Arquivo mensal: julho 2015

Ártemis, a rebelde

Muitos anos antes dos humanos dominarem o mundo outros povos haviam existido e construído suas cidades e reinos. Muitos séculos antes destes havia os Deuses que caminharam neste mundo. Antes dos humanos existiram os reinos dos seres místicos, que agora continuam sua existência escondido da humanidade. Um dos povos antigos eram os Nagas, descendente dos Deuses Ofídicos, desta antiga civilização nada sobrou senão os animais chamados dinossauros. Muito embora tivessem as mesmas origens e partilhassem de laços de parentesco, os Nagas viviam em guerra com os povos descendentes dos Deuses, simplesmente por disputas familiares.

Píthon era rainha e sacerdotisa de Pítia, uma das cidades-estados do reino de Naga, uma cidade rica, poderosa e ricamente decorada. Foi um espanto aos pitianos quando eles avistaram aquele grande corpo de terra e rocha singrando bem em suas costas marítimas. Alguns navios tiveram que manobrar rapidamente, outros assistiam a aproximação fatal até que aquele corpo desviasse por contra própria.

Esta era a ilha de Ortígia, o lar de Leto e sua filha Ártemis. A ilha é uma ninfa que havia sido transformada neste amontoado de terra e rocha, vitima das constantes brigas entre os Deuses. O que não faltavam eram diversos filhos e filhas dos Deuses sendo banidos ou exilados. Motivos também eram variados, mas o mais frequente era o ciúme de Hera das traições que Zeus fazia. E Zeus era bem conhecido por suas inúmeras conquistas amorosas.

Leto estava quieta em seu canto, cuidando de seus assuntos quando Zeus passou pela cidade de Selene, uma das muitas cidades dos Deuses. Hera deu bobeira e Zeus foi rápido e fulminante como um raio. Assim que a barriga de Leto cresceu, Hera fez com que a expulsassem e ordenou que nenhuma terra a recebesse. Zeus tinha seus recursos também e secretamente incumbiu a Hermes para que achasse um lugar para Leto ficar. Por suas artes, Hermes conduziu Leto até Ortígia, a pobre ninfa que, para escapar do assédio de Alfeu, se transformou em uma ilha navegante.

Hera tentou protestar com sua avó, Gaia, mas Ortígia estava além de suas possessões e Poseidon não dava a mínima para as crises de sua irmã Hera. Leto pode dar a luz a gêmeos e chamou uma de Ártemis e o outro de Apolo. Leto e seus filhos viviam razoavelmente bem aos cuidados de Ortígia, que não lhes deixava faltar coisa alguma. Apolo preferia o dia claro e Ártemis preferia a noite de luar. Apolo preferia estudos e reflexão, Ártemis preferia atividade física e o contato com os animais. Apolo não dava muita atenção ao que acontecia no mundo, Ártemis olhava curiosa para os outros seres e suas cidades.

Do alto do mirante que havia construído para si, Ártemis riu da brincadeira que Ortígia havia feito. Ártemis não entendia estes seres que construíam cidades. Quando Ortígia passava perto dessas caixas, Ártemis pegava os instrumentos de estudo de Apolo apenas para observar estes estranhos seres e seus comportamentos. Quanto mais os observava, mais admirava e preferia a companhia e amizade dos animais. Os seres das cidades eram mesquinhos, egoístas, maliciosos. Ártemis sentia enojada quando percebia a forma como os machos olhavam para as fêmeas. Os animais tinham mais respeito e consideração, ela jamais havia sido cobiçada ou desejada por qualquer de seus animais companheiros.

– Quantas vezes eu te pedi para não pegar meus instrumentos?

– Ah, Apolo, que coisa! Você sabe como construir essas coisas, eu não. Eu quero ver essas estranhas criaturas que vivem em cidades. Eles também constroem coisas como você. Você nunca ficou curioso em conhecer estas criaturas?

– Eu jamais terei interesse em seres inferiores. Eu tenho apenas interesse em conhecer coisas sublimes, excelentes e superiores.

– Como nosso pai?

– Eventualmente. Quando eu estiver preparado. Ou quando for mais propício. Ainda que sejamos filhos de Zeus, nós estamos na situação de bastardos.

– Eu queria conhecer papai. Mamãe fala muita coisa sobre ele. Como será que ele conseguiu vencer Típhon? Como será que ele fez surgir Atena de sua testa? Ou Dioniso de sua coxa? Quantas mulheres divinas ele conquistou? Como será Hera? Como ela sendo tão ciumenta consegue conviver com Afrodite?

– Essas dúvidas são impróprias para nós. Nós somos Deuses. Devemos almejar objetivos transcendentes.

– Ah vá, que você não quer saber como nosso pai venceu Cronos e os Titãs! Ou saber sobre nossos avós! Ou saber quem ou o que é Caos!

– Estas coisas eventualmente serão de nosso conhecimento. Você saberia algo se lesse livros.

– Humf! Você se acha muito sabido com seus livros, enfurnado em seu laboratório, mas quando se trata de sair e ver a vida como ela é, você se fecha todo.

– Bobagem. Nós somos eternos, por que nos interessaríamos pela vida?

– Eu me interesso. Fui! Partiu!

Ártemis deixou Apolo boquiaberto segurando seus instrumentos e saiu em disparada. Para ela, coisa pequena, uma passada mais ligeira, mas nem mesmo Mercúrio conseguia se mover tão rapidamente. Pular alto, erguer coisas pesadíssimas, era simples e banal. Com agilidade, Ártemis foi até um determinado ponto que ela sabia ser o “ouvido” de Ortígia.

– Ei, amiga, eu só posso contar contigo. Poderia “sem querer” me deixar descer em alguma praia ou litoral? Eu quero conhecer todas as cidades e seres que existem nesse mundo.

Ortígia respondeu que “sim” do jeito que podia. Ela beirou o litoral da cidade de Aretusa e ali Ártemis desembarcou. Aretusa não era muito longe de Pítia e pertencia ao reino de Píthon. Os seres ofídicos viram a chegada daquela estranha e imediatamente foram avisar sua rainha. Píthon tinha em seus aposentos um acesso direto a uma antiga caverna de onde ela podia ver qualquer lugar do mundo, bem como podia ver o passado e futuro. Nas espessas névoas da caverna, Píthon riu ao ver que ela estava bem perto de uma descendente dos Deuses e que talvez esta Deusa pudesse ser usada para chantagear seus inimigos. Enquanto Ártemis se deliciava em conhecer os animais do continente, Píthon enviava seus soldados atrás dela.

Um destacamento de soldados ofídicos entrou na floresta em perseguição ao seu alvo. Os animais não demoraram em emitir os sinais de alerta que Ártemis conhecia muito bem. Atrevida, Ártemis foi ao encontro de seus perseguidores e os desafiava intrépida. Nem mesmo a elite dos soldados reais conseguia vencer Ártemis. Os mais sábios ou mais covardes tiveram o bom senso em lhe pedir clemência e caíram de joelhos, a adorarem e a louvarem. Píthon não gostou disso e novamente perscrutou as névoas da caverna em busca de uma solução. Havia apenas uma única criatura que poderia vencer Ártemis. Órion, o virtuoso, puro e honrado arqueiro.

O coitado do Órion foi facilmente ludibriado pela rainha Píthon, disfarçada de anciã, que o convenceu de que suas terras e animais estavam sendo ameaçados pela ação de uma bandida conhecida como Ártemis. A intenção de Píthon não era fazer com que Órion vencesse Ártemis, mas que ao menos a distraísse o suficiente para ser capturada. Píthon teria sido bem sucedida, se não fosse a forte ligação que Apolo tinha com sua irmã gêmea, Ártemis. Pressentindo que ela corria perigo, com sua mente serena e raciocínio preciso, Apolo viu com notável clareza quem era, o que queria e como deter Píthon.

Ártemis nem havia notado o quão perigosamente Píthon estava próximo dela, de tão entretida que estava se divertindo, provocando Órion, que a acompanhava com certa dificuldade, mas incrivelmente tão talentoso quanto a Deusa. Em um instante de uma pausa, Píthon armou seu terrível bote para envenenar Ártemis pessoalmente. Suas presas estavam quase roçando a pele alva de Ártemis, mas uma flecha bem certeira a derrubou inerte no chão.

Abalada com tal tiro preciso, Ártemis olhou para Órion, tentando descobrir como ele havia conseguido tal feito, mas nenhum dos dois portava mais o arco e a aljava. O local foi envolto em uma luz tão brilhante e poderosa que Hélio ficou constrangido. Ártemis viu que era seu irmão, Apolo, quem emanava tal luz e foi das mãos dele de onde pendia um arco. Ártemis sabia que seu irmão era o único que poderia se igualar a ela na maestria do arco.

– Viu só no que você se meteu ao se misturar com seres inferiores? Venha, vamos voltar a Leto, nossa mãe e a Ortígia, nosso lar.

– Eu vou, mas levo Órion comigo.

– Isto está completamente fora de cogitação. Isso vai manchar sua reputação de donzela e virgem.

– Apolo, você fala tanto destes outros seres, os chamando de inferiores, mas pensa como eles. Quando eu fiz o voto de me manter virgem, isso significa que eu serei livre e independente. Eu jamais serei completamente livre e independente se eu tiver medo de me relacionar cm outros seres, entidades e Deuses.

Contrariado, Apolo levou ambos para Ortígia. Sua mãe, Leto, aceitou e até ficou feliz por ter mais gente na ilha. Ártemis teria uma companhia pelo tempo que assim quisesse. Ártemis puxou o pai, Zeus, tendo vários amantes, sem jamais se prender. Apolo não gostou muito da constante chegada de outros seres, mas sua tranquilidade acabou mesmo quando seu feito de matar a Píthon chegou ao Olimpo. Não demorou para que Zeus e sua corte chegasse em Ortígia, para a alegria de Leto e Ártemis. Para desespero de Apolo, outro dos filhos bastardos de Zeus, Dioniso, veio. Apolo nunca mais teve sossego.

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Jornal Contrassexual

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[Boletim de Notícias] Nesta segunda-feira, o cientista holandês Dick Schilthuizen veio a público anunciar sua mais nova invenção: úteros artificiais. Graças aos avanços da nanotecnologia, será possível gestar bebês de modo controlado e seguro neste maquinário. Sondas conduzirão os nutrientes necessários à circulação sanguínea, garantindo ao feto uma dieta balanceada de acordo com os padrões estabelecidos pela FDA. Seus batimentos cardíacos e respiração serão monitorados. Os pequenos holandeses se desenvolverão nestas máquinas e as mães continuarão sua rotina normalmente. “A revolução feminista finalmente chegou”, defende o cientista: “as mulheres agora estarão livres das dores do parto e dos incômodos da gravidez! A preocupação com o uso de medicamentos, ingestão de bebidas alcoólicas, quantidade de exercícios físicos, acabou!”, comemora o pesquisador.

O presidente do Japão, Hiroshi Yamane, anuncia: “Tivemos êxito em 99,3% dos casos, a expectativa de vida dos indivíduos permanece a mesma. A seleção de homens com os melhores genes agora é possível”. O presidente afirmou ainda que os cientistas estudam vender este projeto à China e aos Estados Unidos. Negociações com a Alemanha iniciam-se amanhã. [Autora: Bruna Coelho]

[Música Introdutória]- Hoje em nosso auditório, temos a projeção holográfica do doutor Moureau. Exclusividade do seu programa “Alice Pergunta”. Bem vindo doutor Moureau. O senhor é especialista em antropologia do século XXI. Não é um tanto contraditório falarmos em “antropologia” em um século onde o pós-humanismo estava no auge?

– Saudações Alice e a todos os indivíduos, alfa, beta, gama. Boa pergunta, Alice, mas o termo é cabível, uma vez que no século XXI a espécie Sapiens ainda estava lidando com conceitos arcaicos como gênero, identidade e preferência sexual, modelos de relacionamento. Demoraria o século para que a espécie Sapiens deixasse de usar a alcunha “ser humano” e “humanidade” para se referir à nossa espécie.

– E o que o senhor como antropólogo e especialista no século XXI pode nos dizer desse período tão contraditório, confuso, violento e conturbado?

– O século XXI foi um período de transição. Instituições arcaicas enfrentavam sua decadência tentando instilar ódio, preconceito, intolerância, segregação. Mas este século tem por característica o acesso à informação com certo nível de velocidade e liberdade, muito embora ainda com falhas e condicionantes, era bem superior aos séculos anteriores. Curiosamente foi esse meio de comunicação que nossa espécie começou a entrar em contato com o que era chamado de “realidade virtual”. Ali aconteceu o início da vida humana em um ambiente que transcendia o que era concebido como “real físico”.

– Deve ter sido difícil para nossos velhos entenderem o que estava acontecendo. Devem ter sentido medo e insegurança. Como nossos velhos enfrentaram e encararam as mudanças inevitáveis?

– Curiosamente herdaram muito das expectativas, idiossincrasias e temores dos avós deles. Conviviam e consumiam a tecnologia com mais frequência do que os avós deles, mas mantiveram ideias ultrapassadas de que a tecnologia iria destruir o mundo, a humanidade. Mesmo entre artistas, escritores, intelectuais, a perspectiva de nossos avós quanto ao tempo presente, o “futuro” para eles, produzia cenários ora utópicos, ora caóticos. Igualmente curioso, foi no meio da Arte, da Filosofia, que o conceito de pós-humano foi gerada.

– Nossa produção transmitiu alguns textos de possíveis anúncios e notícias que seriam comuns em nossa época. Como a antropologia do século XXI analisa essas manifestações?

– Excelente pergunta, Alice. Veja que o texto ainda reflete os mesmos conceitos arcaicos sobre gênero, genética e DNA. O “anúncio” ainda identifica “homem” como sendo um gênero definido e ainda identifica o gene XX como sendo “mulher” ou “feminino”. A autora escreveu dentro de parâmetros feministas obsoletos como “sexismo”, ”machismo”, “patriarcado”. Ela não consegue disfarçar sua tecnofobia ao achar que as novas tecnologias seriam usadas para “criar” escravas sexuais para o “homem”. Foi necessário desenvolver a tecnologia de tratamento com células tronco para a medicina, a genética e a biologia descobrirem a existência de um terceiro cromossoma. Foi um marco na historia da espécie Sapiens, pois foi provado cientificamente que nossa espécie possui três gêneros ou mais.

– Eu me lembro disso e agradeço a todos que tornaram possível essa realidade. Mas a tecnologia de células tronco não foi a única pesquisa que alterou o conceito sobre nossa espécie, certo?

– Absolutamente certo, Alice. O Instituto Prometeu levou mais adiante as pesquisas com clonagem, células tronco e impressão em 3D com tecidos biológicos, tornando possível não apenas criar e reconstruir órgãos, mas também corrigir defeitos congênitos. Infelizmente o instituto explodiu, provavelmente alvo de algum grupo religioso fundamentalista. No entanto, outros institutos de pesquisa continuaram com esse trabalho e conseguiram repetir o ultimo projeto do Instituto Prometeu que consistia em construir um ser humano integral, completamente híbrido. Então a tecnologia tornou completamente incoerente falar em “escravas sexuais”, visto que não havia mais o gênero “mulher” ou mesmo a espécie “humana”. Seres híbridos eram criados para os mais diversos fins, incluindo sexuais, outra conquista possível graças à desconstrução do pós-humanismo do século XXI.

– Isso inclui a queda de diversos tabus, regras e proibições que ainda estavam em voga no século XXI?

– Completamente. A ideia e conceito do que era humano estavam completamente superados. Como nos tornamos capazes de criar seres humanos, conceitos arraigados de faixa etária perderam o sentido. Como transcendemos a ideologia de gênero restrita a dois gêneros, todas as formas de união se tornaram naturais. Como resignificamos nossa espécie de “ser humano” para Sapiens, deixou de ser usado “homem” e “mulher”, mas indivíduos alfa, beta e gama. Graças a estes avanços, nossa sociedade atual reconhece diversas formas de relacionamentos.

– Isto acarretou transformações nas concepções que presumiam que sexo, casamento e reprodução eram eventos covalentes?

– Totalmente. A produção foi competente em citar a “notícia” sobre “úteros artificiais”. Mesmo para o século XXI, tal estranhamento é anacrônico, visto que existiam próteses desde o fim do século XX. Com a tecnologia de células tronco, clonagem e impressão 3D, qualquer indivíduo pode implantar o sistema reprodutor que desejar. Deixou de ter sentido a separação entre “artificial” e “orgânico”. Todo indivíduo pode, inclusive, escolher outras formas de reprodução assistida que existem, sem que seja necessário ter relações sexuais ou estar casado. Deixou de ter sentido restringir um indivíduo a uma determinada faixa etária ou fase de amadurecimento, uma vez que todo indivíduo pode criar qualquer tipo de indivíduo que desejar para si, bem como estabelecer o tipo de relacionamento que quiser.

– Isso é incrível, doutor Moureau! Nós que vivemos no século XXX temos que agradecer muito aos nossos percursores do século XXI. Sem a luta e conquista de tantos heróis, nós não poderíamos ter uma sociedade tão avançada como a nossa. O senhor tem alguma novidade para nossos telespectadores?

– Sim, eu tenho. Meu projeto de inserção gradual de indivíduos geneticamente modificados com agente feral está sendo bem sucedido e bem aceito. Meu laboratório está tentando desenvolver novos agentes genômicos que tornarão possível existirem indivíduos com qualquer outra forma de aparência desejada. Em breve espero lançar o agente umbral, o agente celestial, o agente elemental e o agente divinal. Se eu for bem sucedido, a espécie Sapiens poderá transcender a humanidade definitivamente.

– Ótima notícia! Assim que o senhor tiver mais novidades, por favor, avise-me, pois eu estou doida para ter o corpo de uma súcuba. Por hoje é só, pessoal. Aqui é Alice, sua apresentadora do programa “Alice Pergunta”.

O sexo, o amor, o homem e a natureza

“Olhe para a humanidade, o homem está doente, cheio de doenças acumuladas em cinco, seis, dez mil anos”. Normalmente é dito que o homem está errado isentando a cultura de responsabilidade. O homem tem se deteriorado, mas nossa cultura e religião têm sido enaltecidas, e agora nos deparamos com o resultado disto.
Dizem: “O homem está errado; o homem deve se transformar”; após dez mil anos, a cultura e a religião ainda são incapazes de nutrir o homem com amor, assim, se nesse período não houve expansão deste sentimento, não será nos próximos dez mil que ocorrerá. A civilização e a tecnologia, mudam, mas o homem será sempre o mesmo, pois, a base está defeituosa, o homem atual é a prova disto. O homem, apesar de estar mais civilizado, culto e religioso, está mais insensível ,a corrente que liga os homens, pelo amor, está quebrada ou bloqueada por pedras que foram colocadas, obstruindo o fluxo da natureza. “O Ganges não pode jorrar, não pode fluir novamente”. O amor como essência da natureza está no interior de cada um, mão se pode extraí-lo de algum lugar no exterior pois está preso dentro do homem, basta libertá-lo, é como uma estátua que já existindo para o escultor, está coberta de pedra fundida, não se cria uma estátua, e sim, a descobre. O amor se mostra se não houver barreiras, as barreiras da falsa cultura impedem que o homem seja inundado por ele. “Nada pode destruí-lo, o amor é inevitável, é nossa natureza.

“O Ganges flui no Himalaia”, por mais distante e oculto que esteja o oceano, o rio encontrará o caminho, mas se as obstruções forem feitas pelo homem, como diques, pode ser que ele não consiga chegar no oceano. “O homem pode impedir um rio de chegar no oceano”. Na natureza não existe desarmonia, os obstáculos naturais são desafios para despertar energia, a maioria das obstruções são criadas pelo homem, se estes bloqueios forem removidas conscientemente, o amor poderá fluir, elevar-se até tocar o supremo.

“A obstrução mais óbvia é a censura da paixão, a verdade é que o sexo é o ponto inicial do amor”. O amor é a transformação da energia sexual.
Os elementos do carvão são os mesmos encontrados no diamante, são a mesma coisa, são dois pontos de um mesmo processo de milhares de anos.
Se você menosprezar o carvão por considerá-lo de pouca importância, a possibilidade deste se transformar em diamante acaba aí mesmo, assim, a possibilidade de qualquer progresso é fechada.

A energia do sexo pode florescer no amor, mas a maioria está contra ele, esta oposição não permite que a semente germine, destruindo o “Palácio do Amor” nos alicerces, a aversão ao sexo tem destruído esta possibilidade.
Quando a luxúria é transcendida, o sexo pode tornar-se amor.

“A mente é venenosa, lute contra ela”, assim tem-se dito. A mente existe no homem assim como o sexo, contudo, espera-se que o homem fique livre dos conflitos internos, esperando-se uma existência harmoniosa.

Fonte: Mito e História

Valores Acima de Qualquer Preço

No Vishnu Purana, o mundo é destruído e recriado por um ser cósmico quando os valores humanos falham em manter a natureza e a sociedade. Vishnu, o Criador, assume o caráter de Rudra ou Shiva, o destruidor, e descende para reunir todas as suas criaturas dentro de si. Ele entra nos sete raios do sol e bebe todas as águas da Terra, secando os mares e os rios.

A redução de todo valor a riqueza, e a exclusão da compaixão e do zelo das relações humanas, estão entre os fatores que causam esta dissolução. Como o Vishnu Purana o coloca: “As mentes dos homens serão plenamente ocupadas em adquirir riquezas, e as riquezas serão gastas somente em deleite próprio. Os homens fixarão seus desejos sobre as riquezas, mesmo que adquiridas desonestamente. Nenhum homem repartirá a menor fração da menor moeda, apesar das súplicas de um amigo. O povo estará quase sempre aterrado pelas privações e temeroso pela escassez.”

Os laços entre a avareza, a escassez e a destruição que esta história apresenta estão no coração da crise ecológica. A redução de todo valor a valor monetário é um aspecto importante da crise de escassez gerada pelo processo de crescente abundância.

Diz-se freqüentemente que as raízes da destruição ambiental consiste em tratar-se os recursos naturais como “gratuitos” e não dar-lhes “valor”. A maioria das discussões no paradigma dominante pressupõem que o valor monetário, comercial ou de mercado é a única forma de medir ou avaliar o meio ambiente. É falsamente aceito que o valor possa ser reduzido a preço.

No entanto, o mercado não é a única fonte de valores, e os valores monetários não são os únicos. Valores espirituais tratam certos recursos e ecossistemas como sagrados – há também valores sociais tais como aqueles associados com recursos de propriedade comum. Em ambos casos, os recursos não têm preço – mas um valor muito alto. De fato, é precisamente porque seus valores são altos que estes recursos não são deixados para o mercado mas são mantidos mais além do domínio do valor monetário de forma a protegê-los e conservá-los.

A proposta de resolver a crise ecológica dando valores de mercado a todos os recursos é como oferecer a doença como cura. A redução de todo valor a valor comercial, e a remoção de todos os limites espirituais, ecológicos, culturais e sociais à exploração – a mudança que ocorreu com a industrialização – é central à crise ecológica.

Esta mudança está refletida na alteração do significado do termo “recurso” ¹ , que originalmente implicava vida. Sua raiz vem do latim, curso, evocando a imagem de um curso de água continuamente renovado. Como a água corrente, um “recurso” renova-se seguidamente, mesmo se foi usado repetidamente e consumido. A palavra realçava o poder da natureza de auto-regeneração e sua prodigiosa criatividade. Além do mais, implicava uma idéia antiga sobre a relação entre o humano e a natureza – de que a Terra agracia os homens que, em troca, estão bem aconselhados a não sufocar sua generosidade. No início dos tempos modernos, “recursos” portanto sugeria reciprocidade assim como regeneração.

Com o advento do industrialismo e do colonialismo, “recursos naturais” tornaram-se as partes da natureza requeridas para consumo pela produção industrial e pelo comércio colonial. Em 1870, John Yeates em seu História Natural do Comércio apresentou a primeira definição deste novo sentido: “Falando dos recursos naturais de qualquer país, referimo-nos ao minério ainda na mina, à pedra não extraída (etc.)”

A REGENERAÇÃO NEGADA

Por esta visão, a natureza foi despida de seu poder criativo e convertida em um reservatório de matérias brutas esperando para ser transformadas em matéria consumida para a produção de mercadorias. Recursos são meramente quaisquer materiais ou condições existentes na natureza que podem ter potencial para a “exploração econômica”. Sem a capacidade de regeneração, a atitude de reciprocidade também perdeu terreno: agora é apenas a inventividade humana e a indústria que “transmite valor à natureza”. Os recursos naturais devem ser desenvolvidos e a natureza somente encontrará seu destino uma vez que o capital e a tecnologia são introduzidos. A natureza, cuja verdadeira natureza deve ascender novamente, foi transformada por esta visão de mundo inicialmente ocidental em matéria morta e manipulável – sua capacidade de renovação e florescimento negada.

A economia de mercado é só uma das economias mundiais – há ainda, a economia da vida natural – processos de manutenção e economia dos povos em que nosso sustento é suprido e nossas necessidades são satisfeitas. A economia da Natureza é a mais fundamental, tanto porque está na base da economia dos povos e na de mercado, quanto porque tem a maior prioridade, e reivindicação, sobre os recursos naturais. No entanto, o desenvolvimento e o crescimento econômico tratam a economia de mercado como a primordial, e ou negligencia as outras, ou as trata como marginais e secundárias.

O acúmulo de Capital leva sim ao crescimento financeiro, mas arruina a base de recursos naturais de todas as três economias. O resultado é um alto nível de instabilidade ecológica. O crescimento desordenado e a ideologia do desenvolvimento baseado nele são as razões primordiais que sublinham as crises ecológicas e a destruição dos recursos naturais. Para resolver os conflitos ecológicos e regenerar a Natureza a estas economias devem ser dados seus lugares devidos na estável fundação de um Natureza saudável.

A mercantilização de recursos deve ser substituída pelo restabelecimento de áreas comuns. Isto envolve a recuperação dos domínios da Economia Natural e da economia de auto-sustentação, que, conseqüentemente, envolve a recuperação do valor da Natureza em suas dimensões espirituais, ecológicas e sociais.

O modelo dominante de economia ambiental promovida pelo Banco Mundial e pelas maiores potências econômicas buscam no entanto reduzir a Economia Natural e de auto-sustentação frente à economia de mercado. A preocupação em “alcançar os preços desejados” mantêm-nos cegos para o fato de que o mercado usualmente regula mal os valores da justiça e da sustentabilidade.

A mercantilização dos recursos comuns está baseada em mitos. O primeiro é a equivalência entre valor e preço. Recursos – como florestas sagradas e rios – normalmente têm um valor muito alto mas não têm preço. O segundo é que os recursos de propriedade comum tendem a degradar-se. A privatização é freqüentemente prescrita para resolver “problemas” causados pelo uso abusivo de recursos a acesso de todos e em propriedade comum. Mas está baseado na comerciabilidade da propriedade particular, enquanto áreas comuns estão baseadas na inalienabilidade de direitos compartidos derivados do uso. A suposição de que a alienabilidade é mais tendente à conservação é derivada da falsa associação entre preço e valor.

Afirmou-se que donos de terra têm pouco incentivo para investir em medidas de longo prazo como a conservação do solo se não têm o direito de vender ou transferir a terra, e portanto não percebem para si o valor de quaisquer melhoramentos. Isto é patentemente falso, pois que os melhores exemplos de conservação do solo – como nos terraços das montanhas do Himalaia – demonstraram ter precisamente razões opostas. Comunidades que não são ameaçadas pela alienação de recursos e nas quais seus benefícios têm possibilidades a longo prazo e há interesse em conservá-los.

O AGRAVAMENTO DA POBREZA

O paradigma dominante da economia ambiental não internaliza os custos da degradação de recursos socialmente e ecologicamente. A internalização social implicaria que aqueles responsáveis pela degradação ambiental pudessem arcar com seus custos.

Converter propriedades comuns em mercadorias é parte necessária da economia ambiental no paradigma do mercado. Mas não impede a degradação ambiental porque os poderosos economicamente não se importam em pagar um preço mais alto por um recurso. Outras pessoas arcam com os custos tanto da escassez de um recurso em declínio, ao qual os ricos podem continuar a ter acesso, e de penúrias relacionadas e da poluição causada pela superexploração. Estes custos ecológicos não são considerados no modelo reducionista da internalização do mercado.

Uma internalização genuína teria que incluir valores acima daqueles de mercado, valores que põem limites à superexploração. Dado o vasto golfo que separa ricos e pobres, os preços de mercado, não importa a quão altos cheguem, não introduzirão limites à exploração. Eles não restringirão portanto a exploração de recursos com limites ecológicos, mas permitirão ao invés disto, a continuidade da degradação dos recursos ao mesmo tempo que o agravamento da pobreza e da injustiça.

O crescimento econômico ocorre através da superexploração dos recursos naturais, criando uma escassez deles tanto na economia da Natureza quanto na economia do sustento próprio. A Natureza é reduzida como capital. O crescimento do mercado não pode resolver a crise por ela mesma criada. Além disso, enquanto os recursos naturais podem ser convertidos em dinheiro, o dinheiro não pode ser convertido nos processos ecológicos da Natureza. Aqueles que oferecem soluções de mercado à crise ecológica limitam-se ao mercado, e olham para substitutos para a função comercial dos recursos naturais, como mercadorias e matérias-primas. No entanto, na economia da Natureza, a moeda não é o dinheiro, mas a vida.

Esta negligência do papel dos recursos naturais nos processos ecológicos e na economia de sustentação própria dos povos – e o desvio e destruição destes recursos para a produção de mercadorias e a acumulação de capital – são as razões principais tanto para a crise ecológica como para a crise da sobrevivência no mundo em desenvolvimento. A solução parece consistir em dar o controle sobre os recursos locais às comunidades locais a fim de que tenham o direito e a responsabilidade de reconstruir a Economia Natural e, através dela, seu sustento. Apenas isto irá garantir maior justiça distributiva, participação e sustentabilidade.

Fonte: Nodo 50

Autor: Vandana Shiva

Punk para as massas

Tinha um brasileiro, um americano e um inglês em uma sala. Perguntaram:

Qual é a primeira ideia que vem na cabeça quando se fala em punk?

Dependendo do contexto e da pessoa, a resposta é variada. Punk é um fenômeno social, musical, comportamental e cultural.

O Punk surgiu nos subúrbios, locais onde famílias de trabalhadores amargavam uma crise de identidade. Reflexo do Pós-Modernismo, as camadas mais baixas da sociedade começaram a contestar o sistema. O Punk está para a periferia como a Contracultura está para a classe média.

Desemprego, violência policial, condições precárias de existência, baixa ou pouca escolaridade, a ideologia do Punk consiste em servir de espelho para a sociedade que o formou. O punk mastiga e cospe de volta para a sociedade os valores considerados sagrados e imutáveis.

Enquanto a sociedade elogiava o “self-made-man”, o punk glorifica o “do it yourself”. Enquanto a sociedade colocava no pedestal o individualismo, o punk levantava a bandeira do niilismo. Enquanto a sociedade promovia o consumismo exacerbado, o punk introduzia o vintage, tornando o brechó sua fonte de moda. Enquanto a sociedade massificava o rock romântico, popular e afeminado, o punk elevava a ideia das bandas de garagem à máxima potência.

Musicalmente o Punk tinha bastante fonte de inspiração no rock progressivo, no rock de vanguarda, no rock psicodélico e no rock experimental. O Punk foi altamente influenciado pelas bandas de garagem que foram percursoras das primeiras bandas que se identificaram como sendo punk. Certamente Sex Pistols é a mais conhecida, polemica e questionada.

Sex Pistols tornou-se o ícone e o estereótipo do “way of life” punk. Sex Pistols era o punk para as massas. Dentre diversas bandas que apareceram e construíram a imagem do punk, Sex Pistols foi bem sucedida, ainda que tenha lançado apenas um único álbum, “Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols”. O segredo do sucesso, entretanto, estava no quinto integrante: Malcolm Maclaren, o produtor e empresário, que deu ao Sex Pistols a assessoria da estilista Vivienne Westwood para construir a imagem “punk” dos integrantes. Sex Pistols deu ao Main Stream a chance de cooptar o movimento punk.

Uma forma de entender como foi possível uma música, um comportamento, uma atitude tão contestadora se tornar, como tantas ideias, mais um produto de consumo de massa, eu recomendo assistir “American Pop”, um filme de animação que conta a saga de uma família de imigrantes tentando fazer sucesso no mundo da música, na “Terra dos Sonhos”, a América do Norte.

Porém – sempre há um porém – o Punk causou um Ardil 22. Como um movimento descentralizado, autônomo, independente, ágil, o Punk também comeu e cuspiu de volta ao Main Stream seus próprios valores e ideologias. O Punk fez pouco da Indústria da Música, das Paradas de Sucesso, das gorjetas que produtoras pagam para as rádios tocarem determinada música, da Fama e da postura de superioridade do artista. Ao aceitar ser engolido pelo sistema, o Punk o corroeu por dentro.

God Save the Punk!

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A humanidade em desencanto

O ser humano quer entender a existência do mundo, das coisas e de si mesmo. Para entender a sucessão de pessoas e eventos, o ser humano criou o mito, a lenda e a história. Para o estudo desse processo, desse fluxo, chamado história, o ser humano separou em Eras esse conceito abstrato que nós chamamos de tempo. A ilusão de movimento, de sequência, criou a ilusão da passagem do tempo, mas quem passa é o mortal, não o tempo. Não há o Tempo, apenas a eternidade do espaço e as ações dos eventos. O valor do tempo é tão abstrato quanto o valor do dinheiro, o valor apenas existe enquanto o ser humano assim determinar.

O ser humano determina as Eras conforme certas características. Determinados eventos ou situações são alterados, então a humanidade iniciou outra Era, mas frequentemente os germes e indícios da “Nova Era” estão presentes na Era que sucumbe.

Dizemos que a Era Moderna foi marcada pelas revoluções, mas a ideia de direito, de cidadania, de republica, de parlamentarismo, de limites aos poderes absolutistas estão pressentes quando a Grã-Bretanha fez o Rei João promulgar a Carta Magna.

Dizemos que o Pós-Modernismo foi marcado pelo fim da Segunda Guerra Mundial, mas muita coisa aconteceu no meio do caminho, como a Segunda Colonização, a Primeira Guerra Mundial, as guerras de independência de várias colônias europeias, o fim do Império Otomano, o surgimento de outros Impérios. Entender o Pós-Modernismo sem incluir a Revolução Industrial é o mesmo que entender o Rock’n’roll sem incluir o Blues. Entender a Revolução Industrial sem incluir o Capitalismo é o mesmo que entender a Renascença sem incluir o Mercantilismo.

A Era Moderna é uma era de crueldade, pois o avanço industrial e tecnológico serve para expropriar o trabalho e a vida de muitos. O avanço da ciência e da tecnologia tem seu uso mais prático e imediato em melhorar a capacidade humana em matar seu semelhante. Matou-se e mutilou-se mais gente em poucos anos do que em vários séculos. Entre a Primeira e Segunda Guerra, as necessidades militares deram origem à prótese, uma segunda destinação à ciência e à tecnologia. Aqui começa o fim da ilusão do indivíduo, do corpo, do organismo, como sendo coisas necessariamente orgânicas e pertencentes à natureza.

O ser humano entra em uma crise de meia idade. A Era Moderna foi cruel, o Pós-Modernismo é desumano. O homem entra em uma crise existencial, filósofos contemporâneos desconstroem todas suas falsas convicções, ideias orientais desconstroem a ilusão da existência da pessoa do indivíduo.

Cruel e desumana, a Era Contemporânea deve muito de seu conforto, facilidade, fascínio, massificação, plastificação e coisificação, ao que foi originalmente desenvolvido para fins militares. As ideias antes elitistas das revoluções do princípio da Era Moderna se tornam a fonte para estudantes e intelectuais da Classe Média, de onde surge a Contracultura. Grupos, subgrupos e setores da sociedade, antes sem voz e sem expressão, começam a se organizar, surgindo o Feminismo e a luta pelos direitos civis para todos.

O Espírito do Tempo torna tudo um produto de massa, tudo pode e será comercializado. A Indústria Pornográfica surge como uma resistência do sistema ao Amor Livre. As ideias reacionárias surgiram como uma resistência do sistema aos ideais de esquerda. Surge o rádio, a televisão, o cinema, tornando massificado o acesso à informação. Surgem diversos métodos contraceptivos, a princípio para controlar a gravidez indesejada e as doenças venéreas que se tornaram endêmicas durante as guerras mundiais. A sociedade é sacudida por casamentos inter-raciais, pelo divórcio e pela fertilização in-vitro.

O homem sonhou com liberdade e um mundo melhor desde que surgira neste planeta. Agora ele tenta frear, sem sucesso. A criatura superou seu criador. A Igreja não pode nem consegue mais amedrontar ou deter a Ciência. O Governo não pode nem consegue mais manipular ou controlar o Cidadão.

O ser humano desafia a fronteira do real e do virtual, surge a internet, a rede de computadores, a inteligência artificial, a vida artificial, a rede social artificial. Se o humano é um conjunto de partes [corpos] que constituem um sistema [organismos], então também é humana nossa persona virtual, uma vez que sua manifestação dentro do universo virtual é resultado do conjunto de partes [programas] que constituem um sistema [realidade virtual]. Não é mera coincidência, então, quando um cientista afirmou que isto que chamamos de realidade não é nada mais senão o programa de um enorme computador.

Humano-pós-humano

Pela primeira vez em nossa longa história, depois de humanizar praticamente todo o planeta, o ser humano está começando a modificar fisicamente o próprio ser humano. Na verdade, pra muitos artistas, filósofos e cientistas, estamos hoje no limiar de uma nova revolução: o pós-humanismo.

Uma das reflexões mais interessantes sobre o assunto está no livroHumano-pós-humano: bioética, conflitos e dilemas da pós-modernidade, do ensaísta e pesquisador Alexandre Quaresma. Quem ainda não leu precisa correr atrás. Esse trabalho de fôlego é uma ampliação do inquietante artigo publicado na revista virtual Z Cultural, intitulado Humano-pós-humano: flagelos e perspectivas de um ser em metamorfose.

A primeira grande revolução tecnológica aconteceu com a invenção da linguagem. A segunda, com a invenção da escrita. Nossa espécie nunca mais foi a mesma, sua realidade expandiu-se.

O cientista Carl Sagan observou que, com a invenção da escrita, nosso poder de memorização foi multiplicado infinitamente. A memória humana, até então restrita ao cérebro e aos genes, projetou-se pra fora do corpo e foi parar também nos livros. Houve uma explosão de criatividade em todas as áreas do conhecimento.

A terceira revolução tecnológica, o pós-humanismo, promete um salto evolutivo tão radical e perturbador quanto o das duas primeiras revoluções. Contra a noção permanente de entropia, começa a circular a de extropia. Em laboratórios do mundo todo a tecnociência e a biotecnologia estão manipulando, para o bem e para o mal, os múltiplos níveis possíveis de nossa humanidade.

– Drogas da longevidade e da inteligência estão aumentando a expectativa de vida das pessoas. Espera-se que as próximas gerações vivam saudavelmente duzentos anos ou mais.
– Implantes oculares e auditivos estão permitindo a cegos e surdos voltar a enxergar e ouvir. Na verdade, em breve eles enxergarão e ouvirão muito melhor do que as pessoas ditas normais.
– Tetraplégicos estão voltando a ficar em pé, andar e mover os braços, graças à combinação de um implante neural e um exoesqueleto.
– A engenharia genética está cultivando em laboratório ossos e órgãos humanos pra transplantes. Também está perigosamente muito perto de uma nova eugenia, se os futuros pais começarem a escolher as características genéticas dos filhos.
– Nano-robôs estão sendo desenvolvidos para patrulhar nossa corrente sangüínea em busca de possíveis doenças. Essas nanomáquinas serão capazes, por exemplo, de exterminar células cancerosas bem antes da formação de um tumor.
– Implantes neurais também estão transformando a internet e o celular numa extensão de nossa mente. Conversar com outras pessoas em breve será uma forma de telepatia.

Aí está um excelente desafio também pra nossos poetas e ficcionistas. Expressar em poemas, contos e romances terríveis, apaixonados, políticos, desmistificadores, irônicos, herméticos, imagéticos, escatológicos, arrebatadores, sub-reptícios, aflitos ou otimistas a questão do pós-humanismo. Refletir em prosa e verso sobre a maneira como a tecnociência e a biotecnologia estão modificando fisicamente o ser humano. Para o bem e para o mal.

Fonte: Luiz Bras

Pela primeira vez em nossa longa história, depois de humanizar praticamente todo o planeta, o ser humano está começando a modificar fisicamente o próprio ser humano. Na verdade, pra muitos artistas, filósofos e cientistas, estamos hoje no limiar de uma nova revolução: o pós-humanismo.

Uma das reflexões mais interessantes sobre o assunto está no livro Humano-pós-humano: bioética, conflitos e dilemas da pós-modernidade, do ensaísta e pesquisador Alexandre Quaresma. Quem ainda não leu precisa correr atrás. Esse trabalho de fôlego é uma ampliação do inquietante artigo publicado na revista virtual Z Cultural, intitulado Humano-pós-humano: flagelos e perspectivas de um ser em metamorfose.

A primeira grande revolução tecnológica aconteceu com a invenção da linguagem. A segunda, com a invenção da escrita. Nossa espécie nunca mais foi a mesma, sua realidade expandiu-se.

O cientista Carl Sagan observou que, com a invenção da escrita, nosso poder de memorização foi multiplicado infinitamente. A memória humana, até…

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