Estadia no Hotel Califórnia

Eu estou quase com cinquenta anos e estou trabalhando por trinta anos. Isso não faz muita diferença quando todos estão na expectativa do feriado prolongado. Todos fazem planos, até que vem a comunicação da diretoria que alguém seria convocado para representar a empresa no congresso de escritórios. Pânico, lágrimas, chantagens. Todo mundo está com passagem comprada, tem uma tia doente, tem um casamento marcado. Eu não tenho desculpa. Minha esposa trabalha em hospital, eu não viajo sozinho, não tenho contato com parentes e ainda faltam muitos anos para que haja algum casamento na família. De livre e espontânea pressão, eu ganho uma passagem e uma estadia para ir ao congresso.

Complicado não é ter que viajar por ordem da empresa. Complicado é explicar para a dona da pensão. Para minha sorte, meu chefe havia ligado e confirmou tudo para ela. Eu recebi um alvará, aprontei as malas e fui. A empresa, evidentemente, reservou um voo comercial bem barato, na promoção. Havia outros pobres coitados que, como eu, haviam sido escalados pelas respectivas empresas. Isto é uma visão do Inferno. Apenas dentro do avião, quando o comandante arremetia, é que eu notei que o congresso seria no mesmo lugar onde a empresa havia reservado um quarto: Hotel Califórnia. Onde eu ouvir esse nome antes?

O hotel recordava o filme “O Iluminado”, mas estava lotado de gente de todo o país e de outros países para o congresso de escritórios. O salão de entrada é bem antiquado, mas é amplo e confortável. No balcão de recepção, eu notei que não havia um computador, nem mesmo uma mesa de fax ou telefone. A atendente era estranha e eu estou sendo generoso. Eu não via esse tipo de uniforme em funcionários de hotel há mais de sessenta anos. A despeito da eficiência e gentileza forçada da atendente eu desconfiei de sua expressão vaga, vazia e pele sem cor. Aliás, todos os funcionários do hotel pareciam não ver o sol há um bom tempo.

Eu assinei o Livro de Hóspedes e a atendente passou para mim a chave do quarto 1308. Mais de já vu cinéfilo. O elevador é bem velho, ainda usa aquelas portas pantográficas, uma grade flexível que o operador de elevador abria e fechava manualmente. O auxiliar de recepção levou a minha bagagem não demorou em despejá-la no chão do quarto e saiu sem pedir gorjeta. O quarto não era muito bom, mas ao menos não tinha baratas. Eu liguei a televisão e ali somete tinha filmes e notícias velhas. A cama até que era confortável, mas a vista do quarto era péssima, dava para uma parede de tijolos. Eu dei uma olhada no frigobar, provavelmente o único conforto moderno deste hotel e estava bem abastecido. Como a empresa ia pagar tudo, saquei logo uma garrafinha de uísque. Quando eu virei uma segunda garrafa o telefone toca. Os organizadores do congresso estavam me chamando para o início das palestras.

O salão onde aconteceria o congresso era um velho cinema ou teatro adaptado. Tudo aqui é velho. Na frente, onde deveria ficar a tela ou tablado, os organizadores estavam todos arrumados e prontos para iniciarem a tortura das palestras. Fortes estrondos, como se pesadas portas caíssem e enormes ferrolhos se fechando, assustaram a todos os presentes. Ao nosso redor, nos encarando de onde deveriam ser as saídas de emergência, os funcionários do hotel estavam nos cercando com uma expressão de fome. Os gritos de desespero e a correria começaram assim que os funcionários do hotel começaram a comer alguns dos presentes.

Eu passei por situações parecidas senão piores do que essa. Não queiram saber de meu passado. Eu teria que mata-los. Apenas ouçam e aceitem minha narração como bons ouvintes. Eu sou esperto, muito esperto. Eu achei uma saída daquele salão, embora eu não tenha sido o primeiro ou o único a escapar da armadilha. Outros espertos como eu estavam no salão de entrada. Mais funcionários do hotel nos esperavam. Dali, cada um foi para algum canto. Cozinha, restaurante, garagem, salão de jogos, biblioteca, quartos e a marquise. Malditos funcionários em todos os lugares. Mas nem tudo era desfavorável. Conforme os grupos se dividiam, o numero de funcionários diminuía também.

Então eu cheguei a um ponto extremo. Uma sinuca, se preferirem. Era eu e a atendente. Eu comecei a conversar com ela.

– Então… hã… Kim. Kim é seu nome verdadeiro? De onde você é?

A atendente, que eu chamo de Kim parecia estar surpresa com minha reação. Eu não estava com medo, eu não tentava fugir, eu não tentava agredi-la.

– Hã… senhor Durak. Apartamento 1308. Sim, Kim é meu nome verdadeiro. Eu sou daqui de Springfield mesmo, mas eu tenho descendência asiática.

– Isso é bom, Kim, mas como você veio parar aqui? Como você ficou… hã… desse jeito?

– Ah, isso aconteceu há muito tempo atrás. Eu vim com meus colegas de escola. Nós estávamos em uma excursão histórica. Eu acabei me tornando um deles, mas meus colegas não tiveram tanta sorte.

– Que horrível. Eu sinto muito Kim. Você parece ter sido uma garota inteligente e teve seu futuro interrompido.

– Eu não me arrependo. Até gostei quando comi meus professores. Literalmente falando. Eu estava cansada de ser cobrada só por ser de origem asiática. Por que todo mundo acha que asiático é CDF? Eu sofri bastante tentando concluir o segundo grau. Então eu fiquei feliz de não precisar mais me preocupar com isso.

– Desculpe se eu te ofendi, Kim. Mas depois que você se tornou um deles, você não leu mais coisa alguma? Não estudou, não se formou?

– Para quê? Tudo que eu tenho que fazer é te comer, Durak. Como você foi legal comigo, eu prometo que eu vou acabar bem rápido com sua vida.

– Puxa, Kim, obrigado. Isso é muita consideração sua, mas antes você devia considerar estudar, ter uma graduação, para não te enganarem. Eu tenho bacharelado, portanto, eu sei mais do que você. Por exemplo, sabia que você não precisa me retalhar?

– Hã? Como assim?

– Você não deve saber, mas existe uma revista para vampiros, zumbis e demais criaturas sobrenaturais. Como eu sou bacharel, eu leio bastante essas revistas. Eu li um artigo em uma delas afirmando que não é preciso matar ou retalhar as vítimas. Existe um método melhor para extrair a essência de nós, humanos. Um método que não exigue sua vitima e fornece por mais tempo a essência que vocês precisam.

– Eu nunca li qualquer coisa assim. Você pode me ensinar?

– Claro que sim! Afinal, você é uma criatura tão gentil! Veja bem, nós humanos temos um canudo através do qual você pode sugar nossa essência de tempos em tempos, até envelhecermos.

– Um canudo? Onde fica? Como funciona? O que eu devo fazer?

– Fica bem aqui entre minhas pernas. Eu vou tirar minhas calças. Tudo o que você tem que fazer é por esse canudo em sua boca e começar a sugar.

Kim me olhava desconfiada. Eu usei minha expressão indiferente e desinteressada de intelectual. A despeito de ser uma morta-viva a Kim até que era gata. E era burra. Ela deu de ombros e resolveu experimentar. Eu tirei minhas calças e a adrenalina no sangue providenciou a ereção. Kim olhou para meu “canudo” e o observou por diversos ângulos. Ela deu de ombros novamente e o colocou na boca.

Eu nunca fui chupado assim antes. Nem por profissionais. Kim era burra, mas não é estúpida. Parecia matematicamente lógico que quanto mais meu “canudo” ficava maior e mais duro, maior seria a quantidade de essência extraída. No fundo, eu comecei a achar que ela estava gostando do método. Eu devo ter ejaculado cinco vezes, jatos fortes e volumosos, que iam diminuindo até uma última contração e algumas gotas. Kim foi pega de surpresa, engasgou um pouco, mas não desperdiçou uma única gota. Quando as emissões cessaram, ela olhou para mim, séria.

– Isso não tem gosto de sangue, não tem cor de sangue, não tem cheiro de sangue.

– Claro que não! Vocês estavam se alimentando da forma errada. Sangue não é essência. Essa é a essência concentrada do humano. Não se sente satisfeita?

Eu estava esgotado, acabado. Kim pensou, pensou. Deve ter sido um grande esforço para ela. Os olhos dela emitiram um brilho opaco e ela sorriu.

– Sim! Eu estou satisfeita! Geralmente eu ainda tenho fome e sede depois de comer uma vítima. Puxa, Durak, obrigada! Eu teria continuado a comer errado se não fosse por você.

– Não há de quê, Kim. O problema é que tem os outros. E se eu for comido por outro morto-vivo?

– Ah, não esquenta. Isso eu sei o que fazer.

Se sentindo orgulhosa por “saber” o que fazer, Kim dá uma mordida forte em minhas bolas. Eu não vou dizer o quanto doeu. Não cabe descrição.

– Pronto. Isso deve ser o suficiente para deixar meu cheiro em você. Nenhum outro morto-vivo vai querer te comer.

Segundos depois da mordida, eu tenho uma outra ereção. Aparentemente a saliva ou as enzimas de minha “dona” tem um efeito afrodisíaco.

– Nossa, Durak! Você está pronto para mais uma extração de essência? Eu não sei se consigo comer mais.

Definitivamente Kim havia gostado do método e de nossa sociedade.

– Bom, Kim, como agora eu sou seu, talvez você possa utilizar outro método para assimilar minha essência.

– Nossa, tem mais outro método? Você vai me ensinar, não vai?

– Claro que sim. Primeiro tire sua roupa.

Kim não hesitou. Ela é morta-viva, mas tirando o tom quase cinza de sua pele, seu corpo mantém a mesma forma de uma colegial de dezoito anos. Eu não demorei em brincar com o corpo dela. Morta-viva, mas com a mesma sensibilidade. Paradoxo? Ela sussurrava, gemia, seu corpo retesava e arrepiava como de uma mulher normal. Sua fenda ficava igualmente úmida e gozava.

Por precaução, eu comecei a penetra-la com cuidado. Ela era bem estreita e apertada. Ela teria sido transformada virgem? Enfim, não demorou em tirar o selinho dela. Eu continuei a bombear até verter mais emissões de minha “essência” dentro daquele ventre. Sem medo, receio ou perigo. Improvável que Kim pudesse engravidar. E eu estava “imunizado” pela saliva dela.

Quando a alvorada despontou, Kim teve que se recolher na cripta. Eu estava sozinho no hotel. Quando eu voltei, eu tinha certeza apenas de uma coisa. Eu faria de tudo para manter minha sociedade com Kim. Nós podemos ou não ensinar o “método” para outros mortos-vivos e encontrar humanos capacitados para essa relação simbiótica. Eu não tinha pressa, afinal eu tinha agora a eternidade.

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