas as campanhas eleitorais recentes. O PT fez, durante o governo de Lula, uma politica mais conciliadora, menos radical, procurando tanto agradar o Mercado quanto a Voz dos Excluídos. Ainda que os governos do PT tenham feito grandes ações pela inclusão social, ainda está atrelado aos sabores da especulação política do Mercado, especialmente dos Bancos.

Enquanto a politica da América Latina durante a década de 60 até a década de 80 é caracterizada pelo capitalismo colonialista e extremismo militar de direita, durante a década de 90 até a atualidade ficou caracterizada por governos com mais justiça social e um viés mais de esquerda.

Para a Classe Média e a Classe Alta a ideia de justiça social significa abrir mão dos privilégios, influencia e status social que acreditam serem merecedores. Como a Mídia está nas mãos de uma Oligarquia, esta expressa e reproduz as ideias desse sistema econômica e politicamente desigual. Toda uma geração apolítica e oriunda de uma educação conservadora foi facilmente aparelhada, manipulada e orientada para resguardar este sistema de qualquer forma.

Através de um linchamento midiático, não foi difícil encontrar mais idiotas que engrossassem o movimento, pelas bandeiras e causas de fachada. Assim nascem os grupos Revoltados Online, o Movimento Brasil Livre e Vem Pra Rua, movimentos que imitam os movimentos estudantis, mas servem não para a contestação do sistema, mas para mantê-lo, estimando ideias militaristas, intervencionistas, reacionárias e fascistas.

Em uma republica democrática, a presidência é o mais alto cargo. Em um país sério, atacar o Chefe de Estado vai resultar em processo ou prisão. Nos EUA, um homem foi preso por ter ameaçado o presidente, aqui no Brasil não aconteceu coisa alguma com o agente da PF que utilizou uma imagem da presidente em um alvo de tiro. O Pixuleco não deixa de ser um ataque a governo democraticamente eleito, pois acintosamente acusa, julga e condena Lula sem provas, indícios, evidências e o devido trânsito e julgado.

O Pixuleco é a expressão do medo dos privilegiados e elitistas. Muitas pessoas engrossam o protesto por que estão sendo alienadas, iludidas e manipuladas. Muitos que ali estão vieram inclusive da Classe Trabalhadora, mas esqueceram de suas origens e de todas as lutas que o brasileiro passou para que tivéssemos um país melhor para todos. Quando um cidadão esquece suas origens, seus direitos e defende interesses contrários à população, este é o que se chama pejorativamente de coxinha, porque defende os privilégios e os ideais da elite apesar de ser ou pertencer à Classe Média ou à Classe Trabalhadora. Eles são os meros fantoches que são os donos do Pixuleco.

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Zoltar na Universidade

No mundo Fantasy existe a Cartoonland. Existem diversos habitantes e evidentemente existem escolas e universidades. O desejo de todo habitante de Cartoonland é graduar em alguma grande universidade e se tornar um personagem famoso. Existem certas famas que não são desejadas, como a de ser escada do protagonista. A profissão mais odiada em Cartoonland é a de vilão, mas alguém tem que fazer este papel.

Cartoonland é dividida em duas regiões. O norte é uma região cheia de flores, cores, riquezas. O sul é uma região cheia de espinhos, sombras e pobrezas. A maioria dos habitantes que se tornam protagonistas ou heróis dos estúdios de animação vem do norte. A maioria dos habitantes que se tornam antagonistas ou vilões dos estúdios de animação vem do sul.

O sonho de todo habitante de Cartoonland é entrar na Universidade de Heróis. Os que não conseguem, vão estudar na Universidade de Vilões. Todo ano, a Universidade de Heróis e a Universidade de Vilões realizam jogos estudantis. Todo ano a Universidade de Heróis vence. Todo ano os veteranos da Universidade de Vilões convencem aos novatos que vencerão no próximo ano. Todo ano os formandos da Universidade de Vilões levam em seu diploma a lembrança da Regra de Ouro: “O Bem Sempre Vence”.

Heróis têm beleza, carisma e poderes. Vilões têm inteligência, perseverança e tecnologia. Heróis são os preferidos pelas rainhas, donzelas e garotas em geral. Vilões são os preferidos pelos monstros, capangas e bruxas.

Zoltar nasceu em uma vila simples em algum lugar da região sul de Cartoonland. Vida dura e sofrida nunca foi motivo para que ele não desenvolvesse sua inteligência e senso de estética. O sonho de Zoltar era o de entrar na Universidade de Vilões. Suas notas na escola e as referências que ganhara, ele poderia até se inscrever na Universidade de Heróis, mas ele conscientemente se inscreveu na Universidade de Vilões.

O pai de Zoltar é um ogro e sua mãe é uma bruxa. Juntaram com amigos e vizinhos o necessário para que Zoltar tivesse ao menos uma viagem digna. As demais criaturas que estavam na estação de trem torciam o rosto em desaprovação, mas Zoltar não se importava mais com o que pensavam dele. Há tempos Zoltar aprendera a ter autoestima e o conselho de seu avô que lhe disse que a única opinião que importa sobre ele é a dele mesmo. O fiscal de vagão bufou, mas não tinha o que fazer. Recolheu o bilhete e indicou seu lugar no vagão.

Zoltar aconchegou sua única mala de viagem no bagageiro e abriu um livro de título “Os Maiores Vilões da História de Cartoonland” para ler durante a viagem. Passos, a porta da cabine do vagão se abre, o fiscal de vagão fez careta ao lembrar que Zoltar estava lá, mas fez entrar os outros passageiros daquele vagão. Dois homens, três mulheres, um rapaz. Repentinamente, uma ultima passageira rompe por detrás do fiscal de vagão. Zoltar arregala os olhos. Diante dele estava a mais bela elfa negra que ele havia visto em toda sua vida. O fiscal de vagão também fez uma careta ao se dar conta de mais esta criatura vinda de Umbra, capital do sul de Cartoonland. Os outros passageiros também franziam suas expressões ao ver Zoltar.

– Que gente mais preconceituosa! Acham que apenas os filhos das Luzes que são seres vivos e tem direitos. Oi, meu nome é Alexis.

– Muito prazer. Meu nome é Zoltar.

– Ainda bem que você está aqui, Zoltar. Seria um saco viajar com gentinha assim.

– Eu não me incomodo com eles. São, como você mesma diz, gentinha.

– Haha! Sem dúvida! Opa, eu estou vendo em sua mão o livro dos maiores vilões?

– Sim, é a edição mais recente.

– Puxa eu sempre quis ler. Posso ficar ao seu lado e ler durante a viagem?

– Claro, será um prazer.

– A minha favorita é Malévola. E você?

– Sauron.

Zoltar e Alexis passaram o tempo inteiro da viagem juntos. Leram juntos o livro e acabaram ficando amigos, ou algo mais. Zoltar pagou pelo carro que os levou até a Universidade de Vilões. Na entrada tiveram que se separar, politica do reitor. Alexis foi para a ala feminina e Zoltar para a ala masculina. Era apenas o seu primeiro dia, mas sua mente traçava planos para burlar a politica do reitor para poder ver Alexis.

Intersexos: corpos fora do binário

Neste artigo vão ser abordadas as questões intersexo mais visíveis fisicamente, de forma a estar subordinado ao tema “Beach Bodies e Body Positivism”. É importante referir que nem todas as condições intersexo são visíveis no corpo/genitais, sendo que essa ideia é resultante de fetichização pornográfica. Novamente se vão usar as designações “fêmea”/“macho” em termos de morfologia científica de binário clássico. Lamentamos possíveis ofensas à identidade de género dx leitorx.]

Intersexo é o termo geral usado para uma variedade de condições em que uma pessoa nasce com uma anatomia reprodutiva ou sexual que não parece encaixar nas definições típicas de fêmea ou macho. Muitas vezes, este termo é associado com o hermafroditismo, em que se pressupõe pénis/testículos e vulva igualmente desenvolvidos; uma impossíbilidade fisiológica.

Embora a ideia da população comum seja de que este tipo de alterações sejam perfeitamente visíveis nos genitais após o nascimento, a verdade é que muitas não o são. Sim, existem casos em que os genitais apresentam morfologia intermédia mas estes não são os únicos. Muitas vezes, o indivíduo chega à idade adulta sem saber que é intersexo, e apenas o sabe quando faz exames para tentar entender distúrbios hormonais ou causas de infertilidade. Nestes casos, poderão ser os orgãos internos que apresentam diferenças – alguém com vagina e útero, mas com testículos internos em vez de ovários; ou então mutações em genes completamente não relacionados que provocam uma imunidade às hormonas sexuais, como um alelo do cromossoma X, em que x portadorx possui uma vagina cega, sem útero, e os testículos (se presentes) estão na labia ou inclusos no abdómen.

Mas a verdade é que não é a Natureza que escolhe onde o binário acaba e o intersexo começa. São os humanos que o fazem. Por isso, infelizmente, a comunidade médica criou o falómetro, a escala que determina o tamanho médico “aceitável” dos genitais de um recém-nascido.

Supostamente, um clítoris aceitável terá entre 0.2cm e 0.85cm, e um pénis o será a partir dos 2.5cm. Tudo o que tiver um tamanho fora deste standard poderá ser cirurgicamente “corrigido” com o consentimento dos pais. Tudo pouco tempo após o nascimento, sem dar tempo à criança que cresça e descubra o seu género e conforto naturalmente e possa (ou não) optar por cirurgia elx mesmx.

Mas além destas diferenças físicas mínimas, existem duas variações cromossómicas de relevo: o síndrome de Turner, e o síndrome de Klinefelter. Existem também situações de mosaicismo, em que algumas células apresentam um conjunto de genes e outras não; o que pode, ou não, ser visível físicamente.

O Síndrome de Turner ocorre 1 a cada 5000 nascimentos, quando há uma monossomia do cromossoma sexual, ou seja, o indivíduo possui apenas um cromossoma X (representado como X0). O mecanismo de dosagem génica é bem patente, com uma “feminização” do corpo e desenvolvimento físico incompletos.

O Síndrome de Klinefelter ocorre a cada 500 nascimentos, com a inserção de um cromossoma X extra (representado como XXY), que gera indivíduos altos e magros, com a possibilidade de um ligeiro atraso mental e tendência para a osteoporose.

As combinações XXX e XYY produzem indivíduos saudáveis e férteis. Embora seja um mito urbano muito difundido , não existem provas que corroborem que o genótipo XYY esteja ligado a um comportamento mais violento.

Autora: Noemia Santos

Fonte: O Clitoris da Razão

A esposa do Profeta

Os Judeus tem seu livro sagrado, a Torah. Os Cristãos tem seu livro sagrado, a Bíblia. Os Muçulmanos tem seu livro sagrado, o Corão. As três religiões tem em comum um patriarca: Abraão. As três religiões tem em comum a crença em um Deus.

Os Cristãos e a sociedade ocidental cristã construiu um mito sobre sua civilização. Mas muito do que o Ocidente sabe de tecnologia e ciência veio do Império Otomano. Mesmo a origem da “civilização ocidental” tem mais raízes com o oriente do que se imagina.

Mas agrada para o governo do ocidente que o oriente, especificamente o muçulmano, seja visto como o “inimigo”. Na Idade Média foi o Judeu, o Herege, a Bruxa.

Que sucesso ainda faz a lenda do Rei Leônidas e seus 300 espartanos, lutando “sozinhos” contra o “malvado” exército de Xerxes! Nós devemos lembrar que Xerxes era Persa. Não perca seu tempo explicando que os Espartanos e os Persas tinham uma origem em comum. Nós devemos lembrar que Esparta estava não interessada em “defender o ocidente”, pois não hesitou em atacar Atenas. Nós devemos lembrar que Enéias, um dos fundadores de Roma, veio de Tróia, mítica cidade da península da Anatólia. Nós devemos lembrar que Europa, a Deusa que dá o nome ao continente, é da Fenícia.

O Mundo Contemporâneo precisa de um grande inimigo, um bode expiatório, para manter as pessoas no medo, na paranoia, na histeria. Há muito a guerra entre o Cristianismo e o Islamismo deixou de fazer sentido. Há muito existem comunidades muçulmanas em diversos países. Há muito os países ocidentais se esquecem de sua responsabilidade pelo Colonialismo no Oriente Médio e Ásia Menor. Mas quando o cristão ocidental olha para o muçulmano a única coisa que vê é o terrorismo, como se o mundo ocidental cristão fosse inocente.

Qual é, realmente, a intenção de quem cita um trecho do livro Sahih Bukari contendo a suposta idade púbere de Aisha quando o Profeta se casou com ela? Certamente não é a de condenar a relação entre garotas na puberdade e homens adultos. Afinal, isto também está na Torah e na Bíblia:

[Numeros: 31,18]: Porém, todas as meninas que não conheceram algum homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós.

O Deus Bíblico, além de ordenar um massacre, ordenou o abuso sexual de menores. Como se poligamia, estupro e incesto não fossem o suficiente. Então o padre que abusa sexualmente de menores está apenas seguindo uma ordem de Deus.

O leitor não nos entenda mal. A nossa sociedade sabe que o conceito sobre a infância e a adolescência, tal como o conceito de gênero, é resultado de uma construção social. A concepção da criança e do adolescente como inocente, ingênuo e assexuado vem das concepções românticas surgidas entre o fim do século XVIII e início do século XIX.

Na Roma e Grécia antigas era sabido que as pessoas se tornam adultas em diferentes idades. Os romanos sabiam que a puberdade aparecia por volta dos 14 anos com variações para mais ou para menos. Os garotos podiam casar entre 14 e 16 anos, garotas casavam aos 12 anos, geralmente com alguém mais velho. Na Grécia Antiga era comum o jovem ter tutores para ensiná-lo a ser homem. Conhecidos como erastes e eromenos, homens mais experientes muitas vezes mantinham relações homossexuais com estes jovens.

Caso a criança ou adolescente fosse filho ou filha de um servo ou escravo, sua situação era a de propriedade do pai de família, sendo comum serem usados como companhias sexuais ou como presente para o filho que entrava na idade adulta. Algumas conhecidas e afamadas cortesãs recebiam propriedades e o direito de usar o nome de família de seus senhores. Muitas montavam um harém ao redor de si e suas casas eram um verdadeiro bordel.

Na Idade Média foram mantidas as idades entre 12 e 14 anos para a puberdade, quando podiam contrair matrimônio. As crianças tinham pequenas tarefas domésticas para cuidarem e ajudarem seus pais. Suas roupas não eram diferentes das do adulto e frequentemente entravam para algum ofício em sua puberdade. Em muitos casos o matrimônio era combinado e arranjado pelas famílias, por dote, por herança, por vislumbrar uma melhor posição social, muitas garotas eram casadas com homens mais velhos.

Na Era Moderna fixou-se o conceito de infância como uma idade separada da do adulto. O ocidental criou uma ilusão idílica sobre as diversas faixas etárias e vai tentar refutar falando que isso não acontece mais na Era Moderna.

Basta uma breve consulta no Oráculo Virtual [Google] para perceber que não é bem assim. Canadá é um país onde os adolescentes e os adultos podem se casar. Mesmo na Grã Bretanha isso acontece. Na América do Norte existem grupos onde existe poligamia e endogamia [casamento entre parentes, inclusive pai com filha]. Em outros países europeus, casamentos “encomendados” pelas famílias unem jovens com adultos. Então o problema não é o tabu social, mas o preconceito religioso.

Nem assim o cristão ocidental tem qualquer moral para criticar o muçulmano. Textos apócrifos dão conta que Maria/Miriam tinha entre 9 e 12 anos enquanto José tinha entre 40 e 43 anos. Tentar argumentar que este não é um registro histórico é um contrassenso, uma vez que o cristão afirma que registros bíblicos remontando épocas passadas são “históricos”. A questão não é a idade púbere de Aisha, senão o cristão há muito teria abandonado o Cristianismo depois do escândalo de abuso sexual de menores na Igreja. A questão é que o Cristianismo está perdendo espaço para o Islamismo. Então a Igreja recorre à calúnia e difamação.

A humanidade deve respeitar todos os povos, seus hábitos, seus costumes e suas crenças. A sociedade cristã ocidental deve superar seus traumas, recalques, frustrações, neuroses e paranoias. A Sociedade Zvezda irá implementar uma sociedade sadia, onde será abolida esses limites absurdos, obsoletos e arbitrários de faixa etária, deixará de existir “criança” e “adulto”, existirá apenas “pessoas”.

A gente dá para quem quer

[Madalena Paschoalini]

Estava na academia (não a do saber, dessa, depois de obter os títulos, prefiro manter distância segura) e isso já pode ser algo que fala contra mim, já que vai que eu frequente esse lugar pela pressão do patriarcado para ter um belo corpo de acordo com os padrões do marketing machista? Dane-se, farei meu textão assim mesmo, já que na rádio começou a tocar Queixa e pensei no que andei lendo.

E, quando uma coisa assim violenta torna-se mágoa, é isso mesmo, dá vontade de jogar tudo pela janela. Parece que umas moças assim o fizeram no caso do professor, jogaram no ventilador o que metade das conhecidas do moço já sabia. Você não sabia? Agora ficou sabendo. Você ficou chocada? Você ficou chocado? Com o que exatamente?

Voltando ao que quero escrever. Quer saber? Deixa a moça feliz e deixa a moça espalhar merda se quiser. Mas vamos começar a supor que uma mulher sabe o que faz? Vamos começar a imaginar uma agente capaz de saber das suas ações, inclusive sobre dar para quem quer dar? Vamos pensar em um cenário no qual mulheres sabem o que fazem, sabem para quem querem dar, sabem o que querem? E olha, que revolucionário, mulheres que dão para quem querem dar?

O cara casado, solteiro, noivo, viúvo, que se usa da legalzice, da fama, do dinheiro, da inteligência, da beleza, do carrão, das promessas, do que quer que seja que nos atraia porque assim o desejamos, está agindo de acordo com o que combinamos. Daí desfaz-se um primeiro engano infelizmente comum que paira sobre nós, mulheres. Não “caímos” no papo do cara. Para esta e outras frases vale trocar quando quiser o cara por moça que dará no mesmo, aliás. Mulheres e homens estão e ficam na relação porque assim a desejam. Às vezes desejamos mais, ou relações de natureza distinta das que temos. Mas não temos. Às vezes o cara deseja mais e não tem. Aí, desfaz o trato. E faz-se a treta. Ou não.

Das acusações ao professor, mais me choca a ideia de que as mulheres ali envolvidas precisam de proteção. Não desfoquemos a atenção de quem realmente precisa de acolhimento e segurança com pessoas que não quiseram mais brincar juntas. Sim, li as mensagens trocadas. Parece que há consentimento. E que sim, parte da brincadeira mexia com submissão. Essa é a parte que chocou você?

Relações que envolvam submissão não são humilhantes, necessariamente. Há pessoas que têm prazer nessa prática. Elas podem estar ao seu lado, podem ser de esquerda, podem ser eleitores da Luciana Genro ou do Bolsonaro. E bem, pense nisso também, talvez o prazer da mulher esteja exatamente aí, na submissão.

Como a mulher e o homem têm prazer em suas relações consentidas, deveria ser uma questão deles. Envolvem mais pessoas? Oba, suruba. Há quem faça, há quem goste, há quem busque. Isso choca você? Por isso, sim, avalio que há excesso de moralismo na treta como um todo, quando começam a pipocar palavras como vítimas, alertas, culpados. Buscar culpados? Culpados do que? De buscar o gozo? Peço desculpas de antemão, mas isso é o mais puro purê do moralismo.  

Parece que muitas mulheres foram abordadas pelo professor. Umas disseram não, obrigada. Parece também que a namorada do rapaz não sabia que ele é assim. Será? Temos mesmo que defender a moça do tal namorado que se comportava assim nas sombras e talvez, dessa forma, não a magoasse publicamente? A moça precisa se defender dele? Ela não pode fazer isso sozinha?

Caso o sujeito queira algo que a mulher não queira, não tirem a possibilidade de agência nossa de não mais querer. E dizer não. E por isso devemos batalhar. Disse não é não.

E caso o cara ou a mulher não queiram mais, também não tirem também a agência do outro de reclamar, de bater pé, de chorar. E vice versa. Isso vale para as relações homossexuais também, vejam só. Há barracos de todos os gêneros, quando um quer o que o outro não quer mais. Ou um quer o que o outro não quer dar.

Desde que respeitado o trato de que as relações vão até onde os dois consentem que devam ir, deixem as pessoas serem felizes. 

O machismo existe sim, é claro, está todo dia em todo lugar, em todo canto. Mas não falarei sobre o feminismo no qual eu acredito, porque há mais possibilidade de interpretação do que sei lá, árvores na Amazônia. Mas pode ser que não tenha a visão tão clara como algumas pessoas têm, mas não vejo machismo em uma relação entre homens e mulheres adultos que consentem fazer sexo, seja lá como for esse sexo. Não direi que estudei mais que ninguém, nem que tenho o domínio sobre todas as ondas do feminismo. Não tenho e ninguém tem.

Não quero pontuar o óbvio. Aliás, esse textão está de uma obviedade que será lamentada pelos muito sábios. Por que preciso afirmar que sim, há muitas estruturas machistas presentes no nosso dia a dia? Estão tão entranhadas no nosso senso comum, que todo dia temos que trabalhar mais, sermos mais, não ganhamos o mesmo salário que os homens, tememos estupros, não temos o direito ao nosso corpo, não temos direito ao aborto, nossa vida nos metrôs e trens é horrível, nosso processo de envelhecimento é tido como degradante e ainda temos jornada tripla. Mas isso, moças e moços, todos nós sabemos.

Precisa mesmo pontuar que se a relação de sexo sai do quarto e envolve pressão no mundo de fora o acordo foi rompido? Amiga, me diga, você sabia disso. Caso o sujeito ou a sujeita usem o sexo como moeda de troca para manter o outro com aluno, aluna, no cargo, no emprego, aí, a coisa é outra, mas sendo sexo? Por favor.

A treta em questão trata do desejo. Vamos combinar algumas coisas? Deixa a menina dar para quem ela quiser dar. Deixa a menina sambar em paz.

Fonte: Revista Pittacos

Bigamia, cafetinagem, pedofilia e incesto bíblico

Cristão que pega em sua bíblia para falar dos bons valores cristãos não deve ter lido a história de Abrão, Lote, Isaque e descendentes.

Abrão mostra como o Deus Bíblico é confuso com valores morais e sexualidade.

Abrão convenceu o rei do Egito que sua mulher [Sara] era sua “irmã” e ela foi praticamente “emprestada” ao rei do Egito em troca de animais e servos [Genesis: 12 – 11,16].

Como se não fosse suficiente ter sido “alugada”, mais tarde Sara pede que Abrão tenha filhos com sua serva Hagar [Genesis: 16 – 1,3].

O mais estranho é que o Deus Bíblico assistiu a isso e nada fez, mas a narrativa bíblica aponta que o Deus Bíblico condenava Sodoma e Gomorra. Lote habitava Sodoma e viu os filhos de Deus [anjos, os mesmos que haviam se unido com as formosas filhas dos homens] que visitavam a cidade [para procurar por diversão?] e anunciaram para Lote a sentença que cairia na cidade. Alguns habitantes viram os “estrangeiros” na casa de Lote e quiseram também “conhece-los” [ah, o eufemismo bíblico] no que Lote lhes ofereceu suas filhas para que deixassem os “mensageiros de Deus” em paz [Genesis: 19 – 8].

Fugindo da destruição, Lote e suas filhas foram morar em uma caverna. Não havia mais anjos, habitantes de Sodoma e aparentemente Deus estava ausente, pois as filhas de Lote, para garantir a preservação da linhagem, embebedaram Lote e com ele tiveram relações sexuais [Genesis: 19 – 31,35].

O Deus Bíblico também ficou calado diante da reincidência de Abrão ao apresentar sua esposa como sua irmã, praticamente a “emprestando” para o rei de Gerar, pelo mesmo preço que conseguiu pelo rei do Egito, mais terras e dinheiro [Genesis: 20 – 11,16].

Isaque, filho de Abrão, herdou mais do que as posses conquistadas pela cafetinagem de seu pai, herdou também o mau hábito. Isaque ficou em Gerar e, tal como o pai, convenceu o rei de que ela era sua “irmã”, certamente a “alugando”, para depois colher a indenização.

O filho de Isaque, Jacó, fez mesmo que seu avô e aceitou a oferta de sua esposa para que se deitasse com sua serva Bila. Sem contar que seu sogro o havia convencido a se deitar com sua filha mais velha, Lia, que também o convenceu a se deitar com sua serva Zilpa.

Como que tal livro pode ser guia de moral e bons costumes?

Pessoas trans podem ter sexualidades diversas

Temos, felizmente, observado o debate sobre gênero e sexualidade emergir em nossas escolas, universidades e, até mesmo, em alguns espaços onde trabalhamos. Tive essa surpresa quando fui convidada por uma agência de publicidade para dialogarmos um pouco sobre pessoas trans e empregabilidade. Porém, é fácil notarmos que não avançamos o suficiente para que a grande população tenha a devida noção do que é identidade de gênero e sobre o que se diz respeito, bem como o que vem a ser orientação sexual. Ainda caímos no redutivo “colocar no mesmo balaio” e, nessa contribuição, vou falar um pouco sobre como essa história de “é tudo a mesma coisa” vem não só a prejudicar nosso entendimento sobre nós mesmos, como também vem a invisibilizar e deturpar a vivência de algumas pessoas, mais especificamente no texto, de pessoas trans.

Enquanto mulher trans bissexual, em algumas ocasiões onde numa conversa minha atração por pessoas vem à tona, sempre existe uma carinha que transpareça uma certa confusão ao pensar sobre meus desdobramentos afetivos. Afinal, “se for pra tu ficar com mulher, por que tu não continuasse como era?” (sic). Escutar esse tipo de indagação é bem comum para algumas pessoas trans. Existe o entendimento que por termos transicionado nossos corpos, necessariamente, nos sentiríamos atraídos pelo gênero oposto. De onde vem isso? Infelizmente, de ainda termos a ideia intrínseca de que mulheres trans são gays e que, apenas, se atraem por homens e que homens trans são lésbicas e da mesma forma seriam em relação com mulheres. Obviamente, não se tem a clareza em saber que identidade de gênero é sobre ser, sobre identificação, sobre autorreconhecimento e que orientação sexual está ligada às questões afetivas. Dessa forma, explano que, enquanto mulher trans, eu me transicionei porque queria externalizar meu gênero, e não por conta de minhas questões afetivas, onde sou bissexual, tendo me relacionado com homens e mulheres, e que uma coisa não está ligada à outra.

Existem mulheres trans lésbicas, existem homens trans gays, existem pessoas trans bissexuais e, dessa forma, conseguimos, facilmente, delimitar que existem pessoas apenas querendo exercer o direito da liberdade de não só se construírem como desejarem, podendo autogestionar seus corpos, como também se relacionarem com o(s) gênero(s) que se sentirem atraídos e tendo o direito de viver sua afetividade de forma livre e satisfeita.

Autora: Maria Clara Araújo

Fonte: Capitolina