Para manter a linhagem

Júlio e Cléo se conheciam desde crianças, cresceram e amadureceram juntos, era mais do que evidente que acabariam se casando. Ah, o casamento! Tirando todo o estresse, a correria, as exigências sociais e o incômodo cerimonial, o casamento é sempre bom, quando não se cria uma expectativa ou não se espera que se resolvam os problemas da vida.

Júlio, mais pragmático, se contentava com o casamento civil. Cléo queria fazer a cerimônia religiosa. Júlio havia lutado bastante para superar suas broncas com a religião que adquirira quando andava com descrentes radicais e Cléo ajudou mostrando a Júlio que ser ateu não significa ser sem espiritualidade. Conhecer Cléo foi a melhor coisa que aconteceu a Júlio e a família dela demonstrou para Júlio de forma bem clara que nem sempre ser religioso era igual a ser ignorante ou anticientífico. Quando Cléo comunicou sua família do casamento, Júlio não teve problemas em aceitar a cerimônia religiosa na chácara da família, segundo a tradição que, para a sorte de Júlio, não era uma religião abraãmica.

Quando Júlio e Cléo noivaram, ele passava suas férias nesta chácara com estes que seriam seus futuros sogros. As coisas que ele viu e presenciou ali fariam qualquer ateu mais radical rever suas convicções. Mesmo quando não aconteciam eventos, somente o contato com a terra, água e ar puros, o contato com plantas, animais, eram o suficiente para sentir parte de algo mais, de algo maior que a razão e o raciocínio não conseguiam alcançar ou explicar. Ele convidou amigos e parentes, mas não exigiu que viessem nem que aceitassem a magia do lugar. De alguma forma, Júlio sabia que não estaria sozinho.

Na data marcada, Júlio pega suas malas, entra em seu carro e segue pela rodovia. Bastam alguns quilômetros para toda a opressiva presença da cidade sumir. Bastam alguns quilômetros para Júlio entrar em um mundo totalmente oposto ao que livros nos dizem ser a realidade. Cinco horas depois, Júlio chega na cidadezinha camponesa, vai ao hotel local apenas para tomar banho e se trocar, para então pegar a trilha que leva até a chácara. O vigário, coitado, fica todo assustado e esboça diversos sinais de benzedura e cruzes, pois sabe para onde Júlio vai. Para quem acredita que aquilo que um livro determina como verdade, como sagrado, como divino, jamais deve entrar em trilhas ou passar uma temporada em chácaras ou em lugares tão especiais e cheios de magia. Ali sim, se pode ver, ouvir, comer, cheirar e sentir o que é a verdadeira realidade.

No estirante da chácara, Júlio percebe que muitos familiares de Cléo estavam presentes desde cedo. Impressionante como gente que é gente recebe um estranho como se fosse da família. Júlio se sentia mais ligado a esta gente do que com seus próprios familiares. Sorrisos sinceros, palavras de acolhimento, comprimentos efusivos. Nada de sorrisos amarelos, cumprimentos formais, semblantes frios, corações indiferentes.

A cerimônia seguiu os costumes da família e Júlio notou que os seres da floresta também estavam presentes. O sacerdote falava um dialeto que parecia perdido no tempo, mas ainda assim fazia sentido quando Júlio o ouvia. Cléo estava maravilhosa. Seo Nonoco e Sia Totoca estavam emocionados, mas estavam amparados por presenças numinosas. Duendes e fadas cutucavam Júlio. Cléo disse sim no dialeto e Júlio jamais ouvira declaração mais poética.

Palmas, muitas palmas. Júlio e Cléo foram carregados até onde mesas e cadeiras haviam sido espalhadas para os comes e bebes. Ao lado do celeiro, uma carruagem e u estande foram arranjados para servir de cozinha. Várias panelas fumegavam. Júlio e Cléo ficaram com a mesa de honra. Os garçons não demoraram a servir os pratos e os canecos. Não faltavam músicos entoando as lendas tradicionais daquele povo. Depois, dança, muita dança.

Quando a festa acabava, alguns convidados iam embora, outros ocupavam os arbustos. Júlio estava estufado e quase bêbado de tanto caneco de cerveja boa que ele havia virado. Nas despedidas, a irmã de Cléo disse algo em seu ouvido.

– Saiba, cunhado, que minha família é muito tradicional. O costume da família é de garantir a linhagem. Você tem um ano. Se minha irmã não ficar buchuda, provavelmente Seo Nonoco vai pedir para que eu garanta a linhagem.

Júlio estava muito grogue de comida e bebida, não atentou ou não entendeu o que Sara lhe havia dito. Júlio e Cléo puderam ter sua noite de núpcias ali mesmo na chácara. No dia seguinte, Júlio despertou para o melhor alvorecer de sua vida. Ambos voltaram para a cidade grande, para seus trabalhos, para o período de adaptação a uma nova casa e uma nova vida. O tempo passa ligeiro na vida acelerada da cidade de concreto. Júlio estava tomando o café da manhã quando a campainha tocou. Era Sara.

– Eu bem que te avisei que isso aconteceria. Seo Nonoco mandou a mim e ao primo Fabio virmos aqui para nos certificarmos de que a linhagem será mantida. Você deverá ter relações sexuais comigo enquanto Fabio irá ter relações sexuais com Cléo. Assim manda a tradição.

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