O samurai dos ossos

Quioto, Era Contemporânea. Nanase chega para reiniciar suas aulas para o outono e inverno. Ao seu lado, seu avô a segue nervoso, protestando. Akeno, sua professora, faz questão de receber todos seus alunos na porta da escola, saúda ambos, enquanto segura a risada.

– Bom dia, Nanase, Vovô Tadamasa.

– Bom dia, Akeno sensei.

– Ah, Akeno-chan, você é uma alegria para esse velho coração.

– Por favor, vovô, não me envergonhe, babando por minha professora!

– Nanase, você é muito malvada. Um velho samurai não merece descansar sua cabeça no colo de uma bela senhorita?

– Humph! Eu vou falar tudo para a vovó!

– Socorro, Akeno-chan! Nanase quer me matar!

– Ora, ora, parem de brigar os dois. Desculpe Vovô Tadamasa, mas eu sou comprometida. Além do que o senhor tem idade para ser meu avô.

– Isso não é justo! Eu vou morrer e vou puxar o pé de vocês duas! Palavra de samurai!

– Vovô o senhor é tão samurai quanto eu sou nascida em Tóquio. Falando nisso, Akeno sensei, eu gostaria que a escola ficasse com essa tralha.

– Isso é demais! Nanase, você está doando a espada de seu tataravô Kobori!

– Ah, por favor, vovô, você não vai contra a lenda do samurai dos ossos de novo, vai?

– Lenda? Essa é a mais pura verdade! Meu nobre ancestral nasceu, viveu e morou aqui mesmo em Quioto. Ele aterrorizou o Shogun usurpador e restabeleceu a justiça e a ordem.

– Não há nenhum samurai com esse nome em qualquer documento do antigo Japão. Só o senhor conta essa lenda por que o senhor ouviu dos velhos da família.

– Bah! O que os documentos oficiais sabem? Documentos podem ser forjados ou eliminados! Essa espada é a prova que seu tataravô existiu. Akeno-chan, essa é a legítima Sukarukatta!

– Oh! Mesmo? Eu nunca ouvi falar desta espada. E olha que eu sou especialista na história das famosas espadas japonesas.

– Bah! Nem todas as famílias de samurais conseguiriam contar e listar todas as espadas que nossos antepassados usaram.

– Oh, Vovô Tadamasa! O senhor está duvidando de mim? [Akeno finge estar magoada e finge um choro]

– Ora, ora, nada disso. A senhorita deve saber do Shogun Ashikaga e de sua filha. A senhorita deve saber que ele foi morto pelo tio que tomou o distrito de Quioto dele.

– Hum… o Shogun existiu, mas não teve filha e sua sucessão não foi por assassinato.

– Tudo foi apagado pelo tio dele, evidente. Nossa família preserva a memoria de nosso nobre ancestral exatamente na esperança de resgatar nossa honra. Eu vou contar a você o que os livros não contam.

– Ah, não, de novo?

– Nanase, não é educado interromper os mais velhos! Mas sim, isso é tudo verdade! Kobori acordou depois que todo seu destacamento foi atacado em uma emboscada.

– Acordou com o céu nublado como se o sol se escondesse atrás de um pesado manto, como se estivesse com vergonha.

– Aham… ele olhou para os lados e viu corvos e cachorros selvagens se banqueteando com seus companheiros.

– Sendo que em Quioto nunca teve corvos ou cachorros selvagens.

– Continuando, ele levantou e tirou de seu peito centenas de flechas. Correu, rápido como vento, até a liteira da princesa e ficou desesperado quando a viu morta.

– Então ele se tornou um espírito vingador.

– Não foi assim! Primeiro ele ouviu um forte chamado vindo de uma caverna e ali viu o fantasma de seus companheiros e o vulto sagrado da alma da princesa, dando a ele uma benção e uma maldição. Ele não poderia descansar até que todos os culpados morressem. Para isso, ele adquiriu uma arte secreta e proibida, arte que é pobremente imitada pelos ninjas.

– Resumindo, ele se tornou um espírito vingador imortal e invencível.

– Há! Pode apostar que sim! Não havia nenhum guerreiro, arma ou exército que pudesse detê-lo. Todos os que tentaram pereceram.

– Aí ele cortou a cabeça do Shogun usurpador e virou pó. Para que serve poeira? Para coisa alguma. Como esta espada. Entulho. A escola poderia colocar isto como troféu, como peça de museu, sei lá.

– Akeno-chan, a senhorita não pode fazer algo tão terrível assim!

– Pense no lado bom, Vovô Tadamasa! Na escola todo mundo em Quiot vai saber sobre o samurai dos ossos! A Sukarukatta vai estar mais feliz e segura aqui do que em um museu.

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