Vamos falar do elefante na sala

Esta carta eu endereço a todos meus parentes e familiares como a ultima tentativa de comunicar-me com vocês. Ao receber esta carta, vocês terão alguma dificuldade de lembrar quem é o remetente, visto que eu e vocês nunca tivemos exatamente um relacionamento familiar em todos os meus anos de vida e eu estou próximo de meu jubileu.

Eu tive a infeliz ocasião de nascer nesta família. Uma família que era marginalizada pelos demais familiares. Eu cresci e fui criado acostumado neste ambiente de indiferença e segregação. Eu cresci e fui criado acostumado com o papel de maldito. Meu pai nunca foi aceito pela família de minha mãe. Por eu lembrar muito meu pai, eu cresci e fui criado acostumado a ser rejeitado e desprezado por parentes.

Meu pai era um bronco descendente de italianos. Ele era daquele tipo de pai que não estava presente, mas comprava coisas para compensar. Minha mãe carregava consigo não apenas os estigmas impostos pela Igreja Católica, mas também uma deficiência mental. Como um indivíduo pode crescer e amadurecer como uma pessoa normal? Não é possível ser normal e eu gosto de não ser normal. Ovelhas em um rebanho são normais. Eu estou mais para um bode, um lobo.

Ao contrário da expectativa, da torcida contra, das dificuldades, da indiferença, da rejeição, por teimosia e insistência, eu sobrevivi e superei muitos obstáculos por esforço próprio. Agora que eu estou próximo de meu jubileu, não peço nem espero coisa alguma de vocês. Eu apenas aceno para verem que eu ainda estou bem vivo e continuo lutando. Para a decepção e desapontamento de vocês.

Caso a Fortuna e o Destino forem favoráveis a mim, eu irei ficar por aqui mais 40 anos. Eu paguei todas minhas contas, eu paguei até pelos pecados de outros. Eu não devo coisa alguma a quem quer que seja e ninguém me deve coisa alguma. Continuem a ignorar-me, continuem a esquecer que eu existo. Daqui a 100 anos nada disso vai importar. Seremos apenas pó. Todas as suas ilusões, de autoridade, poder, influência, riqueza, em coisa alguma lhes valerão.

No Mundo dos Mortos estaremos todos nus e despossuídos. Eu terei honra e dignidade para apresentar aos nossos ancestrais. Em coisa alguma lhes adiantará apelar para minha caridade ou compaixão, pois todas estas coisas são parte da moral pequeno-burguesa que tanto estimam e preservam. No Mundo dos Mortos, eu não tenho vínculos de sangue com qualquer um de vocês. No Mundo dos Mortos, eu não tenho vínculos de lealdade, fraternidade ou familiaridade com qualquer um de vocês. No Mundo dos Mortos vocês serão consumidos e castigados por seus próprios atos. No Mundo dos Mortos eu terei um lugar no Grande Banquete junto a meus ancestrais.

Ali, onde poder, autoridade, influência social, cargo, riqueza, de nada significam, vocês receberão o que merecem, que é viver junto aos vermes e larvas, eu poderei olhar nos olhos os Deuses Antigos e viver junto com os heróis.

Assim é, assim seja, assim será.

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